A Era - Cidade Maldita
1 Prólogo
Notas iniciais
O mal rodeia a todos e a tudo. Mas nem tudo ele pode tocar. O corpo se entrega, a carne se funde ao obscuro místico, mas o espírito não... O Espírito não se entrega não se vende, mas pode se doar de inteiro a besta fera que corrompe a bela lua com sangue e medo...
Corajoso o homem que enfrenta a fera...
Bendito o homem que abraça a besta sem medo...
Maldito o homem que se entrega de corpo e alma a ela...
1883 Ludovina condado de Arters
Lyra desperta por imediato do torpor se encontrando em uma larga rua cujo chão era coberto por pedras de diferentes tamanhos. De um lado da rua (molhada, devido às constantes chuvas em que recaia sobre a cidade) casarões antigos e silenciosos, do outro, grandes prédios abandonados.
Andava em uma linha reta em velocidade constante, os grandes olhos verdes vidrados na lua que surgira ao longe enquanto a cauda do longo vestido farfalhava nos leves relevos da rua. O vento frio que batia em sua face fazia sua pele parecer mais pálido que o convencional, realçando assim sua beleza.
O cabelo preso em uma delicada trança escorrida pelo ombro, a boca carnuda e avermelhada em uma linha reta, traços de uma verdadeira cigana. Em uma das mãos uma sacola cheia de livros, e na outra o cabo do guarda-chuva preto que a protegia dos finos e frios pingos de chuva.
Nunca fora vista jovem tão bela cruzar quatro quarteirões sem se desequilibrar do salto de oito centímetros sem perder a compostura e a classe.
A idéia fixa de que logo o ano letivo no internato Brownks fosse acabar lhe embaçava a visão. Logo teria que voltar para a mansão Kendrex de onde fugira desesperadamente.
Depressa que cruzara a esquina surgira a alguns metros o internato Brownks, um casarão antigo que ocupava uma quadra inteira, as paredes escuras e as janelas de madeira maciça eram inconfundíveis.
Então a jovem Kendrex empurrou a porta e logo o salão das escadas foi se revelando. O lustre de cristal magnífico, as escadarias de mármores cobertas por uma tira de veludo vermelho tão macio quanto um pedaço do céu, os quadros de antigos diretores e celebridades que por ali passaram penduradas em um longo corredor à direita.
Lyra pendurou o casaco, e continuou caminhando em direção as escadas. O longo vestido cinza com detalhes em fitas de cetim vermelhas e o símbolo da escola radiante estampado no peito eram usados pelas poucas internas que caminhavam por ali, o sapato revestido de camurça marrom soltava um som familiar aos ouvidos de madame Genova.
Lá estava ela, a carcaça magrela de pé revestida de um longo e volumoso vestido preto, parada a observando com olhos tão negros quanto à noite. A juba loura um tanto grisalha trançada até a ponta.
—Lyra Kendrex!—advertiu ela— Posso saber onde estava?
—Eu fui...— Lyra hesitou em responder— Fui até a livraria comprar alguns exemplares que me faltavam!— respondeu à jovem.
—Muito bem, este atraso será tolerado. Mas as regras do internato são claras, e regras devem ser cumpridas, sem nenhuma exceção. — disse a velha, enquanto Lyra continuava a andar em direção as escadas. Assim que pisou no segundo degrau a voz aguda e irritante de madame Genova lhe tocou os ouvidos, tão desagradável quanto um gato miando de baixo da cama a meia noite—Boa noite...
“Sem exceção?” Madame Genova era apenas mais uma esquerdista conservadora, adoradora de dinheiro e poder. Qualquer jovem cuja família tivesse ao menos uma posse milionária ou que pudesse a trazer lucros recebia privilégios. Kendrex como velho milionário, lenda em todo condado e alguns metros ainda mais a frente...
Lyra continuou a subir as escadas, sem olhar para trás. Não sabia se Genova podia ouvir seus pensamentos, mas apreçou o passo só para garantir.
Logo estava empurrando a porta de seu quarto. Mas uma surpresa lhe preencheu os olhos. No canto mais impuro do cômodo, perto a janela estava ele. Um alguém parado, em silencio, como estatua. Lyra sentiu seu coração dar pulos enquanto seus olhos se reviraram.
Então fechou a porta levemente e repousou a sacola de livros sobre a penteadeira.
—Posso ajudar?— perguntou ela timidamente.
Ele não respondeu apenas se virou. Mas ainda estava muito escuro para que pudesse ver seu rosto. Então o tal deu alguns passos na direção da jovem que pensou em fugir. Mas logo a luz da lareira estava formando uma parede entre eles, e assim que a luminosidade refletiu em sua face Lyra sentiu-se pouco mais à-vontade.
Era um rapaz de aproximadamente vinte e dois anos, alto forte, o cabelo alourado armado como um topete, os olhos negros como dois grandes abismos, os lábios entre abertos e um ar de arrogância no modo como as sobrancelhas eram erguidas. Sobre o corpo másculo, uma fina camiseta branca encardida e sobre ela uma jaqueta de couro marrom, as botas sujas e a calça de um tecido que Lyra não conhecia (jeans) desbotada, uma roupa muito a frente daquele tempo.
—Quem é você?— perguntou Lyra que se sentia como um animal acuado.
—Não acredito que não me reconhece...— o rapaz era de certa forma familiar, não de aparência, mas o modo como erguia a sobrancelha esquerda lhe era familiar. Vasculhou a mente buscando algum nome— Sou eu Lyra... Tibério Timber...
—Timber!— exclamou ela mergulhando nos braços de Timber que retribuiu o abraço—Minha nossa, como é bom ver você!— disse ela eufórica.
—É bom ver como está crescida!
—Por onde você andou?— perguntou ela com um brilho de orgulho nos olhos.
—Eu... Andei por muitos lugares...
—Minha nossa, eu quero saber de tantas coisas!— a jovem estava muito animada, então conduziu o amigo até uma das duas poltronas. Os dois se sentaram enquanto Lyra ovacionava Timber de perguntas— Você... Não é você! Se me entende! Eu lhe reconheceria mais não é você...— Lyra parecia confusa.
—Eu tive que mudar um pouco... Por motivos que eu prefiro não comentar. Agora eu sou Andrew Scofts.
—Andrew Scofts?
—Lyra, teremos muito tempo para conversar... Mas o motivo que me trouxe até aqui é maior que tudo isso!— disse ele de modo tão serio que Lyra se calou imediatamente.
—Então diga!— insistiu Lyra.
Mas Timber enfraqueceu diante aqueles olhos tão belos e tão verdes. O rapaz se sentiu bem como a muito não se sentia, vê-la após tanto tempo lhe trazia boas lembranças de quando era criança. Para ele os Kendrex eram sua família. Sentia tanta ternura e carinho por ela que lhe doía a idéia de vê-la triste.
—Diga Timber!— as palavras firmes saindo dos lábios de Lyra fizeram Timber emergir do mar de lembranças. Ela o fitava de modo intimidador.
—Pela manhã Dr. Conte virá lhe visitar...— antes que Timber pudesse terminar Lyra o interrompeu.
—O que ele virá fazer aqui?— perguntou Lyra que começara a ofegar.
—Não me interrompa...— advertiu o rapaz enquanto Lyra concordava com a cabeça— Sinto muito Lyra!— Timber respirou fundo— Seu pai, Arthur Kendrex...— ele hesitou em terminar a frase. Mas as palavras que vieram pareceram se prolongar por uma eternidade— está morto!
Lyra se sentiu anestesiada, nem triste, nem nervosa, apenas confusa, como se acabace de acordar no meio da noite perambulando pelas ruas sem nenhum motivo, sem nenhum destino. Então ainda confusa tentou se levantar cambaleou e depois foi se vendo desabar sobre o carpete.
A garota se sentia afundando cada vez mais em um lago sem fundo. E algumas frases sem sentidos ditas pelo próprio pai lhe vieram de repente.
Todos tem seu destino...
O seu Deus criou monstros e é nosso trabalho exterminar essas bestas...
Forte o homem que não foge de seus deveres...
Um Kendrex é sempre um Kendrex...
A maior decepção de minha vida...
Então não ouve mais nada, quando acordou rodeada de professoras e alunas na enfermaria, Timber havia sumido e o sol já dava seus primeiros sinais.
Estava confusa, primeiro pensou que fosse apenas um sonho, passou parte da manhã tentando se convencer disso. E quando enfim conseguiu acalmar seu coração afundou a cabeça nos fofos travesseiros da enfermaria olhando para o teto e assim ficou alguns minutos.
Mas o pior aconteceu, a porta da enfermaria se abriu lentamente e duas sombras foram se projetando ao lado da cama. Os olhos afogados em lágrimas não conseguiam ver nada além de Madame Genova, então à seguinte frase chegou aos ouvidos de Lyra tão perturbadores quanto confusas.
—Lyra Dr. Conte está aqui...
Timber estava certo, ali estava Dr. Conte sentado ao lado da cama lhe dando a noticia. Mas as palavras que saiam da boca do homem pareciam não entrar na cabeça da garota. E de um longo discurso apenas seis frases ficaram guardadas:
Sentimos muito...
Era um grande homem...
Agora quem será responsável pela Era?
Temos que reunir o conselho...
Virá comigo a Washang...
Não se preocupe tudo dará certo!
Mas se daria tudo certo por que se sentia indo ao próprio funeral? Com certeza não estava só, mas se sentia tão indefesa quanto uma gazela em meio a dezenas de leões famintos.
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