A Escolhida
19 Chapter two
Notas iniciais
Pouco tempo depois do meu último sonho – e, graças aos deuses, o último de Alexei –, o inverno chegou, trazendo tambémo Natal, Ano Novo e o meu aniversário. Durante esse tempo, não tivemos nenhum ataque, e até mesmo os demônios que viviam nos cercando desapareceram. O súbito recuo não serviu para nada, a não ser trazer mais preocupação – e se os Luditors pensavam que nós baixaríamos a guarda, estavam muito enganados.
Comecei a passar ainda mais tempo com o Josh. Mesmo depois do “incidente” no Natal – que nós dois decidimos “esquecer” –, ele continuava me tratando apenas como uma amiga. Comecei a perceber que ele esta ficando – ou já era, não sei, nunca perguntei – mais próximo de Avril, e isso me deixava contantemente de mau humor.
Um pouco antes disso, contei para Josh que faria 15 anos dia 28 de dezembro, e ele sorriu presunçoso. No dia seguinte, o filho da mãe já estava dez centímetros mais alto que eu, um pouco mais musculoso do que era antes e definitivamente muito mais bonito. São os benefícios da puberdade, acho.
Ou da imortalidade.
De uma forma ou de outra, ele negou ter envelhecido um ano em um dia apenas para me provocar, mas eu podia ver em seus olhos que Josh estava mentindo.
Ou talvez fosse só a centelha de esperança que sempre nasce no coração de uma pobre garota apaixona... Ai, melhor parar.
No dia do meu aniversário – tive que pedir pra ele continuar com aquela aparência, e não envelhecer mais um ano em um dia, porque as pessoas provavelmente desconfiariam –, que era para ser uma festa surpresa mas Avril fez questão de não me deixar ser surpreendida (ainda bem que alguém fez isso), tempos depois de eu já ter parado de pensar em todos os assuntos não-normais que haviam tomado conta da minha vida nos últimos meses, finalmente vi uma oportunidade de falar com Rebeca em particular. Ela já sabia de tudo sobre os Electis – não tudo, mas o suficiente para entender minha posição –, o que facilitou para mim.
Finalmente, pude contar aquilo que assombrava há tanto tempo.
A primeira coisa que Beca fez foi jogar na minha cara que ela era a minha melhor amiga e esse tipo de coisa não pode ser escondida da nossa relação.
A segunda coisa, foi me abraçar, e dizer que não estava brava comigo – ou, pelo menos, não tão brava a ponto de sair batendo os pés da minha casa e nunca mais dirigir o olhar para mim.
A terceira, foi dizer palavras que não me abandonariam tão cedo:
— Sav, você é uma pessoa transparente e eu te amo. Por isso, e por te conhecer tão bem, pode ter certeza: eu saberia se você gostasse daquele retardado ridículo de verdade. Eu conseguiria ver em seus olhos quando você mencionava o nome dele uma faísca de paixão se acendendo, mas isso nunca aconteceu. Se você nutrir algo pelo Cristopher, não é nem de perto que nem o que você... – ela fez uma pequena pausa e depois uma careta, como se percebesse que não devia falar o que estava pensando. Então, pigarreou e concluiu: – nem de perto igual ao que ele sentia por você. O que você tem se chama culpa.
O que você tem se chama culpa.
Por incrível que pareça, aquelas palavras fizeram meu coração se acelerar. Era culpa. Eu me sentia culpada por ter exilado alguém que me amava tanto – provavelmente porque ele fora o primeiro a se apaixonar por mim de verdade.
... Ou, pelo menos, eu achava que Cristopher tinha sido o primeiro.
Depois dessa pequena conversa esclarecedora com minha melhor amiga, nós duas nos abraçamos e descemos para a festa. Eu nem de longe imaginava o que estava por vir.
(...)
Encontrei Josh sentado na calçada em frente a minha casa. Ele parecia pensativo, e provavelmente não havia notado a minha presença. O Electi encarava um ponto fixo na rua, e eu desejei poder saber o que ele estava pensando.
Aí eu me dei conta de que podia.
Me concentrei em Josh, torcendo para que ele não virasse para trás e não ativasse seu “bloqueio mental”. Provalvemente funcionaria melhor se eu pudesse ver seus olhos, mas isso não era uma opção no momento.
Alguns segundos depois, a voz dele retumbou na minha cabeça.
Não devia ser assim, ele pensou. Eu nem sei porque estou tão preocupado em dizer o que sinto. Quer dizer, não é possível que ela não sinta nada por mim. Isso ficou bem claro no dia do Natal.
E eu soube de quem Josh falava.
Ele passou uma mão pálida pelos cabelos negros, ainda sem se dar conta de que eu estava ali, ouvindo tudo que se passava por sua mente. Mais palavras entoadas por ele podiam ser ouvidas dentro da minha cabeça, mas eu não escutava nenhuma delas. Desisti de ouvir seus pensamentos. Eu já sabia o que queria.
Pigarreei uma vez, mas Josh não se virou. Fiz isso novamente, um pouco mais alto, e ele finalmente reparou em mim.
— Oi, Sav – sorriu. O sorriso dele automaticamente me fez sorrir. – Está aí há muito tempo?
Eu não devia estar surpresa com essa “confissão”. Ele me beijou, certo? Então eu já sabia que ele gostava de mim, certo? E não de Avril... Certo? Certo?
— Não, na verdade eu acabei de chegar.
— A festa estava chata? – Josh franziu o cenho, e depois voltou a sorrir. – Ou você está fugindo de alguém?
Será que ele viu mais alguém além de mim no Natal? Será que ele beijou mais alguém além de mim no Natal?
— Não, só queria tomar um ar – respondi, sem desviar meus olhos dos seus nem por um segundo. Josh já tinha reestabelecido seu bloqueio, então eu não tinha como saber as respostas para as minhas perguntas. – E você, está fugindo de alguém?
— Só vim tomar um ar, também.
— Ah.
O escolhido de Aquantis sinalizou para que eu me sentasse ao seu lado, e passou o braço sobre meus ombros assim que me acomodei na calçada. Apoiei minha cabeça em seu ombro, e suspirei sem perceber. O Electi tinha cheiro de canela. E, mesmo que nevasse, eu me sentia plenamente aquecida.
Por alguns instantes, nós não dissemos nada. Infelizmente, instantes de silêncio são sempre péssimos para garotas apaixonadas, e eu comecei a reparar em coisas ridículas – como, por exemplo, o cabelo dele fazia cócegas na minha testa e eu não conseguia afastá-lo mesmo assim. Ou como seu ombro parecia ter o formato e tamanhos perfeitos para que eu pudesse repousar minha cabeça sem desconforto. Ou, até, como o toque dele podia me deixar flutuando, mesmo que meus pés estivessem bem fixos no chão.
Me dei conta que todos esses pensamentos me lembravam de Avril. Ela não tinha vindo para a festa, e não me dissera o porquê. Falou apenas que os horários batiam. Inspirei o perfume de Josh mais uma vez, e agradeci aos horários de minha amiga por eles não baterem. Depois, me sensurei por isso, e falei para mim mesma repetidas vezes que não deveria ficar feliz pela ausência de uma das minhas melhores amigas – será que eu podia classificá-la dessa forma? – no meu aniversário.
O garoto depositou um beijo em minha testa e se afastou levemente, apenas para que pudesse encarar meus olhos novamente. Os dele brilhavam e me prendiam. Era impossível olhar para outra coisa que não fosse o Electi à minha frente, e não levei muito tempo para desejar que ele me beijasse – ou abraçasse, embora preferisse a primeira opção – novamente.
— Ainda tem bolo? – ele perguntou.
Dei de ombros.
— Se meu pai ainda estiver na sala, então não.
Josh abafou uma risada.
— Ele estava lá da última vez que eu chequei.
— Para a sua infelicidade, ele também não tinha levantado do sofá quando eu saí – fiz uma cara de falso pesar.
Foi a vez do Electi de dar de ombros.
— Acho que eu fiquei sem.
— Acho que sim.
Minha mente parecia gritar que eu queria que ele me beijasse. Por um momento, me perguntei se eu havia ativado o bloqueio dos meus pensamentos, e depois percebi que já não me importava. Eu só queria poder fechar a noite com a certeza que a garota dos pensamentos de Josh era eu, e não Avril ou qualquer outra.
— Josh... – comecei, meio hesitante. – Depois que você saiu da minha casa, no Natal, o que você fez?
Ele ergueu uma sobrancelha.
— Quero dizer, é que você não tem família, não é? E quando você saiu, pra me deixar jantar com a minha, eu fiquei me sentindo um pouco culpada... – tratei de explicar. A verdade é que eu não estava fingindo. Quando vi Josh deixar minha casa, mesmo que estivesse aparentando estar muito feliz, me dei conta de que ele não tinha família e senti um aperto no coração.
— Não precisa se preocupar com isso, Sav – ele sorriu um pouco mais. – Esses feriados não são tão importantes para quem não é religioso. Eu só quis comemorar com você porque sei que é uma data... Especial.
Ele ainda não havia respondido a minha pergunta.
— Então você foi... Pra casa?
— É. E fiquei deitado na cama escrevendo poemas e pintando coelhinhos – o escolhido de Aquantis piscou seus olhos inocentemente.
— Você escreve poemas? – assim que me ouviu dizer isso, Josh começou a rir.
— Não, Sav, era uma brincadeira.
— Ah...
Algo me dizia que ele estava tentando tirar minha atenção da pergunta principal. Eu não estava pronta para desistir.
— Então, você foi para casa... – recomecei a frase.
Josh revirou os olhos, mas ainda sorria.
— Se a srta. Ciúmes quer saber se eu estava com a Avril, a resposta é não.
Senti meu rosto esquentar.
Ah, droga, eu tinha que começar a lembrar de bloquear meus pensamentos.
Juntando todo o resto da minha dignidade, dei de ombros para fingir que não tinha me importado com o que ele havia dito.
— Só fiquei curiosa.
E ele voltou a rir.
— Nossa, Savanna, eu não sabia que você era tão ciumenta assim...
— Eu não estou com ciúmes – falei, pausadamente, e meu rosto já estava queimando.
— Então por que você está ficando vermelha?
Ficando? Até parece que é possível ficar ainda mais vermelha do que eu já estou.
— Porque está frio aqui fora! – respondi, sentindo uma irritação me consumir. Eu sabia que parecia uma idiota agindo daquele jeito, mas é que Josh me deixava nervosa, e eu não gosto de me sentir nervosa perto de ninguém. Gosto de ser totalmente controlada.
Me levantei, tirei a neve da calça e me preparei para entrar, quando Josh me devete.
— Ei, onde você vai? – ele ainda o sorria. Idiota.
— Pra Nárnia, é claro!
Soltei sua mão do meu braço e me aprontei para correr, mas ele era mais esperto que eu e previu meu movimento. Assim que me soltou, o garoto abraçou minha cintura com força, fazendo com que eu não conseguisse me mexer por mais que tentasse. Quando eu me acalmei um pouco, Josh afrouxou o aperto.
— Você vai me deixar aqui fora sozinho, Sav? – sua voz mostrava que ele se divertia com a situação, e seu hálito quente na minha orelha fez com que eu estremecesse levemente e minha nuca se arrepiasse. Droga. Por que é que ele exercia esse controle sobre mim?
— Dá pra me soltar? – pedi, bufando.
— Dá... – Josh me virou para ele, ainda segurando na minha cintura. Agora eu podia vir seus olhos azuis hipnotizantes, e aquele sorriso zombeteiro que, por mais que eu me esforçasse, jamais conseguiria odiar. – Mas eu não estou com vontade agora.
E, quando ele me beijou, eu senti que estava nas nuvens.
Enrolei meus braços em sua nuca, não podendo deixar de reparar que ela parecia ser feita para abrigá-los. Apesar da quantidade de roupas que cada um usava, o seu toque conseguia atingir minha pele e me provocar um milhão de sensações diferentes, e eu podia sentir o seu coração pulsando, com força, por mim.
Dessa vez, eu tive total certeza de que o coração de Josh batia por mim.
Ele me beijava com leveza, como se nós dois tivéssemos todo o tempo do mundo. Suas mãos agora repousavam na base das minhas costas, me puxando para mais perto dele. Era quase automatico. Eu não prestava atenção no que fazia, meu corpo apenas se movimentava e respondia aos chamados de Josh.
Mais uma vez, a única coisa que conseguia pensar era que eu queria que aquele momento fosse eternizado.
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