Renato empurrou a comida calmamente pela boca. Camila estava transitando com impaciência pela cozinha enquanto dava um olhar de esguelha para o marido sentado atrás do balcão de mármore. Os acontecimentos da noite anterior mexeram em algo que estava escondido nas profundezas da alma de qualquer pessoa. Porém, ela não sabia de nada. Talvez sua própria culpa estivesse a cobrando por todos esses anos subjugada ao homem que um dia amou, mas que depois acabou se tornando um verdadeiro crápula da pior espécie. A mulher depositou com certa aspereza uma tigela cheia de cereais misturados com leite no balcão e ofereceu uma colher a Renato, que a puxou de sua mão. Em seguida, ele massageou o cabelo e engoliu o aperitivo de forma mecânica. Virou-se para olhar a silhueta trêmula da esposa e esperou que ela percebesse tal gesto.

Quando finalmente viu, deu um passo para trás, acanhada. Engoliu em seco.

— Mulher, sente-se aqui um instante. Preciso lhe falar uma coisa.

Algo na sua fala indicou que não iria dizer uma frase tórrida, como a clássica “eu te amo”. Mas Camila esperava muito por isso, embora nunca tivesse reclamado. Há anos não trocavam um gesto de carinho e isso aos poucos a deixava destruída por dentro. Talvez já estivesse podre. Porque morta praticamente já estava. Era uma mera boneca a ser controlada. Já não sabia mais o conceito de vontade, de livre arbítrio e nem a sensação de respirar aliviada. Depois de um pouco divagar, sentou-se ao lado do marido e esperou que começasse a falar o que quer que fosse.

— Ontem aconteceram algumas coisas e provavelmente a polícia virá até aqui me fazer perguntas e eu não quero ser incomodado, entendeu? Em qualquer horário que vierem você deve dizer que não estou em casa. O resto deixe que eu resolva. — disse. Sua fala era rígida, a voz grave contribuía para espalhar a sensação de medo. Até hipnotizava as pessoas. Com esse possível dom, Renato se acostumou a nunca ser contrariado ou vencido.

— Desculpe-me por perguntar, mas o que aconteceu? — perguntou Camila.

Os olhos de Renato brilharam e seus dentes estalaram.

Respirando rápido, se levantou de um salto e ficou em uma proximidade feroz. A esposa viu algo muito estranho no ar, como se estivesse sendo encarada por um leão e logo se arrependeu de ter sido tão curiosa. Renato deu mais alguns passos, deixando a mulher desnorteada e por instinto recuou, sentando-se involuntariamente em um dos bancos altos. A cozinha possuía a classe e a elegância do estilo dos ingleses, com muita distinção e bom gosto. Os móveis ajudavam a dar ao lugar algo de nobre, porém era de um capricho simples. Mesmo assim, em todos os cômodos da casa se estabelecia uma atmosfera tensa, repleta de segredos, medos e receios. Não poderia ser de outra fora: a madeira era a grande protagonista da decoração, especificamente o carvalho, e esse toque artesanal tornava tudo mais especial, deixando prevalecer os tons bege e creme.

No centro, o destaque era o jogo de cadeiras pequeno e circular, cujas cadeiras possuíam algo de muito clássico, apoios para os braços e forros coloridos. Perto da mesa, existia um armário de largura considerável e pouca altura, já até um pouco desgastado, que estava cheio de panelas e alimentos, colocados nas muitas gavetas e portas. Ao seu lado repousava uma flor que não tinha nenhum significado, mas que ficava bonita onde estava. Havia duas portas que levavam a pequenas áreas, nas quais se lavavam a roupa e serviam de depósito para mais matérias utilizados na cozinha iluminada pela luz natural que vinha das janelas.

Renato ergueu com malícia o queixo de Camila e a olhou profundamente.

— Vamos deixar as coisas bem claras por aqui. Você quis se casar comigo. Eu concordei. Já estamos há anos desse jeito... Camila, sabe muito bem quem manda e quem obedece aqui, até por que você não tem a mínima capacidade para comandar uma casa. Se não fosse por mim, você seria um nada, uma solteirona de merda sustentada pelos pais. Nada mais justo que eu fazer as perguntas e você responder, sem possibilidade do contrário, não acha?

Ela sacudiu a cabeça com força e ameaçou tirar as mãos dele do seu rosto. Ele, por sua vez, fez um som com os lábios parecido com o que fazemos quando estamos chamando por um cachorro. Riu brevemente, mas foi suficiente para que parecesse louco. Anunciou que ia tomar banho, mas foi impedido por um grito estrangulado da esposa. Surpreso, virou de frente para ela novamente, porém ficando no mesmo lugar. Ergueu as sobrancelhas, cognitivo.

— Espere. — Camila se atropelou em uma palavra.

— Sim? O que foi, querida? — retrucou com a voz mansa. Seu cinismo estava óbvio.

— Você... Você tem que me dizer o que falar. Posso... Posso falar besteira.

Ele sorriu, satisfeito. Nos últimos minutos, disse passo a passo o que ela teria que dizer caso os policiais chegassem de repente e sua mente trabalhou para guardar tudo nos mínimos detalhes. Aqueles olhos frios e enevoados não a deixavam tomar alguma atitude. E o pior de tudo, Renato se mostrava incrivelmente atraente. Para as desavisadas ingênuas, como ela, era uma dose fatal. Ele sinalizou positivamente com o polegar, dando-lhe uma piscadela para enfim se aproximar do banheiro e fechar a porta para um banho demorado. Tudo estava saindo como o seu planejado: Pedro, o filho, não contrariaria quanto à viagem para o exterior. Camila poderia ser um excelente fantoche a seu favor. E Bia... Seus pensamentos rapidamente se voltaram para aquela noite na praia.

Ninguém a mandou ser idiota. E somente os fortes ficam do meu lado.

A imagem no espelho o deixou satisfeito. Seu rosto estava um pouco marcado, mas nada que lhe tirasse a beleza. Em seguida, entrou no boxe que separava um lugar do outro e ligou o chuveiro quente. Foi o suficiente para que relaxasse ainda mais e se sentisse um vitorioso. A água percorria seu corpo todo e funcionava como uma impressionante terapia. Depois de alguns minutos se lavando, ia sair quando ouviu vozes altas vindas da sala.

Camila se preparava para atender a porta e seus dedos suados a fizeram tocar a maçaneta por duas vezes até que encarasse dois policiais corpulentos. O primeiro era moreno, baixo, com a boca carnuda e uma cicatriz na testa. O segundo tinha a pele um pouco mais clara e era igualmente baixo, porém seu timbre de voz era mais leve e autoritário.

— Por favor, procuramos os senhores Pedro e Renato Mendes. — anunciou o pardo.

— S-sou a mãe de Pedro e esposa de Renato, Camila. Eles não se encontram no momento.— respondeu e reclamou a si mesma por estar gaguejando. A postura dos policiais indicou que não estavam acreditando em uma palavra do que ela estava dizendo, o que era compreensível.

— Temos um mandado para revistar a casa à procura dele.

Os dois foram entrando sem pedir, enquanto a outra se via cada vez mais paralisada. Começaram pela sala espaçosa, que continha dois sofás verdes. A televisão grande encontrava-se na parede, juntamente com a pequena estante que guardava os aparelhos domésticos daquele ambiente. Camila observou demoradamente as fotos da família que se encontravam espalhadas, imersa em um tédio em igual. Depois, passaram pela cozinha, para os quartos e depois para o banheiro e, insatisfeitos, deram um sussurro de adeus para a senhora tensa que fechava a porta. Renato apareceu logo em seguida. Escondeu-se no closet secreto de seu quarto enquanto acontecia a revista. Os cabelos estavam bagunçados, o que lhe garantia charme extra. Bateu palmas na direção de Camila, dando os parabéns pela encenação perfeita. Porém, sua expressão não se alterou.

— Por que eles estavam procurando pelo meu filho?

— O que foi que eu lhe disse sobre perguntas, querida?

Ela começou a chorar aos poucos e logo seu rosto ficou vermelho.

— Você não vai colocar o meu filho no que quer que esteja fazendo!

— É mesmo? O que vai fazer? Me impedir? Mosca morta. — falou com muita revolta, não entendendo a reação da esposa ao que estava acontecendo. Nem perdeu tempo vendo-a chorar, pois se trancou no quarto e ligou a televisão, zapeando entre os canais. Enquanto isso, Camila jurava para si mesma que faria o possível para que o filho, com todos os seus defeitos, não levasse uma vida medrosa como a dela. No entanto, era impossível que esse sentimento não a dominasse: o temor.

Os passos lerdos a levaram até seu quarto. Não fechou a porta no trinco, pois o marido não gostava disso, mas apagou as luzes e se permitiu chorar em silêncio, afogando as lágrimas que vinham, mas não impedindo a dor no peito cada vez maior. E assim ficou até que estivesse cansada demais para pensar, então adormeceu.

Enquanto isso, em uma casa distante dali, estava Teresa, a mãe de Bia.

No momento em que receberia o telefonema, chorava nos braços do marido.

— Como quer que eu mantenha a calma, Vagner? É fácil falar!

— Querida, vamos deixar isso nas mãos da polícia... Eles são mais capacitados que nós. — explicou Vagner, sempre a voz sensata de toda aquela casa. Ouviu o telefone tocando na cozinha e se desvencilhou da mulher frágil para ir atendê-lo. Pegou o telefone e ouviu o que o delegado tinha a dizer. A ligação demorou mais que o previsto e as notícias não eram nada animadoras. Voltou para os braços da senhora e respirou fundo antes de falar.

— Era o delegado? O que ele disse?

— Quase nada de importante... Foram revistar a casa de Pedro Mendes e não o encontraram lá. Talvez tenha fugido. Mas eles não vão desistir de continuar procurando e as investigações estão a todo vapor. Só temos que ter um pouco de paciência com isso. A vida é esperar, não é? — indagou e recebeu um salto inesperado como resposta. Os olhos vermelhos de Tereza não deixavam dúvidas de sua angústia.

— ESPERAR? Já estou cansada! Até quando?!

— Seu sofrimento não pode justificar o tratamento que você dá às pessoas. Eu não tenho culpa! Pare de descontar tudo em cima de mim! Eu também sou pai e amo a minha filha como você. Quero que as coisas se resolvam logo, mas não é assim que funciona!

— Que se dane! — a voz da mulher estava cada vez mais alterada. — Você e essa sua calma irritante! Agora ela não está adiantando para nada! E você nunca me entende como eu quero! Não sabe nada da tristeza que estou sentindo! A Bia significa muito na minha vida, mais que você!

— JÁ CHEGA, TERESA! Você achou bom de brigar em um momento desses, em que temos que ficar cada vez mais juntos?! Não se esqueça de que é isso que aquele desgraçado do Renato quer! Nos separar! Jamais gostou de nós! Eu não vou fazer com que o plano sujo dele dê certo.

Teresa voltou a sua lucidez e abraçou o marido com força.

— Me desculpe... Fui uma idiota.

— Não se preocupe.

O homem não queria deixar transparecer seu desespero. Jurou a si mesmo que faria de tudo para resolver de vez aquela situação conflituosa, pois não aguentava ver a mulher chorando pelos cantos, coberta pela angústia. Abraçou-a novamente, passando a segurança que ele mesmo queria sentir, porém não podia. Os policiais também estavam confusos como ele, já que a própria Bia havia dito à mãe que Renato a esfaqueara, mas as impressões digitais diziam outra coisa. A hipótese era de que os eram cumplices no caso, ou um deles estava tentando incriminar o outro. A resposta para isso as investigações trariam, mas não conseguiram muitas pistas, portanto as coisas demorariam a chegar. Viaturas estavam espalhadas por diversos cantos da cidade, preparadas para qualquer ocasião. Mesmo que os suspeitos se escondessem, logo a cerca ia fechar.

— Vagner, estou me lembrando de algumas coisas. Naquela noite, Bia ia me dizer alguma coisa sobre o Renato, mas a ligação caiu. Tenho pensado muito nisso... Com que tipo de homem ela se envolveu?

— Acho que será para sempre uma incógnita. Você sabe que desde o começo eu desconfiava dele, mas nossa filha parecia tão feliz que não quis atrapalhar... Está aí uma coisa que aprendi agora: Confiar na minha intuição de pai. Ainda acho que aquele homem guarda grandes segredos... Ele não é são. E se um dia Renato aparecer na minha frente, sou capaz de mata-lo! — gritou o pai, transtornado e triste. Tomado por um desejo louco e breve de vingança.

A esposa sacudiu a cabeça em negativo.

— Não querido, não suje suas mãos... Um dia, sem querer, ele vai perceber que não é tudo o que pensa. De uma coisa tenho certeza: se a vida não derrubá-lo, alguém melhor que ele vai fazer isso por nós. — seus pensamentos estavam lutando para conseguirem voz. Ela despejou as frases de uma vez e notou o cenho aliviado do marido.

Ele suspirou com demora.

— Você tem razão. É por isso que você é o amor da minha vida.

No meio da noite, Pedro chegava a sua casa, muito cansado. Tocou três vezes a campainha e não entendeu o motivo da porta estar trancada. Os pais sabiam muito bem que ele chegaria tarde. Apertou o botão mais algumas vezes, até que finalmente o pai veio atender e o olhou com desdém.

— Chegando a essa hora, menino! Está brincando com a minha paciência!

— Dane-se. Não sei de merda nenhuma e quero dormir.

Renato abriu passagem para o filho, mas não deixou de traçar um olhar para ele até que sumisse de sua vista. Moleque atrevido, pensou. Repreendeu a ele mesmo por se curvar, por não ter dado nenhuma resposta. Sua relação com ele nunca foi das melhores e o menino era um rebelde sem causa. Sim, por que o pai fazia de tudo para dar o carinho que precisava. Acontece que Renato não queria assumir que era o único responsável por todas aquelas tragédias, externas e internas. Ele mal se entendia, que dirá os outros! Queria que Pedro ficasse segundo o que pensava, que se moldasse segundo o que ele desejava. A família dele teria que ir da sua forma. Como Renato planejara.

E o maldito garoto saiu rebelde desse jeito. Mereço! Os devaneios de Renato pararam quando ele estava prestes a fechar a porta. Algo em sua mente lhe dizia que o cerco estava se fechando e que deveria agir. No entanto, seu olfato sentiu um cheiro familiar. Um cheiro que conviveu com ele durante muito tempo. O cheiro de uma pessoa que foi na praia de Copacabana com ele. O cheiro de Bia. Assustado, observou quando uma mulher elegante se aproximou do corredor e colocou as chaves na fechadura de seu apartamento. Ele não queria arregalar os olhos, mas não pode deixar de conter seu assombro. A mulher olhou diretamente nos olhos dele e sorriu, ligeiramente atrevida. O perfume era suave e inebriante. Atraente como veneno.

Antes que pudesse concretizar a decisão de ir até à mulher atraente, ela se trancou em seu apartamento. Embora desnorteado, o homem fechou também sua porta e foi dormir, esquecendo-se das rebeldias do filho e pensando na mulher que chegou ao corredor. Sorrindo, constatou que adorava resolver aquele tipo de mistério.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.