A Era dos Tronos
3 A Rainha Louca
Notas iniciais
Daenerys está deitada. As cortinas do aposento haviam sido trocadas pouco antes dela ter entrado naquela tarde. Por cima havia um grande emblema com um dragão de três cabeças, e agora ela de fato possuía um. Agora tinha quatro dragões, mas Iarcleryn não cresceria a tempo de ajudar na guerra contra os Lannisters, embora esse não fosse seu foco atual. Uma batida na porta e Daenerys levanta de sobressalto.
— Quem é?
— Serva. Trago vosso desjejum, majestade.
— Entre — Uma jovem de expressões vivas e cabelos castanho escuro entra com uma bandeja e a deixa em cima de uma estante — Um pouco tarde para o desjejum, não?
— Sim, majestade, mas disseram não tê-la visto a manhã inteira. Creio que seja sua primeira refeição.
— Não está errada — Daenerys olha para seu pequeno dragão — Você não parece uma simples servente.
— Não exatamente, majestade.
— Veio de onde?
— Fora de Westeros, não tem muita importância.
— Meus ancestrais vieram de fora de Westeros, ambas somos estrangeiras.
— Perdoe minha indelicadeza.
— Não há motivo para tanta formalidade, mas poderia chamar Missandei pra mim?
— Missandei?
— Sim.
— Majestade, não quero ofendê-la, mas a senhora mandou Missandei embora.
— Como mandei ela embora? Eu mesma a trouxe para mim. Eu jamais mandaria Missandei embora.
— Acho que vossa majestade precisa descansar. Tantas mortes seguidas não fazem bem.
— Eu vejo morte há muito tempo, não entendo por que desta vez me afetaria.
— Pela traição dos Greyjoy, majestade.
— Como é?
— Os Greyjoy nos traíram e a senhora ordenou que os irmãos fossem queimados junto ao tio na praça principal onde todos pudessem assistir.
— Obrigada por tudo. Se eu precisar de você irei procura-la.
— Será uma honra.
Jon Snow encara Sansa. Ela está sentada do outro lado da mesa, fingindo escutar os intermináveis planos estratégicos que os aliados nortenhos poderiam tomar. Cada lorde sugeria um ataque diferente, e aquilo já estava estressando Jon, então Little Finger se levanta e bate na mesa com uma vara.
— Os senhores discutiram, brigaram e quase se mataram para a satisfação dos nossos inimigos, mas não vi nenhun de vocês falar do principal. A garota Targaryen chegou em Westeros. Ela atacou e tomou as Ilhas de Ferro e em breve marchará rumo a King's Landing — Um lorde barbudo de cabelos grisalhos bate forte na mesa cutucando um rio pequeno distante de King's Landing.
— Então essa é a hora de nos prepararmos adequadamente. Nos posicionaremos nesse rio baixo ao oeste e deixemos a garota dragão destruir os Lannisters. Quando a batalha encerrar ambos os exércitos estarão cansados, e então será o momento de tomarmos o sul.
— Não é tão simples assim, lorde Kereen — Se interpõe Jon, mais pensativo que de costume — Estamos em número menor embora tenhamos os cavaleiros do Vale ao nosso lado. Não temos ideia de quantos Lannisters estão preparados para vir em socorro de King's Landing assim que atacarmos. Não podemos nos esquecer de que eles também pensam.
— Por isso, majestade — Começa Little Figer colocando o dedo na região das Ilhas de Ferro — Minha sugestão é que nossas tropas ataquem a garota Targaryen nos campos fechados. Soube que ela dispersou os dragões por enquanto.
— O que aconteceu com os Greyjoy? — Questiona Sansa preocupada.
— Foram mortos — Sansa mantém o olhar fixo em Little Finger com uma expressão de desafio — Theon,
— Theon — Repete Jon sentindo uma forte perturbação — Por que ela os teria matado?
— Medo da traição, majestade. Ela é filha do Rei louco, poderíamos esperar coisa melhor? — Jon pensa por alguns instantes.
— Todos fora. Agora — Os lordes e Little Finger deixam a sala, então restam apenas Sansa e ele, olhando fixamente para o ponto onde se lia Ilhas de Ferro. Jon se levanta e passa as mãos no rosto — Eu não queria estar assim. Depois de tudo o que ele fez a Winterfell, a Robb. Traiu todos nós.
— E pagou por isso. Ele pagou caro por tudo o que fez e se redimiu. O que passou passou, Jon.
— Eu não deveria pensar em vingança, não quando há um exército de Vagantes a caminho e um inimigo de cada lado. O mais apropriado seria unirmo-nos, mas como fazer isso agora? Simplesmente ignoramos isso?
— Não é tão simples assim, sabemos disso. Talvez Little Finger esteja certo, mas talvez seja algo para pensarmos melhor.
— Não temos tempo para pensar. Quanto mais pensamos mais nossos inimigos estarão perto de nós — Jon olha para o mapa uma última vez — Acho que sei o que devemos fazer.
Tyrion está deitado no feno molhado e salgado, sentindo o fedor das próprias fezes espalhando-se pelas paredes e pelo tecido fino de suas vestes vermelhas. Ele está cansado da vida, cansado da derrota e cansado de constantemente ser tachado de coisas que ele não era. Por fim, tinha ódio de tudo e de todos. Nunca devia ter confiado em Varys, mas também devia ter mantido um olhar menos ingênuo sob Daenerys. Missandei estava morta, Verme Cinzento lamentava em silêncio e a Mulher Vermelha estava distante, indo em auxílio dos Lannisters remanescentes, seus irmãos mais velhos, Jaime e Cercei. Há quanto tempo não via os dois? Cercei que tanto o desejava morto e Jaime que esbanjava tanta pena e tolice quanto um jovem reigicida deveria esbanjar. Se Tyrion tivesse a altura e o vigor de seus irmãos, ou a habilidade que seu irmão perdera, a acidez e veneno da irmã, talvez ele conseguisse se vingar da garota Targaryen e do Aranha, mas esse não era o caso. Mata-los não iria tornar Tyrion melhor do que ninguém, o que ele precisava era, acima de tudo, escapar daquelas masmorras antes de agir. Ele se levanta, tirando alguns fiapos de feno das dobras antes de olhar pelo buraco miserável que chamavam de janela ou fresta de ar. Ele não tinha mais amigos ou apoio. A rainha parecia mais louca a cada dia, igual a seu pai, o que significava que ele precisava agir. No entanto, o que ele de fato precisava era de um milagre.
King's Landing está agitado. As pessoas compram por todos os lados. Muitos construtores ajudam a reerguer o novo septo, e longe dali, a rainha observa a cidade com ar de superioridade.
— Mandou me chamar, majestade? — Questiona Jaime Lannister empurrando a porta de leve.
— Vai me chamar de majestade, agora? — Retruca a rainha inquieta.
— Estamos distantes de qualquer maneira, não é mesmo? — Cercei não responde.
— A garota Targaryen invadiu as Ilhas de Ferro pelo que soube.
— Então ela finalmente chegou a Westeros — Afirma Jaime tentando não se mostrar abalado.
— Isso. Temos de tomar providências, pois cedo ou tarde virão atrás de nós.
— Perdemos os aliados que tínhamos, não há muito o que fazer.
— Na verdade há. Mande um corvo para Castlerey Rock. Quero um terço dos homens em King's Landing. Os demais devem aguardar um sinal de ataque.
— Sim, majestade.
— Mais uma coisa, como anda a reconstrução do septo?
— Rápida e eficiente.
— Excelente. Espero qur os túneis estejam reerguidos o mais breve possível. Quero o meistre de Braavos aqui. Tenho um assunto urgente para tratar com ele.
— Sim, majestade — Jaime engole em seco e se vira para sair da sala, quando se recorda de um dia há mais de vinte anos. Estava muito quente, mas as tochas estavam acesas. Piras e mais piras de fogo se erguiam pelo palácio, e era a única maneira de alguém ver o rei, se aproximando das piras. Jaime se aproxima de Aerys, e o vê em suas longas e finas vestes douradas e verdes. Seus dedos longos com unhas mais longas ainda, verdes e cinzas de tanta sujeira. Ele engole em seco antes de chegar perto do rei, que se vira para ele, desconfiado.
— Mandou me chamar, majestade?
— Mandei Jaime — Aerys observa o fogo da pira com fascinação — Antigamente sua família costumava ser meu aliado mais poderoso, mas parece que esse tempo passou.
— Tenho certeza de que se pedir apoio de meu pai o obterá.
— Seu pai só quer me ver pelas costas. Ele sempre quis o trono. Me acha um tolo. Se eu pudesse, chamaria todos os Lannisters. Gostaria que um terço deles viesse para a capital e o restante esperasse um sinal.
— E que sinal seria esse, majestade? — Aerys encara Jaime, dá um sorriso torto e volta a observar o fogo.
— Em breve você saberá.
O Doutor e Rose passeiam tranquilamente pela pela feira de King's Landing, e embora Rose estivesse um pouco acanhada, o Doutor observava a cidade com muita curiosidade, perguntando tudo que podia, até os dois chegarem em frente ao local onde o novo septo era erguido. Um homem de barba média e roupas longas azuis é parado pelo Doutor, então o observa de cima a baixo com estranheza.
— Pode me dizer o que houve aqui? — O sujeito olha para o Doutor com mais estranheza ainda.
— O septo foi destruído e agora está sendo reerguido.
— Que curioso. Não consigo imaginar nada que conseguisse derrubar uma estrutura dessas, pelo menos não nesse tempo.
— Você é um estrangeiro — Afirma o sujeito cuspindo no chão.
— De certa forma sou. Tanto eu quanto ela.
— Doutor — Chama Rose em tom de censura.
— Falei alguma coisa errada? — Subitamente o Doutor cai no chão desacordado e a última coisa que vê é um grupo de soldados com armaduras vermelhas e símbolos dourados de leões estampados apontarem suas espadas para ele e Rose. Ao despertar, o Doutor percebe estar numa sala vasta, decorada de forma que lembrasse um velório. À sua frente havia um trono, acima de uma pequena escada e do lustroso chão.
— Rose? Rose? — Ele chama, mas tudo o que ouve são passos distantes e calmos. Aos poucos os passos se tornam mais próximos, até ele sentir metal frio tocar seu pescoço, o que o faz engolir em seco — Uma mulher loira com aparência desgastada devido a bebedeira e roupas cinzas e azuladas o observa subindo um degrau.
— Não deve conhecer as novas leis de King's Landing, não é mesmo estrangeiro?
— Pode me chamar de Doutor, moça.
— Majestade.
— Que sorte poder falar com Vossa Majestade. Sabe, conheci muitas majestades até hoje, mas diria que a senhora tem uma postura mais firme do que qualquer uma delas.
— Você disse que é doutor, mas que doutor?
— Diria que sou um senhor do tempo.
— E o que é isso? Alguma nomenclatura nova que a Cidadela criou?
— Antiga na verdade, mas sou o Doutor apenas.
— Então é um Meistre?
— Não chego a ser um mestre, mas pode-se dizer que sou muito bom no que faço.
— Então a Cidadela o enviou para King's Landing?
— Na verdade vim para ajudar com a guerra. Não é isso que está havendo?
— De onde exatamente você vem, senhor Doutor?
— De muito longe, majestade.
— Então deve ter visto os dragões — Deduz a rainha observando o Doutor impaciente.
— Nunca vi, mas pra tudo dá -se um jeito, não?
— Claro — A rainha anda de um lado para o outro, abaixa os braços e se vira para o Doutor.
— Sabe alguma coisa sobre guerras, Doutor?
— Tudo o que há para saber. De onde eu venho tem uma guerra por dia.
— Então façamos o seguinte, você servirá a coroa e se tornará parte do Pequeno Conselho.
— E minha amiga?
— A dama? O que ela é sua?
— Como Vossa majestade disse, dama.
— Eu a soltarei, desde que tenha algo a oferecer-me.
— Ela pode ser de muita utilidade. Mas acredito que seja melhor falar com ela pessoalmente.
— Me parece um homem inteligente, senhor Doutor. Espero que se prove útil quando a guerra vier até nós.
— Na verdade, acredito ter uma solução muito simples para ela — A rainha se senta no trono e o observa com mais intensidade ainda.
— Me diga.
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