A Escolhida
15 Capítulo 15
Notas iniciais
Alexa acordou ainda sonolenta. Os raios de luz entravam pelas duas únicas janelas da casa, mas isso não a deixava menos escura e úmida. Orphélia estava ali, ela trabalhava em alguma coisa em sua mesa. Pegava potes e frasco, murmurava frases que Alexa não entendia.
“Precisamos esperar a nova luz. Ela chegará em oito dias.”
Alexa sentou na cama e se cobriu com o fino cobertor. Ela deixara seu vestido secando em um tronco de uma árvore seca ao lado da arvore e torcia para já estar seco, usava apenas sua roupa de baixo. Ela também sentia fome. Poucas vezes vira Orphélia comendo, dás únicas, algumas frutinhas vermelhas e raízes escuras, mas para ela, era como comer nada. Sua barriga gemia de fome e isso parecia não incomodar a dona da casa.
“Estou com fome.” –Disse Alexa timidamente. Ela odiava reclamar e pedir coisas para outras pessoas, gostava dela mesma resolver seus problemas.
“Imagino que esteja.” –Orphélia se virou para ela e cruzou os braços- “Você está fraca.”
E estava. Desde que chegara aquela casa, Alexa se sentia mais cansada e fraca. Sua pele começara a desbotar, ficando de um pálido um tanto quando doentio, seu cabelo estava mais ressecado e sem brilho.
“Eu devo ter algo aqui.” –Mexendo em uma caixinha de madeira que ficava em uma prateleira, Orphélia tirou algumas moedas brilhantes. Pareciam novas e nunca usadas- “Consegue ir até a cidade?”
Alexa assentiu. Seria uma longa caminhada, mas sua fome era maior que a preguiça.
“Pode usar isso.”
Ela deu para a menina um novo vestido. Parecia um saco de batata com cortes para a cabeça e os braços, mas era melhor do que usar sua roupa de baixo. Depois que se vestiu ela calçou suas botas e pegou o dinheiro com Orphélia.
“Preste atenção.” –Orphélia olhava fundo nos seus olhos, com sua expressão neutra usual- “Você vai atravessar a floresta e não falará com ninguém. Chegará à cidade e comprará comida e voltará. Não chame atenção, não fale com as pessoas. Volte imediatamente.”
Alexa assentiu. Guardou o dinheiro no bolso e saiu da casa. A caminhada até a cidade foi longa e cansativa. Por sorte não estava tão frio, mas a neblina da manha deixava o ar mais denso. Alexa não soube como conseguiu percorrer o caminho até a cidade, para ela, tudo era igual e muito fácil de perder-se, mas quando avistou a linha cinza do asfalto no horizonte ficou surpresa.
Da floresta até a cidade não era tão demorado. Era mais fácil por ser uma linha continua e plana e não morros com arvores e pedras. Também havia placas. Quando chegou a cidade o ar mudou. Era o ar que ela estava acostumada, o ar que conhecia.
Chegou ao centro onde tinha o comercio. Seus pés latejavam dentro das botas pesadas. A cidade parecia um pouco vazia pelo que se lembrava, mas não seria problema, ela sabia para onde devia ir e o que fazer. Com o dinheiro de Orphélia ela comprou dois pães, duas laranjas e um pedaço de linguiça defumada. Fazendo os cálculos ela previu que a comida duraria uma semana ou mais.
Ela saia do mercado satisfeita com suas compras, e acabou não se contendo e comendo uma maça que ganhara da mulher que lhe atendeu na barraca.
“Vai querer só isso?”
“Só. Obrigada.”
A mulher a olhou com uma sobrancelha arqueada, a boca torta.
“Você é daqui?”
Alexa não respondeu. Obedeceu ao que Orphélia disse e não respondeu, pegou suas comprar e saiu.
Devia ser meio dia quando deixava a cidade, as nuvens no céu a impediam de confirmar isso. Só de pensar em atravessar a floresta seus és começaram a doer. Ela jogou o que sobrou da maça na grama e caminhou cabisbaixa.
“Alexa?” –Alguém a chamou, mas ela ignorou, não queria ser vista.
Alguém correu até ela e pôs a mão no seu ombro, virando-a.
“Alexa.” –Joseph a olhava assustado e eufórico. Ele tinha uma aparência cansada, seus olhos estavam com olheiras- “Como você está?” –Sua voz era rápida, desesperada.
“Bem.” –Respondeu Alexa, se esquivando da sua mão e ficando livre.
“Bom.” –Ele pôs as mãos no bolso e olhou em volta como se tivesse esquecido de algo.
“O que você quer?” –Alexa perguntou por fim. Ela precisava voltar antes que Orphélia suspeitasse de algo.
“Meg.”
Pareceu que o todo o ar saíra do pulmão de Alexa.
“Não a vejo há uma semana. Ela simplesmente sumiu.” –Seus olhos refletiam sua melancolia- “Eu fui ao orfanato, perguntei por ela, eles disseram que ela tinha ido embora.”
“Joseph...”
“Eu não sei mais o que fazer, não sei mais onde procurar.” –Seus olhos começaram a ficar vermelhos e úmidos- “Eu... Deve ter acontecido algo.”
“Eu não sei onde ela está.” –Ela disse.
Joseph a olhou. Era como se toda sua esperança estivesse em Alexa, e agora ele não tinha mais nada.
“Achei que ela poderia estar com você.”
“Não está.”
Ele assentiu conformado. Então agradeceu o tempo dela e voltou para a cidade.
Alexa achava que tinha superado o acontecimento com Meg, porém depois de ver Joseph percebeu que estava enganada. Ela ainda sentia falta da amiga e as imagens ainda perturbavam sua mente. Ela começou a chorar sozinha.
O caminho de volta pareceu ser mais curto do que a ida. Quando se deu por si, ela já estava na metade do caminho, mesmo não sabendo como sabia isso. O ar voltara a ficar pesado e o céu mais escuro, não podendo dizer se ainda era de dia ou final de tarde.
Era possível ver a casa dali, mas ainda tinha muito chão. Ela tinha certeza que seus pés estavam com bolhas já.
“Alexa?”
Alexa parou e suspirou. Queria chegar logo em casa e não encontrar mais ninguém. A voz era familiar e a pessoa vinha andando até ela. Ela deixou o pacote de comida no chão e tirou o cabelo que caia no rosto.
“O que você faz aqui?”
“Pietro?” –Ela disse surpresa- “O que você faz aqui?”
Ele parecia mais alto e seu cabelo estava mais curto. No seu ombro estava pendurada uma espingarda velha e na sua mão esquerda, segurava um coelho pelas orelhas.
“Acho que está obviu.” –Seu semblante era serio.
“Não sabia que caçava.”
“O que houve com você? Está doente?”
“Não.”
“Sua nova família mora aqui? Eles que te deixaram assim?”
“Não é da sua conta.” –Ela pegou as compras no chão e voltou a andar.
“Alexa.” –Ele puxou o seu ombro fazendo-a derrubar as coisas.
“O que foi?” –Ela exclamou.
Os dois se abaixaram e recolheram as coisas. Pietro lhe entregou as laranjas que agora estavam sujas de terra.
“Você foi embora e foi muito estranho. Ficamos preocupados com você.”
“Eu sei cuidar de mim.” –Ela pegou as laranjas- “Eu agradeço a hospitalidade da sua mãe, mas agora eu estou com a minha vida e isso não é mais problema de vocês. Por favor, deixe-me em paz.”
Ela deu as costas e voltou a andar. Talvez Pietro tivesse ficado lá parado a olhou, ou voltado para casa. Ela não sabia, e não queria saber. Segui reto e não olhou para trás.
“Você demorou.” –Orphélia comentou quando ela entrou na casa.
“Mas estou aqui.” –Ela pôs a comida na parte vazia da mesa e pegou um pedaço do pão.
“Você não entende não é mesmo?” –Sua voz era calma, mas com uma pitada de sarcasmo- “Não pode ficar andando por ai despreocupada.”
“Com o que devo me preocupar?” –Alexa sentou na sua cama- “Você não me diz nada, tudo é um segredo. Eu não sei o que temer.”
Orphélia, que estava sentada em um banco feita de um toco de árvore, se levantou e cruzou os braços.
“Você é tola. Não percebe as coisas.”
Alexa comia seu pão em silêncio.
“Não percebe o redor.” –Ela girou o seu dedo indicador no ar- “Não sente a mudança.”
“Se você me explicasse o que está acontecendo...”
“Não cabe a eu explicar e sim a você entender.” –Ela fez uma pausa- “Você não pertence mais aquele mundo, Alexa. Você agora é como eu, como Huanda.”
Orphélia foi até a mesa e pegou um frasco de vidro com um líquido ocre dentro, foi até Alexa e sentou-se ao seu lado.
“Ponha isso nos seus pés, ajudará a aliviar a dor.”
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