A Estranha Vida de Carmenny Edmond
9 Meio Melancólico
Notas iniciais
Carmenny Edmond
Nós pegamos detenção, o que não fez absolutamente nenhum sentido. Apenas fizemos algumas brincadeirinhas. Ninguém iria morrer por isso. Bem, talvez eu morra de tédio na detenção.
Daniel tinha todas as aulas comigo, exceto por educação física. Eu e ele fazíamos separadamente por que resolveram dividir entre grupos masculinos e femininos... Perda de tempo.
Eu fui pro ginásio e fiquei sentada observando as meninas com uniformes esportivos falarem animadamente sobre o novato (Daniel). Eu ri quando pensei na cara que fariam se soubessem que eu praticamente morava com ele.
E aquela vagabunda não perde uma.
— Tá rindo do quê, TPM?- pergunta ela, cutucando as amigas.
— Da sua cara de sonsa — falo, levantando do banco. Ela dá uma risadinha de indignação.
— Te orienta, garota! Você recém chegou. Na escola e tá se achando a maioral! — ela meio que grita enquanto dá com o dedo indicador no meu ombro com força.
— Não vou gastar meu tempo e humor com você. — falo, agarrando o pulso da loira e ttirando- o. Ela abre a boca, espantada.
E grita "Ai!", como se estivesse sentindo dor.
— Professora! Ela me bateu! — fala, apontando pra mim.
Eu estreito os olhos, balançando a cabeça incrédula. Murmuro "Vaca". Ela ri sem que a professora veja.
— Carmenny! Já para a diretoria! — grita a professora.
Ela não mexeu um dedo quando aquela puta tava gritando comigo. Quer saber? Pra diretoria eu não vou!
Fui no vestiário, tirei o uniforme e peguei o maiô. E peguei o caminho para a piscina.
Chegando lá, encontro uns seis garotos dentro dela. Paro de andar por um instante. Eles ficam me olhando.
— Hum... — murmuro, procurando por Daniel. E lá estava ele, saindo do vestiário. Quando me avistou, riu com o nariz e veio até mim.
— Tá olhando o quê? — exclamo, cruzando os braços.
— Você é a única garota aqui — ele diz o óbvio e eu faço uma cara de "Jura?" — Por quê não tá junto com as meninas?
— É que eu queria fazer uma suruba — falo, séria. Ele ri — Eu fui expulsa.
— Bateu na Stefany de novo? — como ele sabia o nome da puta?
— Mais ou menos... Na verdade ela inventou que bati — falo revirando os olhos.
— Que vadia — ele fala, incrédulo. E pega no meu braço — Vem, vamos nadar. Eu te apresento os rapazes.
Quando entro na água, quase morro de pneumonia. Tá mais gelada que o meu coração. Brincadeirinha, meu coração é super quentinho e abriga muito amor. Hehe.
Daniel me apresenta os garotos: o loiro com olhos castanhos é o Robert, ele é bem quieto; o de olhos verdes e cabelo escuro é o Elliot, que é muito sério e bonito; o de olhos e cabelos negros é o James, ele é baixinho, gordinho e risonho; o loirasso de olhos claros é o Matt, que me olhou de cima a baixo; o de cabelos cor de mel e olhos negros é o Ian, que é mais na dele, assim como o Robert; e também um garoto ruivo com olhos meio sem brilho azuis, chamado Jeremy, ele deu um sorrisinho triste e desviou o olhar.
— Prazer em conhecê-los — digo meio irônica, mas foi sem querer, juro.
— O prazer é todo nosso — disse Matt, fazendo uma breve reverência. Sorrio sem graça.
Posso ouvir Daniel revirar os olhos.
— O que poderíamos fazer? — disse Elliot, boiando para trás.
— Verdade ou consequência.- sugeriu James, o gordinho.
Eu me aproximo de Daniel, como se ele fosse me proteger da maldição do jogo. Mas ele só concorda e sorri logo depois.
Eu sorrio também.
— Então tá.- digo — quem começa?
Corro os olhos por todos, Robert é quem levanta a mão, meio hesitante.
— Matt. Verdade ou consequência? — ele tem um tom divertido na voz.
— Verdade.- Matt fala, depois de pensar por cinco segundos.
— Com quem você perdeu a virgindade? — pergunta mais divertido ainda. Robert parecia saber da resposta.
Matt demora algum tempo e abre a boca para falar várias vezes.
— Anda! — grito eu, seguida de alguns garotos.
— Com a Carla — diz ele, finalmente. Parece ter perdido toda a extroversão que tinha no inicio.
Alguns meninos riem, menos Daniel, Ian e Jeremy. Eu e Daniel ficamos boiando nos dois sentidos até que Robert decide fazer mais uma pergunta.
— Sobrenome — pede. Matt estava super vermelho.
— Hills — e todos caem na gargalhada (menos eu e Daniel) — eu estava bêbado, ok?
— Certo, quem é essa tal de Carla Hills? — pergunto.
— Uma garota muito esquisita. Dizem que ela é retardada, mas na verdade ela costumava ser muito popular. Humilharam tanto ela que ela perdeu até um pouco da sanidade e agora se veste igual uma louca. Matt perdeu a virgindade com ela no início do...- Matt dá um pontapé no gordinho. Eu dou risada — Do ano passado.
— Entendo — digo — Mas vida que segue, né? Matt, é a sua vez!
— Hum...- ele olha para todos e para em Daniel — Daniel. Verdade ou consequência?
— Verdade — ele responde sem hesitar.
— Por quê você foi expulso de casa? — eme pergunta sorrindo e eu fico tipo "Puta que pariu!".
Daniel me olha, eu olho para ele e depois para Matt, que olha para Daniel. Todos ficam atentos.
Eu sinto a mão de Daniel se mexer debaixo da água.
— Bem... É pessoal.- ele fala e eu fico balançando a cabeça freneticamente.
— É mesmo! — grito mais alto que esperava e todos me olham. Daniel me olha tipo " O quê que você sabe?".
— Vai ter que responder.- diz Matt, malicioso.
Estreito os olhos para ele e ele sorri.
Sento na beirada da piscina. Daniel parecia tão calmo. Como pode?
— Fui expulso de casa por que me defendi e acabei matando o meu tio — ele fala, sério. E todos se espantam.
Olho pra ele preocupada.
— Cara... — Matt começa a falar, arrependido — Foi mal.
Daniel ri, sarcástico e mergulha, indo até o outro lado da piscina. Ele se apoia na borda, sai e entra no vestiário.
— Olha o que você fez, cabeça de vento! — grita Robert, o que abre caminho para outros xingamentos do restante dos garotos.
Eu bufo e levanto, irritada. Entro no vestiário, onde encontro Daniel vestindo as calças e penso que poderia tê- lo encontrado nu.
— Hey, Daniel — falo — Tá tudo bem?
Ele se vira com a cabeça baixa. Parecia prestes a chorar.
— Ei... — vou até ele e o abraço, sinto as suas lágrimas caírem no meu ombro.
Ficamos mais ou menos um minuto abraçados, até que ouvi passos e vozes. Nos afastamos e ele vira para trás enquanto enxuga as lágrimas.
O primeiro que entra é o gordinho, que exclama algo como "Não falei?" quando me vê junto de Daniel. Logo atrás, Matt, Robert e o restante.
Ele termina de se vestir e se vira para todos, que com certeza notaram que chorou.
— Hum...- Matt parece pensar no que falar — Não vai tomar banho?
— Não. Estou bem assim — depois de Daniel, ninguém mais falou. Todos foram para as duchas.
E só depois percebi que a minhaminh estava entrelaçada com a dele. Não faço nada, até que ele quebra o silêncio.
— Não vai trocar de roupa? — ele pergunta, desfazendo as mãos e passando-a no cabelo molhado.
Olho para mim. Só de maiô rosa.
— Tá no ginásio.- falo e lembro da tal Stefany — Eu volto rapidinho, tá?
Ele assente com a cabeça. Está meio melancólico.
Eu nunca pensei que fosse ver ele chorar. Quando eu o abracei, ele desabou. Demorou um tempo para ele retribuir o abraço, e quando retribuiu, foi de verdade.
Tanto pensei que nem vi pra onde ia. Olho pros lados. Acho que tô no corredor certo.
Quando chego no ginásio ouço a voz daquela putiane e das outras amigas paga-pau. Entro por trás da arquibancada e vou no vestiário. Visto a roupa e me mando.
Graças a deus a lacraia não me viu.
Volto onde Daniel deveria estar, mas não estava. Muito legal! Agora vou sair por aí com o cabelo molhado e descabelado procurando um ser humano choroso.
Encontro Ian e pergunto se ele viu Daniel, ele diz que ele foi "Naquela direção ". Que era a biblioteca.
Encontro Daniel lendo um livro familiar.
— Oi — falo, me sentando ao lado dele — Eu tenho esse livro. Achei que aqui só tinham livros antigos.
Ele ri com o nariz e me olha. Seus olhos estavam levemente inchados.
— Daqui a pouco temos detenção — ele fecha o livro e coloca na mesa.
— Você tá triste? — pergunto, me inclinando um pouco.
— Lembrar daquilo foi muito... — ele fecha os olhos e suspira.
— Impactante? — ele concorda — fazia tempo que você não falava disso em voz alta, não é?
— É.
— Mas por quê você falou?
— Eu queria calar a boca del, mas fiquei mais impressionado do que esperava — ele pensa um pouco — Obrigado por... Você sabe.
— Disponha — falo, sorrindo
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