Por um breve momento, Spock pensou na oportunidade de falar com o irmão, ao menos checar como ele estava, depois de anos sem vê-lo. No entanto, o bom senso acabou recando sobre ela, achando melhor não se aproximar, caso sua visita fosse usada contra Sybok. Enquanto ela estava sozinha, pensava que de alguma forma, poderia salvar o irmão, mesmo que isso chocasse a corte vulcana.

—Você está bem? — Kirk se aproximou, tirando-a de seu estado reflexivo.

—Eu estou — ela confirmou de imediato — estava apenas considerando possibilidades.

—Quais delas? — seu marido quis saber.

—Mudar a sentença de condenação do meu irmão — ela confessou — o sangue ainda fala alto quando penso nele, mesmo com seus atos insensatos, gostaria de poder redimi-lo.

—Sabe que é bom ouvir isso de você? — Jim conseguiu ao menos sorrir em meio àquele cenário sério — eu posso garantir, meu amor, seu depoimento já deu uma grande chance a ele.

—É o que espero, mas sem prejudicar ninguém, nem a nós, nem a quem ele possa enganar se estiver livre — Spock comentou.

—Tem que fazer com que ele compreenda isso — Jim aconselhou.

—Eu falarei com ele, mas não agora, não é sensato — ela respondeu, pensativa, mas decidida.

—Concordo com você — James assentiu.

Depois de um breve momento de silêncio, ele percebeu que a esposa precisava de tempo para pensar. Ele a deixou a sós novamente e logo o juiz e o conselho da Federação retomaram o julgamento.

Spock participou da audiência dessa vez, observando o que outras pessoas tinham a dizer sobre os atos inadequados de seu irmão. Por fim, o juiz e o conselho se retiraram para a sentença final. Ninguém saiu dali, ficando à espera. Sybok, por sua vez, embora sentindo a apreensão do momento derradeiro que definiria seu destino, pareceu confiante e inabalável. Quando ele se voltou para trás, viu a irmã impassiva, ao lado de um humano que voltou a ficar do lado dela.

Ele conseguia enxergar na irmã a mesma seriedade e disciplina de tempos anteriores, tinha sido sua luta pessoal durante muito tempo manter-se dentro dos padrões vulcanos. Mas ainda assim, quase que imperceptível, havia uma mudança nela, uma certa leveza que só quem era próximo de Spock poderia notar.

Apenas movendo os lábios, Sybok disse um silencioso obrigado. Em retorno, ele recebeu um assentir leve de cabeça de Spock. Algo sem muitas palavras e, querendo ou não, com certa emoção, passou-se entre eles, um entendimento mútuo, mesmo que eles tivessem escolhido caminhos diferentes.

—A conferência dos juízes terminou — foi anunciado por um sábio vulcano e todos se atentaram para o juiz.

—Sybok, filho de Sarek, por seus crimes de roubo, manipulação e desvio das crenças vulcanas, foi decidido que será sentenciado ao exílio de Vulcano — o juiz declarou — não poderá retornar ao seu planeta natal, e se retornar, dessa vez, será punido com a morte. Haverá 4 horas concedidas ao réu para que se despeça de quem estiver aqui e deseje fazer isso.

Aos poucos, o tribunal foi se dispersando, assim como o interesse dos vulcanos em Sybok, claramente visto como um pária entre eles.

—Jim — Spock chamou o marido antes de se mexer — acho que agora seria um bom momento para falar com meu irmão. Gostaria que ele conhecesse nossa família.

A declaração deixou James espantado, mas ele se prontificou em apoiar a ideia dela.

—Está bem — concordou ele sem dúvidas.

Juntos, foram até Sybok, e educadamente, Spock o cumprimentou com a saudação vulcana, não conseguiria agir de modo diferente.

—Vida longa e próspera, Sybok — ela desejou.

—Não sei se será tão próspera, mas agradeço, mesmo assim, Spock — ele sorriu, o que foi um tanto perturbador, visto em seu rosto barbudo.

—Eu vim até aqui para me despedir — ela continuou — pode achar que eu não o compreendo, mas há algo em mim, à essa altura da vida, que pode ao menos imaginar alguns motivos para suas ações e motivos.

—Mesmo assim não tem medo de desapontar nosso pai? — Sybok ergueu uma sobrancelha questionadora para ela, mas falando com certa veemência — de ser uma vulcana imperfeita e incompleta?

—Não, Sybok, não sou mais a garotinha assustada e a moça insegura que você conheceu — Spock refutou com firmeza — encontrei o equilíbrio entre minhas duas metades.

—Estou vendo — o irmão dela observou Jim, ainda em silêncio, notando o tom da interação dos dois.

—A propósito, este é meu marido, James Kirk, Capitão da Frota Estelar — Spock o apresentou com orgulho.

—Um humano, realmente, você não é a mesma — Sybok apertou a mão dele, admirado.

—Sua irmã é uma mulher admirável, justamente por ser quem é, com todas as características dela — Jim reiterou, a defendendo, no que a esposa o olhou de forma orgulhosa.

—Nossos filhos expressaram curiosidade em conhecê-lo — Spock continuou, deixando o irmão realmente impressionado agora — ainda há tempo de conhecer seus sobrinhos, se assim desejar.

—Sobrinhos? Você teve filhos? Filhos com um humano?! — Sybok verbalizou seu espanto — isso eu realmente vou ter que ver com meus próprios olhos.

Expressando seu desejo de sair dali, guardas acompanharam Sybok para garantir que ele partiria do planeta quando seu tempo de despedida acabasse. Ele seguiu Spock e Kirk até a casa que um dia foi deles, encontrando com os três jovens olhando igualmente espantado para ele.

Enquanto Amanda e Georgina ficaram estáticas, David deixou a surpresa inicial de lado e deu um passo à frente. Na opinião do tio, ele era o mais parecido com o pai.

—Sybok, eu presumo — David foi direto — eu sou David Kirk, essas são minhas irmãs, Amanda e Georgina. Não sei se posso dizer que é um prazer conhecê-lo, mas ao menos, reconhecemos que somos do mesmo sangue.

—Sim, meu rapaz, nós somos — Sybok respondeu — por mais que minha reputação possa não trazer orgulho à nossa família. Talvez vocês como mais humanos do que vulcanos, possam entender minha busca pela verdade.

—Busca essa que eu espero que seja honesta e menos invasiva daqui por diante — Amanda deixou sua opinião clara.

—Sim, entendo sua revolta, você me parece a mais vulcana dos três, não só em aparência — o tio comentou — eu pretendo seguir meu caminho e viver uma vida pacata, o que significa que não voltarei a Vulcano. Caso os encontre novamente, terei prazer em ajudá-los no que precisarem, em nome da minha irmã Spock.

—Obrigada pela oferta, tio — Georgina viu certa sinceridade nele e resolveu ser gentil.

—Bom, eu devo ir, Spock — Sybok se voltou para ela, com a intenção de realmente partir — vida longa e próspera, minha irmã.

Ele fez a saudação vulcana, que foi correspondida por sua irmã. Enquanto os guardas o acompanhavam para longe dali, a família Kirk lhe desejou que encontrasse a paz que tanto queria.