A Escuridão

4 Capítulo 4 - Lysander


Não fazia idéia de quanto tempo estive presa. Não tinha noção das horas, não tinha noção do que estava acontecendo. E com o passar do tempo em confinamento, lembranças vinham se perdendo de minha mente. Eu estava me sentindo assustada, surtos de pânico vinham me acompanhando por todo esse tempo e a única coisa que podia fazer era tentar me controlar.

Eu olhava para as paredes e não conseguia mais imaginar o que estaria acontecendo por trás delas. O auditório não tinha iluminação e meus olhos já haviam se acostumado com a escuridão. Dormir dentro daquele auditório, não podia ser chamado de sono. Eu apenas me deitava, fechava meus olhos e me entregava à escuridão, não tão diferente da do auditório, e assim era levada para um mundo de fantasias, lembranças e sonhos distantes, que talvez nunca se realizariam. Sonhar com seus olhos, com seu perfume, com suas palavras e com todos os seus mistérios passou a ser parte da minha rotina.

Eu estava sentada no chão do auditório e Lysander estava ao meu lado. Ele me observava atentamente, mas não me dirigia uma palavra. Estar próxima dele não era mais um desejo, passou a ser uma necessidade. Lysander não era um livro aberto, era um livro fechado, lacrado e coberto por cadeados, talvez sem chaves. Olhar para seus olhos nunca foi um incomodo, porém, eram tão cobertos de mistério que me angustiavam da mesma forma que me maravilhavam.

– Em que está pensando? – eu o perguntei, sem olhar para ele.

– Em que você está pensando? – ele me respondeu.

No que eu estava pensando? Será que ele não fazia idéia da confusão que se passava em minha mente? Então eu olhei em seus olhos e me concentrei neles, apenas neles. O que a máscara escondia? Não poderia ser algo tão horrível. Ou talvez fosse. Não agüentava mais segredos. Tudo isso estava me deixando insana, não saber o que está acontecendo, ou sequer a certeza de que continuo no mesmo auditório. Eu precisava de respostas, e se ele não as me fornecesse por vontade própria, eu seria obrigada a forçá-lo.

– Deixe-me tirar sua máscara Lysander. – eu pedi, calmamente.

– Catherine... – respondeu ele, se afastando.

– Lysander eu estou cansada de tudo isso, você não faz idéia de como estou me sentindo. Eu preciso de respostas, se não acabarei enlouquecendo. O que duvido que já não esteja acontecendo. – eu supliquei.

Lysander examinou com cuidado meu rosto desesperado. Seu olhar estava duvidoso e sua boca vacilante.

– Pode nunca mais querer me ver depois disso, Catherine. – disse ele, infeliz.

– Você prometeu que faria o que eu quisesse e eu prometo que é a última vez que abuso da sua promessa. – eu disse, não negando a sua resposta. Não tinha idéia do que poderia ver debaixo daquela máscara.

Ele suspirou tristemente, então eu me aproximei, toquei em sua máscara e ele dirigiu seu olhar ao chão e eu fui tomada pelo frio, que circulou rapidamente por minhas veias. Eu a tirei com cuidado. E então eu a vi. A outra metade do rosto de Lysander era coberta por queimaduras, haviam marcas em seu olho, em seu pescoço e em algumas partes de suas bochechas. E haviam também as cicatrizes. As cicatrizes de cortes que um dia foram muito profundos, traçavam linhas tortas por toda a superfície da sua bochecha. Iam de seus olhos até a sua mandíbula. Porém tudo isso, não tirava de maneira alguma sua beleza, por mais assustador que tudo isso fosse. Depois de alguns minutos em choque, eu sorri, vitoriosa. Eu havia encontrado uma chave. Lysander olhou para mim e eu mergulhei em seus olhos. Eu fechei os meus e então tudo aconteceu.

Eu abri meus olhos. Havia saído do auditório. Havia sido libertada de minha gaiola, porém não fazia idéia de onde estava.

Meus pés estavam sobre uma rua de pedra e eu continuava com as mesmas sapatilhas simples. Era noite e não havia muita iluminação, apenas algumas tochas, ali ou aqui, expostas sob algum tipo de suporte. Construções antigas cercavam os dois lados da rua, feitas de pedras e materiais nada sofisticados com portas simples de madeira. Eu avancei um pouco pela rua, haviam luzes acesas que iluminavam as janelas de algumas das casas. Eu parei diante de uma das casas, que era praticamente igual a todas as outras, subi os degraus de pedra que levavam a porta e me preparei para bater nela, porém, quando eu o fiz, minha mão simplesmente atravessou a sua madeira gasta eu reprimi um grito e me afastei, andando mais rápido e fazendo barulho em meio ao silêncio inacreditável da noite.

No meu lado direito havia um beco e no seu final, um senhor de aparência muito velha. Suas roupas estavam imundas e rasgadas, ratos corriam ao seu redor. Ele tinha uma recipiente de bebida desconhecida em uma das mãos e uma barba longa que realçava seus dentes horríveis. Estava escorado de maneira desajeitada na imundice de uma parede, com as pernas esticadas e abertas. A sua cabeça estava reclinada para trás e roncava, dormindo profundamente. Poderia ser arriscado e perigoso, mas eu estava desesperada e precisava perguntar. Eu entrei no beco, as paredes que me cercavam altas e compridas, me deixavam claustrofóbica e o cheiro horrível, me dava ânsia de vômito.

– Senhor, por favor, onde eu estou? – Eu perguntei. – Senhor! Está acordado? Por favor, me ajude!

Eu o tentei acordar mais algumas vezes. Não importava quantas vezes o chamasse, ele não me ouviria. Então eu me abaixei em sua frente e gritei alto, porém, ele nem sequer se mexeu. Eu saí do beco, com medo do que quer que havia acontecido. Andei pelas ruas, percorrendo uma longa distância, sendo acompanhado por estranhos barulhos. Eu olhei para o céu, em busca de respostas. Fazia quanto tempo que eu não o via? Estava coberto por estrelas, que brilhavam de forma sem igual. A Lua estava cheia e iluminava o céu, livrando-o da assustadora escuridão. Não existem palavras apropriadas para expressar o quão tudo aquilo estava maravilhoso.

Á medida que eu caminhava, as construções de pedra começaram a ser substituídas por cercas brancas que separavam a estrada de pedra dos campos cobertos por plantações de trigo, que dançavam quando o vento soprava e produziam uma relaxante música. Eu fechei meus olhos e deixei a brisa me envolver e que o som do trigo sendo balançado pelo vento enchesse meus ouvidos. Pela primeira vez nesses dias, horas ou seja lá quanto tempo tenha se passado, eu senti paz. Eu abri meus olhos e mais a frente eu pude ver uma figura sentada sobre a cerca. Eu me aproximei o suficiente para ver seu rosto. A figura, inexplicavelmente, era idêntica a Lysander, exceto pelo seu cabelo escuro, porém, pelos seus olhos, eu pude ter certeza que era ele. Ele vestia uma calça justa e sua blusa era folgada. Seu rosto não estava coberto pela máscara, porém, não haviam nem sequer sinais de queimaduras e cicatrizes. Eu subi a cerca e me sentei ao seu lado, Lysander não notou minha presença, apenas continuou a admirar a beleza de tudo a plantação. Então, ele se virou para mim, mas não me olhava. Observava uma figura que vinha lentamente se aproximando pela mesma estrada a qual eu cheguei aqui.

– Lysander, o que pensas que estás fazendo? – a figura disse ao longe, cansada. – Tens idéia de quanto tempo tive de te procurar?

– Vá embora Stevan. – Lysander respondeu, com a mesma voz que ouvia na escuridão do auditório.

O estranho não atendeu a ordem de Lysander, apenas continuou andando e se sentou do outro lado dele. A beleza que Lysander tinha, também se encontrava em Stevan, porém, ele possui uma aparência mais velha. Tinha cabelos pretos e os olhos castanhos dourados de um dos de Lysander.

– Quando irás entender que por teres um irmão nunca ficarás em paz? – Stevan sorriu.

Lysander continuou sério e de repente pude ver uma lágrimas escorrer rapidamente por sua bochecha antes que ele pudesse a desviar de seu destino rapidamente com o dorso de sua mão.

– Lysander, tu não tivestes culpa de nada – Disse o irmão com certo cuidado.

– Tens idéia de quantas vezes eu já ouvira esta frase? – Respondeu Lysander com sua típica calma. – E não importa quantas vezes eu a ouça irmão, todas as vezes que fores pronunciada, tereis certeza de que estás errada. Eu poderia, eu poderia... Eu poderia ter feito algo! Eu poderia tê-la salvo quando caiu naquele maldito lago! – Disse essa última frase com fúria, descendo da cerca e levando as mãos no topo da cabeça, puxando com força seus cabelos negros.

– Cale a boca Lysander! Tu não poderias ter feito nada! Nada! Entendestes? – Disse Stevan se levantando e pondo-se as mãos nos ombros de Lysander. – Não importa quantos boatos infelizes tenham se feito. Para sempre acreditarei que tu não tenhas sido o culpado por aquele tiro.

– Certo, então acredito que tu sejas capaz de explicar-me o que tenha acontecido. Minha mãe, a mulher que amei incondicionalmente durante minha vida inteira, em um simples passeio no lago, em que por detalhe tinha minha maldita companhia, leva um tiro, cai no lago e assim termina sua vida? Sem explicação, sem culpado, sem motivo e sem justiça? Tu tens idéia do quão isso me causa revolta, irmão? – Diz Lysandre, dessa vez deixando que as lágrimas escorram livremente pela sua bochecha.

Stevan deixa que suas mãos caiam ao lado do corpo e então abaixa a cabeça.

– Lysander, vamos para casa. – diz Stevan de forma triste.

E assim, os dois pulam a cerca e seguem o caminho de volta a cidade. Eu continuei sentada na cerca, paralisada, em estado de choque. Surpresa com o que havia ouvido, perplexa e no momento eu não sabia o que fazer. Simplesmente fiquei ali, sendo embalada. Decidi que não iria os seguir.

Então, a cena se desfez e eu já não estava mais diante do campo e infelizmente não podia mais ouvir o som do trigo, em seu lugar eu escutava gritos de dor seguidos por outro e mais outro. Estava em um corredor de pedras, escuro e curto, iluminado por duas velas que se encontravam no chão, perto de duas portas. Suas chamas vacilavam, e criavam sombras sinistras na parede atrás delas. Havia a porta da direita e a da esquerda, porém eu tinha certeza que os gritos vinham da esquerda. Eu tinha medo de que eles pudessem ser de quem eu pensava que fossem. Então eu simplesmente a atravessei a porta da esquerda e entrei em um quarto simples, com uma cama antiga de madeira escura, com apenas um cobertor de lã sobre ela. Havia também uma estante repleta de livros e um criado mudo aonde se encontrava outra vela de luz fraca, porém que me permitia ver o que acontecia no ambiente. Me deparei com a cena mais horrível que já havia visto. Lysander estava ajoelhado, sem camisa e de costas para um homem mais velho que parecia ser seu pai. O homem mais velho possuía sua mesma beleza, com os seus olhos azuis profundos e seus cabelos negros que restavam na cabeça, porém sua aparência naquele momento parecia perturbada pelo ódio. E então, meus olhar passou para a sua mão e depois, para as costas de Lysander e reprimi um grito, levando as mãos até a boca. Eu simplesmente não podia acreditar no que estava vendo. O pai de Lysander segurava firmemente um chicote comprido, que pingava sangue no chão. E as costas de Lysander. Ele estava suado, ofegante e de cabeça baixa, suas costas estavam totalmente cobertas por ferimentos abertos que iam do pescoço a sua cintura e faziam com que seu sangue escorresse e chegasse ao chão. O homem então mostrou os dentes, seus olhos se encheram de fúria e ele levantou o braço que segurava o chicote,

– Você a matou! Maldito! Você a matou! – Gritou e o chicote bateu com força sobre as costas de Lysander, que gritou alto o suficiente para me fazer gritar também.

Então o pai de Lysander levantou o chicote novamente. E eu corri e me debrucei sobre as costas de Lysander. Longe o suficiente para que eu não o atravessasse.

– Pare, por favor pare! – eu gritava o mais alto que podia. E lágrimas escorriam freneticamente sobre minhas bochechas.

Lysander gritou de novo, e de novo. Enquanto isso eu mantinha meus olhos fechados. Gritando junto com ele, quando não conseguia me conter. Então eu abri meus olhos, os desviando das costas quase sem pele de Lysander. Seu pai largou o chicote no chão e saiu do quarto, pisando no chão com força.

– Tu sofrerás mais, Lysander. – disse, saindo e fechando a porta do quarto atrás de si, me deixando sozinha com Lysander. E então, choramos juntos.

Durante algum tempo ele permaneceu na mesma posição, ajoelhado e de cabeça baixa. Depois de muito tempo ele se deitou no chão e eu me dentei ao seu lado. Não tentei mais segurar os soluços e permiti que sofrêssemos juntos. E depois de muitas lágrimas, a sua respiração se suavizou e eu dormi ao seu lado, da mesma maneira que eu dormia no auditório, sem que o sono me fornecesse um pingo de descanso, minha mente apenas se desligou e deixei que os terríveis pesadelos me levassem para lugares distantes daquele.

Na manhã seguinte eu acordei da maneira mais terrível possível, com os gritos de Lysander. Eu me encolhi no chão e abracei com força minhas pernas e fechei meus olhos e contei quantas vezes Lysander gritou. Três, apenas, e dei graças por isso.

Não estava mais no quarto e sim na porta de um auditório. A noite estava bela de mais para uma situação tão infeliz. O auditório era belíssimo, do tipo que vemos em fotografias em livros de história e tinha a mesmo formato do auditório moderno da escola. Eu olhei para o céu, dessa vez não havia se quer uma estrela, apenas a escuridão que fazia parte de todos os meus pesadelos. Respirei fundo, me preparando e já sabendo quem eu encontraria lá dentro. Atravessei a porta e encontrei Lysander sentado na beirada do palco. De repente, alguém passou rapidamente por mim, parando na metade no corredor do auditório e o admirando. Lysander se levantou rapidamente e deu dois passos para trás.

– Que audácia a tua comparecer no lugar favorito da sua mãe. – Disse, em suas palavras não havia sentimento algum.

– Vá embora! – Lysander gritou com fúria.

– Desde quando faço o que manda um assassino? Que moral tu tens diante de mim, filho? – seu pai cuspiu a última palavra, demonstrando nojo.

Lysander continuou parado, em pé no palco, como uma estátua, perfeito.

– Filho – ele riu – coisa que tu nunca fois para mim.

– Já pedi que vás embora! – disse Lysander, contendo com todas suas forças sua raiva.

Porém, seu pai apenas se aproximou, subindo as escadas do palco e se pondo diante do filho. Eu o acompanhei, ficando ao lado de Lysander.

–Tu és uma negação, Lysander. – Disse, olhando nos olhando de Lysander, pronunciando cuidadosamente cada palavra.

Eu não podia fazer nada e isso partia de todas as maneiras possíveis meu coração, será que ainda tinha um? Depois de tantas vezes partido, quebrado e pisoteado? Naquele momento, eu chorava pela minha inutilidade, chorava por não poder fazer nada diante do sofrimento de Lysander. Em minha cabeça havia apenas confusão, e em meu peito havia apenas dor.

– Eu te odeio de todas as maneiras possíveis. E a fúria que sinto por ti não se cessaria nem que te viste sofrer durante cem anos. – continuou – Desejas que eu vá embora? Assim será.

– Pai. – chamou Lysander enquanto seu pai descia as escadas, ele não se virou. – Sebastian!

Seu pai, Sebastian. Parou e lentamente se virou para o filho.

– Eu te perdôo, não importa o qual o mal tenha feito a mim, porque tu és meu pai, e um dia seus olhos se abrirão para a verdade. Quero que saibas que não fui o culpado pelo que aconteceu com minha mãe.

O pai de Lysander se virou lentamente e continuou andando, sem expressar reação nenhuma pelas palavras do filho. E então, tudo aconteceu muito rápido. Lysander continuou parando em cima do palco, esperando que Sebastian saísse e fechasse a porta atrás de si. Eu continuava ao seu lado, esperando o que iria acontecer. Então, Sebastian parou em frente à porta, tirou uma caixinha do bolso, a abriu e riscou um fósforo rapidamente, atirando na cadeira mais próxima, ao seu lado direito, saindo pela porta e a fechando atrás de si. A partir daí, tudo começou a acontecer lentamente. A porta estava trancada antes que Lysander pudesse atingila. Eu olhei para Lysander e seus olhos se arregalaram. De repente, o fogo já cobria toda a saída e Lysander correu até o fim do corredor. Depois de alguns segundos todo o local estava coberto pelas chamas, que se alimentavam de tudo com desespero. Lysandre gritava, tossindo pelos pulmões cheios de fumaça. Tudo queimava, as cortinas, o palco, as poltronas e tudo que estava no local. Eu já estava deitada no chão. Então ele se ajoelhou e as chamas preencheram meus olhos eu os fechei e tudo ficou escuro, as chamas se alimentavam, famintas, causando desespero a Lysander, seu corpo se incendiou e então os gritos começaram. Eu não sentia dor, não era a fumaça que me fazia engasgar, era a tristeza de Lysander que me atingia. Abri meus olhos e permiti que as chamas dançassem pelo meu campo de visão, com seus movimentos agressivos. Eu observava o espetáculo do fogo, e já não ouvia o seu estalar, enquanto consumia tudo do local das melhores lembranças da mãe de Lysander, porém os gritos não se calaram. Eu tampei o meu ouvido com força. E eu não podia fazer nada. Fechei meus olhos.

Então os gritos pararam, e minha cabeça estava sob algo duro e liso e minhas pernas, encolhidas comprimidas contra meu peito. Eu não ouvia nem mais o som impiedoso do fogo, muito menos sentir o seu calor me envolvendo até que estivesse no chão. Levantei minha cabeça repousada sob meu joelho e o virei para a direita.

Ele estava lá. Observando o palco com sua natural serenidade, um leve sorriso, quase imperceptível preenchia seus lábios.

– Lysander. – e meus olhos se encheram de lágrimas.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.