Pyrrha está em seu quarto, um modesto e pequeno cômodo no segundo andar de sua casa, olhando pela janela. A noite está mais calma agora. Sem os uivos e urros de feras para atormentá-la. Dormir ouvindo aquilo sempre a perturbou. As janelas têm grossas barras de ferro, protegendo-a, supostamente. Mesmo ela morando no segundo andar.

“Se a fera conseguir arrombar as grades desse andar, não seria mais fácil fazer isso no térreo?” ela pensa.

Essa cidade, Yharnam, é tão caótica. Tão estranha. Sempre se sente tão desconfortável vendo as altas construções, que se empilham uma em cima da outra, numa tentativa desesperada de tocar os céus, por mais espaço. Uma cidade crescendo sob si mesma. O desconforto também vêm vendo toda a comoção que a Igreja causa. As caçadas. As feras. Pyrrha fez dezoito anos faz pouco tempo e tudo que se pergunta é se ela poderia, um dia, ver uma cidade sem tudo isso.

“Talvez se eu fosse morar no campo” ela pensa, com o rosto apoiado em uma de suas mãos.

Pyrrha Perrault é a sétima filha de sua família, mas a primeira, e única, filha mulher. Seus irmãos todos são mais velhos que ela, e, agora que fez dezoito, seus pais querem que ela vá visitar sua avó. Não entende bem por que, apenas lhe foi dito que a velha senhora estava com saudades e que faria bem para as duas se verem. Tradições, costumes e deveres. De fato, não vê sua velha avó materna já faz um bom longo tempo. Não sabe dizer quando foi, mas se lembra de ser pequena demais. A memória que tem é daquelas que, de tão antiga, parece quase a lembrança de um sonho que está se esvaindo conforme o dia prossegue. E agora que está pensando em “pessoas que não vê faz tempo”, Pyrrha pensa em seus irmãos não moram mais com a sua família, na verdade, não os vê faz um certo tempo. A praga da fera tornou as visitas corriqueiras mais difíceis. A última vez que ouviu falar deles, eles estavam indo morar em Velha Yharnam, para ajudar com alguns trabalhos braçais.

A garota se levanta de sua pequena cama e ajeita a saia longa, marrom, e caminha até um espelho que existe no seu quarto. Seu cabelo, negro, está preso em um coque. Prefere ele assim. Uma vez, ainda pequena, ela cortou o cabelo curtinho e seus pais ficaram irritados. Só que ela verdadeiramente acha mais prático, e até, que combina mais com ela.

Pyrrha achava que não ia ter que ir para sua avó, já que a floresta que dá caminho para a vila onde sua avó mora, além de ser extremamente perigosa, está, no momento, fechada. Contudo, para sua sorte ou azar, seus pais entraram em contato com a Igreja e ela seria escoltada por um caçador. Ela abraça a si mesma, se encolhendo. Sente medo disso. Tentou protestar quando foi avisada que iria, e sua voz foi rapidamente calada. Ela não quer ir. Só que, ao mesmo tempo, sente toda sua espinha lhe dizendo que isso pode ser bom. Afinal, talvez assim ela possa se ver livre de Yharnam, e toda sua confusão com sangue e feras.

Se não fosse bom, por que seus pais, de todas as pessoas, iriam querer isso tão avidamente?

— Pyrrha, meu bem, desça aqui. — A voz de sua mãe, rouca, cruza as escadas, chegando nos ouvidos da jovem.

Ela respira fundo, se alongando. Estica bem os braços e fica na ponta dos pés. Precisa encarar tudo isso com uma mente tranquila. De nada adianta ficar pensando negativamente. Um sorriso estampa seu rosto e ela desce as escadas até o térreo, em um passo acelerado. Está surpresa por sua mãe estar lá na sala. De uns tempos para cá, a mãe de Pyrrha vem se tornado mais reclusa, por causa de enxaquecas muito fortes, e ficando um bom tempo fechada em seu quarto. Isso fez com que Pyrrha tivesse que assumir mais tarefas na casa, para poupar sua mãe de se esforçar.

Ela entra na sala e vê seus pais sentados no sofá com uma mulher com vestes da Igreja sentada num sofá à frente deles, tomando uma xícara, com o que ela presume que é chá. Atrás dela, tem dois caçadores — uma mulher e um homem.

Pyrrha se sente estranha assim que chega. Todos os olhares se movem para ela. Ela sorri, um sorriso amarelo, e ergue a mão, acenando.

— Olá — diz Pyrrha, um pouco tímida.

Sua mãe, virada na sua direção, acena com a cabeça para ela, e diz:

— Pyrrha, meu bem, esses aqui são os caçadores que irão te acompanhar até a vila de sua avó. — A mão de sua mãe se ergue e suavemente segue na direção dos dois caçadores de pé. — O senhor Johannes e a senhora Hazenflug.

“Senhorita” pensa Maria, se segurando para não cerrar o olhar.

Enquanto Maria sorri e acena com a mão, Johannes apenas meneia a cabeça em um cumprimento singelo, com um pequeno sorriso em sua boca. Pyrrha responde os dois comprimentos dos caçadores imitando o modo eles fizeram. A mulher parecia gentil e o homem não parecia agressivo, apenas… Parecia que ele não está totalmente ali. Não poder ver os olhos dele ajudam a transmitir essa sensação.

— Eles são excelentes caçadores e certamente irão proteger sua filha a qualquer custo, e ela chegará na Vila Edda sem problemas — a enviada da Igreja, Victoria Shelley, explica. — Podem ficar tranquilos que a Igreja da Cura assegura a vocês que sua filha chegará na Vila Edda plena e ilesa.

Os pais juntam as mãos, felizes. Pyrrha repara nas roupas que a mãe usa. Cobrem boa parte do corpo. Ela usa um vestido longo e grosso, luvas, botas e uma espécie de véu, cobrindo o rosto. Ainda pode ver um pouco da parte de baixo do rosto de sua mãe, e isso alivia seu coração, mas também incute preocupação nele, vendo que a própria luz parece ser o bastante para afetar a dor de cabeça dela. O fato de mal poder ver apenas rápidos relances de sua mãe faz com que seu coração se confrangir.

— Nós partiremos quando? — Pyrrha indaga, com a voz um pouco amarga, olhando para Victoria.

Victoria dá um gole de chá, o engolindo e então olhando para a garota.

— O quanto antes possível, eu diria. Quando antes saírem, melhor — ela explica.

Maria ergue a sobrancelha.

— Vamos ter que nos preparar antes, se não se importar — a caçadora fala, um pouco incomodada.

Victoria acena com a mão, como se espantasse uma mosca.

— Poderão gastar tempo para isso, senhorita Hazenflug. Apenas estou dizendo que, assim que possível, vocês devem partir — Shelley explica, com uma voz calma. — Se quiserem ir, agora, tudo bem. Vou conversar um pouco com a senhorita Perrault.

Johannes se desencosta da parede, descruzando os braços e indo na direção da porta. Pyrrha somente vê agora que próximo a porta estão as armas desses caçadores. Maria suspira colocando seu chapéu novamente e indo na direção da porta, pegando seu machado e o colocando nas costas. A porta se fecha e Pyrrha engole em seco.

“Por que aquele homem tem uma roda?” pensa, sem saber se deveria expor isso em voz alta.

Gostaria de poder estar em um ambiente mais leve, porém sente tanta tensão no ar. Seja por causa de sua mãe presente ali após tanto tempo fechada em seu quarto, a mulher da Igreja sentada ali na sala, ou o frio na barriga que sente, crescendo a cada momento. Sua mente se tornando um conflito entre “não querer ir” e a parte que quer fazer conforme seus pais ordenaram.

Ela engole em seco, tentando colocar tudo aquilo garganta abaixo.

— Bem, e o que eu preciso levar? Tem alguma coisa que preciso levar em particular? — pergunta, colocando as mãos atrás do corpo e se curvando para frente.

Seu pai responde, sem fazer contato visual direto com ela.

— Faça uma mala com roupas e remédios. Sua mãe preparou uma cesta com comidas tanto para a viagem, quanto para levar a sua vó. — A voz do homem é grossa e grave, parecendo vir de além de sua garganta, de algo ainda mais fundo.

Pyrrha assente e espera mais alguém falar, porém nada é dito.

— E só? — ela pergunta.

— Ah! — Victoria termina de engolir seu chá. — Eu vou deixar pra explicar certos detalhes quando os dois caçadores voltarem. Quero explicar só uma vez e responder todas as dúvidas de uma vez só. Acho que, por hora, você pode ir se preparando lá.

— Recomendação de roupas? — Pyrrha indaga, erguendo uma sobrancelha com um sorriso travesso no rosto.

— Bom, não vai ser uma ida ao parque, sabe? — Victoria dá um pequeno riso. — Esteja com roupas seguras, confortáveis, e, se possível, práticas.

Pyrrha assente e, antes de se virar para subir as escadas, dá uma última olhada em seus pais, mordendo o lábio. Ela respira fundo, reunindo forças junto com o ar, e sobe as escadas. Tem uma mochila que pode vir a ser útil. Chegando no quarto, pega a mochila e coloca uma muda de roupa ali e depois põe panos e toalhas. Frascos de sangue, o melhor remédio que você pode encontrar em Yharnam. Distribuídos pela Igreja da Cura, aqueles que dominam essa arte da ministração do sangue medicinal. Ela gostaria de saber da onde vem tanto sangue.

Pyrrha aproxima o vidro para perto de seu rosto e o agita, observando o líquido rubro sacudir. Ingerir um daquilo poderia curar diversas feridas e outros sintomas. E já viu seus pais falando várias vezes de pessoas que ficaram viciadas em sangue, se tornaram embriagadas e perdidas no consumo de sangue. Outras pessoas dizem que é aí que a praga da fera surgiu. Pessoas em um desejo de sangue tão grande que perderam a forma humana, se tornando feras com sede de sangue.

Ela tira as roupas que estava usando até então, sentindo certo alívio ao saber que não precisará usar um vestido ou alguma saia. Joga as roupas, emboladas em um canto de sua cama e sorri. Veste uma calça e depois botas de cano longo, de couro. Ela amarra as botas e se olha no espelho. Está feliz que pode usar calças no lugar de saias e vestidos. Nunca gostou de usar e acha elas, no geral, desconfortáveis. Impráticas demais, contudo, seus pais preferem que ela use roupas "femininas". Coloca uma camisa branca de botões, com uma gola alta e mangas bufantes. Coloca também luvas e um cinto na cintura. Para e pensa mais um pouco. Talvez só a blusa não seja seguro. Ela coloca um espartilho por cima de sua blusa branca. Se olhando no espelho, ela sorri, satisfeita consigo mesma.

Contudo o sorriso se esvai, assim como um castelo de areia sendo desfeito pelas ondas da praia. Ela ainda sente medo. Sair de Yharnam? E as feras? E sua família? E com dois desconhecidos ainda por cima. Tanta coisa pode acontecer. Pyrrha tem medo. Contudo não consegue contemplar a possibilidade de dizer “não” às vontades e ordens de sua família. Se tivesse, usaria o cabelo curto. Se tivesse, talvez usaria mais malditas calças invés de enfadonhas saias que faziam tropeçar aqui e ali.

Tentando manter essas inseguranças e dúvidas longe de sua mente, Pyrrha tenta se focar indo viver uma aventura, parando para analisar melhor a situação. Não sai de Yharnam faz anos e anos, mais de dez anos talvez. E vai atravessar uma floresta que está, até então, fechada. Sob companhia de dois caçadores habilidosos, que a própria Igreja da Cura recomendou. E um deles usa uma roda! Talvez isso se torne a maior história de sua vida. E precisa encarar isso como tal!

Pode, sim, não querer ir mas ela vai ter que ir. E se vai ter que ir, que seja no melhor ânimo possível! O sorriso retoma seu rosto, junto com um brilho no olhar. Se a viagem vai acontecer mesmo, ir emburrada e de mau humor apenas vai atrapalhar as coisas. Quer poder ter uma boa história. Quer poder conhecer e entender aqueles dois caçadores. Saber por que um deles usa uma maldita roda!

Ainda se olhando no espelho, Pyrrha respira fundo.

— Vamos lá, Pyrrha Perrault — ela fala, em um tom baixo, mas cheio de empolgação. — Você vai descer lá e viver essa aventura! Isso! Vamos lá! Ver a vovó!

Solta um riso, tapando a boca com a mão e olha um caderno em cima da mesa, onde tem o espelho. Ela sorri e coloca junto da mochila junto de material para escrever. Pyrrha solta o cabelo do coque que havia feito, sacudindo-o e tirando o cabelo do lado esquerdo, prendendo-o atrás da orelha. Ela sorri. Está pronta.