A Esquina Esperanza
2 Lilian
Notas iniciais
Na quarta ou quinta tentativa encontrava-me no banco de trás de um carro. Percebo logo que não era bem um sonho lúcido, muito pelo contrário: não via meu corpo, eu era um mero espectador da cena. Olhei pela janela e vi outros carros sendo ultrapassado por aquele no qual eu estava, estávamos numa autoestrada? Acho que sim. A velocidade me assustava um pouco.
Eu reparei também que não ouvia o som ambiente, era como se eu estivesse surdo. Olho para os bancos da frente e o motorista e uma mulher ao seu lado discutiam, eu os assistia como numa televisão na função mudo. O homem não prestava atenção na direção, isso era aterrorizante. Eu tentava gritar, mas eles também pareciam não me ouvir. Aliás, nem eu me ouvia. Tudo o que ouvia eram gritos abafados, soluços. Mas pareciam distantes, como se estivessem presos dentro de um aquário de vidro espesso.
Quando olho para o lado, vejo a fonte dos gritos e súplicas para que parassem. Era a garota. Eu finalmente tinha a encontrado! Ela parecia mais... viva. Acho que essa seria a palavra. Seus cabelos que na outra noite eram quase brancos, eram loiros, vívidos e claros como raios de sol em forma física, tangível. Bem, ao menos acho que era tangível, eu nem sequer tinha mãos para tocá-los! Ela usava o mesmo vestido branco, mas ele não cintilava. Seus olhos eram de um azul cinzento diferente de qualquer outro que eu já tinha visto. Ela era realmente linda em sua versão "viva", mas ainda assim, uma parte necrófila de mim a preferia envolta em sua luz branca tremeluzente e fantasmagórica. Aliás, ter desejos sexuais por um fantasma caracteriza necrofilia?
A despeito de toda sua beleza, seus olhos claros tinham tom avermelhado, assim como seu nariz – ela chorava. Por um momento eu simplesmente tinha esquecido que me encontrava em um carro em alta velocidade correndo rumo à morte, mas logo vi que seu choro fazia sentido: era isto o que eu assistia, a sua morte!
O carro começou a balançar, se desestabilizar. Olho para frente e vejo a pista molhada dançar em nosso caminho. De repente, saímos da pista, caímos ribanceira abaixo. O carro derrapou pela lama e bateu em algumas árvores. Foram segundos, talvez minutos, de puro terror. Esse sonho era estranhamente pior que o anterior. Quer dizer, eu pelo menos poderia correr e escapar, mas e agora que eu era uma simples câmera do Big Brother Carro-Desgovernado? Encontrava-me sem ação. Paramos dezenas de metros morro abaixo. Via os adultos – presumo que eram os pais dela – mortos, ensanguentados nos bancos da frente, e ela da mesma forma ao meu lado.
Tudo ficou branco, como se uma flashbang tivesse estourado a vinte centímetros do meu nariz. Quando minha visão clareou, tive aquele momento clichê, em que se abrem os olhos e se vê médicos carregando sua maca pelo corredor do hospital. A diferença é que eu não estava na maca, a garota estava. De repente um pensamento surgiu com a força de um touro investindo contra meu cérebro: "Ela está viva?". Não, eles a trouxeram para um hospital, estão correndo com ela pelo corredor porque querem pegar impulso na hora de jogarem-na pela janela para as caçambas de lixo! É CLARO que ela está viva, seu idiota!
– Lilian... Aguente firme... – dizia uma mulher vagamente parecida com ela. Acho que era sua tia.
Novamente o sonho muda. Ela estava na cama do hospital. Curativos e pontos espalhados pelo rosto. Sua aparência serena indicava que ela estava dormindo profundamente. Aparelhos conectavam-se a todo o seu corpo, inclusive uma mascara respiratória.
Ao redor da cama de hospital, médicos monitoravam os aparelhos que faziam sons de bip e conversavam em tom de preocupação. Um deles, que parecia ser o médico principal, dirigiu-se à tia:
– Ela está em coma profundo, mas estável. Ela não corre mais risco de vida, mas os danos foram graves, não temos uma previsão de quando ela poderá acordar... infelizmente não sabemos se ela poderá acordar.
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