A Escolhida
14 Capítulo 14
Notas iniciais
Nos dias que se passaram Alexa ficou na casa de Orphélia. Elas não tinham feito nenhum acordo, mas como Orphélia não a mandara embora, ela decidiu ficar. De manha, Alexa colhia algumas frutinhas na arvore ao lado da casa, e deixava em um pote de barro para Orphélia quando ela voltasse, já que toda manha, antes do sol nascer, ela deixava a casa e só voltava com o sol a pino. Alexa não sabia o porquê, porém não questionava, achava que quando menos Orphélia lembrasse que ela estava ali, menor a chance de ser mandada embora. Porque agora, Alexa definitivamente, não tinha nada.
Nesses dias, Alexa decidiu ajudar na casa, como era acostumada a fazer, mesmo sem Orphélia pedir. Ela varria o chão de terra com uma vassoura improvisada, feita com um galho de arvore seco e folhas compridas que achara por ai. Ela também arrumara a mesa bagunçada, tentou achar um padrão e arrumar as coisas separadamente. No dia que fez isso, Orphélia não disse nada, mas também não reclamou; talvez tenha gostado.
Nos dia que não chovera e sol decidira sair para alegrar os seres aqui em baixo, ela foi lavar roupa. Não sabia ao certo se podia fazer isso, mas havia um monte de trapos no canto perto de sua cama (as tabuas de madeira com um almofadado em cima) que lhe incomodava. Então ela decidiu juntar tudo, até mesmo o seu vestido, e ir até o rio lavar, com sorte, secaria antes do anoitecer.
Juntou todas as roupas em um monte e foi até o rio que ficava alguns metros dali. Da clareira até o rio dava alguns metros, mas o caminho era marcado na grama desgastada e decorado com algumas flores silvestres que cresciam ao redor. Quando ela chegou, jogou o monte no chão e começou a esfregar as peças na água fria e cristalina. Os trapos iam deixando manchas ocres ao redor, mostrando o quão sujos estavam. Alexa percebeu que cantarolava enquanto trabalhava, e isso era bom, pois ela adorava cantarolar e notara que havia tempo que não fazia isso.
Ela entrou na água para lavar seus pés, mãos e pescoços, fazia tempo que não tomava banho. No começo foi difícil, a baixa temperatura deixavam seus pés doloridos. Com o tempo, ela foi se acostumando e quando deu por si, estava com água até a cintura.
Lavou seus pés, seu pescoço que começara a cultivar uma camada acinzentada nas dobras, lavou suas axilas, sua parte íntima e molhou as pontas do cabelo e atrás da orelha. Sentia-se mais limpa e branca. Aquela camada encardida tinha deixado sua pele e agora boiava ao seu redor. Ficou surpresa ao ver o quanto estava suja já que a água começou a ficar mais escura... Porém, estava escura até de mais, ela não estava tão suja assim.
Quando percebeu, todo o rio estava negro. A água cristalina tinha se transformado em um líquido negro e denso. Alexa olhou para baixo, mas não conseguia ver seus pés. Seu reflexo na água começou a ficar turvo até desaparecer em uma mancha negra.
Duas mãos negras saíram da água no mesmo instante e puxaram seu cabelo. Ela não teve tempo de pensar, quando percebeu estava sendo levada para o fundo do rio, que por sinal, pareceu mais profundo. Ela tentou gritas e água entrou na sua boca. As mãos desapareceram na imensidão do riu, mas ainda a puxava para baixo. Ela puxava o seu cabelo na tentativa de se livrar, mas eles estavam cravados nas mãos.
O ar começou a faltar em seus pulmões. Ela precisava voltar à superfície. Em um movimento desesperado, ela arrancou os cabelos da mão direita e no mesmo momento a esquerda também soltou. Ela levantou a cabeça e estava de volta na beira do riu. O ar entrou em seus pulmões como um abraço fresco.
Ela olhou em volta, porém não havia nada. A água voltara ao normal, cristalina. Ela apalpou seus cabelos e eles estavam molhados.
Alexa voltou para a casa rapidamente. Todo seu corpo estava encharcado, o vento frio batia em sua pele e tirava seu calor. Quando chegou, Orphélia havia voltado. Ela olhou para a menina ensopada na sua frente e não expressou nenhuma emoção. Alexa jogou as roupas no chão e foi até ela.
“Por que esta molhada?” –Orphélia perguntou por fim, mas sua voz era neutra, não parecendo se importar.
“Eu... Não sei.” –Alexa gaguejou- “Eu não sei o que esta acontecendo. Eu estava no riu e quando percebi, estava sendo arrastada para o fundo.”
Orphélia se levantou e pôs a mão no seu ombro, encaminhado-a até a sua cama. As duas se sentaram. Orphélia passou as mãos pelo cabelo de Alexa e torceu para tirar a água. Ela tinha um toque suave e cuidadoso, como uma mãe.
“Alexa, você é uma menina especial.” –Disse ela, acariciando seus cabelos.
Alexa a olhou curiosa, já tinha ouvido isso antes.
“Você foi escolhida há muito tempo, quando era ainda um bebê. Foi escolhida pelos seres da noite, criaturas das sombras. E agora chegou a hora.”
“O que eles querem comigo?”
“Seu corpo, sua vida.” –Orphélia falava com uma voz serena, como se contasse uma história para dormir- “Algo que eles não têm.”
“Por que eu?” –Alexa sussurrava.
“Não é apenas você. Muitas outras foram e serão escolhidas também.”
Alexa abraçou o próprio corpo para se proteger do frio que sentia.
“Quando eles vêm?”
“Na próxima lua.” –Orphélia se levantou e foi até sua mesa- “E como eu te abriguei, sou responsável por você, por isso estou te contando isso. Quando você veio a minha casa, eu senti que você era especial, e estava certa.”
“Então é isso Huanda queria? Garotas escolhidas para dar de oferenda.”
Orphélia olhou por cima do ombro e sorriu.
“Meg foi escolhida também, não foi?”
“Não. Sua amiga foi um erro.”–Orphélia voltou trazendo uma caneca feita de barro para Alexa- “Huanda se enganou, agora ela precisa de outra. Por isso veio atrás de você. Está desesperada.”
“E por que Huanda precisa fazer isso?” –Alexa pegou a caneca e bebeu da bebida quente, o que foi estranho, pois Orphélia não tinha usado fogo.
“Haunda está em dívida.” –Os olhos de Orphélia encaravam o vazio.
“Dívida com quem?”
Orphélia não respondeu.
“E por que ela não procura por outra garota?”
“Não é tão simples achar uma escolhida. Não sabemos quando ou quem será escolhida. Apenas sentimos sua presença, e então sabemos.”
Alexa olhou para a caneca em suas mãos. Seu interior começou a ficar quente e ela deixou de sentir fio.
“Orphélia, eu vou morrer?” –Ela olhou para mulher a sua frente.
Orphélia sorriu, mas não foi um sorriso carinhoso, foi um sorriso de canto, como se estivesse zombando dela.
“Você não precisa se preocupar com isso. Eu cuidarei de tudo, e agradeça-me por isso. Nem todas tem esse privilégio.”
“Por que eu fui escolhida?”
“Chega de perguntas, Alexa.”
Alexa queria sentir medo, queria ficar assustada com tudo aquilo! Os vultos, as criaturas, mãos que a puxavam, mas não. Não sentia nada, era como se fossem acontecimentos banais. Ela não sabia o que iria acontecer com ela, se seria morta, se sofreria, se estaria viva no próximo mês.
“Temos oito dias até a próxima lua, oito dias para preparar tudo.” –Orphélia marcou com um pedaço de carvão algumas coisas em um papel velho- “Temos tempo.”
“Por que você sabe dessas coisas, Orphélia?”
“Entenda Alexa, quanto menos você souber, melhor será.”
Fale com o autor