A Estranha Samwoor
2 Capítulo 2 - Todos a bordo, fecham-se as portas
Notas iniciais
Só podia ser piada de mau gosto: Dois desmaios e duas quedas em menos (será?) de 24 horas! A única diferença entre um e outro é que a garota agora não estava acordada. Caía, o corpo inerte, movendo-se apenas por força do vento e gravidade, a boca entreaberta e os olhos virados sob as pálpebras. Não sonhava, porém, em meio a tal profundo sono que a envolvia, apenas escuridão enxergava. Como quando pequenina o tempo parecia voar, mal viu o quanto pairou pelos céus antes de chocar-se contra um telhado antiquado (parecia madeira coberta por feno, tudo um tanto primitivo). Ele se partiu com um estalo ao que fez contato, por um lado amortecendo a queda, por outro lhe ferindo as costas e tirando-a sobressaltada de sua apneia. Devia estar consideravelmente apodrecido para quebrar com tanta facilidade, ou talvez a velocidade da menina fosse tamanha que nem as mais poderosas vigas de aço seriam capazes de resistir, mas quem se importa? Nesse momento a última coisa com que Lize se preocupava era a condição bizarra de seu pouso. Afinal, onde estava agora? Pedira para voltar para casa, mas a sua, não esse edifício estranho e mal acabado! Aquela criatura, tão tendida a falar em metáforas, não podia interpretar corretamente nem uma simples oração? Agora além de perdida estava dolorida, cansada e estressada. Em toda sua irritação decidiu encolher-se ali mesmo para uma boa pestana e só depois preocupar-se em resolver seus problemas.
...
— Será que ela ainda está viva? – Murmurou uma voz desconhecida, detectada apenas por um leve milésimo de sua mente.
— Não seja idiota, Coragem! Nunca nos mandaram um cadáver, nem sei se isso é possível!
— É, mas foi quase quando a Preguiça entrou aqui, não?
— Ô, inteligência! O caso é que ela é tão lerda que nem levantar queria, não foi por estar morta.
— Mas que pareceu, pareceu.
— De qualquer modo acho melhor a levarmos para dentro. – Argumentou outra voz, pelo tom tentando apaziguar a situação.
— Tecnicamente ela já está dentro.
— Oras, você entendeu o que ela disse! Vai ficar dando uma de Preguiça, agora? Venha, ajuda a levantar a emoção!
— Como sabe que é uma? Nunca a vi em todos meus anos lá fora.
— Não é como se passasse muito por lá.
— E a tal anjinha albina já nos mandou algo diferente, por acaso? Ande rápido!
— Não precisa ser tão rancoroso, já estou indo. – Silêncio.
De repente Lize sentiu o corpo erguer-se do chão, algo lhe agarrando pés e mãos. Abriu os olhos, assustada, e soltou um grito esganiçado. Logo todos já a largavam por impulso, pares e pares de olhos concentrando-se em um único alvo.
— Que é isso?! Quer matar-nos de susto?! – Exclamou o mais alto rapaz. Era moreno, o corpo esguio e os olhos rubros. Aparentava ter uns dezessete anos, o mais velho dentre todos.
— Quer isso é você! Que porcaria de lugar é esse?!
— Olha o jeito que fala comigo, mocinha! Não sabe com quem está brincando!
— Não sei, é? Será por quê? Pois o fato de ninguém ter me dado uma única resposta direta nessa fossa toda não deve ter a mínima importância, né?!
— Iih... Parece que Raiva se subdividiu em Irritação. Qual o seu nome, pequena? – Comentou uma garota baixinha, mais ou menos de sua idade, os cabelos amarelo-claro caindo em doces cachos até os ombros. Seus olhos eram cinzas vivas e o sorriso sarcástico.
— Engraçadinha... Quero ver se continua assim depois que partir-lhe o nariz.
— Qual é o seu nome? – Exclamou Lize, ainda irritadiça. Detestava mais do que tudo essa ausência de informações, e ser tirada tão bruscamente do sono não era algo que melhorasse seu humor.
— Ah, vê se cala essa boca, Raiva! – Ela já caía na risada. – Quem é você para ter coragem de me bater, até parece que alguém ainda não sacou que você morre de medo da Razão.
O rapaz não respondeu.
— Dá para dizer logo ao menos quem vocês são? – Reivindicou mais uma vez.
— Não, eu perguntei primeiro.
— Recuso-me a responder antes de você.
— Bem... Então vou ter de adivinhar. Birra? Pirraça? Irritação? Pavio Curto?
— Que porcaria de nomes são esses?!
— Bah, dá canseira só de olhar as duas discutindo. O nome dela é Alegria, está bem? Agora diga o seu.
— Heloize.
— Helo o quê?! – Berrou quem deduzira ser Coragem. Todos a encaravam de modo diferente agora. Alguns com intriga, outros com curiosidade, todos puxando um pouco para asco e surpresa.
— Heloize. – Repetiu.
— Que tipo de emoção é essa?
— Hein? De onde é que tirou essa de emoção? Alguém pode por favor me explicar o que está acontecendo?
Um silêncio espalhou-se pelo casebre destruído, ninguém sabia o que dizer. Ele perdurou apenas alguns segundos, mas quem é o relógio para dizer o quão isso demorou na mente de Lize!
— Vamos, eu quero saber. – Insistiu.
— Olha, conto assim que eu descobrir. – Respondeu Alegria, até ela meio abalada pela a informação. Mas afinal, o que havia de mais em um nome? Por que tantos olhares assustados surgiram de repente?
— Ah, fala sério! Isso é irritante, sabia?
— Irritante? Irritante? Você cai na nossa vila sem mais nem menos, começa a armar um barraco, tira-nos de casa a essa hora e ainda acha irritante? -Esbravejou Raiva, quase avançando na pequena.
— Olha, estamos todos igualmente confusos. Que tal resolver isso mais tarde e arranjar um lugar para a... O que você é, meu bem? – Tentava apaziguar uma ruiva que acabara de entrar, aparentando já estar na meia idade. Seus olhos eram tão serenos que pareciam aquecer os corações de quem os encaravam.
— Uma garota, o que mais? Ser humano, Homo Sapien Sapiens, entende? – Respondeu, falando como se a interlocutora tivesse alguma deficiência mental.
Novamente silêncio.
— Bem... Então... Garota, não? Por que não a levamos para dentro e resolvemos depois essa confusão?
— Está louca? E se for espiã do outro lado? – Ele pronunciou as duas últimas palavras com certo temor, apesar de disfarçado.
— Para que enviariam espiões aqui, criatura? Mesmo que mandassem não teriam nada para ver, esqueceu que estacamos há anos naquele muro estranho? – Argumentou a loira.
— Mesmo assim, melhor prevenir do que remediar.
— Para de caçar pelo em ovo! Que outra escolha nós temos, se não a levar?
— Mas... Ah, que se dane! Se der algo errado não foi por falta de aviso.
— Espera, me levar para onde? Que porcaria é essa? – Perguntou Heloize, já perdida na conversa.
— Ahn... Seja bem-vinda a seu novo lar, a Campina Direita.
— Explique isso melhor.
— Não está em condição de dar ordens, garota.
— Quieto, Raiva, não custa nada responder. Mais tarde você aprenderá mais sobre o lugar, criança.
— Ela não é criança, tem a minha idade. – Irritou-se Alegria.
— E então...? – Um tapa quase acertou o moreno, fazendo-o apenar sorrir.
— Parem, os dois! Ou então vão ambos para o castigo! – Isso, seja lá o que fosse, os fez fechar a boca. Ela suspirou. – Continuando, você já deve ter ouvido o básico sobre nós da Concentração Alfa.
— Quem?
— A anjinha...
— Uh, os poemas estranhos?
— Sim, isso!
— Ouvir eu ouvi, entender é que são elas.
— Bem... Então lá vou eu de novo explicar a velha história de sempre... Nós, emoções, convivíamos bem pela Central até que, sem motivo explícito, pequenas pedrinhas começaram a brotar do chão, todas unidas e impossíveis de arrancar, explodir ou qualquer coisa do tipo. Simplesmente ignorávamos, mas quanto mais se passava por elas, maiores ficavam. O resultado foi que ao atingirem um metro e meio ficou um tanto impossível ultrapassá-las e chegar à área rural, onde fica todo o solo fértil, sem usar equipamentos. Assim que o fizemos o que agora se tornava um muro cresceu impressionantes três metros, quase isolando-nos dentro de lá. Assustados, decidimos sair todos e acumular mantimentos para caso ele ainda mais crescesse. Foi só colocarmos o pé fora da vila que ocorreu mais um estirão, dessa vez incontrolável: Dez, vinte, trinta metros. Já há muito perdemos a conta, a cada dia sobe mais. Bem, ao menos não somos um daqueles infelizardos que decidiram ficar na cidade.
— Por que infelizardos?
— Oras, não é óbvio? Toda a comida está desse lado! – Intrometeu-se Raiva.
— Mas eles não poderiam simplesmente cultivar por lá?
— E quem derrubaria sua casa para fazer horta?
— É melhor do que morrer de fome.
— Independente de como os de lá se viraram, – Continuou, cansada de interrupções. – o que importa é que buscamos descobrir a causa de tal muralha. E... Bem, digamos que não foi agradável.
— E o que era?
— Tudo o que não precisamos é de mais um em dúvida, se Alfa mandou-a aqui é porque no final acabaria se juntando a nós de qualquer jeito.
— Então conte! Se já sabe o fim nada vai mudar.
— ...e por isso não faz diferença eu dizer ou não. Agora me deixe continuar. – Finalizou, impaciente, mas Lize não desistiria tão fácil. "Mais tarde eu descubro, mais tarde...", afirmava a si mesma. – Digamos só que tal pedreira foi capaz de dividir-nos mais de uma vez: O grupo que queria ultrapassar a barreira sem muitos danos e o que queria vingança total e completa. Foi aí que surgiram Alfa e Beta.
— Como? Do nada assim?
— Não faço a mínima ideia. Só sei que apareceram e coordenaram toda a separação. Traçaram uma linha que cortava toda a área rural, dividia-a em duas partes. Não as acompanhamos, desistindo mais ou menos após sete quilômetros de caminhada contínua. Dividiram-nos, então, em dois grupos distintos: Os que queriam vingar-se e os que apenas desejavam voltar para suas casas. Bem, nós somos o segundo. Cada um foi para o lado indicado e ficou a dez passos de distância da reta, e ao que o ultimo decidiu-se uma nova rocha brotou do solo, tão alta quando a que bloqueava a cidade. Tentamos desde então descobrir um meio de escapar, mas a meta parece mais distante a cada dia...
— Beleza... Informação de mais. Deixa eu ver se entendi: Isso aqui é algum tipo de universo paralelo onde nada faz sentido?
— Como?
— Ah, deixa. – Suspirou, massageando a ponte do nariz. – Só quero voltar para casa.
— Estamos cercados por todos os lados, não há como sair.
— Fala sério!
— Estou falando.
— Se tem um jeito de entrar, então dá para sair. – E de repente a ficha caiu, tardia mas presente. – Pera. Você está me dizendo... Que é uma... – Gaguejou, os olhos arregalados de descrença.
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