A Era dos Sonhos

2 Capítulo 02 - Compromisso.


[11:19 — seção #4, laboratório de virologia, sala 5]


Dentro do laboratório, três doutores estavam prestes a terminar o trabalho que realizavam naquela sala há duas horas. Manipulando cautelosamente a seringa que contém o sangue extraído da paciente ali presente estava o mais velho deles, homem de seus trinta e três anos, um metro e noventa e três de altura, cabelos curtos e ondulados de cor azul-marinho, olhos castanho-claros e expressão bem humorada capaz de transmitir uma sensação de tranquilidade mesmo aos mais enfermos. Ele guarda a seringa em uma caixa prateada com o nome da paciente, onde se podem visualizar outros containeres, e dá sinal a seus dois assistentes sobre a conclusão do trabalho.


▬ Ótima notícia para você! Os resultados dos exames anteriores apontaram a eliminação total de todos os vírus que o seu corpo contraiu durante este ano. – anunciou de forma otimista o doutor.

A paciente, que estava concentrada em observar a pequena janela do local, presente na parte superior da parede à sua frente, levanta da cama em que estava sentada, e, após ajeitar a manga direita do uniforme, antes arregaçada para a coleta de sangue, dirige o olhar ao doutor.


▬ Ótimas notícias? Pensei que a rotina fosse...

▬ Minhas sinceras desculpas, Setsuna. Não foi minha intenção soar dessa maneira. Por favor, perdoe minha falta de cordialidade. – responde o doutor antes que ela pudesse terminar a frase, esboçando um doce sorriso enquanto acaricia seu rosto.

▬ Ora, sua mal educada! Agora é você que está insinuando que somos rudes. Não esperava arrogância menor de alguém que está prestes a se formar! – revoltou-se um dos assistentes, em razão da atitude dela.

Ao contrário do que esperava o assistente, determinado a reprimir a garota de qualquer maneira, Setsuna não demonstrou reação às provocações dele. Após o término das carícias do doutor, percebeu o relógio em seu pulso esquerdo.


▬ Ah, você quer saber as horas? Sem problemas! São exatamente onze horas e vinte e cinco minutos – informa o doutor. Por acaso você tem algum compromisso marcado? Se tiver, novamente peço desculpas por termos demorado tanto na anális...

Antes que ele pudesse terminar a sentença, ela instintivamente se apressou até a porta, esbarrando no doutor e em um dos assistentes. O outro assistente, ainda aborrecido por ela tê-lo ignorado, sentiu-se ainda mais irritado ao ver mais este desrespeito sendo praticado contra seus colegas.


▬ Com licença. – lembrou-se ela de falar, pouco depois de sair da sala, ainda com a mão na porta.

▬ Do que adianta pedir licença agora que você já atropelou todos que estavam em seu caminho? Quando é que seu intelecto atrevido estará satisfeito com os insultos que você nos atira todos os dias?! – desabafou o assistente, correndo atrás dela.

▬ Por favor, não deixe que a raiva lhe suba a cabeça. Por favor! – implorou o outro assiste, tentando segurá-lo antes que ele saísse da sala, quase sem forças devido à sua estatura pequena e físico esbelto. Doutor, faça alguma coisa! – gritou ele, olhando para o professor com lágrimas nos olhos.

▬ Já basta, vocês dois!!! – exclamou o doutor, deixando-os paralisados diante do tom de voz grosso e olhar frio com o qual pronunciara estas palavras.

Ele então caminha rapidamente até onde os dois estavam localizados e segura com força o pescoço do assistente que se revoltara poucos segundos atrás, prensando-o contra a parede que ficava ao lado da porta. A situação perdurou por alguns instantes, nos quais ele tentava soltar a mão do doutor, que esmagara rapidamente seus músculos, impedindo sua respiração.


Cedendo à pressão, ele perdeu a consciência. O doutor então olhou para seu outro assistente, que se encontrava chocado ao testemunhar tal cena.


▬ Escute bem. Não importa que você tenha sido transferido para cá recentemente, quero que você aprenda as regras desde já! – declarou ele, apertando o maxilar inferior do menor com sua mão direita. Aqui o paciente será sempre bem tratado, sempre será o dono da razão, e sempre faremos o possível para que ele saia daqui satisfeito e guarde uma boa impressão do nosso trabalho. Entendido?! – terminou, jogando-o para o lado.

▬ S-sim s-senhor... – respondeu ele, caído no chão e com a voz trêmula de quem estava prestes a chorar.

(Não posso deixar que estes incompetentes comprometam as relações com minhas amadas...pacientes. E a jovem Setsuna, então? Seria um enorme desperdício se eu fosse privado do direito de analisar e pesquisar cada vez mais sobre aquele corpo delicioso!) – pensou o doutor, com um sorriso malicioso que acabara por assustar ainda mais o pequeno.

Enquanto isso, Setsuna já se encontrava fora do edifício principal da seção #4.


▬ Se ocorrer falha em minha pontualidade, Ren irá... – lamentava ela para si mesma em voz baixa, ao mesmo tempo em que continuava a correr em direção ao local combinado.

[9:02 — saída da corporação central]



Enquanto se afastava lentamente da corporação central, Ren questionava a si mesmo sobre o que faria até que chegasse a hora de seu compromisso, tendo em vista que sua atividade acadêmica havia terminado mais cedo do que o previsto. No entanto, antes que pudesse concluir seu raciocínio, percebeu o barulho gerado por vários passos, e, ao se virar, curioso para saber quem estava lá, avistou dois de seus colegas vindo em sua direção.


Um deles andava de forma abrupta, impondo força em cada passo, determinado a alcançar sua destinação. Ele é mais baixo que o protagonista, com meros um metro e sessenta e dois de altura, cabelos loiros encaracolados que de tão grossos atrapalhavam seu campo de visão e olhos castanho-escuros. Todavia, era sua obesidade e expressão prepotente de seu rosto que se destacavam perante as demais características. O outro, que andava aquém do primeiro, possuía a mesma altura de Ren. Portador de vívidos e longos cabelos brancos, presos em uma só mecha por um adereço preto, de fabricação manual, e contrastados por enormes olhos de cor vermelha, apresentava-se tímido na ocasião, sem conseguir esconder a expressão preocupada que portara.


Ambos estavam acompanhados por um rapaz mais velho, irmão maior do jovem obeso. Este se adiantou em relação aos outros, demonstrando sua intenção de desferir um golpe no protagonista. Ren, percebendo a iminência da agressão, nada fez.


▬ Bom dia pra você também. – ironizou Ren, enquanto se levantava após agredido.

▬ Desgraçado, não se faça de tolo! – disse o agressor, preparando-se para atacar novamente.

Ren, percebendo novamente a iminência da agressão, nada fez. Dessa vez, ele desviou o olhar para além do rapaz, fazendo breve contato visual com o tímido garoto dos olhos vermelhos, e logo passando a observar a entrada da corporação.


▬ Estranho...por que os oficiais de segurança ainda não apareceram para apreender este selvagem que está me atacando? Pensei que todo espaço público da corporação fosse monitorado. – falou para si mesmo, de forma que os outros também pudessem ouvir.

▬ Não adianta, Ren. Os guardas não virão te ajudar. – disse o irmão menor, escondendo-se atrás do mais velho. Eles estão cuidando de uma garota estranha que está em estado de choque perto da recepção.

Ele é atingido pelo segundo soco enquanto lembrava-se da conversa com Amaterasu, caindo de novo. Dessa vez, recusou-se a levantar, permanecendo sentado no chão enquanto amaciava a pequena inflamação que se formara ao lado de sua boca.


▬ Posso ao menos saber o motivo da agressão? – perguntou, sorrindo para os dois como se nada estivesse acontecendo. O irmãozinho ficou amedrontado com a minha apresentação de hoje? Ou o irmão dele é que está chateado porque eu irei no lugar de seu irmão mais novo recepcionar o oficial que irá presidir a formatura de amanhã?

▬ Por que você sempre tem que ser assim? Causando problemas a seus colegas, subestimando as preocupações dos funcionários do complexo e fazendo pouco caso do privilégio que lhe foi dado de estar aqui?! – exalta-se ainda mais o irmão mais velho, direcionando um chute contra Ren.

Perante tais questionamentos, ele finalmente reage, bloqueado o chute com a mão esquerda.


▬ Ora, ora. Parece que temos um desinformado no grupo! – respondeu, sentindo-se confiante.

▬ Cale-se! Não tente se esquivar da minha pergunta! – insistiu.

▬ Huhu...quem está fugindo da verdade é aquela bolinha de pelos grudada nas suas costas. – olhou de forma ameaçadora para o irmão mais novo. Ou será que ele não te contou sobre a singela história de vida que compartilhei? Aposto que ele só afirmou que eu estava errado e você fez o papel de super-herói indo ao resgate, não é mesmo? – continuou.

O irmão mais velho, ao perceber que o mais novo se calou diante das palavras de Ren, superou o orgulho. Com a mão nas costas do menor, pressionou ele a segui-lo, em retirada à próxima destinação dos mesmos.


▬ Nem todos escolheram estar aqui, Odisseu. Lembre-se disso... – disse Ren, referindo-se ao irmão mais velho.

Os dois encararam um ao outro com maturidade pela primeira vez, contato visual que durou apenas uma fração de segundo, suficiente para entenderem um ao outro. Apesar de pertencerem à mesma organização, internamente sabiam que seus mundos se situavam em patamares diferentes. Odisseu, que sempre acreditou em seu berço de ouro como a prova de um indivíduo abençoado, e agora empenha sua vida a permitir a continuidade de seu legado. Ren, que desde um evento trágico passou a valorizar a individualidade do ser humano.


O tímido garoto de olhos vermelhos, que aguardara pacientemente o fim daquele evento, dirige-se até Ren.


▬ Incrível, Ren! – entusiasmou-se o garoto, que estava se sentindo mais confortável agora que se encontrava apenas na presença do amigo.

▬ Como assim? O que foi incrível?

▬ Tudo! Tudo!! Tudo!!! Em face da ameaça da esfera de gordura assassina que mandou seu irmão mais velho como capanga para matá-lo, o herói sequer moveu um dedo para se proteger. Aguentou a ira dos injustiçados, pelo bem da humanidade! – explicou, com um brilho intenso nos olhos.

▬ Não foi tão cinematográfico assim...eu acho. – retrucou Ren, esforçando-se para imaginar a descrição dos acontecimentos dada por seu amigo.

▬ E a melhor parte é como o herói se manteve calmo o tempo inteiro! – reforçou o garoto, sorrindo orgulhosamente.

▬ Haha, digamos que estou em um daqueles raros dias de bom humor! – afirmou alegremente, acompanhando a brincadeira.

▬ O herói, de b-b-b-bom humor? O dia do apocalipse se aproxima?!

▬ Nem tanto, mas daqui a alguns minutos terei um compromisso, e tenho que me encontrar com a Setsuna as onze e trinta e cinco na “Unidade Central de Eventos #7”.

▬ O herói, atrasado para um encontro com Setsuna? O dia do apocalipse é hoje?!

▬ Vai ser se eu ficar conversando aqui por muito tempo – ressaltou Ren, com medo de que a tragédia se confirmasse.

▬ Ren, sobre a sua apresentação... – o garoto volta a exibir preocupação em seu rosto.

▬ Eu sei, eu sei. Passe no meu apartamento no fim da tarde, e então poderemos tratar disso com mais calma.

Terminada a conversa, o garoto volta para o prédio da corporação, enquanto Ren decide seguir diretamente para o local combinado.


[11:40 — Unidade Central de Eventos #7]



Apesar da pouca afinidade que possui com seus colegas, guiada por sua personalidade fria e objetiva, Setsuna sempre cumpriu de forma metódica e eficaz todas as atribuições que lhes foram dada nos seis anos em que esteve na Sephia Lumeranthium. No entanto, pela primeira vez estava para ser presenciada, justamente em seu último dia como acadêmica, a única imperfeição de todos os seus compromissos até agora: ela estava atrasada.


Ren gostaria de acreditar que tal atraso foi apenas um desencontro dos dois em um grande centro de eventos, mas grande maioria dos membros do complexo estava ocupada com as preparações para a formatura que aconteceria no dia seguinte.Chocado com o acontecimento, decide esperá-la na praça de alimentação do edifício, situada no quarto andar.


Cinco minutos depois, Setsuna enfim chega ao local por uma das entradas do piso térreo.


(Injustificável. Injustificável...) – pensou ela, soando frio.

Depois de mais alguns minutos de procura, Setsuna encontra Ren na praça de alimentação. Ao avistá-la, ele apenas sorri sarcasticamente.


▬ Vamos então? – ele tomou a iniciativa, mantendo o mesmo sorriso.

▬ A-afirmativo. – decidiu que seria melhor não contrariá-lo. E essas sacolas? – perguntou a ele, apesar da insegurança em se pronunciar, referindo-se a duas sacolas de cor preta que estavam na mesa onde ele a aguardara.

▬ Ah...as sacolas, você diz? – fala pausadamente, sabendo que a está deixando cada vez mais nervosa. Bem...por algum motivo, eu tive alguns...minutos a mais hoje para comprar alguns...brinquedinhos.

(I-insanidade...) – pensou ela, assustada com o que poderia haver naquelas sacolas.

Ren decidiu que eles assistiriam a um filme no cinema. Setsuna concordou incondicionalmente, temendo o que seriam os tais brinquedos que ele escondia nas sacolas. Conforme o esperado, a sessão estava excepcionalmente vazia. O filme exibido contava a história dos últimos momentos de duas crianças, irmãos gêmeos de sexos opostos, condenados à morte por uma doença incurável que ambos possuíam.


Apesar de sentir certa insegurança em relação às sacolas, Setsuna conseguiu se concentrar em assistir ao filme logo nos primeiros minutos de exibição. Ren, por sua vez, pensava em outro assunto.


(Esse filme...ele me lembra do dia em que eu e Setsuna nos conhecemos. Das palavras que nós dissemos. As tragédias que sofremos. As decisões que uniram nossos caminhos. Eu gostaria que o dia de hoje durasse para sempre, pois a partir de amanhã...todos os nossos caminhos seguirão direções opostas).