A Escolha É Sua! Essa Foi A Minha! Romance Lesbico
8 Capítulo 8
Notas iniciais
Amy
Vou passando a mão pelo criado mudo até encontrar o celular, vejo pelo visor que era Henry me ligando, atendo:
–Alô?
–Amy, você precisa vir ao hospital imediatamente.
Sento na cama rapidamente acordando Rafael.
–O que aconteceu?
–Explico melhor quando você chegar aqui.
–Ta, já estou indo.
Levanto da cama e vou em direção ao guarda-roupa, pego a primeira roupa quente que vejo e vou até o banheiro.
–Amy, o que aconteceu?
–Henrique me ligou e disse que preciso ir imediatamente ao hospital- disse em quanto vestia a calça as pressas.
–Eu te levo lá.
–Então vamos logo- abro a porta do banheiro.
Já vestida sento na cama e coloco um sapato, Rafael se arruma e vamos em direção a sua moto. Ele liga a moto e acelera deixando as marcas das rodas no asfalto. Desço da moto e tiro o capacete entregando pro Rafael, entro no hospital e fico procurando Henrique, ele me vê e vem na minha direção.
–Graças a Deus- ele me abraça.
–E então? O que aconteceu?- pergunto impaciente.
–Ela acordou!- diz empolgado
–Por favor, não brinque comigo- digo o olhando desconfiada.
–Não estou brincando, não brincaria com uma coisa dessas- ele diz segurando meus ombros.- Eu estava sentado no sofá quando ouvi ela me chamar.
Fico em choque, começo a correr até o seu quarto ignorando os gritos de Rafael e Henrique. Entro no quarto ofegante assustando uma enfermeira.
–Senhorita, você não pode estar aqui- fala ficando na minha frente.
Tiro ela da minha frente a ignorando totalmente e vou até Juliet, coloco minha mão em sua cabeça e ela abre os olhos devagar:
–Amy?
–Amor, como está?
–Meu corpo dói.
–Eu senti sua falta.
–Desculpa, eu dei muito trabalho pra vocês.
–Você não deve se desculpar, você não deu trabalho, essas coisas acontecem.
–Desgraças acontecem- ela fala baixo.
–Você nunca vai dar trabalho, você é a pessoa que eu amo, isso não vai mudar- lhe dou um beijo na testa e faço carinho no local com o polegar.
–Amy....preciso te contar uma coisa- ela desvia o olhar de mim olhando pra enfermeira que ainda estava no quarto olhando pra mim com os braços cruzados.
Ela entende o recado e sai do quarto contra a vontade.
–Pode falar- digo.
Ela faz uma longa pausa e dá um suspiro.
–Quero que seja feliz sem minha presença, quero que siga em frente, quero que tenha o seu tempo de luto, quero que derrame as lágrimas e depois as limpe, quero que levante a cabeça a pesar de tudo que aconteça, quero que viva a sua vida mesmo sem eu estar do seu lado- ela me olha nos olhos.- Quero que você seja muito feliz.
–Por que está dizendo isso?
–Amy...eu te amo, amo muito, mas sei que meu tempo é curto aqui, não vou poder ficar o tempo que eu queria do seu lado.
–Por favor, de novo não- digo sentindo as lágrimas rolarem pelo meu rosto molhando os lençóis da cama.
–Levante a cabeça- faço oque ela diz.- Você é uma mulher linda, uma mulher maravilhosa, a pessoa que se casar com você terá muita sorte- ela dá o mais lindo sorriso.
–Eu te amo, pequena.
Lhe dou um beijo sentindo ser o último.
–Vem aqui- chego mais perto.- Cuidado com seu demônio, ele quer te fazer mal- ela fala olhando pro canto da parede.
–O que você quer dizer com isso?
Ela pressionou o indicador contra os lábios pedindo silêncio.
–Você pode chamar meu tio?
–Claro.
Estou quase saindo da sala quando ela me chama, me viro olhando pra ela.
–Eu te amo- dá um pequeno sorriso e fecha os olhos.
Saio do quarto e chamo Henrique, Rafael vai junto querendo saber como ela está. Ligo para o Sean pedindo pra que ele venha ao hospital. Me sento em uma das cadeiras da recepção e fico olhando o movimento, pessoas saindo e entrando, médicos pra todos os lados, isso era um hospital, uma vida de cores brancas. Quando Sean chega, ele me cumprimenta e vai para o quarto, fico mais um tempo ali esperando eles saírem, até que vejo Rafael saindo do quarto, ele vem na minha direção.
–E aí? Como foi?- pergunto.
–Nada bem. Ela disse que tem pouco tempo aqui conosco.
–Ela me disse a mesma coisa.Tenho medo que seja realmente verdade, ela ficou dizendo pra mim ser feliz com outra pessoa, eu não quero isso, você sabe Rafael- digo olhando esperançosa pra ele.
–Amy....- ele pega na minha mão.- Você é uma pessoa especial, uma ótima mulher, ela quer que apesar de tudo que aconteça você seja feliz, que continue sorrindo- ele dá um pequeno sorriso.
–Eu sei, mas isso não pode ser possível- levanto e passo as mãos pelos cabelos.
–Vai ficar tudo bem- ele fala tentando me acalmar.
–Vai ficar tudo bem? Vai ficar tudo bem?! Vocês só sabem dizer isso! Não, não vai ficar tudo bem! Sabe o que é perder uma pessoa que você ama? Não, não sabe! Espera, você sabe sim, onde a Alice está? E o João? Isso, os dois estão a sete palmos do chão! Eles estão mortos!- digo cuspindo aquelas palavras.
–Amy....- ele diz baixo.
–O quê? Não aguenta a verdade?! Dói, não é? Dói muito- falo.
–Chega! Eu chorei muito por eles! Foi minha mulher e meu filho que morreram! Eu me importo com a Juliet! E me importo com você! Não quero que morra!- ele diz segurando meus ombros com força, seus olhos estavam vermelhos devido as lágrimas que ele tinha deixado cair.
–Eu....- comecei a olhar em volta e percebi que as pessoas me olhavam com um olhar de espanto.
Sai correndo do hospital, corria muito, quando vi que estava bem longe do hospital comecei a andar, foi quando cheguei em uma praça, sentei em um dos bancos e observei as crianças brincarem. Uns cinco minutos depois um velho mendigo chegou perto.
–Posso me sentar aqui senhorita?- ele perguntou.
–Fique a vontade.
Ele se senta do meu lado.
–O que uma moça bonita como você faz aqui?- ele pergunta tentando puxar papo.
–Estou saindo do hospital, minha namorada está internada e eu tive uma briga feia com meu melhor amigo- digo.- Eu sai correndo e acabei vindo parar aqui nessa praça.
–Entendo, por que brigou com seu amigo?
–Não sei, acho que precisava extrapolar a raiva e descontei tudo nele- olho pro céu.- É meio difícil, ainda sou jovem, mas já tenho tantas coisas para cuidar. E você? O que faz aqui?
–Eu venho bastante nessa praça, gosto de ver as crianças brincando e sorrindo. Você deveria voltar e pedir desculpas.
–Acha mesmo?
–Sou velho, já vivi muita coisa, não podemos perder tempo afastando as pessoas que amamos, eu moro aqui a quinze anos, sou morador de rua, não porque quero, e sim, porque preciso. Eu vivia apostando, até perder meu dinheiro, minha mulher saiu de casa e levou meus três filhos, perdi meu emprego e comecei a ficar sem dinheiro para pagar as contas, primeiro minha luz foi cortada e em seguida a água, não conseguia mais comprar comida, fui despejado da minha casa e agora estou aqui.
–Nunca mais viu seus filhos e sua mulher?
–Não, ela nunca me falou onde estavam, devem estar crescidos e casados agora.
–Como conseguiu sobreviver nas ruas?
–As pessoas me dão dinheiro ou comida as vezes, consigo tomar um café e comer um pão com manteiga de vez em quando, não posso mais tomar banho, durmo em qualquer canto dessa praça e estou sempre bem atento, tenho medo de levarem minhas poucas coisas ou me machucarem.
–Tem muita gente má nesse mundo, elas sempre nos machucam e nunca nos pedem perdão.
–Moça, você acabou de fazer isso, machucou teu amigo e correu do hospital, a vida é muito curta pra você deixar as coisas pra lá, volte ao hospital, se desculpe, eu sofri muito nessa vida, não queira sofrer também.
–Você tem toda razão- me levanto rapidamente.- Muito obrigado senhor....
–Louis.
–Senhor Louis- lhe dei um sorriso e foi até o hospital.
Fui o mais rápido que pude, cheguei a recepção e Rafael estava com a cabeça baixa, Henry e Sean estavam do seu lado lhe confortando. Fui andando até o Rafael, percebi que ele chorava, Sean me vê chegando e avisa ao Henrique, eles saem me deixando a sós com o Rafa, ele levanta a cabeça e olha pra mim.
–Rafa....- o chamo.
–O que você quer?- ele diz abaixando a cabeça.
–Me desculpa, eu estava com raiva, acabei descontando em você, uma pessoa que amo- falo me abaixando na sua frente e apoiando meus braços em sua perna.
–Não precisa se desculpar, eu estou bem.
–Não, eu sei que não, não queria te machucar e foi isso que acabei fazendo- coloco minhas mãos em seu rosto fazendo com que ele me olhe.- Me perdoa? Afinal, ninguém é perfeito.
–Não vou ficar com raiva pra sempre, tudo vai passar, não posso ficar com raiva de você, somos amigos.
–Rafa, eu quero o seu perdão, eu fui burra.
–Claro que eu perdôo.
Damos um abraço meio desajeitado devido a posição que os dois se encontram.
–Obrigado por sempre estar comigo.
–Estarei sempre aqui, princesa.
Sento do lado dele e Henrique se aproxima com sacolas na mão.
–Aqui- entrega uma sacola pra cada.
Cada sacola continha um sanduíche e duas barrinhas de cereal.
–Cadê meu irmão?- pergunto.
–Ele foi buscar as bebidas.
–O médico disse alguma coisa sobre a Juli?
–Ele disse que ela apresentou muitas melhoras e bem rápido.
–Isso é bom, só que estou preocupada com oque ela disse, " Amy...eu te amo, amo muito, mas sei que meu tempo é curto aqui, não vou poder ficar o tempo que eu queria do seu lado", será que é verdade?
Quando Henrique ia falar alguma coisa Sean chega com as bebidas, todos comemos em silêncio, o movimento começou a ficar diferente, os médicos começam a correr pelos lados, vejo o Doutor Ivan indo junto com os outros médicos e enfermeiros, corro até ele.
–Doutor Ivan, oque aconteceu?
–Juliet teve algum tipo de convulsão e não sabemos o porque, os batimentos cardíacos dela estão caindo- ele diz apressado.- Me desculpe, eu tenho que ir.
Ele volta a correr até o quarto.
–Ivan!
Ele vira.
–Por favor, salve minha mulher.
–Vou fazer o possível e o impossível.
–Obrigado.
Me sento esperando alguma notícia, Henrique fica em pé, Rafael e Sean sentam do meu lado.
Ficamos ali por um tempo, minhas lágrimas cismavam em cair, sabia que poderia acontecer o pior, e já não aguentava mais esperar. O céu estava meio escuro, não sabia ao certo que horas eram, vi o médico vindo em nossa direção.
–E então?- Rafael pergunta.
Ele abaixa a cabeça e faz um não.
–Me desculpem, eu fiz o possível, ela não resistiu, não sabemos ao certo oque causou a convulsão.
–Obrigada por tentar- Henrique fala com os olhos marejados.
–Então é isso? Quer dizer que eu a perdi?- pergunto mais pra mim mesma.
Me sento e coloco as mãos na cabeça puxando um pouco o cabelo.
–Não, não, não- repito a mesma palavra várias vezes.- Não!
–Amy, sei que é difícil, estamos aqui com você, e vamos enfrentar tudo juntos- Sean fala também chorando.
–Agradeço a todos você- digo.- Mas eu só quero ir embora.
–Eu te levo- Henrique se oferece para me levar.
–Não, eu quero ir sozinha, obrigada- viro as costas e não falo com mais ninguém.
Ligo pedindo um táxi e fico esperando em frente ao hospital, quando ele chega eu passo o endereço e fico em silêncio. Apenas esperando a viajem acabar.
Eu queria poder estar do seu lado, te beijar até o amanhecer, dormir do seu lado e acordar com um "bom dia" seu, conversar até não poder mais. Só que eu não posso fazer isso, a vida me impediu, decidiu dar a morte mais um de seus presentes de amor e levou o meu. Você morreu, e eu morri junto.
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