A Excluída
19 PARTE 2 A execução e a promessa
Na hora da saída da escola, ficamos na sala um tempo a mais de propósito. Sabíamos que encontraríamos os mesmos valentões se demorássemos. E atravessando a rua, lá estavam eles, seus olhares cruéis voltados para mim e para David. Nenhuma palavra foi dita e lá estávamos nós, cercados pelos mesmos brigões do dia anterior.
—A gente precisa terminar o que começou ontem! – ameaçou Lidiane arreganhando os dentes.
—Calma Lid – se intrometeu Daiana – era só pra dar um susto.
“Quer dizer que agora ela quer nos defender?” pensei com raiva, mas concentrei no plano.
—Não, calma aí – ergui as mãos em rendição – espera. A gente não quer levar uma surra, a gente até paga pra vocês deixarem a gente em paz.
—Eu não sei como escapou ontem cabelo de macarrão – Lidiane me olhou desconfiada – mas se você me pagar eu até penso em te deixar em paz, você e o varapau.
—Tudo bem então – eu abaixei a mãe e peguei os botões que imitavam moedas – aqui eu tenho 10 moedas, é o suficiente?
—Acho que por hoje é – a valentona pegou as “moedas” da minha mão e distribuiu entre seus companheiros – podem ir geninhos.
Assim que Lidiane nos dispensou, eu e David corremos e nos escondemos num canto para ver o resultado do nosso trabalho. Assim que cada um dos valentões guardou sua moeda no bolso, levaram um leve choque por serem envoltos em um campo magnético. Eles estranharam um pouco mas continuaram caminhando. Em seu próximo passo, eles foram misteriosamente arremessados na parede mais próxima por uma mão invisível e ficaram grudados nela. O cabelo de todos eles estava em pé. Eu e meu amigo voltamos pra casa rindo, comemorando o sucesso do nosso plano.
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Lana nos recebeu e ficou curiosa para saber porque estávamos rindo.
—O que foi que aconteceu? – perguntou minha irmãzinha.
—Nós demos uma lição nos caras maus – David explicou.
—Ah igual a um super herói – Lana disse.
—Não, não – eu balancei a cabeça – não somos heróis. Fizemos isso pra salvar a gente mesmo, não outras pessoas. Super heróis lutam todos os dias.
—E nós também – David me assegurou – fugimos todo dia de quem não gosta da gente.
—Ai... – suspirei sentando-me à mesa e minha irmã e meu amigo sentaram comigo – talvez isso mudasse se não morássemos aqui. E... se existisse um lugar só pra nerds, eu sairia correndo pra lá.
—Na verdade – disse David – eu ouvi falar de um lugar assim que já existiu. Eu descobri lendo uns livros de história pra passar o tempo.
—Tá mas que lugar é esse? – fiquei interessada.
—No início do século 20, pra ser mais preciso em 1906 – ele começou a explicar – foi fundada onde hoje é Lagoa Azul a Vila Nerd. Imigrantes americanos deram esse nome a ela porque as pessoas que moravam ali eram à frente de seu tempo. Criavam coisas, invenções, que não eram convencionais.
—Eles eram esquisitos pras outras pessoas – eu concluí – mas essa vila não existe mais.
—Não – David confirmou – mas... eu fico feliz por poder fugir dos valentões com você, Lilian.
—Eu também – disse corando – quer dizer, você foi o único amigo que eu já tive além da minha irmã.
—É, eu acho que somos iguais – ele sorriu – meu pai era o único nerd que conhecia, até conhecer você Lilian. Eu sei como é ser você e você sabe como é ser eu. Nós somos iguais e ajudamos uns aos outros. E eu prometo que sempre vou estar aqui pra te ajudar.
—Bem – eu estava impressionada – não tem como retribuir tudo o que está fazendo por mim de outro jeito. Eu prometo que sempre vou ajuda-lo como puder, quando você precisar David.
Nós apertamos as mãos para selar nosso acordo.
—Nerds tem que ficar juntos – ele repetiu minha frase.
E eu tinha razão, não poderíamos contar com ninguém além de nós mesmos.
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