A Essência do Amor
5 A Reação Imprevista
A transição de Elara da copa para o laboratório privativo de Richard causou um burburinho silencioso na sede da Lâfrer Essences. Agora, em vez do uniforme simples de auxiliar, ela vestia um jaleco branco impecável, que parecia destacar ainda mais a vivacidade de seus olhos.
Richard, no entanto, mantinha sua postura rígida. Ele a observava trabalhar com uma mistura de fascínio e desconfiança. Nunca ninguém havia entrado em seu santuário criativo com tanta naturalidade.
— A proporção de fixador está alta demais para essa nota de jasmim, Srta. Jones — disse Richard, sem tirar os olhos de um gráfico em seu tablet.
Elara, que estava concentrada em uma pipeta, nem se virou.
— Se abaixarmos o fixador, o perfume vai evaporar em duas horas na pele. Se usarmos a base de âmbar cinzento sintético que o senhor sugeriu ontem, ele vai sustentar a flor sem sufocá-la.
Richard parou o que estava fazendo. Ele caminhou até a bancada dela, parando perigosamente perto. O cheiro de Elara — uma mistura de sabonete simples, café e a essência de baunilha com que ela estava trabalhando — invadiu os sentidos dele, desarmando sua concentração.
— Você gosta de me contrariar, não é? — perguntou ele, a voz baixa, quase um sussurro que arrepiou a nuca de Elara.
Ela finalmente se virou, ficando a poucos centímetros do peito dele. A diferença de altura a obrigava a inclinar a cabeça para trás.
— Eu gosto de resultados, Sr. Lâfrer. O senhor me contratou pela minha capacidade técnica, não para ser alguém que diz "sim" para tudo o que o senhor fala.
Richard sentiu um impulso estranho. Ele queria se afastar, mas seus pés pareciam colados ao chão. Ele olhou para os lábios dela, que estavam levemente entreabertos pela surpresa da proximidade. Por um segundo, o empresário "frio e calculista" esqueceu as planilhas e o lucro.
O telefone de Elara, esquecido sobre a bancada, começou a vibrar freneticamente. O nome "Hospital Central" brilhava na tela.
A cor fugiu do rosto de Elara instantaneamente. Ela pegou o aparelho com as mãos trêmulas.
— É da minha mãe... — murmurou ela, a voz falhando.
Richard viu o pânico nos olhos dela e, antes que pudesse processar a própria atitude, segurou o braço dela com firmeza, mas sem machucar.
— Atenda. Agora — ordenou ele.
Elara atendeu, ouvindo a voz do médico. Suas pernas fraquejaram e ela teria caído se Richard não a tivesse amparado pela cintura.
— O que houve? — perguntou ele, assim que ela desligou, ainda a segurando.
— Ela teve uma crise... o coração... eles precisam de uma cirurgia de emergência e... o plano de saúde não cobre o procedimento específico que ela precisa — Elara começou a soluçar, o desespero tomando conta. — Eu não tenho esse dinheiro, Sr. Lâfrer. Eu não tenho...
Richard olhou para a jovem em seus braços. Toda a sua lógica de "não se envolver" e de que "família é uma fraqueza" estava sendo testada. Ele lembrou-se de quando era criança e ninguém segurou sua mão quando ele chorava no orfanato.
— Albright! — gritou Richard, sua voz ecoando para fora do laboratório.
A secretária apareceu na porta em segundos, assustada com o tom do patrão.
— Sim, senhor?
— Ligue para o Hospital Central. Diga que a conta de Maria Jones será transferida para a minha conta pessoal. Quero os melhores cirurgiões de prontidão. Agora!
Elara olhou para ele, em choque. As lágrimas ainda rolavam, mas o choro parou por um instante de puro espanto.
— Por que o senhor está fazendo isso? O senhor nem me conhece direito... o senhor disse que amor era ilógico...
Richard a soltou devagar, recompondo sua máscara de indiferença, embora seus olhos ainda estivessem intensos.
— Considere um adiantamento de bônus por ter salvado o lote de verão, Elara. Eu não posso perder minha melhor assistente para uma preocupação doméstica.
Ele deu as costas a ela, voltando para sua mesa, mas suas mãos tremiam levemente.
— Vá para o hospital. Meu motorista está te esperando lá embaixo. Ele vai te levar e ficar com você até a cirurgia acabar.
Elara correu até ele e, antes que ele pudesse reagir, o abraçou rapidamente. Foi um toque fugaz, mas Richard sentiu como se tivesse levado um choque elétrico.
— Obrigada, Richard. Obrigada de verdade.
Ela saiu correndo da sala. Richard ficou parado, em silêncio absoluto. Ele tocou o lugar onde o corpo dela o pressionara por um segundo. O perfume de Elara ainda estava impregnado em seu jaleco.
— Ilógico... — sussurrou ele para o escritório vazio. — Completamente ilógico.
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