A Fé e o Caos
1 "No Church in the Wild" - Kanye West e Jay-Z
Futuro. Muitos anos à frente.
O homem caminha em meio aos destroços. Examina com a ponta de sua arma as carcaças. Estão todos aparentemente mortos e, a julgar pelas condições em que se encontram, já faz mais de um dia que aqueles corpos se encontram ali.
O homem olha para o céu cinzento. Há alguma pouca claridade que consegue passar pelas densas nuvens. Não há sinal de urubus.
Ajeitando os óculos escuros, o homem volta agora seu olhar para a terra. Nenhum animal quis se alimentar deles. Deteriorados demais, até para aqueles acostumados a viver de carniça.
A mochila que carrega no ombro esquerdo vai ao chão de uma vez. O homem, um viajante, retira de dentro dele um caderno. Objeto raro. Guarda como uma relíquia, talvez seu mais precioso tesouro.
Sem grandes dificuldades, encontra pelo chão o pedaço de um carvão. Com sua faca, companheira sempre a postos, ele afia o carvão. Consegue deixá-lo no ponto desejado e começa a fazer os esboços em uma das páginas amareladas do caderno.
Ele não é um artista. Não sabe desenhar com primor; tampouco faz questão. Seu objetivo não é produzir uma obra de arte. Também não considera seus rústicos desenhos uma espécie de legado.
Só poderia ser um legado se ele planejasse deixar esse caderno para alguém. Para a posteridade.
Entretanto, seu objetivo é tão somente registrar para si mesmo. Ele não quer esquecer. Não pode jamais perder de vista quem ele é, de que é feito.
Os desenhos ajudam a lembrar. Memorizar. Jamais esquecer.
Um dia, ele morrerá. Inevitável; e o viajante não perde muitas horas de sua vida pensando a respeito. O ciclo se fechará, como tem de ser. Não haverá tristeza. Mais uma vida chegará ao fim. Não deixará marcas. Sua passagem por esse mundo será nula. Não se considera pessimista; ele se vê como um grande realista. Acredita ser pura ilusão enxergar de qualquer outra forma.
O caderno morrerá junto com ele. Não tem nada a dizer. As próximas gerações serão tão amaldiçoadas como a sua. Não haverá mudança. Não haverá melhora. Não há por que se preocupar em deixar algo. Não fará diferença.
Pinta um cenário escuro, como sempre faz. Gasta quase todo o carvão apenas nessa parte. Em seguida, por meio de traços incertos, desenha as pilhas de corpos. Desenha a morte.
Sentado no chão frio e sem vida, no qual a terra árida é cada vez mais hostil, o homem perde um pouco a noção do tempo. Ele não se esmera na tarefa de desenhar, mas o tempo gasto é grande.
Nessas horas, ele sempre olha um pouco mais para dentro de si.
Nessas horas, suas certezas são todas reforçadas.
Não vale a pena.
Nada vale a pena.
O viajante finaliza o desenho e o observa. Analisa-o não como um artista orgulhoso de sua obra, mas como quem busca se assegurar de que cumpriu seu objetivo. Olha uma vez mais para a paisagem sombria. Depois olha para o desenho no caderno. A sensação despertada é a mesma nos dois casos. Está feito.
Fecha o caderno e o guarda com cuidado dentro da mochila preta já muito desgastada. Procura então pelo seu cantil. O clima é seco e a poeira sobe com a chegada da noite. O vento frio espalha pó por todos os lados. A sede aumenta.
No cantil, a água é o bastante para apenas um gole. O homem olha ao redor. Localiza-se. Sim, cedo ou tarde, ele precisaria parar em algum vilarejo. Há necessidade de mantimentos, mais água e talvez trocar algumas armas.
O homem odeia ter de parar. Ele detesta o contato com outros seres humanos. Na verdade, sequer poderia chamá-los de humanos. Nesse mundo, a humanidade já desapareceu há muito tempo.
O viajante caminha sem pressa, mas a passos largos e firmes. Nesse ritmo, ele compreende que poderá chegar ao vilarejo antes de anoitecer. É preferível assim. As noites são muito escuras, quase não se pode ver a luz da lua ou das estrelas. As nuvens escuras de poluição impedem a luminosidade do céu de alcançar a terra.
O rústico homem sorri melancólico com esse pensamento: “ Há muitas coisas no céu que não conseguem alcançar a terra...”
Já havia escurecido e o viajante guiava-se pelo seu excelente senso de direção. Na realidade, na maior parte do tempo, mesmo quando havia alguma luz, ele utilizava esse meio de se localizar. Aliás, mesmo quando havia luz, existia escuridão.
Chegando ao vilarejo, o homem observou com algum alívio ao redor. As ruas estavam bastante vazias. O homem detestava multidões.
Alguns poucos lampiões iluminavam as ruas quase desertas. O viajante não planejava ficar. Trataria de adquirir o que viera buscar e deixaria o local o quanto antes.
Entrou em uma pequena hospedaria. A madeira velha e apodrecida da porta rangeu assim que o homem abriu-a. Atrás de um balcão empoeirado, dois homens de espessa barba grisalha conversavam discretamente. As poucas pessoas presentes no local também falavam à meia voz.
O viajante suspirou, cansado. Pelo visto, mais uma rebelião estava sendo armada. Considerando a tensão que pairava no ar, era para breve. O homem balançou a cabeça negativamente. Decidiu se apressar; não queria estar por lá quando começasse.
— Dois terços de água. – o viajante pediu assim que se aproximou do balcão. Mantinha os olhos ainda encobertos pelos óculos escuros.
Um dos homens de barba grisalha olhou para o lado, buscando encarar o viajante. Os óculos escuros impediam qualquer contato visual e o vendedor não pareceu se incomodar muito com isso:
— Vinte moedas.
Mesmo por trás dos óculos escuros, foi possível perceber que o viajante franziu o cenho:
— Vinte? Impossível! Há sete dias eu paguei apenas dez moedas!
— O terço de água aumentou.
O viajante sentiu raiva, por um instante. Mas vinha aprendendo a deixar de sentir. Aos poucos, ia conseguindo tornar-se vazio. Insípido.
Jogou as moedas sobre o balcão. Dez moedas.
— Um terço de água então.
O vendedor atendeu o pedido e logo deu as costas para o viajante. De fato, todos ali pareciam tratar de assuntos mais importantes.
O homem não se preocupou em tentar descobrir. Queria se manter à distância. Não se envolvia mais. Lutas, tentativas vazias de independência... para quê? Ou melhor, para quem? Ele sabia muito bem. Não importava quem estivesse no poder, a situação jamais mudaria. Não tinha mudado até hoje. Não mudaria nunca.
As rebeliões vinham se tornando mais constantes. Tinha percebido pela maior quantidade de cadáveres jogados nas estradas pelas quais vagava. Os corpos dos mortos eram despejados assim, como se não tivessem sido pessoas um dia. A vida apenas prosseguia. E era assim que ela acabava.
Não chegava a ser dramático. Para ele, era apenas patético.
De qualquer modo, fazia sentido que as rebeliões estivessem crescendo em número. Realmente, o monarca estava perdendo o controle. Certamente, ele estava achando que seus poderes eram ilimitados e que suas fontes de riqueza eram inesgotáveis. Contudo, não eram. O monarca era jovem, ambicioso, imaturo e egocêntrico demais para compreender o mundo em que vivia. Ele provavelmente pensava que era uma espécie de deus ou algo assim. Por viver na Cidade, não compreendia a realidade dos pobres vilarejos. Ora, e como poderia? O monarca, definitivamente, nunca teria saído da Cidade, jamais teria pisado a terra infértil de algum vilarejo. O problema é que ele não parecia compreender. Um rei, sem seu povo para comandar, deixa de ser rei.
Não que antes do atual monarca fosse melhor. Entretanto, ao que tudo indicava, era sempre possível piorar.
O viajante deixou a hospedaria e sentiu o frio da noite envolvê-lo com força. Fechou-se mais no casaco de couro que vestia. Precisava encontrar uma venda onde pudesse repor alguns mantimentos. Os preços haviam aumentado, mas com as poucas moedas que tinha, poderia, ao menos, conseguir algumas tiras de carne seca.
Com sorte, conseguiu encontrar um posto de venda e comprar o que precisava antes que fechassem o lugar. As pessoas realmente tinham pressa. O que quer que estivesse para acontecer, parecia que era planejado para aquela noite.
O homem quis ir embora logo. Ele não queria ficar nem presenciar o que aconteceria. Era tudo uma perda de tempo; a vida era uma perda de tempo.
No entanto, nunca havia pensado em tirar a própria vida. Para quê? Para acabar com a dor? Ele não sentia mais dor. Ele não sentia mais nada.
Dirigia-se para fora do vilarejo quando ouviu aquele barulho. Era estrondoso. Motores possantes, como não se via mais. Só podiam vir da Cidade.
Virou-se para trás e viu a cena passar com rapidez. De veículos reluzentes e modernos, tão brilhantes que o local parecia se iluminar com a simples presença deles, saltaram alguns homens, com capacetes prateados e vestes que protegiam seus corpos inteiramente. As armas que carregavam eram modernas; aliás, ainda mais modernas do que as últimas que vira da outra vez. A tecnologia na Cidade era realmente de se impressionar. Evoluía muito mais rápido do que seria possível acompanhar.
Como se soubessem exatamente o que procuravam, os homens de capacetes de prata entraram na hospedaria em que o viajante estivera momentos antes. De lá, trouxeram à força algumas pessoas. Jogaram-nas dentro dos veículos. Alguns poucos, que rodeavam o lugar, observando a tudo, tentaram contestar, tentaram libertar os que haviam sido feitos prisioneiros. Esses não mereceram mais que alguns segundos de atenção dos homens de capacete. As armas, tão polidas quanto letais, tiraram a vida de uns quatro, em questão de segundos. Depois da exibição de seu poderio bélico, com a multidão mais quieta, os homens voltaram todos para dentro dos veículos e, tão rápido quanto chegaram, desapareceram.
Não era preciso pensar muito para saber o que acabava de acontecer. Antes mesmo que a rebelião ganhasse corpo, a Cidade mandou os chamados “pacificadores” para controlarem a situação. Alguém provavelmente havia delatado o grupo. Havia traidores, sempre haveria. Por sinal, o trabalho sujo tinha sido tão bem feito que os nomes dos líderes haviam sido passados, de modo que os pacificadores tiveram de vir apenas fazer a recolha. Sempre que possível, a Cidade recolhia esses líderes, responsáveis pelas rebeliões. Os líderes dos rebeldes eram levados à Cidade, interrogados... Mas nunca mais regressavam. Talvez o monarca acreditasse que, eliminando os líderes, acabaria com as revoltas.
Todavia, não era bem o que estava se passando. O sentimento de indignação crescia. Possivelmente, algo grande estivesse para acontecer. Mas o viajante não se preocupava. Para ele, nada mudaria. Guerras, batalhas... no fim, tudo permaneceria igual.
Aqueles que lutavam por igualdade eram, no fundo, os que ansiavam estar na pele dos dominadores. Era assim que o viajante pensava. O sonho geral era de se viver na Cidade. Era o que todos queriam. Antigamente, era mais fácil entrar lá. Hoje, a segurança estava fortificada. Só entrava na Cidade quem possuísse a devida liberação.
Muitos anos atrás, quando a vigilância nas fronteiras da Cidade não era tão intensa,o viajante se recordava de ter conseguido entrar lá. Era jovem, um adolescente ainda curioso diante do mundo que mal conhecia. Queria ver a tão famosa Cidade. Queria saber que tipo de vida levava-se por lá.
De fato, tinha ficado deslumbrado. A riqueza na Cidade era imponente e ostentada em todos os cantos. Havia até mesmo fontes de águas em algumas praças. Havia árvores também, completamente dizimadas no mundo real, mas artificialmente criadas para embelezar as ruas da Cidade, por meio de procedimentos muito caros.
A vida poderia ser perfeita lá. Mas não era. O viajante se recordava dos dias e noites que passou lá, escondendo-se sempre para não ser pego. Lembrava-se principalmente das noites. Havia muito brilho e luz artificial. As noites pareciam mais claras que o dia. Carros incríveis, que jamais tinha visto antes, desfilavam pelas ruas. Homens e mulheres vestiam roupas exuberantes e viviam suas vidas de forma inteiramente desregrada. Havia sempre alguma grande festa, transmitida em tempo real em enormes telas espalhadas pelas ruas. A lascívia corria desenfreada, aparentemente como forma de compensar a falta de algo. Todo tipo de drogas circulavam por lá, acessíveis a quem estivesse interessado e dispusesse de dinheiro. As pessoas pareciam constantemente anestesiadas, perdidas, alucinadas ou deprimidas.
As vidas na Cidade eram decadentes. A fartura era seu grande mal. Foi a maior descoberta que o viajante fizera naquela época. Se a falta é um grande problema, o excesso também pode ser.
Devido a isso, o viajante, ainda tão jovem naqueles anos distantes, decidira abandonar aquele local. Contudo, também não se mudara para qualquer vilarejo. Não poderia viver em um lugar onde as pessoas estivessem constantemente bolando novas revoltas. Ele não queria mais fazer parte disso.
Quando criança, viu os pais morrerem por conta de uma rebelião. O pai era um dos rebeldes. A mãe morreu também porque os pacificadores tinham vindo para destruir a família inteira. Ele conseguira se salvar, mas apenas porque estava fora de casa no momento em que os homens com capacetes reluzentes apareceram. Escondera-se quando percebeu os homens da Cidade chegando e viu como atearam fogo na cabana após assassinarem seus pais. Derramou incontáveis lágrimas naquele dia. Depois, nunca mais chorou.
Seguia vivendo somente porque havia se acostumado a isso. Não tinha nenhum grande prazer em viver. Também não sofria nenhuma grande dor. A vida seguia, apenas isso. E ele seguia junto com ela.
Assim que os veículos dos pacificadores deixaram o lugar, levando os líderes da rebelião, o silêncio dominou o ambiente por alguns segundos. Mas logo alguns habitantes começaram a proferir palavras de ódio e, acompanhados daqueles que faziam coro ao que diziam, entraram na hospedaria. O viajante compreendeu que, em vez de dar uma lição àqueles homens, a Cidade estava fomentando revoltas cada vez mais desesperadas.
O homem ajeitou sua mochila e, após um profundo suspiro, preparava-se para continuar sua jornada sem fim. Porém, antes que pudesse dar um passo, sentiu uma mão apertar-se à dele, subitamente. O viajante, surpreso, olhou para quem lhe tocava dessa forma e se deparou com uma mulher madura, talvez de sua idade, talvez só um pouco mais velha. Ela estava sentada em uma cadeira que, improvisada com rodas, parecia ser seu meio de locomoção. A mulher tinha um olhar perdido no nada e o viajante logo compreendeu: ela era cega.
— Por favor. Pode me ajudar a voltar para a minha casa? – a mulher indagou, com a voz doce e suave.
O viajante permaneceu calado. Não sabia o que responder.
— Normalmente, eu consigo me virar muito bem. Mas os veículos dos pacificadores são muito barulhentos. Eu gosto de me guiar pelos sons, mas quando esses homens da Cidade chegaram, criando tanto barulho e caos, eu me perdi de onde estava. E não sei como voltar para casa. – a mulher sorriu, cativante – Pode me ajudar?
Desarmado por aquele sorriso, o viajante acedeu. Sua aceitação não foi muito perceptiva, ele grunhiu alguma coisa que parecia querer dizer que ele ajudaria, nada mais. A mulher, parecendo satisfeita com isso, permaneceu com sua mão ligada à dele e disse:
— Eu moro a três casas da venda. Pode me levar até lá?
A resposta do viajante foi um gesto. Posicionou-se atrás da cadeira e passou a guiá-la na direção informada.
Não trocaram qualquer palavra durante o percurso. Mas o viajante notava como a mulher parecia tranquila. Estava sendo levada por um desconhecido. Como ela poderia sentir-se segura? E se ele fosse um homem com más intenções? Não compreendeu o jeito de agir da mulher, mas não perguntou qualquer coisa. Assim que chegaram ao seu destino, o viajante preparava-se para se retirar, quando a mulher o interpelou:
— Espere! Eu quero agradecer pelo trabalho que lhe dei. Não quer entrar um pouco? Eu tenho água fresca.
Ao ouvir a última frase, o homem acabou aceitando o convite. Tinha sede e o terço de água comprado não duraria muito. Se alguém lhe oferecia, pelo motivo que fosse, um pouco de água fresca, não poderia hesitar. Era uma questão de necessidade.
Entrou no casebre da mulher e notou logo que, embora não fosse dona de muitas posses, sua pequenina casa era confortável, dentro dos limites possíveis. E bem organizada também.
— Eu preciso ser organizada. Como não consigo enxergar, tenho de deixar tudo no seu devido lugar, para não me perder no meio das minhas próprias coisas. – a mulher falava sorrindo, como se adivinhasse os pensamentos do homem. E, como se comprovasse o que acabava de dizer, alcançou o lampião que ficava sobre um banco e tratou de logo acendê-lo. Em seguida, abriu a porta de um armário, tirando de lá um copo, para logo depois dirigir-se a uma ânfora, da qual tirou água pura e cristalina, límpida como era raro de se ver nos vilarejos, onde a água costumava ser barrenta.
— Como você conseguiu essa água? Pegou de algum carregamento que ia para a Cidade? – perguntou o viajante, enquanto recebia o copo que a mulher lhe estendia.
— Eu tenho os meus meios. – a mulher riu divertida, como se achasse graça da pergunta e mais ainda da resposta – Ah, desculpe-me pelo contratempo causado.
— Por que diz isso? – o viajante perguntou, enquanto apreciava cada gole da água que bebia.
— Bem, eu percebi que todas as pessoas que estavam na rua se retiraram para discutir uma nova rebelião. Imagino que você também estivesse indo para lá, antes de eu interceptá-lo. Enfim, agradeço a ajuda! Pode ir encontrar os outros rebeldes. – a mulher falava sempre em um tom calmo, tranquilo, agradável.
— Não sei de onde tirou a ideia de que eu vou me juntar a eles. – o viajante terminou de beber sua água e enquanto olhava ao redor, buscando um lugar onde colocar o copo, a mulher se adiantou, como se percebesse isso, e tomou o copo em suas mãos.
— Porque é o que todos estão fazendo. A vila inteira estava se preparando para um ataque à Cidade, combinando suas forças com as de outros vilarejos, não é? Todos estão se preparando para o grande ataque.
— “Grande ataque”? – o viajante riu, sarcástico – É assim que estão chamando? Que ridículo. – proferiu as últimas palavras com acentuado desdém.
A mulher percebeu claramente o descaso do homem. Ela estava em sua cadeira de rodas, com o copo entre as mãos, com o olhar fixo no vazio, mas sua expressão parecia repleta de muitas certezas.
— É ridículo lutar por uma vida melhor?
— É ridículo que pensem que estão fazendo isso.
— O que quer dizer?
— Que é tudo em vão. Esta vila, assim como todas as outras, pensa estar lutando por uma boa causa. Mas não está. Não existe uma boa causa.
— Como não? Estamos lutando por uma vida melhor! Estamos buscando o nosso direito de...
— Discursos vazios. – o homem interrompeu a mulher, que começava a se exaltar – Discursos repetidos, que as pessoas continuam levando adiante e nem sabem por quê.
A mulher abriu a boca, como se fosse dizer algo, mas o gesto ficou em suspenso. Seu semblante, que começava a demonstrar sua indignação, voltou à serenidade que vinha demonstrando até agora.
— Você é um cético. – ela disse, por fim.
— É. Acho que pode me chamar assim. Não que isso me defina inteiramente, mas...
— Já conheci outros como você.
— Outros como eu? – o viajante pareceu não gostar do comentário.
— É. Outros do seu tipo. – a mulher deslocou-se de onde estava e levou o copo que segurava a uma mesa ali próxima – Você sabe; desse tipo que não acredita em nada, que faz pouco caso das crenças de outros, que se acha de algum modo superior por não acreditar em coisa alguma.
— Falando desse jeito, você me faz parecer uma má pessoa simplesmente porque eu optei por não mais me iludir.
— Não digo que seja má pessoa.
— E você está generalizando. Mal me conhece e quer me rotular.
— Você não está fazendo a mesma coisa? Chama essas pessoas de ridículas, iludidas...
— Mas é diferente. Nesse caso...
— Nesse caso, você pode rotular e eu não posso fazer o mesmo? Essa é a sua lógica?
— Da maneira como você diz, eu fico parecendo uma pessoa terrível.
— Não digo que seja terrível. Mas é precipitado em seus julgamentos.
— Certo. Bom, eu não vou ficar aqui para discutir minhas ideologias com você. Eu...
— Nem poderia, já que você parece não ter qualquer uma.
— Talvez, a minha falta de ideologia possa ser uma.
— É verdade. Mas, se assim for, o que você defende?
— Defendo que as pessoas deveriam parar de se iludir. Deveriam parar de vender crenças que não correspondem à realidade. Deveriam deixar de lutar pelas causas erradas.
— E quem você pensa que é para definir qual é a causa errada e qual é a certa?
O viajante estava em pé, com as costas apoiadas em uma parede. A mulher, sentada em sua cadeira, mantinha uma impressionante expressão tranquila, embora suas palavras parecessem induzir o homem a ficar mais e mais nervoso.
— Você está tentando me levar a uma contradição, não é? Olha, sinto desapontá-la, mas eu não faço a menor questão de convencê-la do meu ponto de vista. O que eu penso, o que eu vejo... Esse sou eu e não faço questão de obrigar os outros a concordarem comigo.
— Entendo. E parabenizo você por isso. Não é todo mundo que consegue deixar de impor sua visão, a fim de estar sempre certo.
— Exato.
— Contudo, eu não sei dizer se, no seu caso, é realmente o respeito às opiniões alheias que o guia nessa forma de agir... Ou se é simplesmente porque você é um desistente.
— Desistente? – essa palavra pareceu incomodar profundamente o homem.
— Sim. Há uma possibilidade de você simplesmente ter desistido. Se assim for, então você não está realmente defendendo uma ideologia. Você está apenas esvaziado de tudo.
— Quer saber? Pode ser isso mesmo. E sinceramente não me importo. Nem sei por que estou tendo essa conversa com você.
— Porque talvez você esteja querendo ouvir o que eu tenho a lhe dizer.
— E o que você tem a me dizer?
— Que você não está inteiramente errado. Provavelmente, há muitas pessoas lutando pelas causas erradas. Certamente, há aquelas que estão tentando tirar proveito da situação. Existem falsas promessas, existem pessoas enganando e sendo enganadas...
— Sim! Então você concorda comigo?
— Eu concordo que isso é algo que deve mesmo estar acontecendo. Ora, nunca fui ingênua a ponto de achar que nossas lutas são tão bonitas e corretas quanto aparentam ser. Porém, eu não acho que sua forma de lidar com essa realidade seja a melhor.
— Bem, aí já é uma questão de opinião. O fato é que este mundo está perdido. Não vale a pena lutar, porque independente do que se faça, é tudo em vão. A humanidade já está perdida há muito tempo. O ser humano deixou de ser humano e agora é apenas uma fera interessada em sobreviver a todo custo, mesmo que isso lhe obrigue a tirar a vida de outros, a fim de assegurar apenas a sua própria.
— Muito trágica a sua visão.
— Não; é apenas realista.
— Eu diria que é uma visão covarde.
— Covarde? Está me chamando de covarde? Acha que eu gosto de viver em um mundo assim? Acha que eu quero sobreviver em um mundo no qual não se pode acreditar mais em nada?
— Acho. Afinal, você não se preocupa em fazer algo para mudar essa realidade.
— Você não escutou nada do que eu disse? Não há o que fazer! Este mundo já está acabado! Não vale a pena!
— E essa é a visão covarde de que eu falei. Você está se escondendo atrás dessas certezas que, desculpe-me dizer, são muito incertas. Você alega que o mundo está acabado e que nada mais vale a pena. Você se coloca nessa posição superior como se soubesse mais do que os outros. Critica aqueles que devem estar enganando os mais ingênuos, abusando do poder que possuem para trair a confiança deles. Mas você não é tão diferente desses homens que enganam e traem. Afinal, você diz que percebe todos esse problemas, que sabe onde estão muitos dos erros. Eu acredito em você; acredito que realmente enxergue mais do que a maioria das pessoas. Mas o que você está fazendo com essa vantagem que possui? Está alertando os outros? Está tentando esclarecer as coisas, ajudando os outros a enxergarem o que ainda não podem ver? Você poderia estar auxiliando essas pessoas, ensinando-as a serem mais críticas, a não aceitarem tudo que lhes é dito... Mas você faz isso?
— Não; eu não faço. Porque não vale a pena.
— Pare de repetir isso. Por que não valeria a pena?
— Porque... – por um instante, o homem sentiu-se perdido em suas certezas – Porque não acho que vá fazer diferença. Eu posso até tentar falar, mas e se eu não for ouvido? Ou ainda: Eu posso até ser ouvido, mas quem garante que isso resultará em alguma mudança concreta? E se...
— E se você até conseguir que uma mudança concreta ocorra, mas ela não for suficiente? Certo, certo. Entendi sua linha de pensamento. Na verdade, já a tinha compreendido. Agora, no entanto, acredito que possa mostrar-lhe como está sendo, sim, covarde. Sua visão é repleta de se’s. “E se eu não for ouvido? E se as pessoas não acreditarem? E se não mudar em nada?” Você cria tantos obstáculos que não é à toa que se acovarde desse modo.
— Eu não sou covarde. – a frase soou quase infantil.
— É, sim. Você tem medo de tentar. E nem me venha dizer o contrário. No fundo, o que você teme não é o desperdício do seu tempo, que diz não querer gastar em vão. Não... O que você teme é lutar por algo que talvez nunca aconteça. Você teme depositar forças e energias em algo que talvez jamais ocorra. Tem medo da decepção, da frustração.
— Que seja. Se for esse o caso, você pode me culpar? Pode me culpar por não querer me decepcionar ainda mais com esse mundo?
— Eu não estou querendo culpá-lo de nada! Não é essa a minha intenção. Quero tão somente que você enfrente a realidade como ela é. Em vez de se achar superior, por crer que enxerga o que os outros são incapazes de ver, entenda que a verdade é que você tem apenas medo. E não é errado ter medo. Todos temos medo; é o que nos faz humanos.
— Já perdemos a nossa humanidade.
— É, você já disse isso. Mas eu discordo. Reconheço que as pessoas hoje dão inúmeros motivos para perdermos a confiança no ser humano. Mas ainda é possível acreditar.
— Como você consegue acreditar? A cada dia que passa, as pessoas parecem tornar-se piores. Os defeitos parecem se agigantar diante dos nossos olhos. Há tanto egoísmo, tanta ganância, tanta hipocrisia, tanta maldade...
— Sim, mas ainda é possível encontrar a bondade nas pessoas. Ainda é possível se emocionar com um sorriso. Ainda é possível encontrarmos boas ações por aí. Mesmo que sejam pequenas, elas ainda existem.
— Esse é o ponto. São cada vez menores. O lado bom do ser humano é cada vez menor; o lado ruim vem crescendo e tomando conta de tudo. Chegou-se a um ponto em que não é mais possível ver o bem, pois o mal prevaleceu.
A mulher ficou em silêncio por um minuto. Trazia um semblante pensativo. O homem, por trás dos óculos escuros que nunca tirava, observava os olhos claros dela. O olhar era límpido e sereno, como a expressão dela toda.
— Quando você me trouxe aqui, eu lhe ofereci água. — a mulher recomeçou a falar — E você aceitou, porque tinha sede. Não tenho muito a oferecer, por isso não lhe pude dar um copo cheio.
— Imagine; a quantidade que me ofereceu foi o bastante.
— Sim. Porque você estava com sede. E, quando a sede é grande, a água, mesmo que pouca, terá sua serventia e será bem-vinda. Sua sede fez você agradecer pelo pouco de água recebido, em vez de criticar o vazio que ocupava a maior parte do copo.
Dessa vez, foi o viajante que se calou, absorvendo aquelas palavras.
— Este mundo árido e hostil em que vivemos é sedento de muitas coisas. De justiça. De igualdade. De amor. A sede é grande e eu reconheço que o que prevalece ainda é o mal. Mas o bem existe. É pequeno, como você diz? Talvez. Mas é necessário reconhecê-lo. Quando reconhecemos o bem nesse mundo, acreditamos nele. E é acreditando que ele existe que podemos ajudar a propagá-lo. Ao ignorá-lo ou ao fazer pouco caso dele, você está valorizando demais o vazio existente no copo.
O viajante parecia ficar mais incomodado com essa conversa a cada minuto que passava.
— Sabe, por mais que eu entenda o que diz, não é simples mudar quem eu sou. A vida me tirou muito. Eu...
Antes de completar o que dizia, o homem se deu conta de que cometia um erro. Iria reclamar do que a vida lhe tirou? Estava diante de uma mulher cega e incapacitada de andar. Nesse momento, sentiu-se algo envergonhado. Quem era ele para reclamar do que a vida lhe tinha tirado?
— Não tenha pena de mim. – a mulher interrompeu os pensamentos do homem, falando com o sempre bonito sorriso – Eu estou bem. Sim, não posso mais enxergar e nem andar... Fiquei assim depois de participar de uma rebelião. – a mulher sorriu melancolicamente – Mas a parte dolorida não foi perder a visão ou as pernas. O pior foi perder meu filho... – uma lágrima solitária nasceu e correu furtivamente pelo rosto dela – Ele era apenas uma criança. Os pacificadores destruíram toda a vila em que morávamos. Eu não pude salvá-lo... Não nesse estado. – a voz se tornou um pouco amarga agora.
— Eu sinto muito. Mas é disso que estou falando. Essa vida é cruel, ela nos tira tudo. Tudo! Por que então lutar? Por que tentar mudar? A chance de não dar certo é grande, então... Por quê?
— Eu é que lhe pergunto. Por que insiste em olhar para o copo meio vazio? Eu prefiro ver o lado meio cheio. Eu perdi muito, sim. Mas somente porque eu tinha muito. Não se pode perder o que não se tem. Eu fui muito feliz. Eu amei, fui amada. A dor é grande, quase insuportável. Contudo, é assim apenas porque a felicidade, enquanto eu a tive, foi grande. Gigantesca. Eu sinto saudades, claro. Gostaria que tivesse sido diferente. Porém, não foi assim e eu não vou amaldiçoar a minha vida, porque ela pode até ter me tirado aquilo que eu mais amava... Mas essa mesma vida me deu esse amor antes. Eu quero olhar para a parte cheia do copo. Eu quero sempre me lembrar de que a vida vale a pena, porque a vida pode ser maravilhosa...
— Acredita que voltará a ser feliz como já foi, algum dia?
— Acredito. Hoje mesmo, eu sou feliz. Quero dizer, tenho um milhão de motivos para me sentir miserável, mas optei por seguir o outro caminho. Eu não posso mais participar ativamente das rebeliões, mas ajudo como me é possível. Quando os homens e as mulheres saem do vilarejo para encontrar-se com outros líderes, eu ajudo cuidando das crianças. Sou uma boa contadora de histórias.
— Não duvido. – riu o homem, de leve – Você conseguiu prender minha atenção com toda essa conversa...
— Em épocas de batalhas, sou muito útil na hora de cuidar dos feridos. Minhas mãos são hábeis e eu sou capaz de cuidar de um machucado graças ao meu tato apurado.
— Certo, certo. E isso é o bastante para você ser feliz? O fato de contar histórias para um punhado de crianças ou fazer curativo em pessoas feridas?
— Em parte. Mas o que me faz feliz não é especificamente isso. Sabe, felicidade para mim é acordar todos os dias tendo um motivo para viver. E o meu motivo não é cuidar de crianças ou de feridos, como você está pensando. Meu motivo é acreditar. Eu acredito que é possível mudar. Acredito que a vida pode melhorar. Acredito e quero contribuir, quero fazer a minha parte. Minha parte pode ser pequena, insignificante e até mesmo risível para alguém como você... Mas é a minha parte. Quanto a você... – a mulher hesitou um segundo, pensativa, mas depois continuou – Venha cá. Aproxime-se.
O viajante não entendeu bem o que ela queria dizer. Meio sem jeito, aproximou-se um pouco, ficando um pouco mais próximo da cadeira dela.
— Mais perto, por favor. – e ela estendeu os braços e, com as mãos, parecia querer tocar no homem. O viajante, compreendendo isso, chegou mais perto, o suficiente para que ela pudesse tocar em seu braço. A mulher então puxou-o para baixo e levou as mãos ao rosto dele. Começou a tateá-lo e rapidamente notou os óculos escuros.
— Você usa óculos?
— São óculos escuros.
— Por que está usando óculos escuros aqui dentro?
— Hábito. Não costumo tirá-los. Protegem meus olhos da poeira lá fora.
— Entendo. – a mulher continuou tateando o rosto do outro, sem retirar os óculos dele – Você é um homem bonito.
O viajante sorriu, bastante sem-graça com o comentário.
— Fica mais bonito quando sorri. – ela complementou – Não desperdice sua vida. – ela falou, agora abandonando o rosto dele e se recostando mais à sua cadeira – Porque é isso o que está fazendo. Você diz que não quer gastar energias à toa. Diz que não quer desperdiçar o seu tempo com algo que não vale a pena. Mas não é exatamente o que está fazendo? Por que você vive, se não encontra um motivo para tanto? E não me diga que não há motivos. Eles estão aí, às centenas. É só escolher.
— Eu devo admitir que seu bom humor é fascinante. Mesmo em meio à tanta escuridão, você insiste em querer enxergar um pouco de luz.
— Exatamente. Mesmo que eu não seja capaz de ver, gosto de saber que a luz está presente. Por que acha que acendi o lampião ao entrarmos aqui? Não foi por você. Eu sempre faço isso. É reconfortante saber que existe luz, mesmo que eu não possa vê-la. E é um pouco triste que...
Como a mulher deixou a frase inacabada, o viajante se viu obrigado a incitá-la a continuar:
— É um pouco triste que...?
— É um pouco triste que pessoas que possam ver a luz insistam em criar obstáculos para não enxergá-la. Volto a lhe perguntar... Por que insiste em permanecer com esses óculos escuros?
O homem compreendeu o significado nas entrelinhas:
— Mesmo que você tenha razão... Eu não acho que tenha muito a oferecer. Não acho que eu vá fazer grande diferença. Nem sei por que tanto esforço de sua parte para me convencer do que diz.
— Porque cada grão em uma balança tem o seu peso. Um grão pode fazer a diferença que falta. Você diz que não tem muito a oferecer... Bem, olhe para nós dois. Não é preciso fazer uma longa comparação para ver que você já pode oferecer bastante. Se eu já faço a minha pequena, mas muito válida, diferença... Você certamente fará também. Especialmente se você acreditar nisso. Tire de si o fardo de achar que deve fazer o mundo mudar sozinho... Desse jeito, vai acabar se decepcionando mesmo. Compreenda que seus atos, mesmo que pequenos, podem ser significativos. Desistir porque acha impossível fazer um grande ato é uma desculpa esfarrapada. Uma pessoa pode fazer muitos pequenos atos e esses, muitas vezes, podem representar bem mais.
O viajante percebeu que foi só apresentar uma pequena abertura às palavras da mulher, que ela investiu com força total. Riu jovialmente e comentou:
— Você realmente parece fazer questão de querer mudar minha cabeça, não é?
— Na verdade, eu gostaria de mudar sua visão para que você pudesse ficar por aqui. Gostei de você, é muito bonito.
— Ah, eu... – o homem ficou completamente embaraçado – Você também é... muito bonita.
A mulher ficou em silêncio por alguns instante, depois desatou a rir:
— Eu estava brincando! – ela disse, sorridente.
— Ah, claro! Eu... também! – bastante constrangido, o homem olhou ao redor, ajeitou a mochila que carregava em um lado, mexeu na arma que trazia presa ao peito, enfiou as mãos nos bolsos do casaco e falou:
— Está ficando tarde. Eu preciso partir.
— Claro. – a mulher respondeu com tranquilidade.
— É que eu pretendo chegar a um outro vilarejo antes de amanhecer.
— Claro, claro. Faça boa viagem. – ela continuava falando de forma serena, e com o sorriso de sempre.
— Bem, eu... agradeço a hospitalidade. – o homem fez uma breve mesura, como se estivesse se despedindo, mas logo se lembrou de que ela não enxergava. Achou-se tolo e se repreendeu mentalmente. Ia dando meia-volta para sair, quando ouviu a mulher dizer:
— Espero que encontre o que esteja buscando.
— Quem disse que estou buscando algo?
— Deveria. De todo modo, se quiser encontrar... Ou até mesmo se quiser descobrir o que busca encontrar, lembre-se: Você precisa tirar esses óculos escuros.
O viajante sorriu uma vez mais. Deu-se conta de que há muito tempo não costumava sorrir. Verdade seja dita; há muito tempo não tinha qualquer tipo de interação com outra pessoa que avançasse duas frases.
O contato cálido da mulher fez-lhe bem, era preciso admitir.
Era quase como se sentir... humano novamente.
Não disse mais nada; após a última frase da mulher, deixou a pequena casa. Saiu de lá sem olhar para trás. Foi caminhando com pressa, até alcançar os limites do vilarejo. Quando, no entanto, estava prestes a deixar o local, ele olhou para trás. Uma vontade maior tomou conta de si e o homem resolveu dar vazão a ela. Sentou-se no chão frio e árido. Retirou seu caderno da mochila. O pedaço de carvão usado estava guardado lá. Retirou-o e começou a desenhar. Desenhou a vila, que tinha diante de si. E desenhou a casa da mulher. Não conseguia mais ver o casebre da posição em que estava, mas desenhou mesmo assim. Terminou o esboço e ficou olhando o que tinha feito. Pela primeira vez, admirava o que tinha desenhado. E, pela primeira vez, um novo sentimento despontou em si ao olhar para os traços daquele caderno.
Como tantas outras vezes já ocorrera, o viajante se perguntou “E se...?”.
Porém, agora, em vez de essa pergunta se destinar a pensamentos negativos e derrotistas, o homem se permitia indagar algo bem distinto.
“E se... ela estiver certa?”.
Interessante como uma simples pergunta parecia o germe de algo que crescia rápido e dominava seu peito, até então tão árido e frio como o chão em que estava sentado.
Um calor gostoso pareceu perpassar pelo seu corpo.
Podia ser apenas imaginação, mas não importava.
Levantou-se, voltou a jogar a mochila nas costas. Ele sorria.
Deu alguns passos à frente, na direção da vila.
Nunca regressava a lugares pelos quais já tinha passado. Era a primeira vez.
Mas poderia valer a pena.
Subitamente, ele parou. Lembrou-se.
Retirou os óculos escuros. Colocou-os dentro do bolso do casaco e pôde enfim seguir o seu caminho.
******
No Church In The Wild (feat. Kanye West & Frank Ocean)
[Frank Ocean]
Human being to the mob
What's a mob to a king?
What's a king to a god?
What's a god to a non-believer?
Who don't believe in anything?
We make it out alive
All right, all right
No church in the wild
[Jay-Z]
Tears on the mauseoleum floor
Blood stains the coliseum doors
Lies on the lips of a priest
Thanksgiving disguised as a feast
Rollin' in the Rolls-Royce Corniche
Only the doctors got this, I'm hidin' from police
Cocaine seats
All white like I got the whole thing bleached
Drug dealer chic
I'm wonderin' if a thug's prayers reach
Is Pious pious cause God loves pious?
Socrates asks, "Whose bias do y'all seek?"
All for Plato, screech
I'm out here ballin', I know ya'll hear my sneaks
Jesus was a carpenter, Yeezy, laid beats
Hova flow the Holy Ghost, get the hell up out your seats
Preach
[Frank Ocean]
Human being to the mob
What's a mob to a king?
What's a king to a god?
What's a god to a non-believer?
Who don't believe in anything?
We make it out alive
All right, all right
No church in the wild
[The-Dream]
I live by you, desire
I stand by you, walk through the fire
Your love is my scripture
Let me into your encryption
[Kanye West]
Coke on her black skin made a stripe like a zebra
I call that jungle fever
You will not control the threesome
Just roll the weed up until I get me some
We formed a new religion
No sins as long as there's permission'
And deception is the only felony
So never f-ck nobody wit'out tellin' me
Sunglasses and Advil
Last night was mad real
Sun comin' up, 5 a.m.
I wonder if they got cabs still
Thinkin' 'bout the girl in all-leopard
Who was rubbin' the wood like Kiki Shepard
Two tattooes, one read "No Apologies"
The other said "Love is cursed by monogamy"
That's somethin' that the pastor don't preach
That's somethin' that a teacher can't teach
When we die, the money we can't keep
But we prolly spend it all 'cause the pain ain't cheap
Preach
[Frank Ocean]
Human being to the mob
What's a mob to a king?
What's a king to a god?
What's a god to a non-believer?
Who don't believe in anything?
Will he make it out alive
All right, all right
No church in the wild
No church in the wild
No church in the wild
No church in the wild
[TRADUÇÃO:]
Não Há Igreja Na Selva
[Kanye West]
Seres humanos em uma manifestação
O que é uma manifestação para um rei?
O que é um rei para um deus?
O que é um deus para um descrente?
Que não acredita em nada
Nós saímos vivos
Certo, certo
Não há igreja na selva
[Jay-Z]
Lágrimas no piso do mausoléu
O sangue mancha as portas do coliseu
Mentiras nos lábios de um sacerdote
Ação de graças disfarçada de banquete
Dirigindo um Rolls-Royce Corniche
Apenas os médicos têm isso, estou me escondendo da polícia
Assentos de cocaína
Todos brancos como se tudo tivesse sido alvejado
Traficante chique
Pergunto-me se as orações de um criminoso são ouvidas
Pio é piedoso porque Deus ama os piedosos?
Sócrates pergunta, 'Vocês procuram os preconceitos de quem?"
Todos por Platão berram
Estou aqui cheio da grana, sei que ouvem as minhas críticas
Jesus era carpinteiro, Yeezy fazia batidas
Hova traz o fluxo do espírito santo, levantem de suas cadeiras
Preguem
[Kanye West]
Seres humanos em uma manifestação
O que é uma manifestação para um rei?
O que é um rei para um deus?
O que é um deus para um descrente?
Que não acredita em nada
Nós saímos vivos
Certo, certo
Não há igreja na selva
[The Dream:]
Vivo por você
Desejo
Fico ao seu lado
Caminho pelo fogo
Seu amor é minha escritura
Deixe-me entrar no seu código
[Kanye west:]
Coca na sua pele negra a deixou listrada como uma zebra
Chamo isso de febre da selva
Você não controlará o sexo a três
Apenas enrole a erva até que eu esteja satisfeito
Formamos uma nova religião
Sem pecados enquanto houver permissão
E a trapaça é o único crime
Então, nunca fique com alguém sem me contar
Óculos escuros e Advil
Ontem à noite foi uma loucura
O sol se levantando às 5 da manhã
Pergunto-me se ainda há táxis
Pensando na garota vestida toda de onça
Que estava passando a mão como Kiki Shepard
Duas tatuagens, uma dizia 'Sem Desculpas'
A outra, 'Amor é amaldiçoado pela monogamia'
Isso é algo que o pastor não prega
Isso é algo que um professor não ensina
Quando morremos, não ficamos com o dinheiro
Mas provavelmente gastaremos tudo porque a dor não é barata
Preguem
[Kanye West]
Seres humanos em uma manifestação
O que é uma manifestação para um rei?
O que é um rei para um deus?
O que é um deus para um descrente?
Que não acredita em nada
Nós saímos vivos
Certo, certo
Não há igreja na selva
Não há igreja na selva
Não há igreja na selva
Não há igreja na selva
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