A Estagiaria
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Ouço uma batida forte em minha porta e a voz da minha tia me chama. São apenas 07h quando olho o despertador, que deve me acordar as sete e meia. Ignoro o som de sua voz e viro meu rosto para o lado contrário à porta. Depois do que me parecem segundos, entreabro os olhos e vejo meu lindo despertador (sintam a ironia), marcando exatamente 09h da manhã. Pulo da cama e vou correndo para o banheiro, me dispo rapidamente, amarro meus cabelos e entro no chuveiro deixando que a água gelada me acorde. Escovo os dentes ainda dentro do Box e lavo meu rosto retirando qualquer excesso de maquiagem. Saio em disparada em direção ao meu armário e pego uma calça verde-mar meio desbotada, com uma blusa branca do Fun. e meus all-stars azul marinho, pego a bolsa de cima da cadeira e meu celular que estava embaixo do travesseiro. Desço as escadas com um dos tênis na mão e corro em direção à cozinha. Minha tia está sentada na mesa lendo o jornal.
– Bom dia, flor do dia! – Comenta minha tia, um tanto quanto animada demais. Apenas bufo em resposta. – Lembre-me de nunca mais deixar você ficar até tarde na casa do David concertando a merda do computador dele. – Pego uma maçã e dou uma grande mordida, enquanto encaro minha tia Liane, que espera minha resposta com uma das sobrancelhas arqueadas. Como eu gostaria de saber fazer isso! Sou muito burra, nem arquear uma única sobrancelha eu sei fazer direito.
– Bom dia, querida tia!- Falo e ela me lança um olhar de repreensão do tipo, “deixe de ironia e vá logo para o assunto que quero”. Bufo e jogo a mãos para o alto, em sinal de rendição. Ela me dá um sorriso de canto. – Okay, eu não estava na casa do David. Ele comprou um PC novo e não precisa mais de mim. Na verdade eu estava numa festa com um cara super gato. — Não minto, porque sei que ela não vai reclamar e nem me pôr de castigo. E ela adora quando conto coisas desse tipo para ela.
A última coisa que vejo são seus cabelos castanhos claríssimos em meus olhos, pois assim que terminei a frase, ela correu para me abraçar e ficar dando pulinhos animados junto ao meu pescoço.
– Tia do meu coração, por favor, larga meu pescoçinho, porque está me sufocando.
– Ahh, desculpa Nick. Mas eu não podia deixar de comemorar, sabe? Você me conta essas coisas, e espero que seja um namoro sério. Adoraria ter de bancar o "pai' bravo, e bom... Você nunca apresentou um namorado seu a seus pais. — Ela fala, mas logo se arrepende ao ver minha cara de tristeza.
Bem, eu não tenho um desses passados tristes em que sua mãe morreu de câncer ou em um acidente de carro, na verdade, meu tipo de abandono foi muito pior. Em meus plenos dezessete anos, meus pais acharam que passar um tempo com minha tia, que, aliás, tem apenas 25 anos, fosse me fazer ficar mais... Palavras deles, não minhas: feminina. Eu sempre causei problemas, mas não me pergunte o motivo, parece que eles me encontram a cada esquina. Nunca dei motivos para meus pais me mandarem para o inferno, o problema não é minha tia e sim o clima daqui, bom... Não até um mês atrás. Fui pega pixando muros e a policia ligou para meus pais sem eu poder ao menos me explicar. Na verdade, eu estava grafitando, fazendo arte. Minha intenção era fazer as pessoas que passavam perto da Trinity School, tomassem uma atitude em relação a meio ambiente e a falta de músicas boas, não que eu não as curtas; as batidas das músicas são boas, mas eu queria que as pessoas se conscientizassem em relação à poluição sonora. Sabe? Você pode muito bem escutar um Jason DeRulo, que eu não tenho nada contra (sério, nada mesmo, a não ser que aquele corpo super sexy que me tiro o fôlego, ele deveria ser preso por atentado ao pudor, nada), mas precisa ser sem fone de ouvido? Ahh, qualé eu quero poder ler um livro e não ter de ficar pensando na letra da música e reler a mesma parte, pelo menos umas cem vezes. Mas... Onde eu estava mesmo? Ahh, isso! Os tiras me pegaram e eu fui em cana e, é claro, meus pais não ficaram nadinha feliz. Cara, eu morava na W 86st perto de uma Victoria's Secret , e agora estou no vale do Silício, mais precisamente na Plymounth St, um dos lugares com mais caras Geeks do que gatos e gostosos, me contentaria até com um camarão (sabe? você só come o corpo, e não a cabeça). Sério, eu tinha de estudar na Crittenden Middle School. Minha vida social, quase insistente quando morava em NY, agora estava abaixo de nada, quase na merda. E eu adorava minha tia pelo simples fato dela me entender e não ficar tentando me consolar e dizer que tudo ia ficar, por que não iria.
–Desculpa, Ni. -Falou tia Liane, me dando um abraço rápido. – Não queria te deixar dessa maneira. – Ela me olha e vejo que realmente saiu sem querer. Olho para o pinguim/relógio em cima da geladeira.
–Não é nada, Lia. Bom... Já que eu perdi meu último dia de aula – Falei olhando-a e vendo um sorriso maravilhoso aparecer em seus lábios. – Que tal começarmos nosso preparativo para minhas férias de verão? – Quando termino de falar, a cena do verão passado estava mais legal que essa. Na minha imaginação ela estaria dando pulinhos e começando a tagarelar sobre o que íamos fazer, mas neste exato momento a vejo me olhar um pouco triste.
– Foi mal, mas seus pais ligaram perguntando como seria suas férias e eu disse que iriamos nós divertir muito. Eu não sabia que eles queriam que você passasse suas férias num estágio. – Liane fala e fica olhando para os pés, envergonhada.
–Não foi culpa sua, Li. Nós ainda vamos poder nos divertir enquanto eu estiver de folga. – Falo e sorrio docemente para ela. Por mais que ela deva ter total controle sobre mim, a Lia é super liberal, e esses últimos meses morando com ela me fez lembrar a ótima tia que eu tinha. E ela é uma das únicas pessoas com a qual realmente me importo.
–Certo! Isso mesmo Ni, não podemos ficar com essa cara de enterro. Você com toda certeza vai folgar e aí vamos poder nos divertir muito e encher a cara. – Ela fala toda animada, e fico feliz que a antiga Li tenha voltado.
– Bom... Como este é meu primeiro dia de férias, o que você quer fazer? – Pergunto apenas por educação, mas sei que ela com toda certeza vai querer dar um pulinho no shopping.
– Errr... Eu estava pensando em dar uma passadinha no shopping para poder comprar algo, caso tenha uma festa, quero estar pronta. – Falo sorrindo. Está vendo? Isso é apenas convivência. –Vou deixar você um pouco sozinha, sei que vai querer ligar para seus pais e dar um chilique, então... Até daqui a pouco, mulher vulcão. – Bate no seu quadril e passa rebolando pelo arco da cozinha, que leva até a sala de jantar.
Pego meu telefone no bolso de trás da minha calça e ligo para meus pais.
Chamando: CASA
Quando chega ao quarto toque, a secretária eletrônica atende.
–OI, mãe e pai. Queria falar com vocês, mas vejo que estão muito ocupados para atender a única filhinha de vocês e que poderia estar morrendo de câncer que não ligariam, entaaão... – Minha voz estava extremamente calma, eu não reconheci aquela pessoa, se fosse a outra Nicolly que estivesse em meu corpo (que papo mais esquizofrênico, hein?) eu já teria dito tantos palavrões, que até os que eu não conhecia entraria na lista. – Que merda vocês estão pensando em me fazer ficar de estagiaria? Tão pirando agora, é? Mas eu não vou fazer porra de estágio nenhum. Quero que esta merda... –Não pude terminar meu sermão e fui cortada por uma voz muito conhecida.
– Bom dia, minha querida! Espero que tenha dormido o melhor possível, mas acho que seu bom humor só melhorará, caso arrume um marido logo. – Escuto minha mãe falando do outro lado do telefone com uma voz tão macia quanto veludo. Mas quando fala no assunto marido, bem... Eu me esqueço de todo o tempo que passei longe dela, e quero apenas estrangula-la. Quem ainda em pleno século XXI quer ter um casamento arranjado e antes dos dezoito? Apenas se estiver grávida, o que graças a Deus eu não estou. Meus me dizem que com o tempo eu irei aprender a gostar de crianças, mas esse desejo ainda não foi desperto em mim, nem mesmo quando eu era criança.
–Mãe, eu não vou arrumar um marido antes dos trinta e cinco, se for antes... Então o sexo terá de ser m.a.r.a.v.i.l.h.o.s.o. – Falo tentando fazer o meu timbre ficar o mais cínico possível. – Entendeu?
–Claro, claro, Nicolly. Mas... – Escuto um suspiro e um resmungado baixo que não compreendo. — Deixa pra lá. –Fala mudando de assunto e quase posso ver que ele abanou a mão como se não fosse importante. – Nicky, eu e seu pai achamos que você deveria pelo menos dar uma chance para essa nova vida aí. Procure por qualquer coisa, o que vale é a experiência. Seja uma atendente da Apple ou da Starbucks, eu não me importo. Apenas quero que se divirta e quando chegar me conte tudo, até mesmo as cores da unha do pé. – Ela falou super empolgada e não consegui deixar de sentir o agito em sua voz, tenho certeza de que ela estava realmente sentindo minha falta. Escuto um barulho no telefone e depois uma voz grossa e extremamente aconchegante fala:
–Meu pequeno Nick. Estou com tantas saudades de você, que nem imagina o quanto. – Falo e sorrio internamente por ele ter me lembrado de uma das historias mais engraçadas que já ouvi ao meu respeito, claro, além dos meus tombos épicos. Minha mãe sempre me contou a história de como cheguei ao mundo, e ela sempre me falou a verdade. Ela contou também que meu pai queria um menino e que eles deixaram para saber meu sexo no dia do nascimento, e quando eu pai me pegou e viu o cordão umbilical, ele me colocou no para o alto (como no filme Rei Leão; ele é muito fã, não os xingue perto dele) e me chamou de pequeno Nick, e a partir desse dia eu fiquei com o apelido de pequeno Nick entre a família. – Por favor, me ajude e vá fazer esse estagio, eu quero apenas que você tenha todas as obrigações de um adolescente responsável e que se torne um. Eu te amo tanto meu pequeno. E sei que você também, apesar de nunca ter dito.
– Pelo amor, pai, não faz isso comigo. Eu estou com muita saudade e você poderia muito bem parar de birra e me levar de volta pra casa, sei que também estou em casa aqui, mas não é a mesma coisa. – Falo com uma voz manhosa e faço cara de nojo.
–Quero apenas que você se torne uma adulta melhor, por favor, faça isso por nos. – Ele diz e o ouço suspirar. Depois de alguns momentos de silêncio: Eu e sua mãe a amamos muito, e, por favor, prometa que não vai arranjar encrenca e que vai ao menos tentar o que te impus. – Ele fala com a voz falhando e sei que provavelmente vai chorar quando desligar.
–Okay. – Falo com um traço de voz que me resta.
–Me prometa, Nicolly Schmitz! – Sua voz é potente e quase, quase encolho meus ombros.
–Tá legal, pai, eu juro solenemente não fazer nada de bom. – Falo com um tom de riso na voz e escuto meu pai soltar uma leve risada.
–Pronto, agora sim! Te Amo! – Ouço outra vez um som estranho no telefone e a voz doce de minha mãe sai pelo aparelho: Se cuida querida, eu também te amo. – Ela dá uma risadinha leve e volta – Me prometa também!
–Pronto, é hoje! Okay, mãe e pai, eu prometo que vou me comportar. Adoro vocês. – Digo isso e eles me dão um xau em uníssono.
Bem... Acho que algum louco vai me ter como estagiaria.
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