A Escolha Perfeita

9 A Ideia Perfeita


A biblioteca estava silenciosa como sempre. O cheiro de papel antigo e madeira encerada envolvia o ambiente de forma quase acolhedora. Beatrice entrou com passos cautelosos, observando as estantes altas antes de avistá-lo.

Henry estava inclinado sobre uma mesa, organizando alguns volumes.

— Veio procurar outro refúgio? — perguntou, ao reconhecê-la, com um leve sorriso.

— Na verdade, sim — respondeu ela. — E também… uma ideia.

Ele fechou o livro que segurava.

— Ideias costumam morar aqui — disse. — O que a trouxe hoje?

— Minha mãe dará o próximo baile da temporada — explicou. — E eu sugeri que tivesse um tema. Agora preciso provar que não foi apenas um capricho.

— Um tema? — Henry pareceu genuinamente interessado. — Isso é incomum. A sociedade prefere o previsível.

— Eu não — respondeu ela. — Quero algo que diga alguma coisa.

Ele a observou por um instante antes de se levantar.

— Venha.

Conduziu-a por entre as estantes, os dedos deslizando com familiaridade pelos livros.

— Quando penso em bailes — disse ele —, penso em espetáculo. Mas quando penso em você… penso em contraste.

Ela o encarou.

— Contraste?

Henry puxou um livro grande, ilustrado.

— Luz e sombra. O que se mostra e o que se guarda.

Abriu o volume, revelando gravuras antigas: salões iluminados por velas, figuras parcialmente ocultas por sombras, espelhos refletindo apenas fragmentos.

Beatrice se inclinou para ver melhor.

— É isso — murmurou. — É exatamente isso.

— “Entre Sombras e Luz” — sugeriu ele, quase como se testasse as palavras no ar.

Ela sorriu, surpresa.

— Você acabou de dar nome ao baile.

Ele riu baixo.

— Então sou cúmplice.

Passaram a folhear outros livros. Ilustrações, referências, ideias surgiam e se entrelaçavam.

— Tecidos claros de um lado do salão — disse Beatrice — e tons mais escuros do outro.

— Espelhos estrategicamente posicionados — completou Henry. — Para confundir e revelar.

— Música suave no início — ela continuou —, algo mais intenso conforme a noite avança.

Ele a observava enquanto falava, percebendo o brilho nos olhos dela.

— A senhorita gosta de pensar — comentou. — Isso a torna… diferente.

— E você gosta de ouvir — respondeu ela. — O que também é raro.

Houve um silêncio confortável.

— A propósito — Beatrice disse, olhando ao redor —, você trabalha aqui como se fosse parte do lugar.

Henry hesitou por um instante, depois respondeu:

— Porque é.

Ela franziu a testa.

— Como assim?

— A biblioteca é minha — disse simplesmente. — Herança de família. Eu apenas… prefiro não anunciar.

Ela o encarou, surpresa, mas sem julgamento.

— Isso diz muito sobre você.

— O quê exatamente?

— Que não precisa que o mundo saiba tudo.

O olhar entre eles se sustentou por tempo demais.

— Henry… — ela começou, respirando fundo. — Gostaria que viesse ao baile.

Ele pareceu surpreso, mas não imediatamente feliz.

— Eu não pertenço muito a esses salões.

— Talvez seja hora de pertencer — respondeu. — Ou pelo menos… de tentar.

Ele sorriu de leve, mas não confirmou.

— Veremos.

Ela assentiu, compreendendo mais do que gostaria.

Ao sair, Beatrice sentiu que o baile já existia — não no salão, mas ali, entre livros, silêncios e algo que crescia devagar demais para ser ignorado.