A Existência
2 Capítulo 2 - O Controle do Saber e a Inocência
– Você sabe o que é água? — Perguntei.
– Não. Você sabe? — Minha criação pergunta.– Sim. — Respondi com um ar de superioridadeHouve um momento de reflexão.– Espera aí, se eu sou basicamente você, porque eu não sei? — Pergunta ele, intrigado.– Eis outra questão aqui: você, apesar de ter os mesmos conhecimentos que eu, só saberá o que eu permitir que você saiba.– Isso é injusto! — Respondeu ele, um pouco revoltado.– Claro que não. Se você souber tudo o que sei, este mundo que será criado poderá se transformar em um caos igual ao que eu vivo. – Então, existem outros como você? — Ele agora parecia curioso.– Sim. Bilhões de outros humanos. No mundo em que vivo, cada um deles, tem seu próprio mundo também. — Expliquei calmamente.– Todos são iguais a você? Digo, aparência, modo de pensar...– Não. Cada um tem seu próprio jeito de ver as coisas e fazê-las. Em meu mundo, todos são diferentes. Mas vamos falar disso depois. Nesse momento, para cortar o assunto, eu materializei a água. De repente, minha criação começou a sentir algo em seus pés e quando olhou para eles, viu que estavam molhados.– O que é isso cobrindo meus pés? — Ele não sabia como reagir. Não machucava, mas também era algo desconhecido para ele – Isso é água. Algo transparente, no qual você pode nadar, pode beber dela, se lavar... — Expliquei– Isso é do seu mundo? — Ele ia se familiarizando com os pés molhados enquanto me perguntava.– Sim, lá isso existe. Aliás muitas coisas aqui que serão criadas, serão a partir das que existem em meu mundo. — Eu respondi.– Porque não cria algo totalmente novo?– Admito que eu não sou um humano com uma grande imaginação. — Digo, um tanto triste. — E, por outro lado, não é tão necessário assim. Muitas coisas do meu mundo são boas. Ele começou a andar sobre a água. Rapidamente ele se acostumou com a sensação e, com isso, continuei:– Bom, vamos sair dessa escuridão. Vamos criar o que eu chamo de... Luz e uma paisagem.Em um instante, tudo mudou. De um vazio negro infinito, foi criada uma nova imagem. Embaixo dos nossos pés, havia a água transparente. Acima, havia um céu azul límpido. Diante disso a água ficou parecendo azul, mas era só o reflexo do céu.– Que lugar é esse? — Minha criação parecia estar maravilhada com o que havia sido feito.– Se chama oceano. — Expliquei — Estamos no meio dele. É algo que em meu mundo, eu admiro bastante. Ele costuma me acalmar. Tantas perguntas passaram pela mente dele. A que ele faria, seria só a primeira a ser feita. – Entendi. Mas uma coisa: se nossos pés estão cobertos pela água e não há chão embaixo de nós, o que nos mantém acima dela?– Bom, como tudo aqui ainda está sendo criado, não existem regras para as coisas funcionarem ainda. No meu mundo, nós afogaríamos. No máximo, se soubéssemos nadar, nossas cabeças ficariam submersas — Respondi, tentando manter uma coerência. — Vou te mostrar como é a sensação debaixo da água, onde eu vivo.Em seguida, caímos. O mar cobriu nossos corpos inteiramente e minha criação não conseguia mais falar. Ao poucos foi se sufocando enquanto tentava lutar para submergir. Após um tempo, subimos novamente.– No meu mundo, é assim. — Expliquei ajudando-a a recuperar o fôlego. — A menos que se tenha o treinamento adequado. Aí se consegue ficar durante um tempo dentro da água sem se sufocar.– Não é mais tão legal quanto parecia, tudo isso. — Respondeu ele já bem recuperado.– Tudo tem seus dois lados. Nem tudo é bom.Agora, eu parei por um segundo. Esperei e em seguida ele perguntou:– O que não é bom, é o que?...Por mais que aquilo fosse a pergunta mais idiota que alguém poderia fazer, ainda assim, eu o imaginei perguntando isso. E, como o que eu imagino se torna real, ele perguntou isso. E diante dessa pergunta, eu pude admirar a mais pura inocência que alguém poderia ter. Cheguei até a sentir uma pontada de inveja por não poder ter aquilo.– O que não é bom, é mal, ruim. — Expliquei.– E o que é esse mal?Novamente, eu quase chorei diante da minha própria criação. Imagina só, não saber o que é o mal. Nem consigo explicar como seria me sentir assim. Sem ter consciência da existência de um mal. Poder viver sem medo, sem me preocupar com dor ou perigo.– Mal é tudo aquilo que machuca. Aquilo que causa dor. — Respondi– E como se machuca alguém? — Ele simplesmente perguntou para querer saber. Afinal, eu faria isso.– Me diga você. — Desafiei.– Mas eu não sei. — Ele disse.Eu admito. Admito que enquanto escrevo essas palavras e crio essa cena, eu choro. Eu não gosto de saber como se faz o mal. Como é o mal. E então, eu respondi, convicto:– E nunca saberá. Este mundo nunca saberá o que é o mal. Porque eu não deixarei.Em seguida, veio o silêncio. Um longo silêncio.Ficamos olhando tudo ao redor durante um tempo e admiramos a beleza do horizonte. A linha que dividia o céu e mar calmo era algo bonito de se olhar. Ao criar as ondas no mar e as nuvens no céu, aquela cena começou a ter mais vida. Criei uma ponte branca em linha reta sobre as águas. E ficamos em cima dela. Ali, eu comecei a ficar feliz. Porque eu sabia que tudo poderia dar certo. Eu tinha tudo para criar um mundo perfeito.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.
Fale com o autor