Notas iniciais
Boa leitura!!!

A janela mau fechada deixava os raios de lua entrarem como se já fossem acostumados a iluminar o pequeno quarto desarrumado.

Com uma pequena cama prensada contra a parede, rodeada de entulhos desnecessários que bagunçavam o quarto, como se fosse uma ordem de seu mestre, este que, por acaso, se encontrava esparramado pela cama de lençóis sujos que fediam a mortadela barata comprada no mercado da esquina.
A boca entreaberta que revelavam sua respiração pesada o acusava de estar tendo mais um de seus pesadelos repentinos. Desde o acidente o garoto tinha esses pesadelos inoportunos que o mantinham em uma prisão de seus próprios pensamentos.
Quando começou a se debater na cama como quem fugia de um tsunami desesperado para manter sua vida.Alguns segundos depois seus olhos se abriram em desespero, marejados, tentando focar na realidade.Se virou para a janela observando os raios da lua desesperados para entrar pelas frestas e acalmar o garoto aturdido que chorava silenciosamente, como um melodia que acalma a alma só no primeiro toque.
Seus dedos deslizaram pelo vidro azul abriram a janela convidando o brilho da lua a se infiltrar em seu quarto.
Observou a lua com atenção tentando passar sua angustia para figura redonda e brilhosa que parecia não se abalar com coisas inúteis.As lágrimas escorriam livres pela face do garoto que destacavam os olhos azuis como o oceano,suas lágrimas prateadas pareciam fazer parte do cenário espetacular das cores que herdara de sua mãe.
Seus olhos fixaram em uma mancha amarela na lua como se, durante anos, as banalidades que testemunhava faziam efeito sobre ela.Como seus pesadelos noturnos, sempre a mesma coisa, sua mãe,de como seu olhos o pediam para ir e não arriscar sua vida por ela, sabia que deveria ter feito algo para impedir sua morte, mas sempre se lembra da angustia de ver seu sorriso acolhedor e encorajador que costumava dar quando lhe pedia para confiar nela.
Queria saber o por que de matar minha mãe, somente ela? Eu estava junto por que não me mataram também?Seriam perguntas sem resposta.
Marcelo, seu pai (odiava chama-lo assim já que o mesmo o obrigava a usar esse rótulo grotesco para o garoto).Marcelo odiava ver Willian,culpando-o pela morte de sua mulher.Toda vez que Willian o via sentia vontade de esmurra-lo por ser tão cruel com ele a ponto culpa-lo por algo que o atormentava todos os dias e noites desde aquele dia a dois anos atrás.
Um miado sofrido o fez despertar de seus devaneios,olhou para o gato branco de pelos baixos e olhos esbugalhados verdes, como azeitonas suculentas, que ronronava em suas pernas.

- O que foi, rapaz?- Perguntou já pegando o gato e colocando-o em seus ombros que se aconchegou rapidamente em seu pescoço, como uma cobra prestes a enforcar sua presa.

Ele miou longamente em resposta, sonolento como quem dizia "volta pra cama, amanhã é um novo dia".Com tantos anos sozinho, se isolando, aprendeu a conversar com Mayo que lhe entendia muito bem.

-Tudo bem, Mayo!Vamos voltar pra cama.

Colocou-o na cama e depois se aconchegou nos lençóis espalhando o cheiro de mortadela barata pelo quarto, Mayo rosnou o repreendendo o hábito de sujeira de Willian .

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Willian deixava a água cair sobre seu corpo e permitiu-se relaxar debaixo dela deixando que seus pensamentos fossem junto com água ralo á baixo.

mais um dia de tortura na prisão mais abominável do mundo:ESCOLA.

Desceu as escadas lentamente ouvindo mais de uma voz na cozinha, era Marcelo e uma voz de mulher, aguda e irritante.Willian odiava Marcelo por isso, toda vez ele trazia uma mulher diferente para casa, sempre grotescas, exibidas e falsas.Nenhuma delas, nem que fosse a pessoa mais perfeita do mundo, chegaria aos pés de sua mãe.
Entrou na cozinha contra sua vontade xingando Marcelo mentalmente por ser um idiota completamente aloprado por achar que pegando todas as mulheres do mundo esqueceria, ou sequer substituiria,sua mãe.
Abriu a porta desejando que a mulher não fosse mais uma daquelas que tentassem sequer ganhar a atenção dele jogando a frase sem sentido "Ora, se não é o Willian, seu pai falou muito de voce".Como se seu pai ligava em falar para elas de sua existencia.
— Bom dia, Willian- Uma mullher, de cabelos castanhos e olhos de avelã, olhou por cima do ombro sorrindo deixando a mostra um cordão de ouro com um pingente esquisito.
-Não pense que vai me ganhar com esse sorrisinho,se fingindo de amiguinha- sentou-se na mesa ja pegando a maçã avermelhada e limpando em sua blusa.
Willian deixava transparecer todo rancor e raiva que podia, o mesmo tom que usava a tempos com Marcelo,a mulher pareceu não se intimidar e limpou suas mãos no pano de prato florido,se virando para Willian.
-Olha, eu te entendo...-começou,logo sendo cortada por Marcelo,que entrou rápido na cozinha fulminando Willian com os olhos.
-Nem continue- Disse com rancor evidente em sua voz- Ninguém entende o moleque aí.
A mulher sussurrou algo no ouvido do homem que pareceu confortá-lo.Willian bufou se recusando a ver a cena abominável a sua frente.
- perdi a fome- fez mensão de se levantar mas a mão grande do homem o empurrou de volta na cadeira.
Willian olhou indignado para Marcelo,encarou seus olhos negros como uma noite sem estrelas e as nuvens cobrindo a lua, sem alegria e sem cor apenas... a escuridão.
Era só isso que Marcelo passava para Willian a escuridão,como estar preso em um lugar sem saída,preso em seus pensamentos.Marcelo lembrava-o sua mãe e o pouco valor que o homem passava pra ela,que era como um anjo naquela casa sem vida.
- tire as mãos de mim- Gritou com toda raiva possível.
Marcelo como se temesse algo se afastou quase em um pulo, o garoto tinha os olhos faíscando com sua raiva esplícita em cada pedaço de seu corpo.
- não ouse falar assim comigo, garoto-Marcelo gritou no mesmo tom.-como se Laura estivesse aqui para te salvar de boas palmadas, ja que a matou naquele dia.
Ele adorava rebaixar o goroto dessa maneira.
Willian olhou para o "pai" aturdido com a ousadia de se ver livre daquele acidente,como se não tivesse matado-a de desgosto em casa quando voltava bebado depois de uma noite com "amigos", ou quando se achava o tal por ter Laura a seu lado a exibindo como um troféu de sinuca ou de futebol.
A raiva tinha consumido Willian por inteiro, com lágrimas de ódio puro escorrendo pela sua face branca,como se aquilo amenizasse a vontade que tinha de matar aquele homem isolente que sorria como se fosse o dono do mundo.
- como voce ousa tocar no nome da minha mãe,seu canalha,voce a matou antes mesmo de chegar sua morte, de desgosto puro, a morte dela só foi a deixa que voce encontrou para sair livre por ai não é?IDIOTA,ISSO QUE VOCE É, UM IDIOTA.-Gritou ja perdendo a pouca paciencia que lhe faltava e avançando no homem sem medir as consequencias-EU TENHO VERGONHA DE TE CHAMAR DE PAI, SÓ CHAMO POR QUE VOCE ME OBRIGA,VOCE NÃO É MEU PAI NEM AO MENOS SABE QUANTOS ANOS TENHO, OU QUANDO FAÇO ANIVERSÁRIO.
O homem avançou em Willian mas o mesmo assustado pela profundidade que seus olhos tomaram, passou em disparada pela porta da cozinha puxando sua mochila desengonçada da cadeira que caiu com a raiva que o menino puxou.
- SEU INGRATO, VAI VER QUANDO VOLTAR AQUI- Marcelo gritou da porta de casa para um Willian que ja corria pela esquina da sorveteria.
Willian no momento em que parou de correr sentiu o vento cortar-lhe ao meio com a brisa gelada que fazia na cidade.Andou sem rumo pela ruela afim de esfriar a cabeça.
Via seus pés andarem se embolando e o vento fazer os pelos de seu corpo arrepiarem, seu queixo já endurecido pelo frio e seus braços enlaçados em seu corpo tentendo, em vão, amenizar o efeito da ventania que pareciam facas fincando em sua pele.Sentou-se no banco da praça do bairro vizinho ao seu e abriu sua mochila,que parecia mais frágil ao vento do que ele próprio, tirou o moletom verde musgo que sempre guardava com sigo para casos como esse.Olhou na tela do seu celular a hora e decidiu que a escola seria o melhor lugar para o distrair logo se levantou e vestiu o moletom rapidamente.
No caminho a escola Willian parou em uma padaria que ia com frequencia para comprar um café com leite, tanto para o frio quanto para o ajudar a refletir melhor.
Abriu a porta da padaria, fazendo o som estridente do sininho soar pelo local atraindo olhares.Estava quente lá dentro, não tanto para passar o frio, e as mesas bem alinhadas e distribuidas pelo local deixavam o lugar ainda mais aconchegante aos olhos de Willian que ,toda vez que se sentia mau com o clima pesado de casa vinha conversar com Conceição,a dona da padaria "Miss Flower",que era como uma segunda mãe para ele.
Uma mão grande e pesada bateu em suas costas quase o derrubando de cara no chão.Se virou para observar os pequenos olhos que espalhavam alegria e o sorriso largo debaixo da bigodeira bem alinhada de Alfredo, o irmão de Conceição.
— Lembrou dos velhos amigos, Willian?
O garoto sorriu, pela primeira vez ao dia, e bateu nas costas do grande homem ao seu lado.
— Que isso Alfredinho, nunca vou esquecer de voces- alargou o sorriso- e voce com o velho hábito de amaciar as carnes, Alfredo?
O homem alargou o sorriso, fazendo com que suas bochechas quase estourassem pelo tom avermelhado que ganharam, e tirou o avental vermelho pelo sangue espalhado por todo o tecido.
-Claro,Willian, sem perder os velhos hábitos-embrulhou o avental e o arremessou no cesto aberto,por trás do balcão.
— Tres pontos- Willian suspirou, frustrado — Ainda vou ganhar de voce, Alfredo.
O homem entrou atrás do balcão,com uma certa dificuldade por seu sobre peso, e arremessou o avental sujo em Willian.
— Aposto um café com leite,adoçado com caramelo e cobertura de chantilly, o que me diz- desafiou apertando os olhos deixando-os quase impersebiveis.
-E bolachas de chocolate com castanhas- tentou.
-Ah,mas isso voce tera que arremessar lá de trás- apontou para uma estremidade escura do estabelecimento.
-o que?-quase gritou, cerrando os olhos para poder enxergar direito o lugar apontado- ta brincando, né?
-sabe o quanto essas bolachas são gostosas garoto?- esbravejou.
-Claro que sei, não é atoa que se chamam "sonhos lúcidos"- rebateu.
— AHH, mas eu não acredito, brigando por bolachas de novo- Dona Conceição apereceu na porta carregando uma fornada das deliciosas bolachas.
Willian correu para abraçar Conceição, esta teve que ser rápida ao colocar a forma no balcão para não queimar o garoto.
-Willian, nossa menino, voce cresceu em- Conceição apertou o abraço.
O garoto sentia o perfume de rosas brancas da mulher, era a marca dela, o mesmo cheiro de 16 anos atrás, se lembrava de quando era pequeno e dormia na mesma cama que ela, o mesmo cheiro que lhe dava conforto, lembrava-lhe sua mãe, dos carinhos dela.
-O que te trás aqui, Willian- sorriu esfregando seus braços — está gelado, menino, o que sua mãe lhe disse de não sair de casa sem um casaco?
Conceição colocou as mãos nos quadris, ficando com um olhar de repreensão. Conceição era uma velha senhora de meia idade, negra de olhos verdes (Alfredo contava que os garotos caiam em cima dela, quando eram mais jovens, pelos seus olhos).Ela usava seu costumeiro bolerosinho de lã verde escura e calças cinzas de moletom grosso, sem contar em seus sapatos de algodão rosas, o que Willian sempre fazia piada.
— Já sei- sorriu divertida- veio aqui pra ver se ganha bolachas de graça, acertei.
-outch- franziu o cenho com falsa indgnação- nossa dona Conceição, obrigado, não se pode nem visitar os velhos amigos.
— Ahh, me poupe, Willian, não to com tempo para suas dramatizações.- A mulher bateu-lhe com o pano de prato e o garoto reprimiu um grito de dor.
O menino suspirou frustrado e se jogou no banco em frente ao caixa.
— Cada dia que se passa eu tenho mais certeza de uma coisa:- Riu sem nenhum vestigio de humor- Aquele homem, que se diz meu pai, é um perfeito de um idiota.
Observou a senhora sorrir e voltar para a fornada de bolachas, empilhando uma a uma, para coloca-las na vitrine principal.Willian sabia que em alguns minutos, quando o horário de pico do estabelecimanto chegasse, aquelas bolachas acabariam em minutos, sumindo como fumaça, em um piscar de olhos.
— Acho que posso ajudar, enquanto não da o horário da escola- levantou do banco e amarrando o avental branco da padaria em sua cintura.
— Isso não irá te atrapalhar, querido?- A senhora olhou-o por cima do ombro, dona Conceição sempre se preocupava com as notas do garoto, já que o mesmo tinha vários motivos para não ter concentração alguma na aula.
— Já disse para não se preocupar comigo?- Aproximou-se e lhe deu um beijo na testa olhando-a divertido- Minhas notas estão ótimas, os professores não se envolveriam com o esquisito da escola não é mesmo? Ha ha, eles acham que sou uma espécie de bruxo maligno que come carne humana.
A senhora amorrou a cara e começou a bater com o pano de prato úmido em Willian, e o mesmo ria da situação.
-Eu já não disse para não tirar proveito disso, garoto- Dizia emburrada e bateu-lhe uma última vez com o pano.
Willian apenas sorriu tranquilo e se voltou para o caixa arrumando seu novo posto no lugar. O som estridente e fino do sino soou pelo local avisando que a hora de pico na padaria havia chegado.
Willian ajeitou-se no banco anotou o primeiro pedido e pendurando o mesmo no quadro verde ao seu lado. Os minutos se passaram com certa velocidade para Willian, que apenas anotava os pedidos rapidamente e os pendurava, ao som calmo que tocava no local.
Aos poucos o movimento ficava mais fraco e menos cansativo, e a falta de calor humano no lugar deixava-o ainda mais frio. Ao balcão o garoto descançava a cabeça nos braços, apenas aproveitando o silencio, deixando seus cabelos quase brancos cairem por cima da mesa e formarem um desenho abstrato na madeira lisa e bruta do balcão. Estava de olhos semi serrados cantando uma melodia calma e baixa que tocava no fone pendurado em seu ouvido.
— Willian?- Sentiu um toque suave em seu braço- Acho que já deve ir a escola, filho.


A ventania parecia que queria castigar a quem saisse de casa naquela noite. As espirais de folhas secas no chão chamavam atenção das poucas pessoas que ousavam sair de suas camas. Era, concerteza, o pior inverno do bairro de Laranjeiras, nunca haviam se visto com tantos panos cobrindo, o maximo que podiam, o corpo como naquele ano.
Perto dos correios da cidade um garoto, de cabeça coberta pelo gorro do moletom, andava sem preocupação pelas laterais varridas da ruela, onde se formava um pequeno corrego que não se importava de levar o maximo folhas secas o possivel. O menino mal se importava com o chuvisco gelado e bruto que caía sem piedade, sendo protegido pelas grandes nuvens, assustadoramente, negras que cobriam o brilho das estrelas, que tinham uma grande esperança de se infiltrarem pelo meio das grossas camadas sobrecarregadas.
Seus passos apressados e desajeitados cessaram quando seus olhos azuis se fixaram no portão enorme e gradeado a sua frente. Se infiltrou pela pequena fresta do mesmo, deixando para trás apenas um assobio de um suspiro pesado,que logo fora levado com o vento. O barulho de seus tenis surrados se encontrado com as possas da escada era ensurdecedor.
— Atrasado de novo, Willian- Ouviu-se a voz aveludada do porteiro de meia idade, que havia se escorado na janela de seu gabinete de tinta desbotada para observar o garoto, que sacudia-se para se livrar da água que insistia em se prender um seu corpo.
— Desculpe- Havia um certo desanimo no meio sorriso que lhe lançou- Eu estava trabalhando, Sr.Ramos.
O senhor sorriu, mostrando todos os seus dentes alinhados ( Que, provavelmente, eram dentadura) e abriu o a grande porta de marmore reluzente pela luz do lampião gasto da parede proxima. Willian esgueirou-se pela porta e a fechou com cuidado, porém o vento da pequena janela redonda a fez bater brutalmente no batente, o eco passou correndo pelo corredor deserto e mau iluminado, era possivel se ver o barulho como fumaça se infiltrando nas pequenas frestas das salas.
E, no final do corredor, ele encontrou os olhos arregalados de fúria e rancor: Diretora Morgana.
Seus pezinhos se mexeram impacientes, andando quase correndo pelo tapete grosso e rustico do corredor. Ela mantinha uma expressão de desgosto enquanto seu rosto ruborizava de raiva, suas bochechas poderiam estourar, como uma bexiga que se soprasse muito estouraria de tanta pressão. Pareciam que as luzes do corredor piscavam a cada passo apressado que era feito.
Sua roupa de tempo medieval pareciam deixar rastros pelos olhos de Willian.
— SR. BENS- Vociferou com a impaciencia notavel na voz aguda — SEUS ATRASOS NÃO SERÃO TOLERADOS MAIS!
Seus olhos tomaram a profundidade de um buraco-negro.
— ROMPEU A NORMA 123/e DO QUADRO RÍGIDO DO COLÉGIO "ESTAND FY" DE: 'ALUNOS NÃO DEVERÃO CHEGAR MAIS DE QUINZE MINUTOS ATRASADOS NOS TERRENOS DA ESCOLA, CASO O CONTRÁRIO, DEVERÁ TER, NO MÍNIMO, 12 DIAS DE AFASTAMENTO E 2 MANHÃS DE CASTIGO POR SEMANA, DURANTE 1 MES'.
Willian podia sentir sua respiração descompassada de rancor em seu rosto que já se encontrava perto demais, quase tocando seus narizes.
— desculpe, senhora- começou, o que parecia ser, o começo de uma longa guerra- Mas eu trabalho durante a tarde e uma parte da noite.
Uma veia saltou em sua testa enrrugada, ao mesmo tempo de que sua risada ironica soou pelo corredor.
— Nada justifica o atraso, Sr. Willian- expos a frieza de seu olhar- quero o engraçadinho dentro da sala agora, amanhã de manhã aqui na escola.
O garoto hesitou, mas suspirou derrotado. Aquele olhar frio lhe dava arrepios. Assim se esgueirou pelo canto do corredor em passos apressados para a grande escadaria de mármore reluzente mais a frente.
Assim que passou pelo corredor de acesso as aulas, ouviu o toque dos violinos da aula de instrumentos. Era uma melodia calma e expressiva, acalmava em um simples toque em sua corda.
Olhou através da fresta fina da porta e pode ver os alunos de olhos fechados, sentindo a musica, deixando suas mãos se guiarem sozinhas, deixando a melodia ainda mais sentimental e bonita. Willian tinha esse dom, ler as pessoas, saber quando estão tristes, felizes.
Um olhar pode dizer tudo, ainda mais aqueles que transmitem uma felicidade ingenua no meio de tanto mal, que contagiam todos a sua volta. Não era a toa que o hobby de Willian era fotografar as pessoas, as vezes saía nos parques para retratar a felicidade das familias, crianças correndo, livres da tristeza, enpinando pipas coloridas cheias de vida, levando essa felicidade para o céu, contagiando os ares, o sol, as árvores incrivelmente verdes, que pareciam se avivar com a felicidade dos outros, sem se preocupar com o mal que rola solto a sua volta.
Um simples olhar, com mágoa, pode dizer mais que lágrimas ou palavras de dor.

Sentia as folhas secas das árvores cairem sobre seus ombros. Os galhos de folhas verdes e flores amarelas o guiavam para o fim luminoso do tunel vívido da ruela.
Seus olhos brilhavam e neles o reflexo da lua cheia, mais viva do que nunca, e o festival espetacular de cores misturadas, como as cores mais belas do mundo esparramadas em uma tela branca. As estrelas eram como protetoras da lua, em sua volta. O barulho melodioso de pássaros que assobiavam nos lugares em que o garoto passava, em passos calmos.
Seus pés pisaram na esquina de sua casa, mais pesados e impacientes. Não queria voltar, não agora.
Um barulho estrondoso o fez direcionar seu olhar para o fim da quadra.
Uma explosão de cores avermelhadas tomou conta do ar. Fogo. As fagulhas queimadas pareciam confetes em época de festa. O fogo parecia não ter fim, com chamas altas cobrindo as paredes da da casa branca e...
— MEU DEUS- Seus pés rapidamente se desgrudaram do chão, os olhos ardiam de dor, confusão e mais dor.
A casa parecia não chegar, era como correr em uma esteira, seus olhos fixados no fogo que já cobria metade da casa demolida. Uma lágrima quente escorreu calma pelo seu rosto, sendo iluminada pela lua, esta que observava tudo lá do alto, iluminando os passos apressados e desnorteados de Willian, reluzindo seu choro já compulsivo.
O som de seus joelhos doloridos com o chão fora o suficiente para chamar a atenção dos vizinhos.
Sentiu mãos apalparem suas costas o levantando do chão e carregando-o para longe, o ponto fixo já borrado do fogo se afastava. Não, não iria deixar suas memórias assim tão fácil. Afastou-se das mãos do homem que o segurava, com muito esforço, correu em direção a casa já dominada pelas chamas.
Chutou a porta de entrada, uma das unicas coisas que ficaram de pé, e um baque estrondoso tomou conta da sala metade demolida. Os moveis estavam rasgados ou quebrados. Parecia que seu peito iria explodir, o ar já faltava. Foi quando sentiu uma mão pesada em seu ombro, sentiu um arrepio na espinha, seu olhar rapidamente se cruzou com dois olhos felinos, vermelhos como o fogo e as pupilas em fendas afiadas.
Quando seus olhos repousaram no cordão de ouro com um pingente esquisito.
-Finalmente te achei não foi, Bens.

Notas finais
capitulo depressivo haha!
criticas, elogios!
continuo?