A Escolhida
9 Capítulo 9
Notas iniciais
Era sábado e o orfanato estava vazio. Todas as garotas, ou tinha a saído para a cidade, ou estavam perambulando pelo orfanato, sem o compromisso de seguir o cronograma. Porém Alexa estava no seu quarto, sozinha. Havia se passado dois dias dês da partida de Elisa e ela ainda não havia superado. Nunca na sua vida ela se sentira tão sozinha quanto naquele momento.
Nas refeições não havia ninguém ao seu lado, ninguém para desejar boa noite, ninguém para compartilhar suas lições e obrigações, Elisa não estava mais lá para pentear seu cabelo, fazer piadas bobas, roubar seu pão de milho ou simplesmente sorrir para ela e dizer que tudo estava bem. Não, agora ela estava sozinha.
Por sorte, ou talvez ação dos comprimidos, seu nariz não sangrara mais. Ela havia guardado o lenço que Elisa lhe dera, agora ele estava limpo e sem manchas vermelhas, guardado no seu criado mudo.
A imagem de Elisa deixando o orfanato ficava indo e voltando em sua mente... Alexa observava da janela da escada a garota se dirigindo a um carro preto que lhe esperava do outro lado do portão. Poderia estar em qualquer lugar agora.
Alexa pensou em descer e ir andar pela cidade. Ela não tinha nenhum dinheiro, mas poderia apenas ficar vendo as vitrines e fingir que tinha como fazia quando era menor... Pensou também em visitar Valéria e ver como ela estava, mas era um distancia muito grande e ficou com medo de não voltar a tempo... Acabou decidindo ficar onde estava.
Ela olhava pela janela o dia ensolarado. As árvores dançavam com o vento, alguns pássaros voavam pelo céu. Ela fechou ou olhos e tentou sentir a brisa do lado de fora. Com os olhos fechados ela não sentiu nada, mas ouviu um ruído vindo de algum lugar. Era um ruído contínuo, tipo uma música.
Ela se levantou e foi até a porta e o ruído ficou mais sonoro. Sim, era música. Fazia muito tempo que Alexa não ouvia música... A ultima vez que se lembrava fora no aniversário de sua mãe, ela mesma tinha escolhido o disco. Ela, então, abriu a porta do quarto e foi atrás da melodia.
A música aparentemente vinha de outro quarto. Por um momento ela hesitou em abrir a porta e já ir entrando no quarto, mas queria muito continuar ouvindo, então entrou.
O quarto estava vazio aparentemente, apenas uma cama estava usada, mas no final dele, na ultima janela, estava sentada Meg com outra pessoa. As duas ouviam a música de uma vitrola portátil no chão e conversavam tão entretidos que nem notaram sua presença. Alexa decidiu sair antes que a percebessem, mas foi tarde de mais. A outra pessoa disse algo a Meg, que se virou e viu Alexa.
“Alexa!” –Ela gritou do outro lado- “Feche a porta.”
Alexa olhou para a porta e depois para o quarto, decidindo ficar.
“Venha se divertir conosco.” –Disse Meg.
Alexa foi até eles e sentou no chão, ao lado de Meg. A pessoa misteriosa era um rapaz, o que deixou Alexa nervosa, já que não era permitida a presença de rapazes no orfanato. Mas o rapaz, assim como Meg, não pareciam se importar com essa regra.
“Essa é Alexa, a garote de quem eu falei.”
“Oi.” –O rapaz sorriu.
Alexa corou. Ele tinha um sorriso bonito e parecia muito mais velho.
“Sou Joseph.”
“Ele não deveria estar aqui.” –Sussurrou Alexa.
“Eu sei, mas estamos predestinados um ao outro. Quem seria perverso ao ponto de negar o nosso amor?” –Sua voz ficou melodiosa e ao acabar ela caiu sobre Alexa, fingindo um desmaio dramático.
“A garota está certa, eu preciso ir.” –Ele se movimentou para levantar.
“Não, Jo.” –Meg pôs a mão no seu joelho e o rapaz sorriu, ficando onde estava.
“Ele é seu irmão?” –Alexa perguntou inocentemente.
“Ele é meu tudo.” –Meg piscou- “Pegue um bolinho Alexa, Jo quem fez.”
Alexa olhou para o pequeno piquenique particular que eles faziam e percebeu que estava atrapalhando.
“Eu acho que vou indo.” –Alexa começou a se levantar, mas Meg segurou sua mão.
“Fique com a gente Alexa. Eu sei que você se sente sozinha por causa da Elisa...”
“Outra garota foi embora?” –Joseph perguntou.
“Sim.” –Alexa e Meg disseram ao mesmo tempo.
“Aquela mulher estranha?”
“Você conhece!” –Alexa exclamou.
“Já falei para ele é que apenas uma história boba para assustar as mais novas.” –Meg revirou os olhos.
“Não sei Meg, é difícil acreditar que alguém adotaria garotas como vocês.”
“Você ficaria triste se isso acontecesse?”
“Muito.” –Ele acariciava sua coxa.
“Eu tenho que ir.” –Disse Alexa.
Ela se levantou e saiu. Alexa não sabia o que pensar em relação a tudo aquilo. Se Elisa fora levada pela mulher sem rosto significava que ela estava bem?
Ao entrar no seu quarto, fechou a porta e foi até sua cama. Talvez se ela soubesse onde essa mulher estranha morasse, poderia ir atrás de Elisa, ou pelo menos saber se ela estava bem. Poderia perguntar a Margô ou Selna... Muitas coisas para pensar.
De repente começou a sentir um incomodo no seu nariz e, com medo de que ele começasse a sangrar novamente, ela abriu a gaveta do criado mudo e pegou o lenço que Elisa havia lhe dado. Porém, por discuido ele caiu no chão, ao lado da cama.
Alexa se abaixou para pegar, mas percebeu algo estranho em baixo da sua cama. Parecia haver algo escrito no chão de madeira. Sabendo que seu nariz não iria mais sangrar, ela guardou o lenço de volta e decidiu saber o que estava ali em baixo. Ela empurrou a cama para o lado, ate ter luz para poder ver.
Alguém havia riscado o chão, mas ela não sabia dizer que tivera sido hoje, esta semana ou anos atrás. Eram uns traços estranhos, profundos na madeira. Ela deitou a cabeça para ver melhor e percebeu que já havia visto aquilo antes... Bem, não visto, mas imaginado. Os rabiscos formavam um V com um traço no meio.
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