​O sol da manhã batia nos painéis de vidro da estufa experimental no 40º andar da sede da Lâfrer & Jones, em São Paulo. Eloise Lâfrer Jones ajustava seu jaleco de seda branca, o nome bordado em fios de prata no peito. Ela observava uma rara espécie de orquídea amazônica com a mesma intensidade clínica que seu pai costumava observar gráficos de ações.

​— O pH do solo está 0,2 acima do ideal, Miguel — disse ela, sem desviar os olhos da planta. — Se não corrigirmos agora, a extração da essência de amanhã será um desastre.

​O botânico sênior sorriu, impressionado. Eloise tinha o instinto. Ela era uma Lâfrer, afinal.

​— Já estamos cuidando disso, senhorita Eloise. Mas, antes, quero apresentar o seu colega de estágio. Ele chegou hoje pelo programa de bolsas.

​Eloise ergueu uma sobrancelha, um gesto idêntico ao de Richard. Ela não estava acostumada a dividir seu "reino" particular. Virou-se e deu de cara com um rapaz que parecia deslocado naquela limpeza asséptica. Ele usava calças jeans gastas, uma camiseta escura simples e um jaleco de algodão que parecia ter sido lavado muitas vezes. Mas foram os olhos dele — escuros, alertas e desafiadores — que a fizeram travar por um segundo.

​— Derick Deverro — disse o rapaz, estendendo uma mão calejada. — E o pH não está alto por erro de cálculo. É proposital para estimular a produção de resina na base da pétala. Se você baixar agora, a fragrância vai ficar rala.

​Eloise ignorou a mão estendida e cruzou os braços, os olhos castanhos de Elara faiscando com o gelo de Richard.

​— Eu estudo botânica avançada desde os doze anos, Derick. A acidez do solo é a base da estabilidade. Quem te disse que resina compensa a perda de pureza?

​— A própria planta — respondeu Derick, com um sorriso de canto que irritou Eloise profundamente. — Se você passar menos tempo lendo manuais e mais tempo sentindo o cheiro da terra úmida, saberia que ela está tentando se proteger do calor excessivo das lâmpadas UV. Ela precisa de alcalinidade para sobreviver à sua "perfeição".

​Houve um silêncio tenso. Os funcionários ao redor prenderam a respiração. Ninguém jamais corrigira Eloise Lâfrer Jones dentro daquela empresa, exceto os próprios pais.

​— Miguel — Eloise chamou, a voz gélida. — Quem é este rapaz e como ele passou pela segurança com essas teorias de fundo de quintal?

​— Ele teve a maior nota da história do nosso teste de olfato e botânica, Eloise — explicou Miguel, visivelmente desconfortável. — Derick é... um prodígio.

​Eloise sentiu uma pontada desconhecida no peito. Não era raiva, era algo mais corrosivo: inveja. Ela tinha os melhores professores, as melhores viagens e o melhor laboratório. Como aquele garoto, que provavelmente nunca tinha saído do estado, podia falar com tanta propriedade sobre a sua orquídea?

​— Pois bem, "prodígio" — ironizou ela, aproximando-se dele até que o cheiro de sabão neutro dele se misturasse ao seu perfume caro. — Este é o meu laboratório. Você pode ficar com as amostras de lavanda no setor B. Deixe a botânica de elite para quem sabe o que um nome como Lâfrer representa.

​Derick não recuou. Ele apenas ajeitou a mochila no ombro e deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal da herdeira.

​— Nomes não fazem perfumes, senhorita. Flores sim. E, pelo que vi, a sua orquídea está murchando sob o peso do seu ego.

​Ele passou por ela, indo em direção à bancada, deixando Eloise parada, com o coração batendo rápido demais e uma vontade absurda de provar que ele estava errado. Ou de descobrir como ele sabia tanto.

​A guerra de dezessete anos atrás havia acabado, mas uma nova batalha, muito mais pessoal, acabara de começar no jardim de vidro.