Os pés de Maria Hazenflug sobem devagar os degraus que a levariam de volta a Yharnam, adentrando na torre que separa a Floresta Proibida da cidade. Sem Johannes. Sem Pyrrha. Sem um braço. Com a cura para seu irmão, pelo menos. Ela conseguiu. Ao menos isso.

“Então por que me sinto assim?” ela se pergunta, passando a mão por sua têmpora, massageando.

Seu corpo parece estar tão pesado. Tão cansado e estressado. Maria se sente fraca. Não apenas em níveis físicos, mas internos — emocionais e mentais. Desde que conseguiu a cura, tem tido dores de cabeça. De cansaço. De um estresse que não consegue por em palavras do que. E ainda assim, sente garras frias — tão gélidas que queimam — se afundando em sua carne. Tem sido difícil dormir, quando a noite vem. Quando o vento assobia na penumbra, quase uivando. Trovões parecem diferentes, parecem incutir medo e fazer o braço esquerdo dela formigar e tremer de dor. Ironicamente, ela não tem mais esse braço.

Victoria Shelley, ex-membro da Igreja da Cura, está logo à frente dela, alguns degraus acima, sempre andando em um ritmo fixo. Essa foi sua companhia nos últimos três dias. A mulher que lhes deu a missão que os enviou até a Vila Edda. Que então tentou emboscá-los. De acordo com ela, não quis aquilo. Ela não é mais parte da Igreja também, de acordo com ela. Maria não consegue ficar tranquila perto dela. Não consegue dormir perto dela. Não vem conseguindo dormir por causa dela.

“Por causa dela?” sua mente pergunta para Maria, que respira fundo, em incerteza.

Essa dúvida faz a cabeça da caçadora latejar, seu cérebro pulsando. Maria fecha os olhos, com força, e seu pé se apoia com força no degrau, fazendo-o ranger. Sua cabeça tem estado uma confusão desde que saiu da Vila Edda. Desde que dormiu. Desde que...

O velho porteiro, no topo da escadaria, ri, interrompendo sua cantoria penosa.

— Ah! Ora, ora, olha só! É raro alguém voltar depois de levar uma chapeuzinho vermelho, sabia? — ele diz, sua voz ecoando por toda a torre, embebida em uma risada rouca.

Maria não ergue o olhar, ainda na metade da escada. Está cansada. A viagem de volta não foi difícil, nem tiveram que batalhar, mas ela foi penosa para o coração da caçadora. Voltar sem Johannes. Voltar sem Pyrrha. Ela se sente sozinha como não se sentia há muito tempo.

Logo iria para casa, iria rumar para Venetie, sua cidade natal. Iria rever seu irmão. Iria dar a cura que ele tanto precisa. Não vê a hora de poder rir na cara de seus pais e falar “eu consegui”. Voltar com riquezas, talvez, visto as recompensas que Victoria lhe disse que irá lhe dar.

“E ainda assim, por que esse gosto amargo em minha boca?” ela se questiona.

Poderia respirar o ar de outro lugar que não seja Yharnam e seu intoxicante cheiro ferroso de sangue! Iria voltar para seu lar, sua família. Vitoriosa!

E ainda assim, sua mente parece duvidar de si mesma. Algo está errado? Tem algo faltando? Sua mente vasculha a si mesmo, em busca de algo. Algo que nem Maria sabe o que é, apenas pela sensação, vaga, que existe algo faltando. Uma sensação no fundo da garganta que não consegue por em palavras.

O velho no topo tosse e fala:

— Só você voltou, é? Sinto muito por isso, caçadora. Sinto muito. — Sua voz então baixa um pouco o tom, em um resmungo. — Imagino que deve ter sido frustrante voltar para cá sem seu colega e a garota.

Maria suspira, seu olhar pesadamente focado nos degraus de madeira, que rangem a cada passo que a caçadora dá. Sente sua mão coçar. Sente seus dedos formigarem. Da mão que perdeu. Consegue sentir ele pulsando e latejar, mas ele nunca está lá. As vezes tem o ímpeto de usá-lo apenas para ter que ditar para sua mente o óbvio: ele não está mias lá. Ela perdeu ele. Perdeu ele lutando contra…

Contra…

Contra algo. Sim. Algo. Uma fera? Sim. Uma fera. Certamente uma fera. Na igreja. Na Vila Edda. Sim, ele e Johannes lutaram contra uma. Para proteger Pyrrha. Era a avó de Pyrrha. Era? Sua mente dói. Lateja. Pulsa, como uma máquina superaquecendo por trabalhar demais.

“Era uma fera antiga” sua mente dolorosamente resgata a informação, sem lembrar da onde veio.

— Mas acontece, acontece… Devemos ser gratos por estarmos vivos, não é? — O velho ri. — Estarmos vivos e poder voltar para o amado seio de Yharnam. É o nome de uma rainha de outrora, sabia? Me contaram isso uma vez, acredite! E sobre as ruínas desse império esquecido, nós nos erguemos.

O porteiro ri, um pouco mais. Maria ainda não responde. Sabe que não irá ficar ali muito tempo, em Yharnam. Irá entrar na cidade, se abastecer, e ir embora dali. Não quer ficar mais um minuto sequer naquela cidade. Chega de Yharnam. Basta de Yharnam. Basta de caçadas, não quer mais nada a ver com aquilo, nem com a Igreja da Cura. No fim, não precisou dela.

“Bom, foi através de um trabalho dela que consegui a cura para Hector, então…” ela pensa, forçando um fraco sorriso.

Ela conseguiu o que precisa para a cura. A caderneta com a receita. E os dois itens especiais para a produção da mesma. Sangue de uma fera.

“Não, não era uma fera qualquer” sua mente pontua. “Tinha um nome para ela.”

Maria para, se apoiando na parede, mas logo seu corpo todo está apoiado na parede. Havia um nome para o tipo de fera. Ela não lembra qual. Tem certeza que sabia. Certeza que sabia ainda hoje. Ela conseguiu se lembrar até mesmo de ouvir as palavras, mas apenas um eco de uma lembrança. Que parece estar se perdendo.

Sim, desde que saiu da Vila Edda, parece que… As coisas estão se perdendo. Foi Johannes quem achou esse diário? Ele que falou sobre o sangue de fera? Ou foi Victoria? Ela parece saber de muita coisa. Ela não é só alguém qualquer da Igreja da Cura. O jeito como ela falou sobre sair dela, sobre como Yharnam não tem nada mais a oferecer…

“Mas não foi ela quem disse sobre o sangue!” ela grita em sua mente, seu olhar se cerrando.

Foi outra pessoa. Em um lugar calmo. Tranquilo. Sim! Era em um lugar tão tranquilo que parecia inebriante.

— Senhorita Hazenflug? — Uma voz a retira de suas divagações. — Senhorita Hazenflug, está tudo bem?

Victoria Shelley desceu até a dois degraus de distância da caçadora. Ainda com aquele sorriso no rosto. Aquele olhar, como se constantemente a olhasse de cima, em qualquer sentido possível. Como se risse, de alguma ironia cósmica.

Ela desce outro degrau e fecha os olhos, enquanto leva a mão ao lado de sua boca.

— Só para reforçar: não conte nada sobre sua ida a Vila Edda — ela sussurra, quase um sibilo, seus olhos se abrindo e a encarando.

Maria engole em seco e assente. A respiração sai pesada de sua boca, arfando por outra leva de ar para seus pulmões. Victoria falou incontáveis vezes que não deve falar sobre o que viu. Não deve falar sobre o que ocorreu na Vila Edda, o que houve com Johannes e com Pyrrha.

Eles tiveram que ir embora. Pyrrha não poderia voltar para cá. Nem Johannes. Por causa do que houve na Vila Edda. As sobrancelhas de Maria se juntam, tamanha é seu desconforto mental. Suas memórias estão parecendo um sonho. Como se ela tivesse acordado e tivesse tido um sonho. E conforme o dia prossegue, o sonho vai escapando de sua memória. Detalhes, eventos, o que houve. Só que ela sempre sente, no fundo de sua garganta, que teve esse sonho.

“Sonho” a palavra reverbera na mente de Maria, ressonando em cada parte de sua cabeça.

Ela engole em seco. Houve um sonho. O Sonho. Sim. Por causa da caçada. Junto com Johannes. Aconteceu algo na Vila Edda. Victoria queria que eles descobrissem a verdade por trás daquela vila. Por trás da “chapeuzinho vermelho” que o maldito velho no topo desta torre ficou surpreso dela voltar com vida. Eles descobriram! Maria sabe disso! Haviam… Feras. Aos montes. Havia uma fera lá, em específico. É o sangue dela que é parte da cura para seu irmão. E foi por matar ela que conseguiu as flores para o remédio.

— Flores lunares — Maria pensa alto.

O velho porteiro continua a cantarolar uma melodia estranha, desconfortável e fora de tom. Desafinado. A voz dele pertuba a mente cansada de Maria, como se atrapalhasse seu raciocínio. Ela está esquecendo de algo. Não consegue dizer o que mas ela sabe que algo está faltando. Existe uma lacuna em sua mente que outrora continha alguma informação importante. Algo que ela deveria saber.

Flores lunares. Ela conseguiu elas onde? Maria sente seu braço doendo. Tremendo. Se chacoalhando e convulsionando. O braço que ela não tem. Flores lunares. Essa palavra continua ressoando em sua mente, como ondas surgindo após pedras atingindo a superfície de um lago.

O Sonho.

Os olhos de Maria se arregalam, com sua mente se agarrando a essa informação. Houve um sonho. O Sonho. Ela não pode ir mais lá. Sim, ela agora não é mais a mesma. Sim, houve algo na Vila Edda. Sim, houve um sonho que a manteve viva durante a caçada. Gehrman. A Boneca.

Maria sobe os degraus com um pouco de raiva em cada passo que dá. Raiva de estar esquecendo, por magia ou maldição, coisas que lhe eram importantes. Ainda lembra de Johannes, sim. Ainda se lembra de Pyrrha. O que lhe falta são mistérios. Iria enlouquecer antes que pudesse pontuar onde estão as lacunas e tentar se lembrar do que não pode.

Ela termina, enfim, de subir as escadas, respirando fundo. Tentando empurrar ar para dentro de seu corpo, em busca de forças. Victoria está de frente para a saída, a porta, virada para Maria. Calmamente a esperando. Tem um sorriso leviano no rosto. Seus olhos parecem gargalhar da caçadora.

Maria volta seu olhar para o porteiro e o que vê é um corpo mole, repousando sentado. Morto. Tem um rombo na cabeça. Não foi morto agora. Está claramente morto faz alguns dias. Pelo tamanho do buraco em sua testa, só poderia ter sido…

Victoria bate seu cano contra o chão, chamando atenção de Maria, que encara a mulher com certo nojo.

— Você tem estado meio abstraída, senhorita Hazenflug — a mulher fala. — Ou, devo dizer, dispersa. Para que você possa entender.

Victoria solta um pequeno riso e Maria não consegue parar de encarar aquele cano metálico.

— Aconteceu algo, Maria? Você tem estado assim durante toda nossa viagem de volta — Victoria indaga, inclinando a cabeça para o lado.

— Não — Maria rosna. — Vamos embora logo.

Victoria ri e, junto de Maria, empurram as pesadas portas que dão passagem para Yharnam. A luz invade seus olhos, através de nuvens e altos prédios acinzentados. O cheiro de sangue invade o corpo de Maria e ela torce o rosto, em aversão. Ficaria caminha até a beirada da escada, observando o horizonte e o precipício cercado por nuvens onde estão. Ela respira fundo o ar e retira o chapéu e o manto de sua roupa clerical. Seu cabelo, loiro, reluz com o sol matinal.

— Você não sonha mais, não é? — Victoria pergunta, sem olhar para Maria. — Digo, você agora pode morrer, né? Não está mais presa ao Sonho.

Maria não responde, um pouco pasma com a pergunta, com aquilo ligando algumas pontes em sua mente.

— Gehrman… Ele… Ele ainda está lá? — Victoria pergunta, com um pouco de dor em sua voz.

Gehrman ofereceu a Maria liberdade do Sonho. Antes que Flora tentasse consumí-la. Flora. Flora. E quando tenta se lembrar de mais, sua memória não avança. Tem apenas isso como resposta.

Ao erguer o olhar para Victoria, querendo entender como ela sabe e o que mais ela sabe, vê a mulher a encarando, apoiada nas grades de maneira casual.

— É melhor ir embora enquanto pode, caçadora — Victoria avisa. — Contudo, espero que um dia possamos nos rever. Você é de Veneria, não é?

Maria, com olhos arregalados e perplexos, murmura uma resposta vaga. Victoria leva a mão à frente da boca, soltando um risinho. A linha que atravessa horizontalmente a testa de Victoria, com marcas de sutura e uma “fechadura” no meio, causa espanto na caçadora.

— Irei lhe acompanhar até a saída desse lugar enfadonho, após pegarmos sua recompensa. Sorte sua que Johannes deixou a parte dele consigo, não acha? — Victoria fala isso cantarolando, colocando seu manto e seu chapéu novamente.

Maria assente com a cabeça, sentindo medo e uma sensação de descontrole do seu arredor. Yharnam é doente. Com todo seu consumo de sangue e de violência. Não sabe dizer se aquele lugar tem salvação. Só espera que seu irmão, Hector, tenha. Se não… Se não tudo isso terá sido em vão. Sem memórias para respaldar sua aventura. Sem Johannes e Pyrrha consigo. E sem uma caçada eterna para pelo menos poder se assegurar de um poder, de uma autoridade e um controle, sem poder se acobertar em chacina contra feras onde ela, junto a Johannes, eram o topo. Se vê sendo a mesma Maria Hazenflug que chegou em Yharnam. Incerta. Com medo. Se sentindo impontente. E sozinha.

Sozinha.

Solitária.

Horrendamente solitária.

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