A Essência do Amor 2 Eloise & Derick
12 A Intrusiva e o Destilado Amargo
O equilíbrio que a família Lâfrer havia encontrado foi subitamente abalado por um novo elemento químico: o amor de Derick por alguém de fora do círculo familiar. O que parecia uma parceria perfeita entre tio e sobrinha começou a ganhar contornos de ciúme e possessividade intelectual.
Dois meses haviam se passado desde que Suzana entrara na Lâfrer & Jones. Ela não era apenas uma botânica; era uma acadêmica brilhante, com um doutorado em biomas brasileiros e um sorriso que parecia desarmar a guarda de Derick mais rápido do que qualquer essência.
O que começou como uma consultoria técnica para a "Linha Orvalho" rapidamente se transformou em jantares após o expediente e conversas sobre sementes que duravam até a madrugada. Derick, que passara a vida focado na sobrevivência e no trabalho, finalmente permitira que alguém entrasse em seu mundo privado.
A notícia do namoro correu os corredores da empresa e chegou aos ouvidos de Eloise no alojamento da faculdade através de um post despretensioso de um funcionário no Instagram, mostrando o novo casal rindo no laboratório.
Eloise sentiu o sangue ferver. Não era apenas ciúme — era a sensação de que o "santuário" que eles haviam construído, o segredo entre ela, o pai e o tio, estava sendo invadido por uma estranha.
Ela pegou o celular e ligou para Derick. Eram 22:00.
— Eloise? Que surpresa! — a voz de Derick estava leve, quase alegre demais para o gosto dela. — Eu ia te ligar amanhã para contar...
— Poupe-me dos detalhes românticos, Derick — a voz de Eloise saiu gélida, cortante como o tom que seu pai usava nas piores crises da empresa. — Eu liguei para falar de negócios. Ou o que sobrou deles agora que você resolveu transformar o nosso laboratório experimental em um cenário de comédia romântica.
Houve um silêncio do outro lado da linha. O sorriso na voz de Derick desapareceu instantaneamente.
— Do que você está falando? Eu e a Suzana estamos avançando muito na estabilização dos hidratantes. Ela trouxe uma técnica de extração a frio que...
— "Ela trouxe"? — Eloise o interrompeu com uma risada amarga. — Engraçado. Eu achei que a nossa marca fosse baseada na nossa ancestralidade, no jardim da nossa avó Marianne. Agora você está deixando uma desconhecida colocar as mãos nas fórmulas que a gente levou meses para criar? Você é patético.
— Eloise, baixa o tom. A Suzana é uma profissional incrível e ela me faz bem. Você deveria ficar feliz por mim.
— Feliz? — a voz dela subiu um oitavo, carregada de um desprezo que ela nunca direcionara a ele. — Você se esqueceu de quem te deu essa chance, não foi? Se não fosse pela minha mãe e por mim insistindo com o meu pai, você ainda estaria colhendo ervas em latas de tinta. E agora, na primeira oportunidade, você traz uma "doutorazinha" para dentro do nosso legado?
— Eu sou seu tio, Eloise. E sou o diretor dessa linha. Eu sei o que estou fazendo.
— Você é um amador deslumbrado, Derick. — O gelo na voz dela era absoluto agora. — Aproveite o seu namoro. Mas não espere que eu assine embaixo de qualquer relatório que tenha o nome dessa mulher. A "Linha Orvalho" era o nosso projeto. Agora, para mim, é só mais um produto genérico de farmácia.
— Eloise, espera...
— Boa noite, "Tio". Espero que ela valha o preço da sua lealdade à família.
Ela desligou o telefone antes que ele pudesse responder, arremessando o aparelho sobre a cama. No laboratório, Derick ficou olhando para a tela do celular, sentindo o peso das palavras da sobrinha. Ele sabia que Eloise era difícil, mas aquela frieza... aquela era a marca registrada de um Lâfrer Jones ferido.
O jardim da mansão, que finalmente florescia, acabava de ganhar a sua primeira praga: o conflito de gerações e o medo da substituição.
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