A Escolhida
4 Cara a cara
— Quem é você? – falei em baixa voz para não passar medo e insegurança.
— Meu nome é Duncan. – Disse vindo em direção a mim em passos lentos, ele usava uma roupa inteira preta. Calça jeans e a jaqueta com detalhes marrons.
— Posso saber o que quer? – Falei em um tom calmo e confiante para não demonstrar como eu estava por dentro.
— Acho que seria melhor eu te explicar um pouco, você terá que ser bem compreensível Lucy.
— Como sabe meu nome? – Questionei-o rapidamente quando dissera meu nome, como ele poderia saber? O tom da minha voz mudou daquele calmo e confiante para um desesperado, mas ainda baixo.
— Posso explicar? – perguntou impaciente com uma expressão sarcástica. Não o respondi e esperei ele começar a falar.
— Você Lucy, tem um anticorpo no seu organismo, ele faz as suas células se regenerar constantemente, mas não eternamente. Você é invulnerável a quase todas as doenças mais graves da humanidade. Eu preciso te ajudar para que você possa nos ajudar.
— ( risos ) Quer que eu acredite nessa baboseira? – Eu sentia que algo fazia sentido com a minha vida, mas não era possível aquilo ser verdade.
— Lucy...
— Como sabe meu nome? – O interrompi antes que terminasse a o que ia dizer e questiono a ele o que talvez não quisesse que eu perguntasse.
— O que importa é que eu te encontrei. Você não pode mais correr risco. – Sua resposta fugindo do assunto só me deixa mais assustada, correndo risco?
— Correndo risco do quê? De quem? Você é maluco cara, eu estou atrasada. – Me viro e caminho seguindo a estrada da mata. Em poucos passos adiante sua voz suave e tranquila, sem demonstrar medo e insegurança diz:
— Quer salvar o seu pai Lucy? – Aquela pergunta me abalou. Retomo minha direção a ele e caminho de volta, estava a cerca de cinco metros de mim.
— Como sabe sobre ele? – Perguntei com medo, aquele cara não parecia estar tão louco quanto eu pensava. Mas me recuso a acreditar que aquilo seja verdade, impossível.
— Eu te conto tudo, se vier comigo.
— Não, não é simples assim, você nem me disse o quer de mim, para onde iríamos se eu aceitasse, o que falaria para o meu pai, o que eu tenho, nada, você não me explicou absolutamente nada. Mesmo ainda achando que você não passa de um louco, poderia tentar me convencer de que tenho alguma coisa de especial. O que acha de começar a falar Duncan? Ou eu vou sair correndo para chamar a polícia agora mesmo.
Ele respirou fundo, olhava para os lados. Parecia pensar na atitude que tomaria naquele momento.
— Lucy, não é simples pra você e nem pra mim, não posso te contar tudo agora. – disse Duncan impaciente, parecia ter pressa.
— Não me convenceu. – Novamente me viro adiante o caminho, e igual á pouco tempo atrás, depois de alguns passos, sua voz soa de novo.
— Quando foi a última vez que pegou uma gripe se quer? Quando foi a última vez que sentiu dores? Eu te disse meu nome previamente e você decorou, como? Com certeza não precisa prestar muita atenção no colégio, mas deve ter ótimas notas Lucy. Ou estou enganado? – Infelizmente tudo isso era verdade, ele não era um maluco, mas como e porque tudo isso acontecera do nada? É extremamente confuso.
— Como você sabe? – Depois de tudo o que me dissera estava com medo da resposta.
— Foi aplicado uma substância em vinte e seis crianças recém nascidos á quinze anos atrás. O Drozium, ele faz as células regenerarem constantemente em seu organismo. Mas nós precisaríamos de você para saber como funcionam essas condições.
— Vinte e seis? Poderei vê-los um dia?
— Não, só houve uma sobrevivente, e é por isso que precisamos de você. – Respondeu destruindo minhas esperanças de conhecer outros iguais a mim.
— Como? Só eu? – Como seria possível que só eu tenha sobrevivido? Eu já podia entender a situação, mas aquela conversa não me agradava muito.
— Foi um teste que pensávamos não ter dado certo na época. O objetivo volta se você vier comigo, conseguir salvar pessoas com doenças graves. O caso de seu pai Lucy. – Ouvir aquilo me deixou com uma sensação imensa de alívio, salvar meu pai.
— Eu aceito Duncan, mas o que eu falaria para meu pai? – Seria um problema dizer que viajaria pra algum lugar longe sem ele saber onde é. Que desculpa eu inventaria?
— Isso é com você, mas tem que ser o quanto antes. – O quanto antes é rápido demais para mim.
— Onde é que nós iríamos Duncan? Conversamos tanto e não lhe perguntei sobre isso... – Imaginava ser em um lugar certamente longe.
— Fica nos Estados Unidos, Seattle, é um lugar que não queremos que o governo americano descubra. Ou seja, é secreto. Vá para o colégio, eu vou estar aqui quando você voltar.
— Ok...
Ele não se despediu, apenas esperou eu retomar o meu caminho. Respirei fundo, estava um pouco ofegante em quanto andava. Era difícil de acreditar no que acontecera momentos atrás. Tão rápido. tão atrasada.
Dentro do ônibus sentada no fundo, encosto minha cabeça no vidro que tremia. Mesmo tudo que havia acontecido não estar devidamente explicado, meu maior problema era o que iria dizer a Louís.
Desço do ônibus que parava quase em frente o colégio. O portão principal estava fechado mas nele mesmo havia outro bem menor que permanecia aberto.
Ando pelo caminho que me leva ao saguão, logo Kaitlin, da coordenação vem de encontro a mim.
— Lucy, de novo atrasada? Não podemos ficar tolerando, ainda bem que tem ótimas notas ( risos ). Pode ir pra sala... – Não digo nada, apenas mostro um sorriso rápido e continuo até subir as escadas.
— Com licença. – Professor Tommy não diz nada, só faz um sinal dizendo para entrar.
— Oi Lucy. – Diz Susi, meiga como sempre.
Emilly olha pra mim e levanta as sobrancelhas, simplesmente dou um sorriso sem mostrar os dentes enquanto puxo meu caderno da bolsa. Kendrick me olha com um sorriso e eu retribuo com outro.
A aula de Tommy é uma das únicas que eu realmente me interesso em aprender. Além de gostar de Física ele é muito cômico, faz os alunos se interessarem pela aula.
...
O terceiro sinal soa, saímos para o intervalo...
— Lucy, pode sair com a gente esse final de semana? – Diz Emilly aparentemente esperando uma resposta positiva.
— Infelizmente não... – Elas não questionam e fica por isso.
Estávamos conversando, Kendrick chega para falar comigo, com aquele jeito carismático dele.
— Oi meninas... Lucy, vai estar ocupada esse final de semana? – Aquela pergunta foi um tanto dolorosa, não queria parecer chata...
— Infelizmente sim Kendrick, por quê? – Questiono a ele também, mesmo tendo quase certeza da resposta.
— Ah, não, é que se não estivesse eu pensei que a gente pudesse dar uma voltinha. – Disse Kendrick sem demonstrar vergonha.
— Desculpa mesmo...
— Até mais garotas... – Tchau Kendrick – diz Emilly.
— Tivemos uma mesma resposta agora pouco. – Diz Susi sorrindo.
— Pois é, mas não posso mesmo. – Mais uma vez elas não questionam e não preciso inventar uma desculpa fajuta...
Uma hora e quarenta minutos depois...
O último sino soa, volto a lembrar do que aconteceria quando chegasse em casa. Talvez um frio na barriga por ter de mentir para meu pai, ou talvez porque iria para Seattle com um desconhecido que afirma que tenho uma substância no meu organismo que faz as células se regenerarem.
Ouço a voz de Kendrick em tom alto e olho para trás enquanto caminha rápido em minha direção.
— Está afim de uma carona? – Foi como música para os meus ouvidos.
— Ah, vou aceitar, salvou meu dia (risos). – Não tive como recusar uma proposta dessa, estava muito cansada.
...
Ele me deixa naquele mesmo lugar que me deixara da outra vez.
— Tchau Lucy.
— Até mais Kendrick.
Caminho pela estrada imaginando o que Duncan iria me dizer, ando rápido como se tivesse pressa. O vento estava um pouco forte, virava meu rosto para que a poeira que levantava não atingisse meus olhos. Ainda no caminho da mata já avistava minha casa, mas nem sinal de Duncan.
Um tanto longe da casa vejo um homem aparentemente com a mesma roupa de Duncan daquela manhã. Era ele. Me vê indo em direção a residência e começa a andar, rápido. Caminho em direção a ele, pra não nos encontrarmos em frente a casa. Duncan diminui o ritmo e eu acelero o meu.
— Lucy, como foi a aula? – Disse como se fosse alguém que conhecesse a anos.
— Tá de brincadeira né? E aí, como vai ser? – Falei preocupada...
— Como vai ser? Você que deveria ter pensado no que falar, as passagens para Seattle estão aqui. – Respondeu Duncan como se nada estivesse acontecendo, me surpreendia. – Diga a ele que você vai visitar um amigo que conheceu na internet e que mora em Seattle. Você consegue continuar isso. Depois arrume as malas, pegue um táxi até o aeroporto, vou estar lá. Não vai ser difícil, boa sorte.
— Ok, Ok... – Ele me pareceu muito confiante, resolvi pegar um pouco dessa confiança, nada daria errado.
Caminho para dentro de casa, meus batimentos estavam muito acelerados. Precisava demonstrar segurança e responsabilidade.
— Papai? Preciso falar com você... – Ele estava lá em cima e não me respondia.
Subi as escadas e fui até o quarto dele, estava dormindo. – Papai?
— Ah, oi Lucy, que foi? Tudo bem? – Disse Louís com uma voz rouca por ter acabado de acordar.
— Tudo sim, vou te contar uma coisa que eu decidi a pouco tempo também, é bem confuso. Eu vou para Seattle agora pai. – Falei rezando para nada dar errado.
— Como assim? Agora mesmo?
— É que eu tenho um colega que conheci na internet, ele mora em Seattle e ele comprou as passagens pra ir para lá. O voo é daqui duas horas. Eu sei que é estranho mas eu também não sabia. Eu volto no domingo, posso ir? Quero muito vê-lo...
— Achei isso uma loucura mesmo, mas fazer o quê, você tem praticamente dezesseis anos, não vou te proibir. Pode ir... – Era impossível de acreditar, agora o medo mudava de rumo.
Fiz as malas rápido, não sabia o que ia levar, simplesmente preenchi todo o espaço.
Louís troca de roupa, e vem até meu quarto.
— Posso chamar um táxi? – Falou acreditando fielmente na história fajuta que contei.
Pode sim pai.
...
Estava pronta. Loís vai comigo até a estrada perto de casa, o táxi aparece no horizonte. Além do desconforto de ter mentido para meu pai, não tinha ideia do que iria acontecer em Seattle.
O táxi chega, coloco a mala no canto do banco de trás. Loís me da um abraço forte. Era uma sensação diferente de se despedir normalmente para uma viagem normal.
— Toma cuidado... – Falou com um sorriso e ainda me abraçando.
— Tchau pai... – Respirei fundo enquanto entrava no táxi...
— Tchau querida. – Disse Louís perto da porta de trás do veículo.
O carro começa a andar e Louís anda de volta para a casa...
— Pra onde moça? – Falou o motorista aparentemente simpático.
— Aeroporto...
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