A Escolhida
2 Capítulo 2
Alexa assistia o fogo queimando sua casa. Ela não estava com medo, na verdade sentia como se um grande peso houvesse saído dos seus ombros. As chamas quentes lambiam as paredes, as cortinas, os móveis de madeira. Tudo era coberto pelo fogo que ardia, criando uma nuvem escura de fumaça. Por um momento ela se perguntou como conseguiu fazer tudo aquilo? De onde tinha vindo toda aquela raiva e coragem?
O calor fazia seus olhos arder e sua garganta secar. Ela tentava ver seu pai entre as chamas, era apenas um corpo caído e morto. Pronto, agora estava feito e não havia como voltar a trás. Ela caminhou até a cozinha onde o corpo de sua mão estava imóvel e intacto. Alexa se ajoelhou e pegou a mão fria do cadáver.
“Eu sinto muito mãe.” –Ela sussurrou- “Eu te amo.”
Uma lágrima quente escorreu de seus olhos, mas secou antes mesmo de tocar a bochecha. A cozinha estava ardente, toda a casa estava em chamas, logo não sobraria mais nada. A garota se levantou e olhou em volta, seu trabalho estava quase feito. Ela respirou fundo e foi em direção ao fogo que vinha da sala. A cada paço mais perto sentia o calor na sua pele ardendo mais e mais.
Esse seria seu fim. Todos estariam mortos e aquele sofrimento acabaria. Fim.
A madeira gritava, chovia fogo do teto, era o inferno. Alexa sentiu seu corpo amolecer, não havia mais ar para respirar apenas fumaça preta. Ela caiu no chão tossindo, engasgada com a fuligem, logo iria desmaiar e morrer. Ela apenas aceitava seu destino.
Ainda consciente, ela levantou a cabeça para dar seu ultimo suspiro de vida, mas algo chamou sua atenção dentro de todo aquele caos. Havia um caminho no chão onde o fogo não conseguia queimar, um pequeno corredor intacto que levava chama adentro. As sombras das labaredas refletiam nesse caminho, sombras negras e dançantes. Cada macha dançava uma música inaudível. Então, as sombras foram se agrupando em uma massa negra no chão, que foi criando forma de uma pequena mão.
Alexa forçou os olhos para entender aquela imagem, quando a sombra de mão foi se estendendo em sua direção. Não havia mais força para tentar fugir ou ao menos se assustar, ela apenas aceitou o que estava acontecendo.
A mão negra foi até ela, projetando-se no seu braço, pescoço e rosto. Alexa caiu para trás como se tivesse sido empurrada; seus olhos se abriram e foi como se uma rajada de ar entrasse em seus pulmões, dando-lhe vida. Ela se levantou e olhou para seus pés. O fogo queimava a madeira, porém não lhe feria, ela não sentia nada. O corredor havia desaparecido assim como a sombra. Alexa então soube que aquela era sua chance de sair dali.
Ela deu às costas a sala em chamas, ao corpo do seu pai, ao corpo de sua mãe e andou até a porta. Não havia mais casa, toda a construção tinha se tornado uma bola de fogo. Ela segurou a maçaneta, que ao toque estava fria, mas antes que pudesse ela mesma abrir, a porta se abriu sozinha.
X
Alexa abriu os olhos lentamente. Sentia seu corpo dolorido, sua cabeça latejava. Ela não reconhecia o local, não era sua casa, algumas vozes vinham do fundo mas ela não entendia o que falavam.
“Ela acordou.” –Alguém disse.
“Alexa.” –Uma voz sussurrou. No seu campo de visão apareceu uma mulher, ela já a havia visto, era sua vizinha, Valéria- “Querida, você acordou.”
Alexa tentou falar, mas sua garganta estava muito seca e a voz não saiu.
“Oh Alexa, graças e Deus está bem.” –Ela sentou na cama e segurou sua mão, era um toque suave e frio- “Como se sente?”
Alexa assentiu.
“Achei que não iria acordar mais.” –Valeria uniu as sobrancelhas- “Mas você está bem.”
“Ela está bem?” –Alguém perguntou no fundo.
“Sim, mas em choque ainda pobrezinha. Por que não pega um copo d’água.”
A pessoa saiu a passos largos e voltou em seguida com o pedido.
“Beba querida.” –Valéria lhe entregou o copo.
A água fresca e gelada escorreu por sua garganta limpando as fuligens e fumaça que sobrará. Aliviada, Alexa pôs e copo em cima da mesinha ao lado da cama e sentou, abrindo seu campo de visão. Ela estava em um pequeno quarto onde só havia a cama e um guarda-roupa velho do outro lado. A pessoa até então desconhecida era Pietro, filho de Valéria.
“Obrigada.” –Alexa disse com a voz falha.
“Não me agradeça querida, foi um caos àquela noite. Por um milagre te encontrei e te trouxe para cá, seu corpo estava fraco e quase sem vida.” –Ela fez uma pausa- “Consegue se lembrar de algo?”
Sim, Alexa se lembrava de tudo, mas não queria deixar Valéria assustada, então mentiu.
“Oh querida.” –Ela suspirou- “Sua casa pegou fogo, tudo foi destruído. Seus pais não conseguiram sair.”
Alexa desviou o olhar, ela tentou parecer triste, mas o que sentia era o oposto. Talvez só não ria porque sabia que sua mãe estava morta, porém não sentia nada ao imaginar seu pai queimando no sofá.
“Você pode ficar aqui, usar o quarto da Darla.”
“Obrigada Valéria. “
“Não precisa agradecer.” –Ela sorriu e se levantou- “Vou arrumar a cama para você e depois podemos jantar.”
A garota sorriu e concordou. Valéria deixou o quarto e seguiu pelo corredor, mas parada na porta ainda estava Pietro, ele olhava para ela sem expressar emoções.
“Olá Pietro.” –Alexa cumprimentou.
O garoto entrou e fechou a porta.
“Você não me engana.” –Disse cruzando os braços- “Foi você.”
“Por que acha isso?” –Alexa se levantou o olhando. Queria parecer ameaçadora como ele parecia para ela.
“Acabou de saber que seus pais morreram e não derramou se quer uma lágrima.”
“Cada um tem o seu jeito de ficar de luto.”
“Luto? Você está é mesmo feliz. Livrou-se daquele seu pai maluco de vez.”
“O que te faz pensar que queria isso? Ele era meu pai.”
“Eu ouvia os gritos e palavrões, todos ouviam como ele tratava você e sua mãe.”
“É, ouviam” –Ela cruzou os braços- “E mesmo assim não faziam nada.”
Os dois ficaram se olhando por longos segundos. Pietro a olhou de cima a baixo, torcendo o nariz, já Alexa estreitou os olhos para parecer seria e ameaçadora. Porém ao fazer isso mudou seu foco para além dos ombros de Pietro.
No fundo do quarto, na esquina formada entre as duas paredes, estava tudo escuro, já que o guarda-roupa não permitia a passagem da luz da janela para aquele canto. Naquele canto, imerso na escuridão, Alexa via algo, não sabia dizer o que, mas via. Alguma coisa a observava em silêncio, inquieta, escondida no breu do canto. Um frio subiu pela sua nuca.
“Garota estranha.” –Disse Pietro.
Alexa voltou sua atenção para o rapaz, que deixava o quarto. Ao abrir a porta, a luz do corredor entrou no quarto, iluminando o canto escuro. A luz bateu nas paredes revelando o nada.
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