A Escolhida

12 Capítulo 12


Notas iniciais
> Espero que gostem.. ficou enorme... mas acho que não seria bom cortar em 2

O relógio marcava sete e meia quando a campainha tocou. Alexa aguardava ao lado de Meg na sala de espera do orfanato. Sua cabeça estava frenética. Sentia medo, alegria, ansiedade, preocupação, tudo de uma vez só. Não sabia o que esperar de agora em diante. Talvez tudo mudasse, mas tanto para o bom quanto ruim. A única coisa que lhe deixava calma era saber que Meg estava ao seu lado e continuaria ao seu lado.

As vozes de Margô ecoavam pelos corredores, porém pouco se ouvia da visitante misteriosa. Meg parecia não se preocupar, estava sentada no sofá olhando para as unhas da mão, algumas vezes suspirava, e uma única vez comentou de Joseph: Será que ele está me esperando?

“Meg, eu estou com medo.” –Alexa disse por fim.

“Não fique Alexa, vamos para um lugar melhor.” –Meg se virou para ela e pôs a mão no seu joelho- “Quando chegarmos lá pegaremos nossas coisas e voltaremos para cá. Joseph estará nos esperando.”

“Como você sabe? Como sabe que não nos levarão para um lugar abandonado, sem água ou comida, nos obrigarão a trabalhar... Talvez essa mulher seja mulher sem rosto, talvez ela nos mate!”

“Alexa, respira, pense. Não há porque nos matarem, você ouviu Margô, somos úteis. Uma pessoa não iria nos pegar só para nos matar. Elisa estará lá, lembra? Sua amiga. Vocês ficarão juntas novamente.”

Alexa assentiu. Ela precisava se acalmar e pensar em Elisa era uma boa maneira. Logo estariam juntas novamente, trabalhando, juntando algum dinheiro, poderiam até alugar uma casa juntas... Margô entrou na sala sorridente, suas mãos estavam agitadas e sua respiração acelerada.

“Bom meninas, está é minha prima Huanda.”

A convidada especial apareceu pela porta. Era uma mulher alta e magra, suas pernas pareciam duas varetas pálidas, seus dedos eram finos e compridos. Ela usava um vestido até a canela, todo preto, de gola alta e mangas. Usava também um véu de venda sobre os ombros. Seu rosto era magro, salientando as maçãs da face, seus olhos eram escuros e profundos, se destacando no rosto pálido. Sua boca era de um tom azulado, como se estivesse com frio. Seu cabelo preto era preso em um coque.

“Olá meninas.” –Sua voz fina e desengonçada ecoou pela sala. Parecia que ao entrar pelos seus ouvidos, ia para o fundo de sua mente e descobria seus segredos mais sombrios.

“Como eu disse, Huanda precisa muito da ajuda de vocês.” -Margô sorriu.

“Obrigada prima, tenho certeza que elas serão bem úteis para mim e Heltha.”

“Muito bem meninas, peguem suas coisas e de despeçam.”

Um calafrio subiu pela espinha de Alexa ao deixar o orfanato. Deu uma ultima olhada para o grande prédio antes de seguir Meg até a carruagem preta parada na frente do portão. Huanda tinha um cocheiro particular, que se encaminhou das malas e pertences. A senhora misteriosa se despediu de Margô e entrou com as meninas.

“Adeus meninas.” –Margô acenou- “Estou orgulhosa de vocês.”

“Sim.” –Huanda sorriu- “Orgulhosa.”

Estava de noite e as cortinas estavam fechadas, Alexa não sabia para onde estavam indo. Ela segurou a mão de Meg e tentou pensar em Elisa. Meg parecia não se importar com nada e isso a deixava preocupada. Meg era mais velha, ela deveria saber se algo estava errado ou não, deveria cuidar dela.

“Bom meninas... Antes de continuarmos, preciso saber algumas coisas sobre vocês.” –Huanda tirou da bolso do vestido um papel dobrado- “Alguma de vocês tem parentes próximos?”

“Não.” –Alexa respondeu e Meg negou com a cabeça.

“Alguma doença?”

A mesma resposta.

“Vocês são puras?”

“Puras?” –Alexa perguntou.

“Já foram tocadas por um homem?” –Huanda levantou uma sobrancelha.

Alexa negou com a cabeça, assim como Meg.

“Bem, então acho que podemos prosseguir.”

A carruagem balançava pela estrada e o silêncio tomava conta do lugar. Alexa olhou pela janela e percebeu que estavam bem longe da cidade, tomavam o caminho para a floresta.

“Para onde estamos indo?”

“Minha fábrica assim como minha casa não ficam na cidade, precisam de espaço.”

Aquilo não respondera sua pergunta, mas ela não questionou mais. A passagem do asfalto para a terra foi notável, elas não estavam mais perto de nada. A carruagem foi seguindo e parecia não chegar a lugar nenhum. Alexa estava começando a ficar cansada, seus olhos se fechavam sem a sua vontade, as vezes Meg lhe dava um empurrãozinho para acordar.

“Chegamos.” –Disse Huanda quando a carruagem parou.

A casa de Huanda era velha e acabada, parecia que a qualquer momento desmoronaria. Alexa pegou sua mala e seguiu Huanda até a porta. Quem as atendeu foi outra mulher, muito parecida com Huanda, só que não tão magra.

“Huanda.” –Ela sorriu.

“Ajude as meninas com as coisas Heltha, eu vou preparar o jantar.”

“Claro claro.” –Heltha assentiu- “Venham meninas, por aqui.

Elas subiram uma escada caracol que parecia não ter fim. A madeira rangia e o corrimão parecia quebrar com o olhar. Heltha mostrou a elas o novo quarto que ficava na frente da escada.

“Vão dormir aqui.” –Disse ela com sua voz falhada- “Dividirão a cama.”

“Quando iremos trabalhar?” –Meg perguntou.

“Trabalhar?” –Heltha a olhou- “Ah sim, trabalhar.” –Ela riu e saiu do quarto.

O quarto era velho e escuro, tudo naquela casa era velho e escuro. No quarto só havia uma cama de casal e um guarda roupa, que Alexa duvidou que coubessem suas coisas e de Meg. Não havia cortinas, tapete, qualquer decoração. O piso era velho, as paredes mofadas, não havia luz.

“Que droga de lugar.” –Disse Meg- “Preferia estar na rua.”

“Não é tão ruim.” –Alexa sentou na cama, que levantou uma nuvem de poeira.

“Precisamos sair daqui, Alexa. Sairemos quando elas estiverem dormindo. Acho que consigo convencer o cocheiro a nos levar de volta.”

“Meg, eu quero encontrar Elisa.”

“Esqueça Elisa, Alexa. Ela está com a vida dela agora, não entende?”

Alexa pensou em responder, mas mudou de ideia. Meg estava certa, era idiotice ir atrás de Elisa.

“Quando elas estiverem dormindo, pegaremos nossas coisas e sairemos daqui, entendido?”

Quando Alexa ia responder, a porta se abriu. Meg pulou com o susto e quase tropeçou.

“Desculpe atrapalhar, mas preciso da senhorita por um tempo.” –Heltha olhou para Meg e pegou sua mão.

“O que foi?” –Meg a olhou.

“Precisamos de sua altura para novas medidas de uniforme.”

Meg olhou para Alexa, que deu de ombros.

“Não podemos fazer isso amanha?”

“Não tenha medo querida, são só algumas medidas.” –Ela sorriu mostrando os dentes amarelos.

Meg cedeu e foi com Heltha, deixando Alexa sozinha no quarto. A noite estava escura e silenciosa. Alexa se levantou e foi até a janela, era possível ver a floresta de lá, e olhando para o lado, as luzes da cidade...

O tempo foi passando e nada de Meg voltar. Alexa começou a ficar impaciente... Talvez Meg tivesse fugido sem ela... Ela sentou na cama e olhou em volta. Aquele seria o seu novo quarto e ela o odiava tanto. Sentia saudades de sua casa, de Elisa, de sua mãe, queria poder voltar no tempo e ter desfeito tudo o que fez. O papel de parede descascava por causa da umidade. Alexa decidiu passar o tempo tirando o resto que faltava. Ela puxava a fita e o barulho do papel rasgando ecoava pelo quarto, foi tirando cada fita, revelando a parede por trás.

Alexa olhou para a porta, esperando por Meg que não aparecia. Ela então decidiu descer e ver o que estava acontecendo, levantou da cama e foi até a porta. Quando abriu, um grito ardente ecoou pela casa, fazendo Alexa se arrepiar e pular para trás.

“Meg!” –Ela gritou.

“Alexa!” –Meg respondeu- “Socorro!”

Alexa olhou para a escuridão na sua frente e não teve coragem de continuar. Ela fechou a porta do quarto e correu até a cama. Seu coração queria pular pela boca, suas mãos tremiam. O que estava acontecendo.

“Alexa!” –O grito abafado de Meg atingiu Alexa como uma faca.

Ela começou a chorar sem saber o porquê, seu corpo estava paralisado pelo medo. Onde quer que Meg estava, ela estava em perigo. Seus gritos ecoavam pela casa. Eram gritos de dor, de ajuda, desespero. E Alexa não sabia o que fazer.

“Alexa!”

Por que ela gritava o seu nome? Lágrimas escorriam de seus olhos, molhando seu vestido. Ela não tinha como ajudar à amiga, ela não sabia o que fazer! Foi então que ela olhou para a janela e teve a única ideia que poderia ter. Precisou de muita força, mas levantar o vidro, porém, era uma queda de quatro metros... Ela não conseguiria.

Alexa olhou para a porta e esperou. Meg não estava mais gritando, não havia mais nenhum barulho. Seu peito estalava com os soluços que ela segurava. De repente, ela começou a ouvir a madeira ranger, alguém estava vindo.

Em um movimento rápido, ela passou as pernas pela janela e sentou no parapeito, ela sabia que se pensar de mais não faria, então apenas empurrou a casa e caiu. Ela voava para baixo como uma pena. Quando seu corpo caiu no chão, ela gemeu. Seus joelhos bateram na terra firme e ficaram doloridos, suas mãos se arranharam com as pedrinhas, mas ela abriu os olhos e percebeu que estava do lado de fora da casa.

“Não!” –Um berro estremeceu a Terra.

Alexa se levantou rapidamente e olhou para cima. Huanda olhava para ela, seus olhos estavam vermelhos, seu rosto estava vermelho de raiva.

“Maldita!” –Ela apontou para Alexa.

Ela sentia seu coração pulsar nos seus ouvidos. Precisava sair dali, e rápido. Ela olhou para sua frente e não havia nada, estava tudo escuro, a floresta dominava tudo. Porém, quando ouviu alguns murmúrios vindos em sua direção, não pensou duas vezes e começou a correr.

Correu para frente, correu porque sua vida dependia disso, correu com todas suas forças. Suas lágrimas secavam com o vento que batia no seu rosto. Ela não conseguia ver nada, apenas corria algumas vezes um galho batia no seu rosto, mas ela ignorava a dor e continuava a correr. Seu pulmão doía, seu coração doía, suas pernas doíam. Ela não queria olhar para trás para saber se a seguiam, ela apenas corria. Não ouvia nada, apenas o vendo passando por ela. Desviava as arvores, pulava algumas pedras, caia de pequenos morros, mas se levantava e continuava a correr.

“Mãe!” –Ela gritou- “Socorro! Eu não quero morrer!” –Ela não ouvia sua voz, apenas gritava, precisava gritas, precisava chorar, precisava correr.

Sua visão era breu, não tinha nenhuma luz, a Lua havia sumido, o Sol não queria aparecer, a noite não acabava. Ela corria.

Quando achou que seu pulmão iria explodir, ela parou e o mundo a sua volta parou. O ar entrava pelo seu nariz e purificava seu corpo, seu coração ia desacelerando, suas mãos estavam dormentes e só agora elas a sentiam. Ela levantou a cabeça e olhou em volta, o silêncio da floresta era ensurdecedor. Precisava ter alguma coisa por ali, qualquer coisa. De repente, seus olhos avistaram um ponto brilhando no horizonte.