A Epifania de Tustrazara

1 A Epifania de Tustrazara


Tustrazara fora um filósofo teólogo babilônico que discursava com seus aprendizes a ideia e o conceito de um deus. Seu objetivo como teólogo era espalhar o conhecimento de como criar-se um deus. Para ele, nós é quem criamos um deus, basta ter sua ideia, seu conceito, e dá as característica e nomes humanos a ele, embora essa última regra não eramuito necessária. Um método baseado nos deuses gregos, mas diferente desses, Trustazara acreditava que esse deus que criasse era um humano, pois nasceu de um humano. Em outros termos, seu deus já foi um humano, e com isso provaria que nós humanos somos capazes de alcançar o estado de divindade.

À luz do sol da tarde, lá estava ele e alguns de seus alunos na boca de uma caverna, palestrando sobre a sua ideia de deus. Andava pra lá e pra cá com os braços cruzados nas costas, segurando um pergaminho, olhando para o chão e uma vez ou outra indagando aos alunos quem era o deus que eles criaram.

Os alunos que ficavam um pouco mais a fundo da boca da caverna, cochichavam entre si pra chegarem a uma conclusão sobre as perguntas, uns com um olhar de desentendidos, outros com olhares desconfiantes da sanidade de Tustrazara, e outros tão meditados que alguém acharia que não estavam ali.

— Então, conseguiram criar seu deus? — perguntou Tustrazara dando um impasse e olhando para o fundo da caverna.

Um dos alunos respondeu: — Professor, eu estava pensando, por que é tão fácil criar um deus? Não deveria ser difícil? Lhe digo, faço uma alusão ao nascimento dos homens, nenhuma dor se compara à da mulher dando luz a uma vida. Não teria um preço a se pagar para dar nascimento a um deus?

Tustrazara solta um sorriso cínico enquanto olha para o jovem, mas não grande o suficiente para os alunos perceberem de longe. E apoia o queixo com o dedo indicador, olha pra cima, e indaga intrigantemente: Mas deus é vivo? É o ponto o qual eu exijo que vós cheguem, já encontrei a resposta pra isso, quero que vocês também a achem. Se eu consegui vocês também conseguem, vede a máxima! — diz abrindo os braços entusiasmado com essa última frase.

Curiosamente estava carregando em sua mão direita um pergaminho, deduz se que está com suas anotações, embora prefira deixar os alunos especularem a mostrar-lhes seu pensamento escrito. Sua filosofia é de que o Homem só pode aprender por meio da dor, nenhuma ideia verdadeira pode ser obtida sem o esforço do pensar. Mas isso contradiria com sua vocação, um filósofo teólogo palestrando sobre suas ideias a cerca de deus, entretanto, seu método de ensino ainda remete ao seu lema: Dor pela sabedoria.

Depois de alguns minutos, um dos alunos que estava mais ao canto e fundo da caverna levantou a mão, Tustrazara acenou com a cabeça, e o jovem falou: — Eu criei um deus, mas na verdade não sei se posso chamá-lo de um "deus". O nome dele é Johan, ele tem as características de uma divindade, mas nunca foi humano. Johan era um amontoado de força e energia que se acumularam depois de muito tempo no espaço, até que subitamente essa força ganhou consciência da própria existência e começou a moldar sua forma. Johan então percebeu que ele era diferente das outras forças e energias do espaço, ele possuía livre arbítrio de ser mudado naturalmente além de poder mudar a natureza das coisas pela sua própria vontade. Apesar de tudo, Johan não possui uma forma humana, você pode até dizer, professor, que Johan é só uma fumaça azul com capacidades humanas, mesmo assim isso não o faz dele humano. Mas se ele não é humano e nem deus de acordo com sua definição, o que ele seria? — o garoto gesticulava com brandura.

Tustrazara fita fixamente ao garoto por pequenos segundos, e começa a fazer o de sempre, apoia o queixo no dedo, olha para cima, e começa andar pra lá e pra cá com a mão direita carregando seu pergaminho nas costas. O filósofo parece ter certa dificuldade em discernir do que se trata essa coisa que seu aluno acabara de criar. Uma coisa que não era humano e nem deus, mas tinha a consciência de um humano e a vontade de um deus. Uma coisa que era duas ao mesmo tempo que era nenhuma.

Tustrazara finalmente chega numa resposta, ou assim o garoto pensa: — Eu pergunto-te, se houvesse nascido um novo tipo de ser, qual classificação tu o concederia? Senão um deus ou humano?

O aluno faz um rosto intrigado, enquanto os colegas o olham e começam a ajudá-lo na nomificação dessa coisa. Da mesma forma estava o rosto tingido de Tustrazara, que internamente punia-se por nunca ter pensado nisso, e mostrava incerteza diante de seus alunos fazendo nutrir incredubilidade, até que um outro aluno respondeu no lugar do criador da coisa.

— Acho melhor pensarmos que o que o que nosso colega ali criou não é um deus, então devemos considerar o argumento dele inválido, já que estamos buscando a criação de um deus, tudo além disso, que não faz parte da definição que o professor formulou não pode ser identificado como o deus que buscamos.

O aluno sem perceber criou uma divisão de águas. Alguns já possuíam a mesma ideia que ele e concordaram com sua exclamação, e outros começaram a se questionar se a definição de Tustrazara era de fato crível. E enquanto esse novo debate tomava forma, o tempo passara e a noite já batia na caverna. A palestra terminou com um gosto de inconclusão, e Tustrazara encontrava-se um pouco frustrado por sua definição supostamente haver falhas.

Quando todos já tinham se ido, o magro teólogo continuou perambulando pela região, ponderando sobre a criação de seu aluno. Pra ele era um quebra-cabeça com novos tipos de peças, onde essas novas peças formariam uma imagem nunca antes vista. Vagando pela região, ele se encontra com alguns de seus companheiros teólogos e filósofos. Dentre eles havia os que apoiavam a sua ideia, e outros que o refutavam apenas para fazê-lo escárnio, mas no fundo queriam que sua especulação fosse reconhecida, para poderem dizer que o "ajudaram" a chegar naquela conclusão.

— Sabem sobre a minha teoria de criar um deus? Hoje um dos meus alunos criou uma coisa que não era um deus nem um humano, digo-lhes, era um deus que nunca foi humano, mas ao mesmo tempo não era um deus pois não tinha total controle sobre as coisas. Não sei sequer se posso chamá-lo de "ser".

— Ora, é só um argumento inválido então? O seu deus não precisa antes ser humano para ser deus? Ora, obviamente seu aluno está errado em várias formas. — disse um dos amigos que lhe escarneciam.

— Deixa ele, você sabe que a dor de pensar ainda vai te matar. É o teu argumento indo contra timesmo. No dia que o refutarem eu apoiarei o autor do argumento. — respondeu mais um que o escarnecia.

— Por que não pensamos de uma forma mais simples? Sejamos sinceros, Tustrazara está sendo singelo pensando num único tipo de deus. Imaginem se no futuro esse mesmo aluno fizesse como Tustrazara, tentasse criar o nascimento de um não necessariamente deus, mas uma coisa nova qualquer. É os seus frutos como filósofo sendo plantados Tustrazara, fique feliz com isso. O benifício inerente nisso é que vai ser famoso seja como um mentiroso seja como um sábio. — disse um dos seus amigos que lhe apoiavam.

— Talvez meus companheirostenham razão. Isolarei-me por um tempo, ponderarei sobre essa questão, até chegar numa nova teoria baseado na minha e na daquele jovem.

— Boa sorte.

— Medite bem.

— Tenha um mau azar.

— Volte antes que seu aluno cresça pra te refutar, haha.

— Até lá muitos deuses já terão sido mortos e nascidos, é bom criar algo que esteja acima de um deus. Esse é o jogo da vida.

Falavam seus amigos enquanto ele se afastava, alguns dos outros não puderam ser ouvidos pela distância que se estendia. Enquanto vagava pelo nada, a noite se intensificava e era possível ouvir os sons da natureza, sons dos animais etc. Talvez quando Tustrazara disse que iria se isolar, o fez com a firmeza de que estava pronto a morrer para chegar a uma conclusão sobre aquela reflexão. Era a prática de seu lema, a dor pela sabedoria.

Após tanto andar, subiu em um ponto de um monte, e num local a vista do horizonte, sentou-se com as pernas cruzadas, costas erguidas e rígidas, e fechou os olhos, dando fim a toda ligação com o mundo externo.

Ficou bastante tempo assim, tentando achar respostas e consertar o erro de sua teoria, até que certo ponto ele ouve uma voz na sua cabeça chamando seu nome, uma voz fraca ecoando em sua cabeça que a cada intervalo de tempo ficava mais forte. Curiosamante, não era a voz de uma pessoa. Era mais como a voz com o timbre de um animal articulando como a de um humano.

E a voz falou: — Eu sei a resposta pra essa questão.

Com isso, Tustrazara acreditou ser a voz da razão, crendo que finalmente pôs os pés no caminho pra chegar à conclusão e que agora não poderia parar e nem ser interrompido, senão perderia o caminho. Então ele pensou: — Me leve até a resposta, me mostre a conclusão final disso. Como criar um deus?

A voz falou no mesmo tom anterior: — Eu posso te mostrar muito mais. Além do final há todas as respostas, todos os ingredientes para dar a luz a um deus. Porém, seu amor à sabedoria precisa se igualar ao dele.

Tustrazara respondeu: — Morrer sabendo ou viver sem saber? Se morrer é saber, então eu nasci para morrer.

A voz então finalizou, em um tom de exclamação: — Eis o nascimento de um deus!

A noite dissipou-se, e um novo dia invadira a região. O monte onde Tustrazara isolara-se ficava próximo do local onde havia habitantes, então era comum uma hora ou outra ver pessoas passando perto do monte. Por travessura do destino, um de seus companheirosavistou seu corpo derramado no chão. Ficara perplexo e chamou seus colegas. Tempo depois, uma multidão se formou no local, e todos ficaram espantados e chocados com a visão que lhes chegava aos olhos.

Tustrazara havia morrido, ele se jogou do monte e não sobreviveu à queda. Essa foi a conclusão que seus amigos chegaram.

— Ele ficou louco, foi isso que ocorreu. — falou um de seus amigos.

— Talvez percebeu que seu pensamento era deveras insano que resolveu tirar a própria vida. Eu o admiro, faria a mesma coisa a preferir viver a vergonha de um louco. — falara outro de seus amigos.

...Anospassaram-se. Seu mesmo aluno que um dia apresentou um argumento que o refutava, agora era um filósofo teólogo que assim como seu mestre, espalhava as palavras de sua ideia. Ideia essa nascida do desejo de negar a proposta de Tustrazara, ideia que nasceu a partir do argumento de Tustrazara, pois toda a sua estrutura era uma negação à teoria da criação de um deus que Tustrazara formulou. E diferente de seu professor, esse aluno que se chama pelo nome de Fausto, escreve suas ideias em pergaminhos mais aceitos que seu mestre jamais foi.

Por outro lado, os alunos que antes apoiavam suas ideias inacreditavelmente sucumbiram ao argumento de Fausto. Era a virada d'uma mesa de xadrez. Seus confrades, alguns mortos, nunca levantaram um único dedo para apoiá-lo, e um deles relutantemente ajudava Fausto. Nascia uma nova filosofia na Babilônia.

Tustrazara após morto ficou famoso como o teólogo tolo, com sua teoria que nitidamente apresentava falhas, falhas essas que ficaram mais claras com o advento da filosofia de seu ex-aluno.

Embora esses sejam os eventos após a sua ida, a causa de sua morte permaneceu no âmbito das suposições. Até hoje ninguém soube se morrera pela queda, ou morreu antes de se impactar no chão. Seus amigos, mesmo aqueles que o praticavam zombaria, sabiam que ele era convicto em seu pensamento e nunca renunciaria ao suicídio.

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