A Estranha Vida de Carmenny Edmond
8 Nunca se sabe
Notas iniciais
Carmenny Edmond
Nós subimos as escadas e entramos na cozinha, que pelo visto é enorme e tem duas geladeiras, uma normal e outra para alimentos congelados. Guardamos algumas coisas e acabamos com dois potes de sorvete e uma garrafa de energético. Tudo sem bebida alcoólica. Fico até impressionada comigo mesma.
Passou um tempo e resolvemos procurar Adam.
—Será que ele saiu? — tive até medo de perguntar. Ele me olhou pensando nas grandes possibilidades de um Adam bêbado sair com o namorado dele e nos deixar sozinhos em uma festa longe de casa.
—Se ele saiu, não volta mais. Pelo menos não vivo.
Descemos as escadas e saímos da casa, nada de carro, nada de Adam.
—Que vadio — falo antes que Daniel brotasse com um tanque de guerra e fosse até Adam.
—Vamos ter que ir a pé — jura? — Ainda bem que você não veio com aqueles sapatos torturantes.
—Digo o mesmo.
Ficamos sugerindo formas de torturar Adam quando o encontrarmos, até que o carro dele surge das colinas. Eu e Daniel gritamos o mais alto possível, sem resultado.
—Aquela música alta não faz bem pros tímpanos — falo ofegante.
—Deve faltar uns trinta quilômetros pra casa. Eu tenho dinheiro, podemos dormir em um hotel... Sei lá — ele fala sem esperança.
—Por que saímos da festa? Deixamos nossa comida lá...
—Tá muito longe. Vamos procurar um hotel — andar por trinta quilômetros e de noite eram os primeiros motivos para eu concordar.
Andamos um pouco até que eu resolvo perguntar se tem aula amanhã.
—Tem sim. Mas se quiser ir vamos ter que acordar às cinco da manhã e vai estar frio.
—Que tal ligarmos para o Adam? Tu tem o celular dele, não tem?
—Tenho, mas meu celular tá no carro — pausa longa o suficiente para um gênio ter uma ideia genial — Podemos ligar de um hotel. Não sei o número dele, mas sei o meu.
—Pode ser.
Um carro estaciona ao nosso lado, o carro do Adam. Ele abaixa o vidro e não está bêbado, pela glória de misdo.
—Por que saiu da festa, seu arrombado? — Daniel e eu gritamos quase ao mesmo tempo, mas eu mudei o arrombado para 'putano'. Adam faz uma cara de espanto e logo depois ri.
—Fui deixar meu amigo na casa dele. E não achei vocês para avisar, onde estavam?
—Na cozinha comendo — falo normalmente até que percebo que sou a única pessoa decente nesse carro. Nunca seja uma pessoa maliciosa, isso acaba com você.
—Vamos voltar ou ir pra casa? — Adam pergunta.
—Ir pra casa. Quero dormir — falo quase dormindo.
—Nem parece que acabou com uma garrafa de energético quase sozinha.
—É assim que eu vivo — falo deitando no banco e dormindo. Na verdade, dava pra escutar tudo, mas eu estava em outro mundo.
—Quer que eu coloque música? — Adam pergunta.
—Ela tá dormindo, Adam.
**
Acordo e fico olhando pros lados até concluir que esse é meu quarto na casa da família Adams, entendeu? Adams, Addams. Desculpa.
—Caralho... To morrendo.
'Tenho aula'. Penso e levanto da cama num pulo procurando a mochila.
Acho ela onde? No banheiro. Desço as escadas correndo e olho no relógio, seis e meia. Eu tenho aula às oito horas. Não custa nada acordar mais cedo e fazer tudo com calma.
Faço meu café, pego o máximo de comida que acho na casa e coloco tudo que der na mesa. Ou seja, no máximo uns dois pães que parecem pedra e uma manteiga também dura.
Alguém bate na porta. Pego a faca, nunca é tarde para bancar o herói.
Abro a porta. Adam e Daniel. Bem que eu suspeitava a casa estar em silêncio.
—O que deu em vocês? Se tivessem de costas poderia ter matado vocês — minha paranoia não tem fim. Adam ri e entra, seguido de um Daniel sério. Medo.
—Por que acordou tão cedo? — Daniel pergunta.
—Eu que devia perguntar porque chegaram em casa tão... Tarde?
—Fomos na casa de uns amigos e também fomos buscar as comidas que você tanto ama — ele levanta uma sacola com sorvetes — Só não vai comer agora. Seu cérebro pode parar de funcionar.
Sorrio e vou até a mesa terminar meu café, que está gelado.
—Não fez nosso café? — Adam fala, indo até a cozinha.
—Não sou sua empregada, querido — falo e logo depois coloco café em minha boca, Adam lança um 'beijinho no ombro' e eu engasgo com o café, cuspindo tudo na cara de Daniel, que por sinal estava no caminho.
—Caramba... Você só pode ter um problema mental — ele pega um pano e limpa a cara.
—Diga isso pro Adam. Ele que causou isso tudo.
—Quê?! Quer dizer, não deixa de ser verdade. Mas quem virou a cabeça pro lado?
—E quem estava ao meu lado? — só faltava um daqueles óculos de treta.
**
Todos tomam seu café , se arrumam e vamos para a escola às sete e meia. Eles estavam com aquela paranoia de se atrasar e pá.
Quando chegamos na escola, eram sete e cinquenta. Vinte minutos para chegar em um lugar que levam apenas dez minutos. Mas estamos com quem na direção? Adam.
—Sabia que eu encontrei uma daquelas suas amiguinhas na festa? — Daniel fala — Ela me disse que vai ter volta.
—Nem me preocupo. Vai que surge um pontapé bem no meio da cara dela? Nunca se sabe.
—Nunca se sabe — ele repete saindo do carro. Eu saio também.
—Se cuida, Carmen — Adam fala de dentro do carro. Eu aceno com a cabeça.
Entramos em uma escola escassa de alunos. Digno de um filme de terror.
—Que foda que a escola fica assim. Devíamos chegar aqui mais cedo sempre.
—Você muda de ideia quando acorda de manhã — o gênio fala e não deixa de ser verdade.
Entramos na sala onde iríamos ter aula — jura? — e ficamos desenhando besteiras no quadro.
—Somos artistas — falo, admirando os vários pênis mal feitos no quadro. Ah, também tinham bonecos palito, joguinho da forca e pá.
—Mas é claro. Quando verem isso vamos ser chamados para uma daquelas exposições de quadros. Vai ser bem louco — ele fala e eu quase engasgo quando aparece uma professora na porta da sala.
—Nossa. Que horror esses desenhos no quadro, não é, Daniel? — falo apontando a cabeça para a porta. Até que ele percebe.
—Ah, é verdade. Que alunos mal educados os que fizeram isso — ele fala e eu solto um suspiro de alívio.
—Vocês não me enganam. Eu que apaguei este quadro ontem de noite e vocês são os únicos alunos na escola agora. Quando o diretor voltar vou procurar vocês.
Ela vai embora. Eu e Daniel nos olhamos e começamos a dar risada.
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