A Essência do Amor 2 Eloise & Derick
2 O Desafio de Vidro
Eloise passou o restante da manhã tentando ignorar a presença de Derick no Setor B. No entanto, era impossível. Ele não se comportava como um estagiário intimidado; ele se movia pelo laboratório com uma confiança silenciosa, anotando observações em um caderno de papel reciclado que parecia um insulto aos tablets de última geração da empresa.
Por volta das 14h, a porta automática do laboratório se abriu. Richard Lâfrer entrou, sua presença ainda impondo um silêncio reverencial. Ele não era apenas o dono; era a lenda.
— Eloise — disse Richard, aproximando-se da filha. Ele a analisou por um segundo, orgulhoso da postura impecável dela. — E você deve ser o rapaz de quem Miguel me falou. Derick, certo?
Derick levantou-se, limpando as mãos de terra no jaleco. Ele encarou o "Imperador" nos olhos, sem vacilar.
— Sim, senhor.
Richard deu um sorriso raro e contido. Ele via algo naquele garoto que o lembrava de sua própria juventude faminta por sucesso.
— Ótimo. Eloise, a sua mãe e eu decidimos que o projeto da "Linha Aurora" — a nossa nova fragrância sustentável — será o teste final deste estágio. Vocês dois vão trabalhar juntos na extração da nota principal.
— O quê?! — Eloise quase deixou cair o frasco de vidro que segurava. — Pai, eu planejei o cronograma de extração sozinha. Eu não preciso de um... "auxiliar" que questiona meus métodos.
— Ele não é seu auxiliar, Eloise. Ele é seu parceiro — Richard cortou, a voz fria e final. — Na Lâfrer & Jones, o talento vale mais que o sobrenome. Se vocês não conseguirem entrar em um consenso sobre a destilação da orquídea até sexta-feira, o projeto será cancelado. E você sabe que eu não aceito fracassos.
Richard saiu, deixando um rastro de perfume amadeirado e uma tensão elétrica para trás.
Eloise virou-se para Derick, os olhos castanhos faiscando. Ele apenas deu de ombros e voltou para a bancada.
— Parece que a "botânica de elite" vai ter que sujar as mãos com o "fundo de quintal" — provocou Derick, sem olhar para ela.
— Escuta aqui, Deverro — Eloise caminhou até ele, parando tão perto que conseguia ver as pequenas manchas de terra sob as unhas dele. — Eu vou liderar isso. Você vai ficar com a parte mecânica, a filtragem e a limpeza. Eu cuido da alquimia. Entendido?
Derick largou a pinça e virou-se para ela. O rosto dele estava limpo, focado, e ele a olhou com uma intensidade que fez o estômago de Eloise dar um solavanco estranho.
— Você tem medo, não tem? — ele perguntou, a voz baixa. — Medo de que eu sinta algo na planta que os seus aparelhos de mil dólares não conseguem detectar.
— Eu não tenho medo de você — mentiu ela, a mandíbula travada.
— Então prova. Amanhã, às seis da manhã. Vamos colher a essência na hora em que a orquídea abre, sem luz artificial. Só você, eu e o que a natureza decidir nos dar.
Eloise sentiu um arrepio. A proposta era um absurdo técnico para os padrões do pai, mas a curiosidade — aquela mesma curiosidade faminta que sua mãe, Elara, possuía — gritou mais alto.
— Seis da manhã. E se você se atrasar um minuto, eu te expulso desta estufa pessoalmente.
— Eu estarei aqui antes do sol, Lâfrer. A questão é: você aguenta o sereno?
Eloise deu as costas, o coração batendo rápido. Pela primeira vez na vida, ela não estava competindo contra um gráfico de vendas, mas contra um par de olhos escuros que pareciam enxergar através de toda a sua perfeição.
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