A Exceção(Degustação)
3 Capitulo 3
Notas iniciais
Pov – Ella
─O médico chegou. – Vovô me cutuca, ergo a cabeça do celular e não tem nada além das pessoas na sala de espera elegante.
─Como sabe?
─Acabou de entrar na sala. – Ele aponta a porta. – Fica só com a cara enfiada nesse negócio.
─Estava conversando com a minha mãe, ela está preocupada.
─Achei o médico muito novo, deve ser muito inexperiente.
─Que novo? Não começa a colocar defeito no médico vovô. Ele é um especialista, até prêmio ganhou. Um dos melhores do país.
─Eu falei alguma coisa? Só disse que era...
─Senhor Warren? – A recepcionista se aproxima. – O doutor vai atende-lo.
Ficamos de pé, meu coração bate rápido, ninguém merece passar por isso. Aperto a pasta com todos os exames do meu avô, é bom que o médico tenha acesso a isso para poder pensar no tratamento.
A recepcionista caminha em nossa frente tão elegante que começo a pensar se não tinha que ter me arrumado, jeans e camiseta parece meio inapropriado perto dela. Olho meu avô com sua camisa xadrez, acho que todas as suas camisas são assim.
Saudades interior de Mississippi, o centro urbano da Virgínia não parece combinar muito com nenhum de nós dois.
A mulher abre a porta depois de uma leve batida e uma autorização baixa vinda de dentro, nos dá passagem com um sorriso ensaiado que ela deve usar a cada vez que abre a porta. Um homem usando jaleco verificava um tipo de ficha. Depois ergue a cabeça.
Não contava com aquilo. É o homem da foto, não mais velho como pensei, a foto parece ter sido tirada na última hora, é incrivelmente bonito, desnecessariamente bonito, perigosamente bonito. Bonito e pronto.
Ele tem os olhos sobre mim, me analisa um momento e parece querer sorrir, é só sorrir, não precisa evitar o sorriso, ou talvez seja boa ideia, me mantem segura.
─Sentem-se. – Ele aponta as cadeiras depois de um momento de hesitação. – Senhor Warren Smith? – O doutor Adams estende a mão, os dois trocam um aperto de mão.
Depois meu avô me sorri. Olho para ele e noto que ele parece simplesmente ter gostado do médico.
─Senhorita? – O médico me estende a mão e sorrio. Que droga de homem bonito.
─É minha neta. Ella Smith. – Meu avô nos apresenta e ele sorri apertando minha mão. Tem um aperto seguro, firme, uma mão bonita e quente.
─Prazer senhorita Smith.
─Pode me chamar de Ella. Eu prefiro. – Ele sorri. – Aqui está tudo que temos do meu avô, são exames, diagnósticos e encaminhamentos de tratamento.
─Nossa isso ajuda muito, já temos meio caminho andado. – Ele pega a pasta. Abre atencioso. – Me deem uns minutos. – Pede começando a investigar o material.
Aperto a mão do meu avô, ele me sorri carinhoso. Procuro ver nele esperança, acho que só enxergo benevolência. Como se estivesse ali apenas por mim, beijo sua mão e ele a minha, me volto e o médico tinha um sorriso suave, assiste nosso momento e depois volta seus olhos para os documentos.
Ele faz anotações, no computador, separa papéis, olha radiografias, os minutos se estendem e gosto que mostre interesse e respeito. Depois o médico bonito demais para a saúde de seus pacientes e acompanhantes nos sorri.
─Acho que vocês tem tudo de que precisamos. Pelo que vejo está concentrado apenas no fígado. Isso torna tudo muito animador. Aconselho uma cirurgia, vamos tirar uma parte do fígado, depois quimioterapia, quanto mais rápido começarmos mais rápido podemos reverter isso.
─Estamos prontos. – Aviso, o médico sorri, mas seus olhos seguem para meu avô.
─Senhor Smith, é o senhor quem decide.
─Minha neta é muito mandona, ela acha que toma as decisões aqui e para ser honesto é isso mesmo. Se ela diz que estamos prontos então estamos. – Meu avô me sorri.
─Ótimo! Gosto disso. Sua determinação em se curar é metade do tratamento. Além disso, precisa de força de vontade. Senhor Smith esse não é um tratamento fácil.
─Vamos enfrentar o que for preciso, meu avô é jovem e forte, não será uma quimioterapia que vai derruba-lo. – Olho para o médico, ele sorri de novo, mal negócio esse de fazer o homem sorrir, meu coração dispara.
─Que bom. Sou o cirurgião. Opero todas as sextas-feiras. Vou pedir um hemograma completo e marcamos a cirurgia. Agora senhor Warren, tempo é fundamental, os exames serão feitos com urgência, acho que podemos marcar sua cirurgia para daqui uma semana, quando o exame fica pronto.
─Nos mudamos para a cidade. Estamos aqui disponíveis para o que for preciso. – Aviso. – Somos do Mississipi.
─Eu sei. – Ele diz se encostando na cadeira.
─Meu sotaque? Eu sei tenho esse jeito sulista de interior.
─A ficha! – O médico diz e reviro os olhos.
─Claro. – Fico sem graça. – Ele precisa de algum regime? Meu avô é viciado em carne. – Acuso o homem ao meu lado que me olha bravo. – E cerveja.
─Quem pode condena-lo? – O doutor Adams me sorri, mas que maldição, será que posso manda-lo parar com isso? – Vamos procurar manter uma boa alimentação, diminuir a gordura e sem cerveja essa semana, não é nada demais, só para estar em boas condições para a cirurgia, boas noites de sono, bastante verduras e legumes.
─Como se eu fosse um bebê em fase de crescimento. – Meu avô reclama. – Essa garota é um sargento, cuidado com o que pede a ela. – Ele me olha de seu jeito doce. – Largou tudo para estar aqui comigo.
─Não vovô. Adiei, e nem era nada importante. O que pode ser mais precioso que sua saúde?
─Seu futuro mocinha. Vamos deixar o doutor trabalhar. Vou fazer os exames. – meu avô se ergue.
─Conversem com minha secretária. Ela vai explicar todo procedimento, marcar a cirurgia, o senhor se interna um dia antes, quando se internar nos vemos.
Trocamos mais apertos de mão e deixamos a sala. A moça elegante explica tudo, preenche papéis e mais papéis, os preços não são nada agradáveis, mesmo assim são aceitáveis, parece que o médico consegue muitos recursos para manter a ala da oncologia.
Deve sair por aí sorrindo para as pessoas e recebendo cheques por isso. Passamos mais de uma hora ali, depois vamos para casa com tudo acertado. Temos dinheiro para o tratamento, não dá para ter nenhum luxo, mas que importa? Nunca tive mesmo e sempre fui muito feliz.
Quando os momentos mais difíceis passarem posso arrumar algum trabalho, dar aulas particulares de história e quem sabe ser babá, passear com cachorros, sei lá, eu posso enfrentar isso, não tenho medo do trabalho, não tenho medo de nada. Só de perder meu avô.
Em casa meu avô vai direto para o aparelho de som enquanto sigo para cozinha, abro a geladeira no mesmo momento que Elvis começa a cantar. Só podia ser ele.
Meu avô surge na cozinha, se encosta na porta e me sorri, me encosto na pia, ele cantarola. “ Oh let our love survive or dry the tears from your eyes”
─Sempre Elvis! – Brinco quando ele sorri.
─Nos dias tristes, Elvis Presley para acalmar seu coração, nos dias felizes, Elvis para dividir sua alegria. Elvis quando estiver amando e Elvis quando sentir saudade.
─Foi com essa conversa que conquistou a vovô? – Ele abre um largo sorriso.
─Isso e meu talento para dança. – Ele me puxa para dançar, me gira em torno de mim mesma e depois me abraça. – Vamos lá Ella, mostre que fui um bom professor.
Apoio a mão em seu ombro e deslizamos pela cozinha. Meus olhos encontram os dele e sinto sua melancolia, ele pode fingir o quanto quiser, eu sei o quanto tudo isso o afeta.
Me afeta também, dançar com ele no meio da cozinha, parece o tipo de coisa que um dia eu vou me lembrar e sentir saudade, meus olhos marejam, ele beija minha testa. Paramos de dançar.
─Vá lá assar umas tortas, me alimente com suas coisas coloridas. É isso que quer.
Atendo seu pedido, ele volta para sala e preparo o almoço, depois comemos juntos, sinto como ele fica um tanto incomodado de não ter muito o que fazer, olho pela janela da cozinha.
Tem tanta grama e terra, seria bom ele se envolver com isso, tem uma ótima mão para plantação.
─Vovô, o que acha de plantar umas flores, umas ervas, vamos ficar um tempo aqui. Seria bom.
Ele segue meu olhar, pensa um momento, depois afirma.
─Vamos fazer compras mais tarde, posso fazer isso, vai ocupar meu tempo.
─Que bom.
─E você? Como vai ocupar o seu tempo? Não pode passar o dia assando tortas.
─Não duvide, eu não reclamaria. – Ele ri, sabe que essa vida de dona de casa não combina comigo. – Vou pensar em algo vovô.
─Bom, eu vou ver meu jornal, deixa a louça que eu lavo.
─Vá sonhando. – Ele ri, arrumo a cozinha e depois me encolho no sofá com um livro, vou precisar dar um pulinho em uma livraria, preciso de algo para quando estivermos no hospital.
Ele cochila no sofá boa parte da tarde, a televisão baixa uma brisa suave. Me distraio com o livro, quando ergo o olhar ele me observava.
─Comer e dormir. Vou longe. – Meu avô sempre foi cheio de vida e projetos, ficar assim parado não é bom.
─Vamos senhorita Smith.
A tarde está bonita, penso no inverno, nos dias em que talvez ele esteja abatido, na neve, me sento no banco do motorista, ele não reclama, quando olho para minhas mãos no volante penso no doutor Travis Adams, na mão dele apertando a minha.
Afasto o pensamento, é o médico do meu avô, bonito, agradável, mas inatingível por muitas razões.
A loja de material de jardinagem é totalmente bucólica, assisto meu avô passear por ela juntando as coisas que precisa num cesto, sementes, adubo, utensílios. Foi uma boa ideia e me felicito por isso.
─São novos na cidade? – A senhora do balcão pergunta e afirmo, meu avô ainda perdido entre as prateleiras. – Pretendem ficar?
─Ao menos uns meses. Meu avô veio para se tratar e eu vim acompanha-lo.
─Que bonito, os jovens hoje em dia não dão mais tanta importância para a família, não respeitam mais os idosos como no meu tempo. – Olho para ela, é o tipo de frase que uma senhora como aquela diria, ela não decepciona. – Ele está tratando o que?
─Uma doença no fígado. – Penso a respeito, não sou o tipo que tem medo das palavras, não dar o nome as coisas não as torna menos importantes. – Câncer no fígado. – Lá está o olhar que meu avô odiaria receber. Complacência, piedade.
─Sinto muito.
─Ele vai se recuperar, o médico pelo que sei é muito bom.
─Como se chama, conheço todo mundo por aqui.
─Doutor Travis Adams.
─Ah! O bonitão. – Ela sorri quando desvio os olhos com medo de mostrar demais. – Ele é muito querido na cidade. O melhor partido, a mãe é o demônio, a irmã um doce de menina, ela vem aqui as vezes. São os donos da cidade, os Adams chegaram aqui há muito tempo, construíram a comunidade.
─Puxa isso é... – Não sei, não me importo, acho isso bobagem e não costume falar da vida alheia, começo a ter pressa de sair, mas a mulher quer falar.
─Eu sei, mas não se impressione. – Ela baixa o tom como se tivesse medo de alguém ouvir. – Blanche a mãe dele é implacável, quer casar o filho de todo jeito com alguma ricaça, mas Travis não saiu aos pais, foi um escândalo quando ele escolheu medicina e não seguir os passos do pai. –Não queria, mas fico curiosa e se não pergunto também não mudo de assunto, só fico ali olhando para ela e balançando a cabeça. – A comunidade o ama, ele voltou e fez muito pelo hospital, para manter as aparências a família finge aceitar.
─É um bom médico?
─Não sei dizer. O que sei é que é famoso, atende todo mundo, mesmo quem não pode pagar, muita gente se curou e ele é sempre muito simpático.
─Que bom. – É tudo que consigo dizer e então meu avô retorna, pagamos e deixamos a loja. Amanhã depois do exame de sangue vou andar pela cidade, ver um pouco de tudo, quem sabe achar o museu, ou qualquer coisa do gênero.
Ele vai cedo para cama. Precisa dormir bem como Travis disse. Travis? Quando ficamos íntimos? Penso quando me deito, o jeito gentil e atencioso dele me invade a mente bem na hora de dormir.
─Obrigado doutor! – Reclamo me enrolando nas cobertas.
Acordo com um som diferente, afasto as cobertas e quando chego a janela meu avô trabalhava a terra. Busco meu celular, seis e quinze. Que animo.
Espero que tome banho para tirar a terra e vamos para o hospital. Ele reclama para tirar sangue, o provoco um pouco e ele logo se coloca firme.
─Pensei que iria continuar choramingando como um bebê.
─Espertinha. Já estivemos em lados oposto e eu fui bem gentil, te segurei no colo e cantei para você. Mesmo assim chorou.
─Eu era criança vovô. Crianças choram quando encaram agulhas. Já os adultos...
─Pronto senhor. Acabamos aqui. O exame vai direto para o médico.
─Obrigado senhorita. Acho que vamos nos ver mais do que eu gostaria. – Ele brinca desdobrando a manga da camisa. – Tenha um bom dia.
─Vamos tomar um bom café da manhã agora vovô. – Eu convido e ele sorri. Nos sentamos numa lanchonete na frente do hospital, é bem bonita e pelo visto onde boa parte dos médicos se reúne, tem muitos jalecos pelo lugar. Nos sentamos de frente um para o outro.
─Panquecas, mel, leite, café, o que mais? – Meu avô pergunta enquanto a garçonete anota.
─Para mim basta. – A moça se afasta, volta pouco com nosso pedido e nos serve. Tomo um gole do café, suspiro feliz. Não vivo sem uma boa e fumegante xicara de café, mas em solidariedade ao vovô fiquei em jejum.
─Só falta chorar de emoção. – Ele brinca e mostro a língua, faço uma careta.
─Bom dia. – Desfaço a careta quando escuto a voz, me viro e lá está ele, doutor Travis me olhando com cara de quem me viu fazendo caretas feito um bebê.
─Bo... bom dia. – Aposto que estou vermelha feito um pimentão.
─Doutor! Não posso dizer que é uma surpresa, todo mundo aqui parece ser médico. – Meu avô brinca ele sorri. – Sente-se.
Para minha surpresa ele aceita o convite e se senta ao meu lado. Me movo mais para o canto perto da janela, ele finge não perceber meu movimento, a garçonete se aproxima.
─O de sempre doutor?
─Sim Anitta. Obrigado. – Acho gentil que ele a conheça pelo nome, que seja educado, agora que sei que é dono de metade da cidade não sei se acho muito natural ele tomar café da manhã conosco. – E então. Já se acostumaram com a cidade?
─Quero trabalhar na terra e andamos fazendo compras. Agora só falta Ella se acostumar um pouco com a cidade e fazer amigos.
─Não vai ser difícil, tenho certeza. – Seus olhos encontram os meus e puxa como ele faz isso? Parece que fico tonta com aqueles olhos escuros me fitando.
─O objetivo aqui é tratar você vovô. – Digo olhando para Travis.
─É bom focar no tratamento, mas não pense só nisso, encha a mente de outras coisas. Isso ajuda. – O doutor me diz, não para meu avô, ele diz diretamente a mim, como se eu estivesse sendo tratada e não meu avô.
─É sempre o que digo a ela.
─Parece um homem sábio senhor Smith.
─Warren, não estamos no hospital.
─Certo. Nesse caso apenas Travis. – A cara do meu avô fazer amizade com o médico. Ele torna todos a sua volta amigos de infância, daqui a pouco vai estar contando suas piadas ruins. Sorrio só de pensar. – O que acha Ella? Consegue me chamar de Travis?
Ele se vira para mim e fico confusa. Primeiro por que ele pronunciando meu nome dá novo sentido a ele e segundo por que para minha segurança é melhor manter distância.
─Acho... acho que... não sei se é boa ideia.
─Ella é um nome bonito, prefiro a senhorita Smith, mas se quer manter nesses termos. Tudo bem. Senhorita Smith.
─Ok Travis. Vamos ver como isso funciona. Eu não gosto de ser a senhorita Smith.
Desvio meus olhos dos dele. O melhor é me manter longe. Continuamos a tomar café, os dois iniciam uma conversa sobre beisebol. Meu avô ama isso também. Não mais que Elvis Presley é claro.
Beberico meu café enquanto os escuto, vez por outra Travis me olha, sempre desvio os olhos, isso é confuso, parece que ele me paquera. Parece que gosto, meu coração reage a cada olhar.
─A conversa está ótima, mas não posso me atrasar. Tenho que visitar os internados antes da primeira consulta. Nos vemos na quinta? – Ele pergunta direto a mim e afirmo sem achar as palavras, pareceu um convite pessoal.
─Bom trabalho, sorte para seus pacientes. – Vovô diz quando eles apertam as mãos, Travis já de pé. Seus olhos cruzam os meus mais uma vez. – Tem meus telefones Ella, ligue se precisar. Se o seu avô precisar eu digo, no caso dele sentir qualquer coisa, ou ter dúvida de alguma coisa, quer dizer, não como um... Você entendeu.
Parece que ele se atrapalhou todo e não sei bem por que. O que afinal aconteceu na sua cabeça para ele se atrapalhar todo.
─Vamos ficar bem. Obrigada.
Assisto o doutor deixar a lanchonete, acompanho com os olhos até ele sumir e a porta fechar. Me viro para frente e o sorriso complacente de Warren Smith me faz corar.
─Eu acho...
─Não ache. Definitivamente. Não ache. – Advirto e ele dá de ombros.
─Vamos para casa Ella.
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