A Escuridão em Mim

2 Capítulo 02: Mas isto é melhor que viver de esperanças


Notas iniciais
— Segundo e último capítulo de minha história. Espero que gostem!! — Imagem por Pixabay.

Estranhamente o tempo passa

E eu estou aguardando o trem

Se aproximar nesta linha outra vez

E vagarosamente o tempo passa

Matando o tempo, mas isto é melhor que viver de esperanças

Nine While Nine, The Sisters of Mercy

Ano novo.

Por um momento, Raul Vieira Vassiliev parou na frente do espelho. Sua pele era exageradamente branca, como a pele de parte de sua família que era russa, mas seus olhos e cabelos eram mais escuros. Seus lábios mais grossos também. Seus gatos brincavam em volta de si, mas seu olhar permanecia a mesma sensação triste. Talvez, com um brilho mais bonito, mas ainda assim triste.

Ele ainda possuía a sensação que precisava provar algo para alguém.

Provar que ele era simplesmente genial, mais do que sua família acreditava.

E isso cansa.

Recebeu uma nova proposta de trabalho, no Museu Goiano Zoroastro Artiaga, e aceitou prontamente. Assim, agora teria um salário melhor e mais fixo. Faltava um último semestre para formar-se em sua graduação em Museologia, e já havia se formado anteriormente em História. O seu currículo é extenso, principalmente para um rapaz de sua idade.

Qualquer pessoa que olhasse o seu currículo Lattes se impressionaria, pois são muitas pesquisas e muitos projetos – e alguns desses projetos foram escritos e realizados por Raul.

Ele só não sabia dizer se era feliz – e o que trouxe um pouco de animação para seu lar foi justamente seus gatos. Trabalhar, trabalhar, estudar, mas pouco tempo fazendo algo realmente divertido ou que não precisasse provar nada para ninguém. Ele simplesmente deveria ser o melhor, mas por que?

Raul ainda estava na frente do espelho quando a campainha bateu. Havia se esquecido completamente que estava esperando uma visita e nem tinha terminado de ajeitar a sua casa. Ao menos, tinha passado na padaria, mais cedo, e comprado um lanche realmente gostoso, que se incluía panetones e sucos.

E diria que seria pela visita.

Celeste havia ido conhecer os novos gatinhos de Raul. A cada momento, ela abraçava um dos pequenos felinos e falava que “vou levar todos para mim”.

Foi quando Raul disse pela primeira vez a alguém que é esquizofrênico.

— Bom. Como alguém se apresenta e já fala: eu sou esquizofrênico e por isso sou taxado como vergonha da família e preferi dar um jeito de morar sozinho. Meu distúrbio à parte, eu realmente conheci a senhora das águas, mas ninguém acredita em mim.

— É um babado fortíssimo, realmente! Talvez eu estranharia de início, mas você esquece que minha família custou a me aceitar também. Agora estou curiosa quanto à Iara!

— Você vai rir, Celeste! Esquece...

— Esqueço nada! Começou, agora termina o babado. Vida de travesti é uma loucura, então eu seria a última a julgar.

Houve uma pausa rápida, mas Raul acabou rindo e retornando:

— Eu tenho leves alucinações desde criança. E essa treta que era para ser só folclore começou quando eu passei no vestibular e fui comemorar indo a um show de rock no Centro Cultural Martim Cererê. Duas bandas tocaram, e foi quando a conheci... Cara, juro que mais pessoas a viram e falaram com ela...

— Não pode ter sido alguém te sacaneando?

— Pensei nisso algumas vezes, mas ninguém se interessa em aprender a falar o idioma tupi para sacanear alguém. Isto além da hipnose e ela reclamar que fiquei hipnotizado por pouco tempo.

— Eu continuo com minha teoria que pode ter sido alguém te sacaneando. Conheço muita gente, e muitos dão sim um jeito de aprender as coisas para sacanear os outros. Isso ou contratar alguém. Você já reclamou de sua família, algumas vezes... Duvido de nada...

Aquilo colocou um pouco de confusão na mente de Raul, que sempre jurava que a entidade era real. A voz dela cantando em sua mente era tão nítida, ao mesmo tempo que tão bela... Ele não conseguiu dar alguma resposta a mais. Apenas ficou olhando para o tempo, deduzindo que talvez ela estivesse certa.

Só não sabia como contaria que conheceu de fato outras entidades.

Se contaria.

Não correria o risco de perder uma das únicas amigas normais que tinha.

Celeste já estava acostumada com Raul fazer aquilo, mas logo estava murmurando que esqueceu algo importante. Tirou da sua bolsa uma caixa de chocolate e uma bola pequena.

Raul evitou mostrar, mas ficou surpreso.

— Eu... O que é isso?

— Seu presente atrasado de Natal. Bom, a bola é para os gatinhos, se eu não levar todos para mim – ela sorriu, enquanto falava. – Bem, você foi uma das pessoas que ficou ao meu lado, mesmo eu me assumindo travesti. Fora que você comprou um suco e panetones deliciosos só porque eu disse que viria.

Obviamente, Raul não deixou Celeste ir embora enquanto ela não comesse o chocolate com ele e brincasse um pouco mais com os gatos.

Quando ela foi embora, ele pegou seu celular e sentou-se confortavelmente no sofá. Respondendo um e-mail aqui e outro ali, olhando as mensagens no Instagram e no Twitter, deletando o excesso de arquivos inúteis do celular, e nisso algumas horas se passam. O que o “desperta” da atividade foi a correria dos seus gatos, se escondendo no quarto.

Ele se levanta rapidamente e começa a olhar pela casa. Nada de mais, mas os gatos permaneciam escondidos. Ele conferiu a janela da sala duas vezes, nada lá fora.

Raul vai até o quarto e se ajoelha, procurando pelos três gatinhos debaixo da cama. Estavam os três encolhidinhos, então o rapaz imaginou que nunca saberia o motivo daquele medo e que só poderia carinhar cada um deles até se acalmarem.

No momento em que o rapaz pôde se levantar, após seus felinos estarem mais calmos, viu uma correspondência em sua cama. Com o envelope, estava presa uma rosa vermelha e uma etiqueta com o nome do remetente: Iara.

“Me permitir ser seduzido novamente por ela ou jogar isso ao fogo?”

Ele estava já abrindo a carta quando ouviu os miados sutis dos filhotes, pedindo comida. Raul não pensou duas vezes e foi dar atenção para os seus bebês Ragnar, Draco e Fada.

A carta foi jogada ao fogo.

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