​Eloise passou o restante da manhã tentando ignorar a presença de Derick no Setor B. No entanto, era impossível. Ele não se comportava como um estagiário intimidado; ele se movia pelo laboratório com uma confiança silenciosa, anotando observações em um caderno de papel reciclado que parecia um insulto aos tablets de última geração da empresa.

​Por volta das 14h, a porta automática do laboratório se abriu. Richard Lâfrer entrou, sua presença ainda impondo um silêncio reverencial. Ele não era apenas o dono; era a lenda.

​— Eloise — disse Richard, aproximando-se da filha. Ele a analisou por um segundo, orgulhoso da postura impecável dela. — E você deve ser o rapaz de quem Miguel me falou. Derick, certo?

​Derick levantou-se, limpando as mãos de terra no jaleco. Ele encarou o "Imperador" nos olhos, sem vacilar.

​— Sim, senhor.

​Richard deu um sorriso raro e contido. Ele via algo naquele garoto que o lembrava de sua própria juventude faminta por sucesso.

​— Ótimo. Eloise, a sua mãe e eu decidimos que o projeto da "Linha Aurora" — a nossa nova fragrância sustentável — será o teste final deste estágio. Vocês dois vão trabalhar juntos na extração da nota principal.

​— O quê?! — Eloise quase deixou cair o frasco de vidro que segurava. — Pai, eu planejei o cronograma de extração sozinha. Eu não preciso de um... "auxiliar" que questiona meus métodos.

​— Ele não é seu auxiliar, Eloise. Ele é seu parceiro — Richard cortou, a voz fria e final. — Na Lâfrer & Jones, o talento vale mais que o sobrenome. Se vocês não conseguirem entrar em um consenso sobre a destilação da orquídea até sexta-feira, o projeto será cancelado. E você sabe que eu não aceito fracassos.

​Richard saiu, deixando um rastro de perfume amadeirado e uma tensão elétrica para trás.

​Eloise virou-se para Derick, os olhos castanhos faiscando. Ele apenas deu de ombros e voltou para a bancada.

​— Parece que a "botânica de elite" vai ter que sujar as mãos com o "fundo de quintal" — provocou Derick, sem olhar para ela.

​— Escuta aqui, Deverro — Eloise caminhou até ele, parando tão perto que conseguia ver as pequenas manchas de terra sob as unhas dele. — Eu vou liderar isso. Você vai ficar com a parte mecânica, a filtragem e a limpeza. Eu cuido da alquimia. Entendido?

​Derick largou a pinça e virou-se para ela. O rosto dele estava limpo, focado, e ele a olhou com uma intensidade que fez o estômago de Eloise dar um solavanco estranho.

​— Você tem medo, não tem? — ele perguntou, a voz baixa. — Medo de que eu sinta algo na planta que os seus aparelhos de mil dólares não conseguem detectar.

​— Eu não tenho medo de você — mentiu ela, a mandíbula travada.

​— Então prova. Amanhã, às seis da manhã. Vamos colher a essência na hora em que a orquídea abre, sem luz artificial. Só você, eu e o que a natureza decidir nos dar.

​Eloise sentiu um arrepio. A proposta era um absurdo técnico para os padrões do pai, mas a curiosidade — aquela mesma curiosidade faminta que sua mãe, Elara, possuía — gritou mais alto.

​— Seis da manhã. E se você se atrasar um minuto, eu te expulso desta estufa pessoalmente.

​— Eu estarei aqui antes do sol, Lâfrer. A questão é: você aguenta o sereno?

​Eloise deu as costas, o coração batendo rápido. Pela primeira vez na vida, ela não estava competindo contra um gráfico de vendas, mas contra um par de olhos escuros que pareciam enxergar através de toda a sua perfeição.