Certa vez um menino andava pelo parque da cidade quando encontrou um filhote de canário ferido. Havia caído do ninho e ainda não tinha idade para voar. O menino repleto de compaixão o adotou, e o canário, uma criatura sábia, aceitou ir com ele. Quando voltou para sua casa, o menino mostrou o canário para os seus pais. Animado, tinha certeza que os pais o ajudariam a criá-lo. Porém, os pais do menino o repreenderam, dizendo que canários são animais selvagens que não nasceram para ficarem presos e que um dia ou outro o canário iria abandoná-lo.

A criança então concordou em cuidar do canário até ele ficar mais forte e conseguir viver por aí sozinho. No começo o menino ficou preocupado em deixar o canário solto pela casa, mas como viu que o pequeno pássaro ainda não sabia voar, se tranquilizou e deixou as janelas abertas, se preocupando apenas em não pisar nele que andava saltitando.

O menino e o canário se tornaram melhores amigos e os dois sempre iam juntos aos lugares, mesmo com a repreensão dos pais. O pequenino o alimentava e o canário, apesar de acuado com as outras pessoas, se sentia feliz e confortável na presença do menino.

Mas o menino começou a se preocupar com duas coisas. A primeira foi que o canário já estava grande, atingindo uma idade adulta e ainda não havia sequer tentado voar. A segunda é que o menino nunca tinha ouvido o amigo cantar. O menino sabia que canários adoravam cantar, e como sempre achou que o pássaro estava contente ao seu lado, sempre o imaginou cantando doces melodias, mas nunca aconteceu.

Apesar dessas preocupações o menino e o canário cresciam juntos. Os pais do menino já haviam desistido de separar os dois. Por duas vezes chamaram o filho para sentar e conversar como já estava na hora de soltar o pássaro na natureza. Mas como o canário ainda não havia começado a voar, os pais foram obrigados a concordar com o menino que ainda não era a hora. Com dias transformando-se em meses e meses se transformando em anos, o canário se tornou parte da família e todo mundo naquela cidade começou a ficar sabendo da inusitada amizade que havia surgido.

Em uma tarde de verão o menino retornava para casa após sair da escola e o canário, como de costume, estava empoleirado em seu ombro. O dia tinha sido cansativo e a criança, distraída, atravessou a rua em um farol vermelho. O idoso motorista que conduzia o veículo brecou com todas suas forças, mas o choque foi inevitável. O canário pulou do ombro do menino no instante que o carro atingiu-lhe o frágil corpo, lançando a criança a alguns metros de distância. As pessoas que estavam no local correram acudir o menino e algumas testemunhas afirmam terem visto o canário saltitar para longe.

Já no hospital, os pais do menino choravam com as más notícias que o médico havia dado. O pequenino respirava somente com ajuda de aparelhos, e em um coma profundo, pouca esperança havia. O médico havia recomendado um prazo de algumas semanas para checar o progresso do menino, mas após essa data alegava que nada mais poderia ser feito. Os pais, sem deixar o leito do hospital, torciam pelo melhor, e o canário não havia mais sido visto em lugar algum.

Em poucos dias depois, familiares haviam chego de longe para visitar o menino e os pais se retiraram do quarto por alguns instantes para recebê-los. Nesses exatos segundos, o canário pousou na janela do quarto do menino e com um pulo alcançou a cama dele.

O menino no mesmo instante acordou e quando viu o canário sorriu. O canário balançou as asas e o menino concordou com a cabeça. Sabia que ele queria que o seguisse. O canário pulou da cama e parou em frente a porta. O menino retirou todos os plugues e cabos de seu pequeno corpo, abriu a porta e seguiu o amigo. As pessoas que passavam por eles não pareciam notá-los e o menino sem se importar continuou caminhando.

Ao chegar na saída do hospital, o canário olhou para o céu e bateu as asas. O menino mais uma vez concordou com a cabeça, sabendo o que viria depois. Mas antes perguntou ao canário o porque dele nunca ter cantado e porque também nunca havia voado. O canário respondeu que nunca havia voado porque as asas pertenciam ao menino e não a ele e que a canção seria o menino que iria entoar. A criança então agradeceu o cuidado do canário por tanto tempo e disse "Até logo" e não um "Adeus."

O choro do quarto do hospital foi abafado por uma doce melodia dos pássaros daquele parque que cantavam em uníssono. Após o menino ir embora, o canário abriu suas asas e voou. Voou, voou e voou longe. Muito longe. E a cada batida de asa, seu corpo parecia ficar menor. Após semanas de voo estava com o corpo de um pequeno filhote. Chegou então em uma outra cidade e em um outro parque aonde brincava um grupo de crianças.

Pousou em uma árvore e se deixou cair de um galho. O barulho atraiu uma criança que correu ver o que era. A criança ao ver o ferido e pequenino pássaro o pegou na mão e correu até seus pais e mostrando o animal em suas mãos disse, sorrindo: "Posso ficar com ele?"

(Murillo Cafaldo)

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