Notas iniciais
Música: https://www.youtube.com/watch?v=m9Kvtn5YfiE Imagem: https://38.media.tumblr.com/d2c2e3ea00e2771c4dd1a9518d10b16d/tumblr_inline_n4gbkdgWLl1sex4hs.jpg

Amy

Vou passando a mão pelo criado mudo até encontrar o celular, vejo pelo visor que era Henry me ligando, atendo:

–Alô?

–Amy, você precisa vir ao hospital imediatamente.

Sento na cama rapidamente acordando Rafael.

–O que aconteceu?

–Explico melhor quando você chegar aqui.

–Ta, já estou indo.

Levanto da cama e vou em direção ao guarda-roupa, pego a primeira roupa quente que vejo e vou até o banheiro.

–Amy, o que aconteceu?

–Henrique me ligou e disse que preciso ir imediatamente ao hospital- disse em quanto vestia a calça as pressas.

–Eu te levo lá.

–Então vamos logo- abro a porta do banheiro.

Já vestida sento na cama e coloco um sapato, Rafael se arruma e vamos em direção a sua moto. Ele liga a moto e acelera deixando as marcas das rodas no asfalto. Desço da moto e tiro o capacete entregando pro Rafael, entro no hospital e fico procurando Henrique, ele me vê e vem na minha direção.

–Graças a Deus- ele me abraça.

–E então? O que aconteceu?- pergunto impaciente.

–Ela acordou!- diz empolgado

–Por favor, não brinque comigo- digo o olhando desconfiada.

–Não estou brincando, não brincaria com uma coisa dessas- ele diz segurando meus ombros.- Eu estava sentado no sofá quando ouvi ela me chamar.

Fico em choque, começo a correr até o seu quarto ignorando os gritos de Rafael e Henrique. Entro no quarto ofegante assustando uma enfermeira.

–Senhorita, você não pode estar aqui- fala ficando na minha frente.

Tiro ela da minha frente a ignorando totalmente e vou até Juliet, coloco minha mão em sua cabeça e ela abre os olhos devagar:

–Amy?

–Amor, como está?

–Meu corpo dói.

–Eu senti sua falta.

–Desculpa, eu dei muito trabalho pra vocês.

–Você não deve se desculpar, você não deu trabalho, essas coisas acontecem.

–Desgraças acontecem- ela fala baixo.

–Você nunca vai dar trabalho, você é a pessoa que eu amo, isso não vai mudar- lhe dou um beijo na testa e faço carinho no local com o polegar.

–Amy....preciso te contar uma coisa- ela desvia o olhar de mim olhando pra enfermeira que ainda estava no quarto olhando pra mim com os braços cruzados.

Ela entende o recado e sai do quarto contra a vontade.

–Pode falar- digo.

Ela faz uma longa pausa e dá um suspiro.

–Quero que seja feliz sem minha presença, quero que siga em frente, quero que tenha o seu tempo de luto, quero que derrame as lágrimas e depois as limpe, quero que levante a cabeça a pesar de tudo que aconteça, quero que viva a sua vida mesmo sem eu estar do seu lado- ela me olha nos olhos.- Quero que você seja muito feliz.

–Por que está dizendo isso?

–Amy...eu te amo, amo muito, mas sei que meu tempo é curto aqui, não vou poder ficar o tempo que eu queria do seu lado.

–Por favor, de novo não- digo sentindo as lágrimas rolarem pelo meu rosto molhando os lençóis da cama.

–Levante a cabeça- faço oque ela diz.- Você é uma mulher linda, uma mulher maravilhosa, a pessoa que se casar com você terá muita sorte- ela dá o mais lindo sorriso.

–Eu te amo, pequena.

Lhe dou um beijo sentindo ser o último.

–Vem aqui- chego mais perto.- Cuidado com seu demônio, ele quer te fazer mal- ela fala olhando pro canto da parede.

–O que você quer dizer com isso?

Ela pressionou o indicador contra os lábios pedindo silêncio.

–Você pode chamar meu tio?

–Claro.

Estou quase saindo da sala quando ela me chama, me viro olhando pra ela.

–Eu te amo- dá um pequeno sorriso e fecha os olhos.

Saio do quarto e chamo Henrique, Rafael vai junto querendo saber como ela está. Ligo para o Sean pedindo pra que ele venha ao hospital. Me sento em uma das cadeiras da recepção e fico olhando o movimento, pessoas saindo e entrando, médicos pra todos os lados, isso era um hospital, uma vida de cores brancas. Quando Sean chega, ele me cumprimenta e vai para o quarto, fico mais um tempo ali esperando eles saírem, até que vejo Rafael saindo do quarto, ele vem na minha direção.

–E aí? Como foi?- pergunto.

–Nada bem. Ela disse que tem pouco tempo aqui conosco.

–Ela me disse a mesma coisa.Tenho medo que seja realmente verdade, ela ficou dizendo pra mim ser feliz com outra pessoa, eu não quero isso, você sabe Rafael- digo olhando esperançosa pra ele.

–Amy....- ele pega na minha mão.- Você é uma pessoa especial, uma ótima mulher, ela quer que apesar de tudo que aconteça você seja feliz, que continue sorrindo- ele dá um pequeno sorriso.

–Eu sei, mas isso não pode ser possível- levanto e passo as mãos pelos cabelos.

–Vai ficar tudo bem- ele fala tentando me acalmar.

–Vai ficar tudo bem? Vai ficar tudo bem?! Vocês só sabem dizer isso! Não, não vai ficar tudo bem! Sabe o que é perder uma pessoa que você ama? Não, não sabe! Espera, você sabe sim, onde a Alice está? E o João? Isso, os dois estão a sete palmos do chão! Eles estão mortos!- digo cuspindo aquelas palavras.

–Amy....- ele diz baixo.

–O quê? Não aguenta a verdade?! Dói, não é? Dói muito- falo.

–Chega! Eu chorei muito por eles! Foi minha mulher e meu filho que morreram! Eu me importo com a Juliet! E me importo com você! Não quero que morra!- ele diz segurando meus ombros com força, seus olhos estavam vermelhos devido as lágrimas que ele tinha deixado cair.

–Eu....- comecei a olhar em volta e percebi que as pessoas me olhavam com um olhar de espanto.

Sai correndo do hospital, corria muito, quando vi que estava bem longe do hospital comecei a andar, foi quando cheguei em uma praça, sentei em um dos bancos e observei as crianças brincarem. Uns cinco minutos depois um velho mendigo chegou perto.

–Posso me sentar aqui senhorita?- ele perguntou.

–Fique a vontade.

Ele se senta do meu lado.

–O que uma moça bonita como você faz aqui?- ele pergunta tentando puxar papo.

–Estou saindo do hospital, minha namorada está internada e eu tive uma briga feia com meu melhor amigo- digo.- Eu sai correndo e acabei vindo parar aqui nessa praça.

–Entendo, por que brigou com seu amigo?

–Não sei, acho que precisava extrapolar a raiva e descontei tudo nele- olho pro céu.- É meio difícil, ainda sou jovem, mas já tenho tantas coisas para cuidar. E você? O que faz aqui?

–Eu venho bastante nessa praça, gosto de ver as crianças brincando e sorrindo. Você deveria voltar e pedir desculpas.

–Acha mesmo?

–Sou velho, já vivi muita coisa, não podemos perder tempo afastando as pessoas que amamos, eu moro aqui a quinze anos, sou morador de rua, não porque quero, e sim, porque preciso. Eu vivia apostando, até perder meu dinheiro, minha mulher saiu de casa e levou meus três filhos, perdi meu emprego e comecei a ficar sem dinheiro para pagar as contas, primeiro minha luz foi cortada e em seguida a água, não conseguia mais comprar comida, fui despejado da minha casa e agora estou aqui.

–Nunca mais viu seus filhos e sua mulher?

–Não, ela nunca me falou onde estavam, devem estar crescidos e casados agora.

–Como conseguiu sobreviver nas ruas?

–As pessoas me dão dinheiro ou comida as vezes, consigo tomar um café e comer um pão com manteiga de vez em quando, não posso mais tomar banho, durmo em qualquer canto dessa praça e estou sempre bem atento, tenho medo de levarem minhas poucas coisas ou me machucarem.

–Tem muita gente má nesse mundo, elas sempre nos machucam e nunca nos pedem perdão.

–Moça, você acabou de fazer isso, machucou teu amigo e correu do hospital, a vida é muito curta pra você deixar as coisas pra lá, volte ao hospital, se desculpe, eu sofri muito nessa vida, não queira sofrer também.

–Você tem toda razão- me levanto rapidamente.- Muito obrigado senhor....

–Louis.

–Senhor Louis- lhe dei um sorriso e foi até o hospital.

Fui o mais rápido que pude, cheguei a recepção e Rafael estava com a cabeça baixa, Henry e Sean estavam do seu lado lhe confortando. Fui andando até o Rafael, percebi que ele chorava, Sean me vê chegando e avisa ao Henrique, eles saem me deixando a sós com o Rafa, ele levanta a cabeça e olha pra mim.

–Rafa....- o chamo.

–O que você quer?- ele diz abaixando a cabeça.

–Me desculpa, eu estava com raiva, acabei descontando em você, uma pessoa que amo- falo me abaixando na sua frente e apoiando meus braços em sua perna.

–Não precisa se desculpar, eu estou bem.

–Não, eu sei que não, não queria te machucar e foi isso que acabei fazendo- coloco minhas mãos em seu rosto fazendo com que ele me olhe.- Me perdoa? Afinal, ninguém é perfeito.

–Não vou ficar com raiva pra sempre, tudo vai passar, não posso ficar com raiva de você, somos amigos.

–Rafa, eu quero o seu perdão, eu fui burra.

–Claro que eu perdôo.

Damos um abraço meio desajeitado devido a posição que os dois se encontram.

–Obrigado por sempre estar comigo.

–Estarei sempre aqui, princesa.

Sento do lado dele e Henrique se aproxima com sacolas na mão.

–Aqui- entrega uma sacola pra cada.

Cada sacola continha um sanduíche e duas barrinhas de cereal.

–Cadê meu irmão?- pergunto.

–Ele foi buscar as bebidas.

–O médico disse alguma coisa sobre a Juli?

–Ele disse que ela apresentou muitas melhoras e bem rápido.

–Isso é bom, só que estou preocupada com oque ela disse, " Amy...eu te amo, amo muito, mas sei que meu tempo é curto aqui, não vou poder ficar o tempo que eu queria do seu lado", será que é verdade?

Quando Henrique ia falar alguma coisa Sean chega com as bebidas, todos comemos em silêncio, o movimento começou a ficar diferente, os médicos começam a correr pelos lados, vejo o Doutor Ivan indo junto com os outros médicos e enfermeiros, corro até ele.

–Doutor Ivan, oque aconteceu?

–Juliet teve algum tipo de convulsão e não sabemos o porque, os batimentos cardíacos dela estão caindo- ele diz apressado.- Me desculpe, eu tenho que ir.

Ele volta a correr até o quarto.

–Ivan!

Ele vira.

–Por favor, salve minha mulher.

–Vou fazer o possível e o impossível.

–Obrigado.

Me sento esperando alguma notícia, Henrique fica em pé, Rafael e Sean sentam do meu lado.

Ficamos ali por um tempo, minhas lágrimas cismavam em cair, sabia que poderia acontecer o pior, e já não aguentava mais esperar. O céu estava meio escuro, não sabia ao certo que horas eram, vi o médico vindo em nossa direção.

–E então?- Rafael pergunta.

Ele abaixa a cabeça e faz um não.

–Me desculpem, eu fiz o possível, ela não resistiu, não sabemos ao certo oque causou a convulsão.

–Obrigada por tentar- Henrique fala com os olhos marejados.

–Então é isso? Quer dizer que eu a perdi?- pergunto mais pra mim mesma.

Me sento e coloco as mãos na cabeça puxando um pouco o cabelo.

–Não, não, não- repito a mesma palavra várias vezes.- Não!

–Amy, sei que é difícil, estamos aqui com você, e vamos enfrentar tudo juntos- Sean fala também chorando.

–Agradeço a todos você- digo.- Mas eu só quero ir embora.

–Eu te levo- Henrique se oferece para me levar.

–Não, eu quero ir sozinha, obrigada- viro as costas e não falo com mais ninguém.

Ligo pedindo um táxi e fico esperando em frente ao hospital, quando ele chega eu passo o endereço e fico em silêncio. Apenas esperando a viajem acabar.

Eu queria poder estar do seu lado, te beijar até o amanhecer, dormir do seu lado e acordar com um "bom dia" seu, conversar até não poder mais. Só que eu não posso fazer isso, a vida me impediu, decidiu dar a morte mais um de seus presentes de amor e levou o meu. Você morreu, e eu morri junto.

Notas finais
Bom, é isso. Gostaria de saber se gostam de capítulos com mais ou poucos diálogos, qual preferem? Beijos! -Tche