A Espera
5 A Espera de um Desabafo
Notas iniciais
Ele havia acordado de muito bom humor. Sentou na beirada da cama enquanto terminava de acordar, e depois levantou, indo em direção ao banheiro para tomar um banho rápido. Já havia tomado banho na noite anterior, antes de dormir, por isso só abriu o registro e apenas ficou debaixo do chuveiro deixando a água escorrer por seu corpo durante alguns minutos. Ele gostava da sensação, além de ajudar a despertá-lo por completo. Fechando o registro do chuveiro, ele pegou uma toalha e a enrolou em seu corpo, prendendo-a no quadril. Aproximou-se do lavatório e pegou o creme de barbear, espalhando a espuma pelo rosto. Pegou o prestobarba e começou a fazer a barba. Os pelos incomodavam por causa da máscara, por isso ele nunca passava muito tempo sem fazer.
Ao terminar ele saiu do banheiro, jogou a toalha sobre a cama depois de se secar e foi em direção ao guarda-roupa. Abriu uma gaveta e de lá tirou uma cueca. Depois, abriu uma porta e pegou uma calça preta. Estava de folga e iria aproveitar para ficar em casa e colocar a leitura de seu Icha Icha em dia. Após vestir as roupas foi para a cozinha, fazer seu café da manhã. Sim, seu humor chegava a esse ponto. Parecia um adolescente de quatorze anos de idade encantado com uma menina de colegial. Desde que acordou um sorriso não saiu de sua boca e seus pensamentos estavam voltados para uma única pessoa.
Início Flashback
Depois de terem aquela conversa ela o acompanhou a um restaurante para que ele pudesse saciar sua fome. Eles escolheram um restaurante simples e que não ficava muito cheio. Kakashi já havia comido ali várias vezes pois a comida era excelente. Eles entraram no restaurante e escolheram uma mesa mais ao fundo. A atendente se aproximou com o cardápio mas ele dispensou o mesmo e fez seu pedido. Olhou para Sakura e perguntou se ela iria pedir alguma coisa. Ela pediu apenas um refrigerante.
A atendente se retirou e eles ficaram se fitando por alguns instantes.
– Está com medo de ter que pagar a conta? Ele perguntou, enquanto encostava mais relaxado na cadeira.
– Se eu tivesse medo disso nunca comeria nada com vocês depois das missões. Disse, se referindo as idas ao Ichiraku e em outros lugares, quando o time sete voltava das missões. — Eu te falei que já havia comido mais cedo. Não estou com fome. Além disso, vou sair antes de você, assim não corro o risco de ficar com a conta, né, Kakashi!? Ela concluiu, piscando o olho esquerdo, e dando um sorriso para ele.
– É uma tática. Mas você sabe, eu como rápido. Ele disse, com um leve sorriso sob a máscara.
– Hum... Você poderia fazer uma exceção dessa vez? Sabe, comer rápido desse jeito faz mal.
– Estou acostumado, não precisa se preocupar. Embora eu ache que seu pedido tenha uma segunda intenção. Ele disse, apontando para a máscara que cobria boa parte de seu rosto.
Sakura soltou um suspiro derrotado. — Sabe todo esse tempo tentando ver seu rosto sem conseguir absolutamente nada é realmente muito frustrante.
– Imagino. A última tentativa você e Naruto fizeram não tem muito tempo. Por que não desistem?
– Bom, você sabe, é uma questão de honra. Nunca vamos desistir. É nosso maior desafio.
– Entendo. Então não posso facilitar certo? Caso contrário não seria um desafio.
– Muito engraçado.
– Com certeza! Eu me divirto muito. Disse sem conseguir conter algumas risadinhas. — Quantas vezes já tentaram? Eu já perdi a conta.
– Muitas. Todas terminando de forma trágica e decepcionante. Lembra-se daquela vez em que...
Ela começou a contar uma vez em que tentaram ver seu rosto. E mais outra. E outra. Todas as trapalhadas em que se meteram com as ideias de Naruto desde o início do time sete. Ela contava os casos e ele fazia comentários, lembrando-se do seu ponto de vista as tentativas fracassadas de seus alunos. Quando a garçonete trouxe a comida os dois estavam rindo, envolvidos em uma intimidade que somente pessoas que se importam umas com as outras possuem.
Quando a garçonete saiu, ele colocou dois dedos na máscara e percebeu que Sakura ficou calada, a respiração presa em expectativa, apenas observando para ver o que ele faria. Ele olhou para ela com carinho. Ficou curioso para ver qual seria sua reação se lhe mostrasse o rosto. Ela havia dito que eles imaginaram seu rosto de várias formas:beiçudo, dentuço, e por ai ia. Mas não, não era a hora e nem o lugar. Talvez nunca seria.
– Talvez algum dia, Sakura. Quem sabe? Disse, em resposta ao olhar de expectativa que ela estava lhe lançando.
Ele achou que ela iria ficar decepcionada. Mas o que viu foi um brilho de desafio em seus olhos.
– A questão não é ‘se’ Kakashi, a questão é ‘quando’. Respondeu com um riso matreiro na boca. – Eu vou ver o seu rosto.
Então ela desviou sua atenção dele dando uma boa olhada no restaurante, para que ele tivesse a privacidade de entornar sua comida guela abaixo — por que aquilo era o que ele fazia — sem se preocupar se ela estava olhando. Não que ele precisasse disso. Ele já estava mais que preparado para comer de forma que ninguém visse seu rosto, mesmo que as pessoas o ficassem encarando.
Quando ele terminou de comer ela ainda bebia seu refrigerante, que estava pela metade. Eles não estavam com pressa de ir embora por isso continuaram conversando. Falaram sobre coisas engraçadas e sérias, assuntos que iam desde as expectativas dela como jounnin e o time sete até sobre como sua rivalidade com Gai havia começado. Ela contava suas histórias e sua rivalidade com Ino.
Ele se abriu um pouco e respondeu algumas perguntas que ela fez sobre a vida dele, assim como ele lhe perguntou algumas coisas pessoais. Eles estavam em um clima amigável e não notaram o tempo passar. Quando perceberam a atendente estava ao lado da mesa perguntando se eles desejavam mais alguma coisa, pois já tinha dado o horário de fechar o restaurante. Na verdade, já havia passado. Eles pediram desculpas e disseram que não, pagarem a conta — sim, dessa vez ele pagou — e saíram do restaurante indo em direção à casa dela. Kakashi disse que a levaria e ela não discutiu muito. Ambos estavam gostando da companhia um do outro.
Andavam em um passo bem lento como se não quisessem chegar ao seu destino, esticando o tempo o máximo possível. Kakashi nunca se divertira tanto ao sair com uma mulher, ao menos não sem envolver sexo. A conversa entre eles fluía naturalmente. Era gostoso estar com ela. E já estava ficando difícil ficar tanto tempo assim vendo aquela boca e não beijá-la.
Ao virarem a esquina eles chegaram à rua onde ela morava. Eles continuaram andando e ao passar por um beco escuro Kakashi a empurrou ali, interrompendo o que ela estava dizendo. E antes que ela pudesse falar novamente ele fez o tanto queria: abaixou sua máscara e beijou aquela boca que o estava atormentando a noite toda. Não, não só aquela noite. Estava atormentando-o desde a noite no bar, dias atrás. Dessa vez ele não foi cauteloso. Beijou-a como se sua sanidade dependesse disso, e na verdade, dependia.
Ele a sentiu hesitar um momento, talvez por não esperar que ele fizesse isso, mas correspondeu logo em seguida como se tivesse jogado tudo para o alto como ele e decidido que fosse o que fosse que estivesse pensando poderia pensar mais tarde. Ele subiu uma de suas mãos até os cabelos dela e os agarrou, enquanto a outra escorregava até sua cintura fina e a puxava para si. Ele já estava excitado e queria que ela soubesse disso. Do efeito que causava nele.
Ele a sentiu tremer quando colou seu corpo ao dela. Sentiu sua mão segurando sua nuca e o puxando para mais perto como se fosse possível. Eles já estava colados um no outro. E ficaram assim por um bom tempo até se separarem ofegantes em busca de ar. Ele encostou sua testa na dela, os olhos de ambos ainda fechados.
– Ainda está pensando? Ele perguntou, enquanto sentia um comichão doloroso entre as pernas.
– O que? Ela disse, abrindo os olhos. Não, ela não estava pensando. Não sabia nem onde estava direito. A única coisa que tinha lugar em sua mente era o que estava sentido. As sensações que ele provocara nela ninguém nunca conseguiu provocar. Era incrível, era delicioso, e ela queria mais.
Ele se aproximou da lateral do rosto, levando sua boca até sua orelha.
– Você...ainda...está...pensando? Perguntou, intercalando a frase enquanto mordiscava sua orelha. Ele pôde ouvir um gemido que ela tentou inutilmente segurar.
– Eu... você disse que... esperar...droga, não consigo pensar assim.
Ele soltou um leve riso. A entendia muito bem. — Eu estou esperando, Sakura. Mas não vou por muito tempo. Considere isso como um incentivo. Uma mostra do que está perdendo. Completou, descendo sua língua pelo pescoço e sentindo os pelos ali ficarem eriçados.
– Ka..kashi.. eu...
Ele a interrompeu beijando sua boca novamente. Seu gosto era tão bom quanto se lembrava. Eles continuaram assim até que o desejo que ele sentia se tornou insuportável. Kakashi finalizou o beijo, se afastando um pouco e com sua mão fez um carinho no rosto dela. Ele percebeu que ela iria falar algo e antes que continuasse ele colocou um dedo em sua boca, silenciando-a. Ele precisava de um tempo. Depois de alguns minutos ele subiu a máscara, tampando seu rosto novamente, e segurando a mão dela começou a andar levando-os para fora do beco. Mais alguns passos e chegaram em frente ao prédio onde ela morava.
Eles pararam e ele se virou ficando na frente dela. Sakura estava corada, com os olhos nublados, o cabelo um pouco despenteado e a boca inchada. Ele sorriu. Ela estava linda.
– Tenha bons sonhos, Sakura. Disse se despedindo.
– Mas...
– Quer que eu suba? Ele perguntou, com a voz rouca.
Ela não disse nada. Estava claro para ele que ela o desejava. Mas ainda assim ela não conseguia ceder. Não estava agindo só no impulso. Sim, Ela realmente havia mudado. Muito.
– Se não for isso, seja o que for podemos conversar amanhã. Eu realmente preciso ir embora.
Precisava de uma ducha gelada. Muito gelada.
Ela se aproximou dele segurando seu braço antes que fizesse os selos e desaparecesse.
– Só quero dizer que.. que eu...
Ela não estava conseguindo articular uma frase. Só conseguia imaginar como seria fazer amor com ele. Queria dizer que ele podia subir e que eles ficariam a noite inteira fazendo o que estava mais que claro que ambos queriam. “Diga a ele! Diga a ele! Finalmente! Iupii!” gritou sua Inner.
– Só quero dizer que adorei ter encontrado com você hoje.
“O que? Vou te matar. Agora.”
Ao ouvir isso ele deu um sorriso debochado. Não que ela pudesse ver mas sua expressão denotava isso. Ele sabia que ela iria convidá-lo para ficar, mas não conseguiu e desistiu no último minuto.
– Covarde.
– Não sei do que você está falando. Ela desconversou.
Ele lhe lançou um olhar cheio de desejo e disse com a voz rouca:
– Você vai adorar mais ainda quando eu estiver dentro de você, Sakura-chan. Assim que terminou de falar ele teve o prazer de ver o rosto dela pegar fogo.
– Não seja convencido.
– Não seja covarde. Ele rebateu.
– Não sou. É só que eu ainda não me decidi. Ela tentou argumentar, com a voz fraca, não conseguindo desviar seus olhos dos dele.
Ele tocou-lhe o rosto, passeando o dedo sobre sua boca. Pôde sentir o corpo dela estremecendo sob seu toque. Deslizou o dedo por seu pescoço, passando por seu ombro e descendo pelo braço. Em toda a extensão sentia os pelos se eriçando, a pele arrepiada.
– Sente isso? Perguntou. — Você já se decidiu Sakura. Não é mais uma questão de ‘se’. É uma questão de ‘quando’.
Ele falou, fazendo referência a frase que ela usou mais cedo ao falar que veria seu rosto. Ela entreabriu os lábios, soltando um suspiro.
– Até mais Sakura.
Ele se virou e foi andando para casa. Naquele estado uma caminhada faria bem.
Fim do Flashback
Ele estava terminando de tomar seu café da manhã enquanto pensava na noite que tinha tido. Ele não sabia explicar o porquê daquela atração. Era como se seus corpos tivessem resolvido que queriam estar juntos e não se importavam se eles concordassem ou não. Além disso eles já haviam passado um tempo juntos em missões, já haviam conversado. Mas ontem havia sido diferente. Ele pensou na mulher que estava a sua frente ontem, enquanto ela falava e ria. Mulher. Sakura havia crescido muito, não só em tamanho, mas em personalidade. Pouco tempo de conversa já dava para notar isso. Ela estava mais solta, mais alegre. Ele não esperava que ela ficasse assim, ao menos não enquanto Sasuke não voltasse.
Mas mesmo isso não acontecendo, mesmo ele ainda estando com Orochimaru, ela conseguiu colocar aquela tristeza e peso que carregava em algum lugar e tranca-los lá. A impressão era que ela havia se libertado daquele sentimento, e com isso libertado Naruto. Não que este havia desistido de trazer Sasuke de volta. Nenhum deles havia na verdade. Mas era como se ele não tivesse aquele peso da promessa nas costas. O peso de fazê-la feliz e não conseguir.
Quando exatamente essa mudança aconteceu ele não percebeu. Foi uma mudança sutil, ocorrendo aos poucos ao longo dos anos. Mas agora ele podia ver o resultado bem na sua frente. Uma mulher com um brilho único nos olhos, um sorriso incrível, uma alegria e presença cativantes. Uma mulher sexy e tentadora. Nem sombra da menina que ela tinha sido um dia. Fosse qual fosse a justificativa ou qualquer outra coisa que ele pudesse inventar, ele notou que deveria tomar cuidado. Ele havia começado aquele jogo mas poderia acabar se dando mal. Ele percebeu que ela era uma mulher que poderia levar qualquer homem a se apaixonar. Até mesmo ele. Mas isso era algo que jamais aconteceria. Ele não se permitiria isso. Não depois de Rin.
–x-x-x-
Ela havia acordado cedo, trocado de roupa e saído. Iria passar na padaria para tomar café, pois estava com preguiça de preparar qualquer coisa. No caminho ela decidiu passar na floricultura para chamar Ino. Precisava desabafar. Sua mente estava confusa e algumas opiniões seriam boas. Precisava conversar com alguém. Deixaria para ir ao hospital na parte de tarde. A noite de sono foi suficiente para recarregar seu chakra, mas ela precisava desabafar ou sua mente a enlouqueceria. Se houvesse alguma emergência tinha certeza que a Shishou a chamaria.
Ela entrou na floricultura que àquela hora da manhã estava vazia. Encontrou a mãe de Ino arrumando alguns arranjos.
– Bom dia senhora Yamanaka.
– Olá Sakura! Bom dia! Respondeu a mãe da Ino. — Como você está? Já faz algum tempo que não te vejo.
– Eu vou bem. É que esses dias eu tenho passado muito tempo no hospital.
– É bonito ver sua dedicação, mas não fique tempo demais naquele lugar. Não se pode esquecer de viver um pouco a vida. O tempo passa muito rápido.
– Pode deixar. Respondeu com um sorriso. Era como ouvir a Ino falando. — A Ino está?
– Sim, no quarto. Disse enquanto olhava um cliente entrando na loja. — Preciso atender. Fique à vontade, você sabe o caminho.
Sakura atravessou a porta dos fundos da loja, que levava a casa dos Yamanaka. Ela entrou na sala e subiu as escadas indo em direção ao quarto de sua melhor e mais preguiçosa amiga. Quer dizer, segunda mais preguiçosa. O primeiro era Naruto. Entrou de fininho no quarto para não fazer barulho e se deparou com uma Ino esparramada na cama, provavelmente no sétimo sono. Ela deu uma risadinha. "Vai ser divertido", pensou. Há quanto tempo não fazia isso?
Atravessou o quarto, abriu o guarda-roupa e tirou outro travesseiro de lá. Ela já o havia usado várias vezes quando dormia ali. Chegou perto da cama e levantou o travesseiro. Calculou a força que iria usar, afinal, era apenas uma brincadeira. Não queria fazer patê de Ino. Logo, tratou de retirar todo o chakra para não machucar. Mirou bem aquela bunda virada para cima e soltou um grito enquanto descia o travesseiro com toda a força que conseguia sem usar chakra:
– Acorda Porca!!!
– Haaa!! Ino gritou assustada, sentindo como se tivesse levado um murro no seu bumbum e... espera. No seu bumbum? E esse perfume... – Sakura!! Tá louca??
– Guerra de travesseiro!!! Em três, dois, um...
Ela fez a contagem para Ino se preparar, afinal, tinha acabado de acordar a porquinha. Ino agarrou seu travesseiro e antes que Sakura terminasse a contagem acertou o mesmo no seu rosto, derrubando-a da cama.
– Se você insiste tanto Testa. Respondeu uma Ino descabelada, com uma cara inchada de tanto dormir e um sorriso maquiavélico no rosto.
Sakura que já havia se recuperado apertou um pouco mais seu travesseiro.
– Você não imagina o quanto. Respondeu Sakura com o mesmo sorriso insano. Em menos de um segundo as duas estavam se atracando com os travesseiros.
Da loja a mãe de Ino conseguiu ouvir alguns gritos vindos de dentro da casa, e já imaginava o que poderia estar acontecendo.
– Está tudo bem? A cliente perguntou. — Parece estarem se matando lá dentro?
– Não, não se preocupe. Não é nada. Respondeu com uma gota escorrendo pelo rosto. Algumas coisas nunca mudam, pensou.
Quando terminou a brincadeira elas estavam ofegantes.
– Bom isso foi muito legal! Disse Ino, com um sorriso na boca. — Mas por mais que eu saiba que você me adora você não viria aqui tão cedo assim só para uma guerra de travesseiros, não é? Uma hora dessa você estaria enfurnada naquele hospital. Concluiu Ino, vendo as horas no relógio que ficava ao lado de sua cama.
– A shishou me dispensou ontem. Respondeu Sakura, controlando sua respiração.
– Aconteceu alguma coisa?
– Não, nada grave. Foi só que eu estava numa jornada de trabalho seguida com plantões, e tivemos alguns casos mais complexos, acabei gastando quase todo o meu chakra.
– Eu disse para você não exagerar. Você voltou daquela folga que ela te deu pior do que antes.
– Certo, certo. Disse, abanando a mão. Talvez ela tenha exagerado um pouco, mas não queria falar sobre isso. — Passei para te chamar para tomar café na padaria. Vamos?
Ino estreitou os olhos. Ela sabia que tinha mais coisa ali. Não que ela nunca a tenha acordado com uma guerra de travesseiros, mas estava cedo demais. Além disso, Sakura não conseguia esconder seus pensamentos muito bem. Se havia algo que a estava preocupando ou deixando-a chateada, ela não precisava dizer. Bastava olhar para a cara dela. Não que fosse um livro aberto, mas bom, também não era uma máscara de indiferença. O que poderia ter acontecido nos últimos dias para ela ficar assim? A única coisa fora do normal foi quando fomos ao bar e ela ficou flertando com Kakashi-sensei. Mas depois disso, não consigo me lembrar de mais nad... Ino interrompeu seus pensamentos em um estalo. Hum... Kakashi-sensei hein? Oh sim, já vejo.
– Com certeza eu vou. Espera só eu me trocar.
Ino levantou do chão, pegou algumas roupas no guarda-roupa e correu em direção ao banheiro, voltando minutos depois um pouco esbaforida. Havia se arrumado em tempo recorde. O que? Ela não podia estar curiosa?
– Vamos, falou para Sakura, puxando-a pelo braço e a arrastando porta afora.
As duas saíram do quarto, desceram as escadas e passaram pela floricultura. Ino cumprimentou sua mãe e avisou que ia tomar café com Sakura. Elas então ganharam a rua e começaram a andar em direção a padaria, que não ficava muito longe de onde estavam.
– E então? Qual é o real motivo de ter me acordado?
– Estava me questionando quando você iria perguntar. Respondeu Sakura em meio a risos.
– Você me conhece, sou um poço de curiosidade. E eu te conheço Sakura. Disse Ino com um sorriso. Elas eram unha e carne desde pequenas, claro que tinham sua rivalidade, mas mesmo assim, ou talvez até por isso, tinham um laço de amizade muito forte.
– Verdade seja dita estou precisando mesmo conversar. Mas preciso de mais tempo do que um café pra isso.
– Sem problemas. Tenho todo o tempo que você precisar.
A padaria na qual elas foram além de venderem os produtos também possuía um espaço com algumas mesas para quem quisesse comer algo ali mesmo. Ao chegaram elas escolheram algumas coisas para comer e se sentaram em uma mesa mais ao fundo, quase isolada. Engraçado, estou fazendo muito isso ultimamente, pensou Sakura.
Enquanto começavam a comer Ino já foi dizendo:
– Então diga logo, o que Kakashi-sensei fez?
Os olhos de Sakura arregalaram. – Não disse que era sobre ele.
– Testa, por favor. Não me insulte. Depois daquela noite no bar quase não te vi mais. Você mesma falou que ficou enfurnada naquele hospital a ponto da Hokage-sama te dar uma folga. Você vem me acordar super cedo para poder desabafar. A única coisa que eu sei que aconteceu na sua vida nas últimas semanas para justificar tudo isso tem um nome. E é Kakashi.
Sakura suspirou, seus olhos voltando ao normal.
– Fiquei com medo de você ter ouvido alguma coisa. As vezes esqueço que me conhece tão bem.
– Não ouvi nada não. Mas porque diz isso? Ino se engasgou com o suco e logo em seguida se aproximou de Sakura sobre a mesa com os olhos brilhando e as mãos juntas como um apelo – Não me diga que aconteceu alguma coisa entre vocês a ponto de estar preocupada se o povo está fofocando. Sakura!! Finalmente!! Conte-me, ele é bom mesmo como todas falam?
– Ino, senta ai. Para de chamar a atenção. Respondeu vermelha como pimentão.
– Desculpa. Eu me empolguei. Disse rindo um pouco, enquanto se sentava, passando a mão na parte de trás da cabeça, meio sem graça.
– Tudo bem. Só não fale muito alto tá? Bem, você tem razão. É sobre Kakashi.
– Kakashi hein? O que aconteceu com o sensei?
– Não comece. Não tem motivo mais chama-lo assim.
– Não tem motivo há muito tempo mais isso nunca fez você parar.
– Quer ouvir ou não? Disse, exasperada.
– Certo, certo. Não vou mais brincar. Pode me falar. Estou aqui e vou te escutar e te apoiar seja o que for.
– Obrigada Ino. Bom, tudo começou aquela noite no bar, você lembra.
Sakura começou a narrar tudo que passou nesses últimos dias, depois que saiu do bar acompanhada de Kakashi. Ino não a interrompeu. Continuou tomando seu café da manhã, parando em alguns pontos da narração de Sakura, como quando ela falou do amasso que deram. Claro que ela não entrou em detalhes, já estava vermelha o suficiente só de mencionar o fato, imagina os detalhes. Depois de contar tudo, ela começou a colocar suas dúvidas pra fora. Se devia ou não ficar com ele. Não queria estragar o que tinham. Não queria deixar passar algo que poderia ser bom. Tinha medo de gostar dele, como achava que talvez já estivesse. E se chegasse a esse ponto, o que ela faria? Ele tinha deixado bem claro que não queria nada sério. Ele tinha uma fama e tanto, não ficava com uma mulher por muito tempo. Seria assim com ela também. Ou não? Mas ela queria. Estava com muito medo de quebrar a cara, mas queria. E não queria. Não sabia o que fazer, seu cérebro estava fundindo. Quando terminou de colocar tudo pra fora, ela encarou Ino, aguardando uma ajuda. Uma frase mágica que resolvesse todo aquele conflito que estava tendo.
– Bom, em primeiro lugar. Você deveria ter vindo desabafar antes. Está claro que precisava disso e se tivesse feito, provavelmente não precisaria ter ficado dando plantões no hospital como uma louca.
Ino fez uma pausa, observando Sakura. Quando viu que ela ia falar algo, fez um sinal para que ela esperasse e continuou:
– Em segundo, você cresceu muito Sakura. Você se tornou uma mulher madura a ponto de deixar Sasuke sair do seu coração. Mas você esqueceu-se de deixar o medo ir embora também. Você está ai, com medo de se envolver. Com medo de se decepcionar de novo. Está achando que é isso que vai acontecer. Não sei te falar se a decepção virá ou não. Se ele vai ficar com você uma vida, ou se vai te deixar no dia seguinte a vocês terem ido para a cama. Mas sei te dizer que se não for com ele, será com outro. Sempre que alguém se aproximar de você para tentar algo mais você sentirá esse medo, terá essas dúvidas.
– Mas Ino, eu..
– Espere, ainda não acabei. Se você quer tanto ter algo com ele, então inverta esse jogo que vocês começaram. Conquiste-o. Faça ele te desejar tanto que não queria te deixar. E se no final você não conseguir, então, ao menos saiba tirar proveito do tempo que esteve ao lado dele. Não vou dizer que ele te ama, ou algo nesse sentido, mas é claro que ele se importa com você Sakura. Vocês estão juntos há anos, passaram por muitas coisas. Além disso, ele está gastando muito tempo para tentar te convencer. Se fosse só sexo mesmo, ele poderia ter com qualquer outra sem a metade do trabalho que está tendo com você.
– Você acha?
– É obvio, não é? E por mais fama que Kakashi-sensei tenha, ele é uma boa pessoa. Sabe, às vezes Asuma-sensei falava algumas coisas dele. Uma vez Shikamaru comentou sobre a fama de Kakashi com as mulheres. Asuma-sensei disse que Kakashi passou por muitos maus bocados na vida, perdeu muitas pessoas de forma trágica e que por isso ele não conseguia se envolver realmente sério com alguém. Seu envolvimento com várias mulheres era apenas uma fuga para não correr o risco de se envolver de verdade com uma. Mas que ele era uma boa pessoa, um ótimo amigo, e um ninja excepcional. Daria sua vida por seus amigos e por Konoha. Desde esse dia passamos a ver Kakashi-sensei com outros olhos.
Ino fez outra pausa, e depois continuou. — Sakura, só posso te dizer que você deveria ouvir seu coração ao invés da sua cabeça. E que seja o que for que decidir, vou estar aqui pra te apoiar e ajudar.
Sakura ouviu com surpresa tudo que Ino disse. Sabia que a amiga iria ajudar, mas não esperava ouvi-la falar assim de Kakashi. É claro que ela sabia que ele era uma boa pessoa, mas não sabia sobre esse outro lado dele. Na verdade, quase não sabia sobre seu passado.
– Sakura? Ino chamou, enquanto via a amiga mergulhada em pensamentos.
– Você me deu uma visão totalmente diferente do que a que eu tinha antes. E você tem razão. Obrigada Ino, você me ajudou muito.
– Que bom que ajudei! Então você já se decidiu?
– Sim. Já sim.
– E está tranquila com isso?
– Sim, estou.
– Ótimo, posso te pedir um favor então?
– Claro!
– Não me exclua!!!! Ino gritou, apontando o dedo para ela com uma cara que estava causando calafrios a Sakura. — Se você não me contar as coisas como fez esses dias eu juro que te arrebento!!
– Er..calma Ino... vou contar. Sakura respondeu levantando as mãos, tentando acalmá-la.
– Que bom!! Disse uma Ino tranquila e calma, totalmente diferente do rompante de poucos segundos atrás. – Vamos indo então?
Elas pagaram o que consumiram e saíram para a rua. Caminharam em direção à casa de Ino.
– Eu estava querendo fazer uma das nossas reuniõezinhas e chamar a Tenten e a Hinata. O que acha?
– Acho ótimo. Precisamos colocar as fofocas em dia. Hum...você vai cozinhar? Perguntou Ino com um brilho nos olhos, e uma voz em uma reverência contida.
– Sim, claro. Sempre faço alguma coisa quando marcamos, não?
– Então está ótimo! Marcadíssimo!! Ela gritou dando um abraço em Sakura.
– Sério!? Tudo isso pela comida?
– Bobagem, não pense nisso. Ino respondeu abanando a mão como que afastando o pensamento que Sakura teve, e imaginando as coisas deliciosas que comeria. Mal podia esperar. Era tão bom ter uma amiga que sabia cozinhar!
– Terra chamando Ino.
– Hã? Er.. desculpe, o que você disse?
– Você fala com elas? É mais fácil você encontrar com elas do que eu.
– Pode deixar. Eu aviso. Pra quando é?
– Bom, hoje não dá pois vou dar plantão no hospital. Depois de amanhã, o que acha? Assim tenho tempo de descansar e também de preparar as comidas. Preciso ir às compras. Pode ser no final da tarde.
– O que acha de ser um almoço? Seria melhor não?
– Você quer dizer que você comeria mais! Respondeu rindo. – Sem problemas, pode ser o almoço. Assim esticamos para a parte da tarde também. Mas me avise se elas não puderem.
– Pode deixar. Combinado então. Agora vou indo, até mais! Ino se despediu e foi em direção a floricultura.
– Ino...
Ino já estava entrando na floricultura, mas se virou ao ouvir seu nome e olhou para Sakura.
– Obrigada. Sakura disse, sorrindo carinhosamente para a amiga.
– Ora Testa. Disse com um tom carinhoso. — É para isso que servem as amigas!
Depois de se despedir de Ino ela foi em direção à torre hokage. Resolveu passar no escritório da Godaime antes de ir para o hospital. A conversa com Ino a deixou bem mais tranquila e confiante, embora seu coração ainda estivesse um pouquinho apertado, seu estômago estava com calafrios enquanto lembrava-se dos beijos que trocara com Kakashi. Ela agitou a cabeça de um lado para o outro, como que tentando tirar essas lembranças da mente.
Ao chegar de frente a porta da sala da Godaime, ela bateu na mesma e esperou uma resposta. Não era louca de entrar se permissão. Já havia visto isso acontecer antes e o resultado foi a porta sendo explodida minutos depois pela pessoa sendo lançada para fora da sala por uma Tsunade furiosa. Desde então, ela fez uma nota mental de nunca, jamais, invadir sua sala a não ser que fosse urgente.
Após ouvir que podia entrar, ela abriu a porta e se deparou com sua shishou sentada atrás da mesa, e sentado à sua frente estava o Kazekage de Sunagakure, a Vila Oculta da Areia. Em pé à sua direita se encontrava Kankuro.
– Sakura. Você chegou em boa hora. Disse Tsunade, olhando sua pupila em pé parada junto à porta, sem saber se entrava ou não. — Entre logo e feche a porta. Tem alguns assuntos que quero discutir com você.
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