A Escuridão Além
3 Cinthia
Notas iniciais
—Eu verifiquei duas vezes. -Lommie garantiu, mexendo na entrada do cabo em sua pele. -Não tem nada de errado com a máquina das memórias.
—Verifique de novo, por favor. -O Capitão pediu. -Melantha, cheque a máquina manualmente, veja se tem algo fora do lugar. -A garota assentiu.
Lommie pegou o cabo entregue pelo Capitão e colocou na entrada em seu braço, se conectando à rede da nave
—Como a senhorita Ivy está?-Eris perguntou. A Doutora suspirou.
—Bem, agora, mas não quer nem ouvir falar dessa máquina. Disse que deturpou suas lembranças.
—Realmente não sei o que pode ter causado isso. -Melantha ergueu o olhar, encarando-o, até que ele desviou o olhar. -Nunca aconteceu antes.
—Não encontrei nada. -Lommie disse, após se desconectar. -Nenhuma alteração na programação da máquina, nenhum erro. Se houve, pode ter sido apagado.
—Alguém poderia fazer isso?-A Doutora perguntou.
—Confio cem por cento na minha tripulação. -O Capitão Eris interrompeu, antes de qualquer resposta. -Não acredito que alguém possa ter feito isso.
—Certo. Só checando. Vou ver como Ivy está. Me avisem qualquer coisa. E obrigada pela ajuda. -Saiu da sala.
Melantha se aproximou do Capitão, cruzando os braços.
—Não vai contar à ela?-Perguntou.
—Não há nada a ser contado.
—A Doutora parece uma mulher esperta. Vai acabar descobrindo. -Se aproximou mais um pouco. -Roy, se Ela não as quiser aqui, a Doutora e Ivy podem correr perigo.
—Vai ficar tudo bem. Não há com o que se preocupar.
—Se você diz. -Se afastou. -Então tudo bem.
***
Ivy esperou a porta do quarto se fechar, então saiu sem pressa, rumo ao refeitório. Ia pegar alguma coisa pra comer e então se esconder um pouco na floresta. A maioria das pessoas já sabia sobre o que tinha acontecido com a máquina das memórias e ela não queria ver o que ia acontecer em seguida. Tessia tinha aparecido e entregado um pouco de mel que produziu na estufa. Ela estava sendo apenas gentil, mas Ivy não queria ser a garota que precisava de conforto por causa de uma máquina estúpida.
Continuou seu caminho, pensando em cada pequena coisa estranha na Nightflyer quando notou alguém no corredor escuro. Deu mais alguns passos para frente, parando em seguida.
—Jessie?-A outra estava de lado, olhando para o espaço pelo vidro, completamente imóvel. -Jessie, é você?
A outra se virou, ficando de frente para a irmã. Ivy recuou, colocando a mão na boca para não gritar. Havia um buraco enorme no lado direito da cabeça de Jessie, de onde sangue escorria lentamente.
—Por que deixou ele atirar em mim?
Então as luzes piscaram e ela desapareceu.
—Ivy, o que foi?-A Doutora perguntou, surgindo atrás dela. A garota se virou, tentando se recompor.
—Nada.
—Falei com o Capitão. Não encontraram nada de errado com a máquina.
—Hum. -Se aproximou dela, abaixando o tom de voz.
—Eu realmente não queria dizer isso, mas acho que tem algo de errado com a Nightflyer.
—O que?
—Tem coisas estranhas acontecendo a todo momento, sem explicação e depois do que houve com você... Acho que a gente devia ir embora.
—Embora?
—É. Acredito que seja o melhor. O que você acha?
—É. É, pode ser.
—Sei que estava fazendo amizade com Thale, mas...
—Tudo bem. A gente... É, a gente pode ir. Agora.
—Devíamos avisar que estamos indo?-Começaram a andar.
—Não gosto de despedidas. É melhor irmos sem avisar.
—Tudo bem. Como você está?
—Bem. -Tentou não pensar no que tinha acabado de ver. -Estou bem.
—Que bom. Sabe, independente do que houve aqui, eu gostei desse tempo que tivemos. As pessoas são ótimas. Tive uma longa conversa sobre abelhas com Tessia. Falei de alienígenas com Karl, e Agatha é ótima pra bater papo aleatório. Foi divertido interagir com essas pessoas.
—É. Eles são legais.
—E você finalmente fez um amigo. -Bateu o ombro no dela. Ivy tentou sorrir. -Ele é legal, atrás daquela fachada de assustador, não é?
—É, sim. Ele é legal. Ele...
—Tem certeza de que está bem?
—Na verdade...
—Ei, o que?-Apertou a tela para abrir a porta do depósito, mas ela continuou fechada. “ACESSO NEGADO". Tentou de novo e de novo. Nada. -Como assim, acesso negado?
—A TARDIS está aí dentro, não é?
—Sim. O que... Por que não abre?-Tirou a chave de fenda sônica do bolso e apontou para o painel. Nada. A porta continuava trancada. Tentou abrir à força. Não conseguiu. -Por que não abre? Ah, não...
—O que?
—O Capitão Eris deve ter trancado a porta! Vou falar com ele. Isso está errado, muito errado!-E saiu marchando em direção à sala de controle, falando consigo mesma.
***
—Oi. -Ivy saudou, parando na porta de Thale. O garoto escondeu o desenho que estava fazendo rapidamente. -Sabia que sou uma prisioneira agora?
—Bem vinda ao clube. O que aconteceu?
—O Capitão Eris trancou o depósito onde a nossa nave está. A Doutora foi tirar satisfação. Não queria estar no lugar dele agora.
—Por que ele faria isso?
—Não sei. Ele tinha dito que não nos considera ameaças, mas... Não sei, as pessoas mentem e já estive em enrascadas assim.
—Mesmo?
—É. Posso fazer uma lista enorme se quiser.
—Aposto que pode... -Então prendeu a respiração, agarrando os braços da cadeira.
—Thale? O que foi? Thale?
—Tem... Algo... Acontecendo.
—O que? O que é?
—Ela está sofrendo. -Agarrou a cabeça com as duas mãos, fechando os olhos. -Se afasta. Se afasta. -Ivy recuou, sem saber o que fazer. -É... Muita dor...
—Quem é?
—Eu não sei... Precisa parar... Precisa parar...
Caiu da cadeira. Ivy começou a se virar para sair e chamar Agatha, mas de repente Thale estava de pé e saindo do quarto, cambaleando e se apoiando nas paredes.
—Aonde você vai? Thale!
Foi atrás dele, não sabia o que podia fazer além disso. Caso alguém cruzasse com eles, ela podia pedir que chamasse Agatha. Agatha saberia o que fazer. Podia ajudar Thale. Ele parecia estar com muita, muita dor.
—Aonde estamos indo?-Perguntou, seguindo-o. -Thale, fala alguma coisa.
Ele parou de andar, se apoiando numa porta. Ivy sabia o que que tinha ali atrás. A TARDIS.
—Ela está aqui... -Esmurrou a porta. -Ela está sofrendo...
—Não tem ninguém aí. É um depósito. Nossa nave está aí. Thale...
Então ele agarrou o pulso dela.
Ivy nunca tinha sentido nada como aquilo, nem mesmo nas outras vezes. Algo parecia perfurar a sua cabeça sem parar, cada vez mais fundo, esmagando seu cérebro. A dor estava se tornando indescritível, assim como uma sensação de desespero, de medo, de angústia. Ela só queria que parasse.
Sangue começou a escorrer de seus olhos e ela caiu de joelhos, gritando e apertando a cabeça.
Tudo desapareceu assim que ela desmaiou, sem suportar mais.
Thale caiu sentado contra a porta, sem fôlego. Não sentia mais nada.
—O que aconteceu?-Agatha perguntou, correndo até Ivy e checando-a. -Thale, o que houve?
—Não era pra ela... Não... Eu não quis... Eu sinto muito, não era pra...
—Ivy?-Olharam na direção da voz. A Doutora se aproximou, o Capitão Eris logo atrás. -O que aconteceu com ela?-Olhou para Thale. -O que você fez?
***
Agatha esperou, em um canto da sala médica, em silêncio, até a Doutora terminar de limpar o sangue do rosto de Ivy. A Senhora do Tempo estava falando baixinho, como se a outra pudesse lhe ouvir. Quando terminou, se afastou, observando o resultado.
—Assim é bem melhor. -Comentou, jogando os lenços no lixo.
—Ela vai ficar bem. -Agatha garantiu. -Posso falar com você?-A outra assentiu. Saíram para o corredor, onde Thale estava encostado na parede. -Ele quer contar o que houve.
—Eu não quis entrar na cabeça dela. -Thale começou, olhando pro chão. -Mas não consegui segurar por muito tempo e espelhei o que estava sentindo. Foi mais forte do que antes, por isso ela desmaiou.
—O que você estava sentindo?
—Sofrimento. Agonia. Dor. Tem algo atrás daquela porta e está sofrendo.
—Minha nave está lá atrás. -A Doutora contou. -Você tem certeza?
—Tenho. Uma coisa dessas não se imagina ou confunde.
—Minha TARDIS tem um... Um tipo de alma. Acho que podem entender assim. Ela é telepata.
—Uma nave telepata?-Agatha perguntou.
—Isso. Se Thale realmente sentiu algo, partiu da minha TARDIS.
—Alguém estava fazendo isso com ela. -Thale continuou. Olhou para Agatha, então para a Doutora de novo. -Eu acho que foi a Cinthia.
—Quem é Cinthia?-Ele hesitou.
—Por que não nos deixa sozinhas?-Agatha perguntou, tocando o ombro de Thale. -Veja como Ivy está. Eu explico tudo. -Ele assentiu, entrando na sala médica.
—O que está acontecendo?
—Tem uma coisa que não te contaram sobre a Nightflyer. -Fez uma pausa. -Ela está viva.
***
Ivy acordou na floresta. O que não fazia o menor sentido, por que ela não se lembrava de ter ido pra lá. Girou no lugar e encontrou Thale encarando-a, as mãos no bolso.
—O que estamos fazendo aqui?-Ela perguntou.
—Não estamos aqui de verdade. Você está inconsciente na sala médica, então eu pensei que... -Deu de ombros. -Lembra do que aconteceu?
—Lembro. -Assentiu. -Foi horrível.
—Eu não queria... Não era pra ter feito aquilo... Não quis te mostrar aquilo.
—Tudo bem. Eu vou ficar bem?
—É claro que vai. -Ele não sabia se era verdade, mas não queria assustá-la.
—Então... O que aconteceu exatamente?
—A Doutora contou que a sua nave telepata está atrás daquela porta. -Ivy assentiu. -Eu acho que a Cinthia fez aquilo, acho que ela está atormentando a sua nave.
—Quem é Cinthia?
—Ela era mãe do Capitão Eris.
—Era?
—Ela morreu. Mas sua consciência está viva e controlando a Nightflyer. Ninguém sabia, além do Capitão, até depois da gente embarcar. Acho que ela trancou a porta do depósito e acho que alterou a máquina das memórias.
—Por que ela faria essas coisas?
—Por que ela é má. -Deu de ombros. -É ruim. Não é a primeira vez. Se Cinthia não gosta da presença de vocês aqui, significa que estão em perigo e ela não vai parar até machucá-las.
***
—Quando ia me contar sobre a sua mãe?-A Doutora perguntou. O Capitão Eris respirou fundo e se virou. -Tem um bom motivo para não se colocar a consciência de alguém numa nave ou no que quer que seja: nunca é o suficiente. Sua mãe não está feliz e isso está claro. É ela fazendo todas aquelas coisas estranhas, não é? As faíscas, os erros nas máquinas, é ela?
—Achei que podia fazê-la parar.
—Parece que não pode, mas precisa. A sua mãe é, infelizmente, uma ameaça para todos nessa nave. Precisa fazê-la parar antes que seja tarde demais, Capitão Eris.
—Ou o que?
—Ou eu terei que fazer isso.
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