A Equina — ANIMALIA

4 Capítulo III: O Aniversário do Príncipe


Notas iniciais
Olá meus queridos leitores, obrigado pelos seus últimos comentários no cap anterior. Espero que gostem desse e boa leitura!

A luz que iluminava o salão de entrada da Cidade de Araren, capital de Kéntrikos — o consulado que também corresponde à capital de Zookos — era bem fraca e dava algumas piscadas. Amelie já estava impaciente e tinha aberto a cortina do salão para deixar a luz do crepúsculo invadi-la. James olhou para ela com certa reprovação após sua ação, mas ela ignorou totalmente a expressão do irmão.

Holly observava o crepúsculo, era um costume que tinha quando vivia em Londres. Ela percebera o quanto estava alheia a esse dia; ele tinha passado rápido desde a hora que acordou até quando foi salva pelos irmãos Dauphinhorse até a exata hora. James tamborilava os dedos contra a mesa enquanto observava a garota Holly com uma extrema admiração. Amelie achava repulsiva a cena, sorte a dela o Cônsul Clematisounce ter adentrado o salão.

— Senhor Dauphinhorse? — seu tom de voz era um tanto grave com certa masculinidade.

— Senhor? Está brincando comigo, não é? — James se levantou e correu para abraçar o homem de meia idade. — Sabe que fora das vistas do povo somos como pai e filho, não é, Yourg?

— James… não havia te visto desde que viajou para a China. Está bem crescido e como vão as mulheres? — Yourg tinha uma empolgação um tanto sarcástica na voz. — Vejo que tem uma que não é sua mãe e muito menos, sua irmã.

— Aquela é… — O garoto Dauphinhorse se paralizou diante da pergunta. Depois de algumas respiradas conseguiu responder. — É a nova serviçal do castelo.

Amelie sorriu com desdém por causa da resposta de James. Era transformador saber que James havia apresentado Holly como uma mera serviçal. Ela se segurava para não rir.

— Essa é a ainda constante chacota que os homens costumam fazer. Se acostume Holly — disse a garota Dauphinhorse em tom seco.

Holly retribuiu a ofensa de Amelie com o silêncio e se voltou a prestar atenção na conversa de James e Yourg.

— Certo James, vamos para a carruagem? — Yourg se voltou para Amelie e Holly. — Vocês também, jovens damas.

Yourg abriu a porta e seguiu para fora do salão. Os jovens o seguiram até a carruagem, que já estava pronta do lado de fora do salão. A carruagem dos Dauphinhorse era muito linda com seus detalhes de bronze e dourado e o brasão Dauphinhorse na porta — a cara de um cavalo com uma flor de delfim na perpendicular do seu pescoço. Oliver assim que viu o príncipe e seus convidados abriu a porta. Eles entraram e se sentaram. Holly olhava impacientemente para o chão, para conter o fato de ser chamada de serviçal.

— Oliver, dê partida — ordenou James. O seu segurança balançou as rédeas e os cavalos começaram a trotar em direção à Avenida Phloxwolf que fora nomeada assim devido a primeira e até alguns anos atrás, a única dinastia de Zookos.

— Conte-me mais sobre Londres. É sempre bom saber como anda a vida dos inanimalios. Aquela rainha, a Victoria ainda reina? — Yourg era como uma abelha zunindo no ouvido de James com suas perguntas.

— Victoria? É claro, aquela ali é uma grande monarca. Tão bom quanto os monarcas Phloxwolf da Idade Diamantina de Zookos, Mirian e Antoine.

Yourg pegou um lenço e passou sobre a testa limpando o suor.

— Está bem calor e não me diga sobre a época em que os Phloxwolf seguiam o incestábito. Poucas famílias seguem esse mandamento hoje em dia, mas acho que isso é muito rígido, não acredito que uma criatura tão perfeita como Animalion possa ter feito isso.

Holly se esgueirou e olhou confusa para Yourg.

— Quem é Animalion? — perguntou ela.

Yourg deu uma gargalhada.

— Não acredito que tenha feito isso James — falou ele, desapontado. — Trazer uma inanimalia para nosso país? Isso pode ser considerado traição.

— É uma longa história Yourg, mas ela não é uma inanimalia. O sangue Dauphinhorse corre nas veias dela. Ela conseguiu controlar um equestre num torneio de hipismo inanimalio. Acho que ela é a escolhida de Animalion. Tenho quase certeza — disse James, com o ar da razão.

— A escolhida? — Yourg gargalhou tanto que precisou limpar as lágrimas que o riso lhe proporcionara com seu lenço.

Holly já estava ficando impaciente quando o Cônsul terminou de secar as lágrimas e os sinos de anúncio do rei começaram à soar. Ela não gostava de ser ignorada.

— Vão me responder ou não? — disse ela, emburrada. — Quem é Animalion?

— Uma espécie de criador. Ele nos criou. Ele foi o primeiro a ter o sangue animalia. Seus filhos são nossos ancestrais… são os fundadores e primeiros guardiões das nossas famílias e dons — explicou James.

Amelie já entediada do assunto, bufou.

— Vai demorar para ela perguntar quem é a Ghatamam? — disse ela com raiva.

— Amelie — repreendeu James, com sua típica cara de reprovação.

James tentou se virar e fingir que nada havia acontencido, mas não conseguiu. Holly foi mais rápida no “gatilho”.

— E quem é essa James?

— Ela é...— James foi interrompido pela batida na janela entre o coche e o interior da carruagem. Como diria os ingleses nas lutas de boxe, salvo pelo gongo.

— Senhor Dauphinhorse, hora de mostrar sua beleza aos seus súditos — disse Oliver.

James se levantou e foi para o centro da carruagem.

— Pode, por favor? — Ele olhou para Yourg e apontou para uma manivela.

— Claro — respondeu Yourg, sorridente.

A manivela começou a ser rodada e o teto da carruagem se converteu mostrando a lua. O centro da carruagem começou a subir de acordo com a conversão do teto, deixando James no topo com uma visão privilegiada da Avenida Phloxwolf.

Amelie se esgueirou até a janela para olhar o povo que não estavam com a melhor cara do mundo. Nas mãos, eles traziam caixas de tomate e gritavam com fervor.

— Príncipe Negro! Príncipe Negro! Príncipe Negro! — Amelie não sabia distinguir se aquilo era uma aclamação ou uma espécie de protesto.

— O que está acontecendo Amellita? — Yourg tinha uma cara de assombro, estava realmente assustado com os gritos da população.

— Estão gritando o nome que apelidaram James, por causa da nossa linhagem fora do incestábito.

— Segundo a lei, eles estão certos, mas creio que devemos ser passionais e ignorar.

James abaixou o rosto, ele estava com resquicios de tomate por todo o corpo e sua cara estava pior ainda.

— Desça a manivela Yourg, isso é urgente! — exclamou ele, apavorado.

Yourg se apressou e começou a descer com força a manivela. James se via a cada minuto mais seguro. Amelie não conteu os risos e começou a gargalhar do estado de James. Holly olhava para ela assombrada, a risada de Amelie não era a ideal para uma dama.

— Jim, você está lindo e com um cheiro maravilhoso. Está melhor do que o chambrado de frutas que eu comi na China — disse ela, gargalhando.

— Você é bem engraçada, Amelie — disse ele com raiva.

— Estamos chegando? — Holly perguntou, impaciente.

— Essa serviçal é bem impaciente James e garota, estamos bem perto do Castelo — dessa vez quem respondeu foi Yourg, cheio de pompa.

O resto do caminho até o castelo foi silencioso e bem estável, apenas com alguns grunhidos de raiva de James.

★★★

Os serviçais encaminharam Holly para um dos quartos de hóspedes que se distribuíam em um imenso corredor. Holly não deixou de notar cada quadro antes de entrar em seu quarto. Joshias Dauphinhorse e Xia Dauphinhorse, século XVI. Fundadores da família Dauphinhorse. Achava impressionante como pessoas tão velhas poderiam ser representadas em pinturas, elas eternizavam os mais velhos membros daquela linhagem. Achava estranho a incrível semelhança entre todos os quadros, traços genéticos bem parecidos. Sylvanus Dauphinhorse e Veroniqué Dauphinhorse, século XVIII. Criadores do sistema monetário zukin. Os traços de Veroniqué eram tão parecidos com os seus que chegavam a dar medo, mas sua atenção não se voltou para aquilo e sim pela falta do quadro dos patriarcas do século XVII. Sentia que algo tão importante como os patriarcas daquela época não poderia ser esquecido.

Uma das serviçais — Meeren — bufou com raiva da demora de Holly.

— Senhorita Grosvenor, estou com certa presa, poderia entrar no quarto e permanecer lá?

Holly se desviou dos seus devaneios com os quadros familiares e olhou com certo desprezo para a serviçal indo rumo ao quarto.

Holly ficou boquiaberta de tanta admiração ao quarto que lhe foi oferecido. As paredes tinha uma coloração violeta suave. Os chãos eram de madeira de ipê. Uma penteadeira branca se situava em frente as grandes vidraças que eram cobertas por cortinas brancas. Sua cama era bem parecida com a cama do seu quarto na Casa dos Grosvenor. Uma cama formosa com belos estofados em tons arroxeados coberta por colchas de sofisticadas estampas florais. Lady Grosvenor diria que aquilo era um luxo que só uma verdadeira dama vitoriana merecia.

Holly se sentou sobre a penteadeira e lembrou de Gessa lhe escovando os cabelos, sentiu o peso daquilo. Era como carregar todo seu rancor e esnobação nas costas, como um selo que a marcava para o resto da vida. Ela não tinha pena nem de uma mera barata quem dirá de um ser humano. Gessa foi quem a cuidou desde o príncipio, foi quem lhe ajudou nos piores momentos; ela era seu ombro amigo, mas Holly ignorou tudo isso. Só queria saber de esnobar e maltratar a mulher que sempre foi sua… ela pensava nos significados das palavras, mas sabia que o termo certo para Gessa seria mãe. Mãe. A palavra que ela sempre quisera pronunciar, mas nunca teve um alguém para chamar assim — com exceção a sua serviçal.

— Senhorita?!?! — gritou a serviçal. Sua voz — pela segunda vez — tirara Holly dos seus eternos devaneios.

— O que há, Meeren? — James havia apresentado todos os serviçais a Holly. Ela não era de ligar nome à pessoa, mas já lembrava de côr e salteado o nome da serviçal que James denominara como sua. Esta é Meeren, a partir do momento, ela será sua serviçal, Holly pensava na bela e doce voz de James recitando as palavras, Unicamente sua.

— A senhorita precisa se levantar para eu retirar o vestido. Está quase na hora do jantar e não é de bom tom, a senhorita faltar ao tal. Ainda mais o jantar de aniversário do senhor Dauphinhorse.

Holly forçou o engasgo. Ficou estupefata com a informação que acabara de receber. Será que James estava fazendo quantos anos? Vinte? Dezenove?

— Mas que vestido irei vestir? — Ela ficou desesperada e começou andar pelo quarto. — Eu só tenho esse vestido, mas seria errado repetir o vestido para uma ocasião tão importante como essa, por favor, eu imploro. Arrume um vestido novo para mim.

A serviçal deu uma gargalhada pelo desespero da moça. Era tão engraçado vê-la igual uma barata tonta de lá para cá no quarto.

— Tenha calma. — Meeren abriu o armário ao seu lado, revelando um lindo vestido de alças feito de cetim vermelho e preto com imensos babados na cauda. Ela foi até Holly tirando seu vestido pela sua cabeça. A garota sentiu a brisa fria da noite colidir contra seu corpo, mas ignorou a sensação. O vestido de noite que estava no armário foi pego por Meeren que deslizou ele pelo corpo de Holly; coube perfeitamente e realçou seus seios pouco avantajados.

Holly sorriu para sua imagem entre cortada que se refletia no espelho da penteadeira; ela estava linda.

— Deslumbrante — avaliou Meeren. — Digna de um príncipe.

Holly corou com as palavras de Meeren, mas deu leves “tapinhas” para reduzir aquele efeito. Ela sentia que era errado sentir algo por James, mas não sabia explicar a sensação.

Os sinos do jantar tocaram. Uma sequência ritmada como uma música natalina. Seu ritmo era alegre e inspirador. Holly sentia vontade de cantarolar no ritmo dos sinos, mas apenas se conteve a ser conduzida escada abaixo até a sala de jantar que naquela noite estava cheia. Homens de barbas brancas, prateadas e alguns sem o adereço. Alguns eram carecas, outros tinham cabelos negros e alguns tinham cabelos brancos ou perto da cor. Holly sabia que eles tinham algum papel importante na lei de Zookos.

Ela se sentou em um assento entre James e o cônsul Yourg.

— Quem são eles? — cochichou Holly para James.

— Membros do Conselho. Todos servem ao cônsul, ele é o que está no topo da hierarquia junto à mim. O de cabelos platinados no final da sua fileira é o pretor George Hyacinthsnake. O cargo dele fica abaixo do cônsul Yourg — cochichou James de volta.

— Achei estranho a forma como Yourg não ficou intrigado com uma serviçal à mesa… o que dissera à ele? — Holly deixou explícito o desdém em sua voz.

— Expliquei algo que você não deve saber agora, pelo fato do sigilo dos assuntos do Conselho.

Holly se calou quando os serviçais vieram com a fartura de comida que compusera a mesa a partir daquele momento. O cheiro subia até suas narinas, a comida dali era divina.

James ergueu sua taça de prata que continha vinho e bateu a colher contra ela. O barulho fez todos prestarem atenção em seu honorável príncipe. Ele se levantou e sorriu para todos.

— Queridos amigos e membros do Conselho do nosso país, hoje completando a idade de 17 anos digo a vocês que estou demasiadamente satisfeito com todos aqui. Por me ajudarem, desde pequeno a regir essa grande confusão que foi para mim. Era apenas uma criança, uma criança orfã, mas que ganhou de bandeja uma responsabilidade e tanto. Eu podia ter entregado o poder à um tutor, mas eu não o fiz, porque queria testar minha capacidade. Queria me testar e veja hoje — Ele colocou o dedo no peito —, estou me tornando um homem à cada dia. Graças a vocês, graças a todo o apoio de vocês. Quero deixar claro que hoje o jantar não é pra mim, e sim para nós. Acho que merecemos palmas, não?

A sala explodiu em palmas e risos. O discurso de James foi bem aceito por todos de seu conselho, até ele mesmo batia palmas. Holly notou o pretor Hyacinthsnake sair enquanto ninguém notava e não se segurou. Seguiu o velho até os jardins, ele não pareceu notar os passos da garota, com certeza, a velhice lhe trazia problemas de audição. O pretor retirou um cajado de dentro da cerca viva e ergueu-o. A pedra do cajado brilhou e um vórtex verde surgiu no ar.

— Ditador, há quanto tempo não nos falamos. Eu só estou lhe passando essa mensagem para avisar que o príncipe chegou aos 17 anos. Contate-me o mais rápido possível.

O pretor balançou o cajado e o vórtex sumiu. Ele se virou apressado para voltar para o jantar, Holly não queria ser notada, então, só teve tempo de tentar deslizar para dentro da cerca viva. Seu vestido prendera nos espinhos, mas ela empurrou sendo sugada pela cerca. Ela sentiu alguns espinhos roçarem sua pele, era doloroso, mas não podia cometer um deslize. Ela sabia que errou em seguir o pretor, mas era sua chance de ajudar James, porém parece que às vezes o mundo e todos estão contra nós. Ela viu o pretor passar e voltar para o jantar. Seu cabelo deveria estar horrível, seu vestido rasgado e seus braços sangrando pelo espinho, mas descobrira que algo de errado havia ali.



Notas finais
O que acharam? Não esqueçam de deixar suas opiniões, críticas e correções. Beijos Animalios.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.