De início, a mente de Johannes não pensa na batalha à sua frente. Primeiro ela divaga a respeito daquele lugar. Ele pensa no fato daquele lugar talvez dar para algum lençol freático, uma camada subterrânea com água. Porém, aquela caverna parece ter sido feita e não uma formação natural, acentuado pelos pilares e o que parece ser o resquício de alguma construção humana.

“Mas essa arquitetura… Ela não é de Yharnam” a mente de Johannes pensa e pensa, divagando mais.

Johannes — Maria rosna, notando a dispersão do amigo.

O Executor sacode a cabeça, saindo de seus pensamentos. Ele respira fundo, e com isso, inala o cheiro torpe da fera diante deles. Ainda sentada, ainda pacífica. Sem perceber eles. Johannes agarra a alça de sua arma, começando a andar em frente, na direção da fera. Maria o segue, ficando um pouco atrás dele, em seu flanco esquerdo. Ao mesmo tempo que cobre o flanco de Johannes, também está à frente de Pyrrha, protegendo-a.

A garota consegue sentir o cheiro da fera, talvez não tão bem quanto Johannes, mas sua cabeça se permite se perder no lugar onde estão. Alguns esqueletos estão aqui e ali, do que parecem ser seres humanos. Farrapos de roupas boiando aqui e ali. As mãos da garota seguram a pistola com força. Com medo. Algo ali, apesar de não dito, lhe arrepia. É diferente. Diferente das bestas enfrentadas na Floresta Proibida. Diferente até mesmo da enxurrada que enfrentaram no caminho até aqui.

É como uma calmaria antes de uma tempestade.

Pyrrha, assim como Maria, achou que esse lugar fosse aberto para o céu, mas consegue entender que estão dentro das cavernas ainda.

“Será que Johannes sabe o que é isso?” ela se pergunta, tentando se agarrar a pensamentos tranquilos.

Conforme se aproximam, Maria consegue ver que a fera diante deles ainda traja roupas, por mais rasgadas que estejam. Talvez farrapos presos ao corpo por descaso. Seu rosto ainda possui feições humanas, apesar de distorcidas pela praga que o assola. A mandíbula e o rosto deformado e tomado por pelos. Seu cabelo tendo se tornado uma juba desgrenhada e orelhas que claramente deixaram de ser humanas, pontudas e peludas. Seu braço direito está alongado, tomado por uma grossa pelagem que termina em garras afiadas; um braço grosso, bastante forte. O braço esquerdo, contudo, ainda mantém boa parte de sua humanidade, apesar de estar um pouco alongado, mas comparado com o direito, é algo bastante humano. Maria percebe algo na mão esquerda, mas logo sua atenção ruma para outra coisa. As pernas começam normais, grossas e fortes, mas a calça explode em patas de lobo. Pés digitígrados. Ao lado de seu corpo parece haver algo repousando.

“Tem algo do lado dele” Maria percebe, estreitando os olhos.

Johannes rosna, os dentes trincados, e a fera parece ouvir isso. Uma de suas orelhas treme e se ergue, respondendo ao barulho de Johannes. Seus olhos se abrem enquanto seu corpo se projeta para trás, para cima dos degraus da escadaria. O lobisomem então observa o Executor e depois a caçadora. A lembrança de uma expressão pensativa e confusa surge em seu rosto.

— Vocês… Não são da Vila. — Ele rosna, a voz rouca.

Johannes aperta a alça de sua roda com mais força. Maria franze a expressão. Aquela fera fala, mas a atenção da caçadora logo se desvia. Para o que ela havia percebido antes. Tem um canhão de caçador ali. Uma arma rústica, problemática e que Maria só tinha ouvido falar. Poucos caçadores usavam, apenas os membros dos Barriletes de Pólvora.

Pyrrha Perrault dá um passo para trás, assustada, e isso chama a atenção do monstro para si.

— Você… — o monstro balbucia, dando um passo à frente, erguendo a mão na direção de Pyrrha.

Maria leva a mão ao machado, com Johannes dando um passo para trás enquanto ergue a mão na direção da fera, pronto para golpear com sua roda. A fera começa a rosnar. Seus punhos se fecham e seus dentes ficam à mostra enquanto ele pega o canhão com seu braço monstruoso.

— Vocês! — Ele ruge. — Não, não comigo aqui. Não comigo aqui!

Ele continua repetindo isso, sua voz se perdendo cada vez mais em rugidos e latidos de uma fera perdida em si mesma. O lobisomem salta e sua mão esquerda se direciona a Johannes. Não em uma patada ou buscando usar as unhas que já se assemelham a garras, como as demais feras, mas em um soco. Mais especificamente: usando um soco inglês. O Executor demora um pouco para reagir a isso, sua expressão saindo da ira para abismado, perplexo. Maria o puxa, agarrando-o pelas roupas, para perto de si. A fera cai e a água respinga nos três. Pyrrha se afasta mais, quase tropeçando, assustada com a velocidade que a fera chegou até eles.

— Acorda para a luta, Johannes — Maria ordena, irritada. — Essa vai ser uma daquelas.

— Eu conheço ele — o Executor balbucia, atônito.

— Quê? — Maria olha para ele.

A fera se sacode e se vira para os dois, mostrando os dentes e se tensionando nas pernas de trás. Maria avança, estendendo o cabo de sua arma.

— Ele é um caçador — Johannes fala, erguendo a voz enquanto fala. — Ele é o Euthymos.

Maria ergue a sobrancelha, confusa.

“Quem é Euthymos?” ela se pergunta.

Diferente de Maria, Pyrrha compreende isso. E apesar de assustada, ela atira contra a fera, no exato instante que ele ia saltar. O tiro acerta a bochecha da fera, e apesar de não ter sido um dano fatal ou grave, o impacto faz o monstro perder o eixo em que saltou, se desengonçado no ar. Maria, pega um pouco de surpresa pelo disparo de Pyrrha, consegue se reorganizar e levar o machado para trás do corpo. Assim que o lobisomem entra no seu alcance, sua arma avança na intenção de dividir o corpo da besta em dois. Só que um pouco antes da lâmina atingi-lo, o lobisomem desvia o golpe da caçadora, batendo na parte cega do machado forte o bastante para tirar o machado da trajetória original.

Os olhos da caçadora se arregalam, com a fera caindo atrás dela, rolando pesadamente. Ela se vira para trás com um golpe do machado, buscando abrir distância. A fera salta para trás, andando nas duas pernas de trás.

“Aquele canhão. Aquilo é perigoso” Maria pensa.

O lobisomem anda de lado, circulando a caçadora. Johannes tenta se aproximar também, com cuidado, devagar. Pyrrha, ainda mais atrás que Johannes, se protegendo atrás do caçador.

“Aquele é o Euthymos que o senhor Johannes falou?” ela se pergunta.

A besta avança para cima de Maria com socos, mas também tentando atingi-la com suas garras. Johannes permanece receoso em avançar. Esperando algum momento certo que sequer ele sabia qual era. Lê o jeito que a fera que crê ser Euthymos ataca, tentando conseguir algum padrão de ataque. Tenta conseguir encontrar um padrão de ataque. Brechas. Algo. Algum momento com menos riscos.

Enquanto ele continua a pensar — sem sucesso em encontrar o que deseja —, Maria continua lutando, ferozmente. O cabo de sua arma se encurta e se alonga, conforme aquela dança macabra prossegue, hora empunhando um machado curto com apenas uma mão e hora empunhando-o com as duas mãos. O lobisomem tenta socá-la, e a caçadora salta para o lado oposto, cortando a fera com seu machado. A fera urra e seu torso gira para trás, para onde a caçadora foi após feri-lo e a atinge com o canhão. Ela consegue endireitar o corpo para sofrer o impacto melhor, rolando pela água. Ergue o olhar e vê ele erguendo o canhão, levando a altura da cintura. O corpo de Maria parece mais pesado. Precisa desviar daquilo.

Ela fecha os olhos, enquanto ainda tenta saltar. Não sabe se vai conseguir fazer isso com sucesso. Não sabe. Ela tem o Sonho de Caçador, de qualquer modo. Ainda assim, por puro e irracional medo, ela fecha os olhos. Ouve um barulho alto. Mas não o de um canhão ou do impacto do disparo se chocando contra seu corpo ou do chão. Ela cai no chão novamente, já longe do lugar onde estava. Conseguiu saltar para longe.

Ao erguer o olhar, ela vê Johannes lutando contra a fera. Acertou ela quando deu as costas para atacar Maria. A chance perfeita. Um golpe forte contra as costas. O Executor se amaldiçoa pela vista vendada por aqueles panos. Talvez pudesse afirmar se era ou não Euthymos caso pudesse olhar para ele. Queria poder ver o que restou de roupas nele com cuidado. Talvez, assim, veria os trapos de uma roupa de caçador, ou algo do tipo. Sua curiosidade, como sempre, querendo se espremer por entre as prioridades. A força bruta de Euthymos é tanta que ele consegue lutar praticamente de mãos nuas contra Johannes. Ele parava e rebatia os golpes da roda com as mãos, e somente às vezes com auxílio do canhão.

“Ele ainda não disparou usando aquela coisa” Maria pensa, observando a luta.

Seu olhar se cruza com o de Pyrrha, que também está um pouco atônita com tudo que está acontecendo. Uma parte dela quer parar tudo aquilo apenas para tentar dialogar com o que ela e Johannes acreditam ser um caçador há muito tempo perdido. Talvez ele pudesse dar alguma luz sobre todas as questões em seu peito. Aquela fera, que se porta tanto como fera, quanto como caçador. Usando armas de um. Ele havia dito algo no começo daquilo. Tentou falar algo para ela, ou com ela.

Ele tentou se comunicar. E claro que, de fato, vários infectados falam. Gritam maldições e xingamentos que logo se distorcem em urros odiosos até virarem rosnados e urros. Mas o que Euthymos (ou a besta horrenda que se tornou) disse, de algum jeito ou de outro, diferente. O lobisomem urre ao receber um disparo no peito, vindo da arma de Johannes. Um grito que mescla fera e homem em um único berro de pura dor. A fere cambaleia para trás, na direção de Pyrrha. E a garota dá dois passos para trás, com medo. Nenhum dos caçadores está perto dela para protegê-la. Seus braços começam a erguer a pistola. Maria demora para começar a correr. Johannes ainda está se recuperando dos golpes, perdido na tempestade de emoções e sensações daquele combate.

Euthymos olha para a garota de capuz vermelho. Os olhos de Pyrrha se encontram com os do lobisomem, ainda recuando com medo, com total despreparo para lidar com aquilo. E ao se deparar com o olhar daquela fera, Pyrrha Perrault não vê bestialidade. Nem insanidade ou ausência de razão. Tampouco a ausência de um ser humano. Viu ali olhos não diferentes dos de Maria, sua família ou qualquer outra pessoa que conheceu até hoje. Ela vê uma alma cansada atrás daqueles olhos. E esse sentimento faz com que não seja capaz de apertar o gatilho. Faz com que suas sobrancelhas se erguem, em horror. E tudo isso é somado com o sentimento de surpresa quando o lobisomem para na frente dela e se vira para os caçadores, abrindo os braços. Protegendo-a.

Maria e Johannes (que já haviam percebido o que se passa) param, incrédulos. Johannes mais que Maria, lutando para não divagar demais, mas sua cabeça sendo como uma multidão de vozes, com indagações e perguntas sendo repetidas. Maria range os dentes. Não quer ter que pensar nisso. Não quer ter que pensar no porque um maldito lobisomem está protegendo a Pyrrha. Maria avança, levando sua arma para as costas, saltando e mirando na clavícula da besta.

“Pyrrha está logo atrás dele” ela pensa, no ar. “Não posso nem ser horrível e falhar no golpe, nem excelente e acabar pegando Pyrrha junto.”

Ela consegue acertar o golpe, de certo modo. A lâmina do machado entra na pele e na carne do ombro do lobisomem alguns centímetros, antes de ser parada. Euthymos conseguiu segurar o cabo da arma. Seus joelhos se tensionam, envergando um pouco, com a pressão do golpe da caçadora,que cai na frente dele. Com um tapa, Maria é jogada para trás, pela mão livre do lobisomem. Maria cai, sentindo sua roupa se molhar por causa do chão. Ela bufa, irritada, por ter recebido o mesmo golpe duas vezes. Ela move o olhar para a fera, que joga o machado de Maria em Johannes. Ele desvia a arma usando sua roda, redirecionando ela para longe. Johannes não para de correr, tentando não perder o embalo por causa daquilo. Sua roda se choca contra a mão de Euthymos, que segura a arma. Seus pés, deformadas pela praga da fera, são empurradas para trás com o choque do golpe do Executor.

Maria levanta em um sobressalto, correndo. Deveria ir primeiro atrás de sua arma ou ajudar Johannes?

Pyrrha vê o lobisomem levando a mão livre para trás, na direção dela, aberta. Euthymos olha para ela, e a garota se pergunta o que vê no rosto daquele ser é uma feição terna. A expressão de tentar confortar alguém. Não muito diferente de como Maria e Johannes olham para ela, para assegurá-la que está tudo bem. O lobisomem volta o olhar para o Executor, rosnando e dando um urro. Ele puxa o Johannes pela roda, trazendo para seu alcance.

Maria alcança seu machado e ergue o rosto, vendo seu amigo sendo erguido para cima pelo canhão. E então subindo ainda mais com a explosão surda do canhão contra sua barriga. O sangue, mesclado a fumaça e pólvora caem em uma chuva horrenda. Pyrrha grita, com lágrimas surgindo em seus olhos. Johannes cai igual uma boneca de pano, sem reação. Sem gritos de dor. Ele não se mexe. Maria baixa o olhar, sentindo sua respiração ofegante, lhe faltando ar. Pyrrha corre até Johannes, deixando sua pistola cair na água, tirando o rosto do caçador da água e colocando-a em seu colo, enquanto tenta arrastá-lo para longe do lobisomem. Ele tosse sangue, fraco mas ainda vivo. Ele tenta mover as mãos. Precisa ir para o Sonho do Caçador. Recomeçar. Só que suas mãos estão fracas e trêmulas, não obedecendo aos desejos de Johannes.

O lobisomem para pra olhar Pyrrha. Seu abdômen se expande e se retrai conforme respira, pesadamente.

“Pobrezinha” ele pensa.

Maria range os dentes mais e mais, quase rosnando. Subitamente, ela dispara na direção da fera, tomada por raiva. Tomada por indignação. Aquele lugar não deveria ser livre de feras? Não tinha até um monte de coisa para deixar as feras longe daquele lugar? As estacas, corpos empalados e o inferno. Então por que aquilo está diante dela? Por que Johannes está caído daquele jeito? Por quê?

O lobisomem se vira para ela, soltando o canhão. O som dele atingindo o chão reverbera pela caverna. O tempo parece correr mais devagar. O lobisomem está ali, de pé, ereto. Quase que honrosamente esperando a oponente chegar até ele. Suas mãos se juntam, em prece. A mão esquerda, com o soco inglês, vai para trás da cintura, se cerrando, enquanto a direita se estende na direção da caçadora que avança impiedosamente.

Maria grita, em ódio e dor, e desfere um arco horizontal com a arma, levando-a da direita até a esquerda. A fera apenas salta para trás, desviando com sutileza. O ar entra no corpo de Maria, expandindo seu tórax. A fera tenta acertá-la, mas ela salta para trás. E no breve momento que seus pés não tocam o solo, ela sente o tempo lento. Maria pensa em seu irmão, Hector. Pensa em Johannes. Em Pyrrha. Pensa na cura que tanto busca. Pensa na fera antiga que precisa abater. E pensa naquela fera à sua frente.

“Euthymos, é?” ela pensa. “Deveria ter prestado mais atenção em ti, Jojo.”

Os pés de Maria retornam ao chão, já propelindo a caçadora para frente, para voltar a atacar. Maria pisca, reunindo forças. Sua mão direita começa a pôr força no cabo, na ponta. Sua perna direita toca o chão e se firma nele, servindo de apoio. Seu quadril se endireita, começando a trazer o resto do corpo. Seu braço esquerdo começa a por força no resto da arma, com uma força digna de alguém empoderado pelo Sonho do Caçador. A lâmina do machado assobia contra o ar, com seu pé direito tocando o chão e todo seu corpo trabalhando para pôr toda sua força naquele golpe. Um golpe que não acerta nada. O lobisomem não está mais diante dela.

“Onde?” ela pensa, em pânico.

— Cima! — Pyrrha grita.

Maria, desengonçada, traz o machado para perto de si, mas o lobisomem cai diante dela antes que conseguisse fazer algo. Ela não consegue reagir. Não consegue se mover a tempo. O punho daquela fera, armado com o soco inglês, acerta o rosto da caçadora, com uma força bruta. Maria sente tudo ficando estranhamente úmido e gelado, mas ao mesmo tempo, silencioso. Ela não pensa em gritar, e sequer conseguiria, visto que está morrendo, tendo seu rosto afundado por aquele golpe bestial.