A Escolhida

9 Capítulo 8


Notas iniciais
Eu não ia postar, juro. Mas acontece que o oito estava pronto, o nove também, estou escrevendo o dez e já resumi todos os acontecimentos da fanfic (inclusive os da segunda fase, que vocês não sabiam que existiria), então achei desnecessário ficar esperando. Ah, que mal tem em postar?

Na hora do almoço, Cristopher se aproximou sorrateiramente de nossa mesa e sentou-se ao lado de Reb. Seus olhos negros pesavam em mim, e eu, mais uma vez, desejei ter o poder de ler mentes para saber quais seus pensamentos no momento. Por quê ele me encarava daquele jeito, com tanta frieza? Por quê eu me sentia tão incomodada com a sua presença?

Por quê a minha melhor amiga parecia estar encantada por ele?

Rebeca sorriu, enrolando nos dedos uma mecha de cabelo – mais uma de suas manias relacionadas com garotos – e corando levemente. Me perguntei como ela poderia se sentir atraída por Cristopher se havia acabado de o conhecer. Talvez apenas o achasse bonitinho, ou tivesse um interesse espontâneo que desapareceria com o tempo...

Talvez...

— Eu posso me sentar aqui? — Lound perguntou, ainda me encarando, mas agora com a expressão um pouco mais suave.

Bufei.

— O refeitório é um lugar público, você se senta onde quiser.

Rebeca me encarou, repreendedora.

— Claro que pode. — disse, sorrindo, atraíndo a atenção dele pela primeira vez. Cristopher a encarou como se não tivesse percebido que minha amiga estava ali, mas conseguiu disfarçar bem.

— Vou ficar com a sua resposta, obrigado. — respondeu, abrindo o sanduíche que carregava numa das mãos e me encarando novamente. Reparei que seus olhos haviam assumido o mesmo tom de quando entrou na sala pela primeira vez. Uma espécie de mel, talvez até chegando perto do dourado, o que o deixava um pouco mais humano. — Te dei algum motivo para me odiar, Savanna?

Te dei algum motivo para ficar trocando a cor dos seus olhos o tempo todo, Cristopher?

— Como você sabe meu nome? — franzi o cenho.

Lound riu.

— Sua amiga te chama assim o tempo todo. Aliás... — ele se virou para Rebeca, com um sorriso maroto que poderia encantar a qualquer garota, menos a mim. — ... Qual seu nome, gracinha?

Gracinha?

Você chamou minha melhor amiga de gracinha?

Você é uma espécie de pedófilo?

Reb não pareceu se importar com o adjetivo que havia recebido, e devolveu o sorriso de uma forma que fez com que eu me questionasse se Cristopher não era um bruxo que estava enfeitiçando minha amiga. Seus olhos vidrados e os gestos que pareciam robóticos me arrepiaram levemente.

— É Rebeca. — ela respondeu, mordendo o lábio inferior. Tive vontade de berrar “você está mesmo gostando dele?”.

— Bonito o nome. Faz jus a sua dona.

E agora você canta ela dizendo a frase mais clichê que conseguiu encontrar?

Levantei-me da mesa, sem me importar com a maçã intacta que havia deixado cair. Estava irritada demais para prestar atenção em detalhes tão pequenos. O fato de ninguém reparar que Cristopher Lound não era tão normal quando parecia ser, me deixava tão brava que eu mal conseguia controlar minha respiração. Ele não era confiável. Seus olhos passavam isso. E eu podia sentir isso.

— Vou deixar os dois pombinhos... — sacudi a cabeça, como se tivesse errado a frase. — ... Digo, o rato e minha melhor amiga conversando, pois tenho assuntos mais importantes a resolver.

Rebeca deu de ombros.

— Você que sabe.

Fiquei tão brava com a indiferença dela que não me importei em responder grosseiramente o comentário “o que foi que eu fiz?” vindo do cara-com-os-olhos-multicolor.

Apertei o passo para fora da lanchonete, tateando a minha bolsa atrás do celular. Não teria problema em faltar uma aula de artes, outra de ginástica e uma palestra sobre drogas, teria? Quer dizer, os professores não se importariam...

Peguei o aparelho e disquei o nome de Josh com uma velocidade que me deixaria assombrada se não estivesse tão irritada.

Ele me atendeu com uma voz sonolenta.

— Fala, Sav.

— Precisamos conversar urgentemente.

Josh bocejou, e eu quase me senti culpada por tê-lo acordado. Eu e esse meu egoísmo.

— Sobre...?

— Um aluno novo muito bizarro que entrou hoje na escola...

Eu não precisava ser uma paranormal para saber que ele franzia o cenho e se sentava em sua cama. Talvez o barulho de um par de pernas afastando as cobertas deixasse isso bem claro.

— No meio do ano letivo?

— Aham. — respondi.

— Qual o nome do indivíduo?

— Cristopher Lound.

Silêncio.

A única confirmação que meu amigo continuava na linha era sua respiração lenta e o arquejo de surpresa que soltou ao ouvir o nome do cara-de-olhos-multicolor.

— Venha para cá imediatamente. —ele me disse.

— Não sei onde você está.

— Na minha casa, ora.

— Ah, e isso ajuda muito. — ironizei.

Josh, com certeza, revirou os olhos.

— Nostrae, no chalé nove atrás do palácio. Dê a volta pelo rio para que Ectione não te veja, não queremos confusões com esse cara. Ele anda meio estressado por causa das batalhas e tal...

— Não sei criar portais ainda, Josh. Você sempre me ajuda. — protestei.

Ele respirou fundo antes de dizer sua última frase e desligar o telefone.

— Está na hora de ver se minhas aulas funcionam para alguma coisa.

***

— Você tem certeza de que o nome dele é mesmo Cristopher e o sobrenome é mesmo Lound? — Josh me perguntou pela décima nona vez, e minha resposta foi bufar e revirar os olhos, também pela décima oitava vez (na primeira eu respondi).

Ele me encarou com raiva, exatamente como ficava quando eu me recusava a responder suas perguntas idiotas, mas suavizou a expressão e deu de ombros.

— É que pode ser qualquer Cristopher Lound. Cristopher é um nome bem comum, não é?

— Mas Lound não. Quantos Lounds você conhece? — perguntei.

Josh deu de ombros.

— Quatro, na verdade. Quatro magos das trevas, chamados Anastácia, Alexei, Cristopher e Stevan Lound.

— Nomes esquisitos para Luditors esquisitos. — concluí.

Ele assentiu.

— Me descreva o seu Cristopher, por favor.

— Moreno, alto, forte, com um bronzeado típico da Califórnia, que é de onde ele vem, e olhos que variam de cor. Ora dourados, ora pretos. — fiz uma careta ao ver que ele ria. — Do que você está rindo?

— Se não te conhecesse, diria que você se interessou pelo californiano que, pasme, é um cara comum.

Meu estômago revirou na parte do se interessou pelo californiano. Uma ânsia me arrebateu. Já era nojento o suficiente tê-lo em todas as minhas aulas e vê-lo flertando com minha melhor amiga. Mas ver Josh falando que eu podia estar interessada por aquele cara quase me fez vomitar.

— Nunca mais repita isso, cara, nunca mais. — eu falei, segurando a barriga e fazendo uma careta de vômito, o que fez Josh rir ainda mais. — É sério. O cara é sinistro, eu sinto isso quando estou perto dele.

— Talvez sejam os males da paixão... — ele torceu o nariz. — Eca, é muito estranho pensar em você apaixonada.

— Por quê? — levantei uma sobrancelha.

— Porque... Ah, sei lá. É esquisito ver uma das melhores lutadoras que eu já conheci, que destrói cinco sacos de pancada em dois segundos, se apaixonando por um surfista galinha.

Eu ri.

— Vou ignorar o seu ciúmes apenas porque preciso treinar.

Josh corou.

— Não estou com ciúmes.

— Ah, não. É claro que não está. Pf. — ri ainda mais alto quando percebi que havia o atingido.

— Ok, esquece isso, Savanna. — ele cruzou os braços, intensificando ainda mais a sua carranca. — Preciso te mostrar algo.

— Sempre precisa, Josh, sempre precisa...

— Outra dimensão. Uma criada por Scire com o objetivo de deixar os seres mágicos mais inteligentes e sábios; não que tenha funcionado, é claro. Lá está tudo o que já existiu.

— Tudo?

— Tu-do. — ele confirmou com a cabeça. — Desde os objetos já inventados até a última pessoa nascida. Tudo, tudinho, tudão.

— Nunca mais fale isso.

— Isso o quê? — Josh me guiou pelos ombros até um bosque perto da área dos chalés, onde ele me disse, uma vez, que tinha uma concentração de energia muito forte para a criação de portais. Era como Stonewood – uma energia forte o suficiente para dar acesso às outras dimensões.

— Tudo, tudinho, tudão. É ridículo.

Ele revirou os olhos.

— Certo, não falo mais. Agora —ele segurou minhas mãos e fechou os olhos. — Mentalize o nome Ligentia.

Comecei o processo de criação de um portal. Como nunca havia visitado a dimensão, podia apenas mentalizar e torcer para que desse certo. Josh provavelmente já havia ido lá, então tinha a imagem dela gravada na mente. Era assim que criávamos os portais: eu mentalizava o nome e ele uma imagem do lugar.

Senti um frio na barriga, como sempre acontece quando estou sento transportada de uma dimensão à outra, e uma leve dor de cabeça. Nada para me preocupar.

Josh soltou minhas mãos, sinalizando que já havíamos chegado no lugar desejado e que poderia abrir os olhos. Respirei fundo, tentando me acostumar com aquela luz intensa sobre minhas pálpebras, e os abri.

E minha primeira reação ao ver Ligentia foi: U-AU.

Notas finais
Acho que todos (ou 98%, sei lá) os capítulos a partir desse terão mais de 1000 palavras. Alguns até com 2000. Não sei quando (ou se) postarei o capítulo 9. Além de esperar pelos reviews, quero deixar ele só para a primeira semana de janeiro. Sabem por quê? Porque sim. Então aqui vão alguns spoilers: Um novo ship a vista... Ou seriam dois? Rebeca e Savanna brigam. O motivo? Garotos. Sim, no plural. Rebeca some durante uma semana. Algo em Savanna a diz que isso tem a ver com o Cristopher. Se ela dará ouvidos a esse algo, eu não posso dizer. Sonhos. Eu não poderia deixá-los de fora, né? Mas tem um em especial que vai revelar algo sobre as guerras e sobre um personagem pelo qual vocês podem - ou não - se apegar. Ok, leram até aqui? Puxa vida. Não acredito. Espero que eu tenha deixado todos ansiosos, by-bye.