Notas iniciais
Essa história está guardada na gaveta desde 2014. Agora, com algumas modificações, resolvi postá-la. Espero que gostem. :)

Os portões abriram-se assim que me aproximei da propriedade. Era um lugar longe da cidade, rodeado por uma imensa floresta. Talvez fosse a área mais verde que você pudesse encontrar em quilômetros, então pude entender o porquê que um dos empresários mais ricos de todo o país vivia recluso da sociedade, longe de toda poluição e correria da cidade. Era realmente um lugar magnifico, mas extremamente quieto. Durante toda minha viagem para chegar ali, podia ouvir o canto dos pássaros e ruídos de outros animais. Mas, por alguma razão, ali naquela parte da floresta, os animais estavam silenciosos, quase como se não existissem e se existiam, estavam em suas tocas protegendo-se sabe-se lá do quê. Lembrei-me das histórias que meus avós contavam quando eu era criança, sobre Vlad III e suas aventuras por nossa querida Romênia.

Estacionei minha velha camionete perto de uma fonte onde algumas flores a muito mortas, precisavam ser retiradas urgentemente. O jardim parecia ter sido abandonado a muito tempo. Para um cara podre de rico, contratar um jardineiro não podia ser tão difícil. A crise chega para todos, pelo visto. Mesmo assim, com todo aspecto de lugar amaldiçoado, não deixava de ser bonito. O estilo gótico da mansão a minha frente, com toda sua imensidão de detalhes da época, me fez dar um grande suspiro. Com certeza aquela propriedade valeria muito, pela riqueza histórica e por permanecer intacta, em meio a floresta, durante tanto tempo.

Ajustei meu blazer e passei a mão em meu vestido. Aparentemente apresentável, pensei. Depois de quase dois meses tentando persuadir aquele homem, finalmente ele tinha cedido! Em poucos minutos eu estaria entrevistando o proprietário de uma das maiores empresas exportadoras de vinho do país! Com certeza eu seria promovida naquele jornalzinho na qual eu trabalhava e até, se eu me permitisse sonhar longe, seria contratada por um jornal maior, fora do país.

Antes mesmo de bater na imensa porta vermelha à minha frente, um intrigante senhor beirando os 60, abriu-a com um sorriso sinistro e fez uma reverência.

— Srta. Stela, o patrão irá recebê-la em instantes. Entre e fique à vontade. – Ele me guiou até um sofá perto da lareira da sala enquanto me servia uma taça vinho. Aquele senhor era meio corcunda e baixo. Talvez consequências da idade. Seu olhar cansado sugeria que já vivera e presenciara coisas da qual nenhum outro ser humano vira ou sentira, e aquilo me deu calafrios. O senhor afastou-se dizendo que teria que ir à cozinha dar uma olhada no jantar e desapareceu, me deixando ali sozinha, naquele imenso salão com somente a lenha estalando ao ser consumida pelo fogo. Por mais que já estivesse mais do que acostumada a visitar casarões medievais, não pude deixar de me impressionar. Aquelas paredes, se tivessem como se comunicar, contrairiam histórias impressionantes e inimagináveis, com certeza.

— Essa casa é um belíssimo artefato histórico, tenho que admitir. – Uma voz veio da escada. O lugar estava escuro, mas tinha certeza que se tratava do proprietário. Ele aproximou-se lentamente, quase como se estivesse em algum ritual religioso, descendo a escada elegantemente. Sorri um pouco estonteada com sua aparência, mas estendi a mão em um gesto profissional.

— Obrigada por reservar esse tempo ao nosso jornal local – Eu disse enquanto ele, sem tirar seus olhos dos meus, beijou meus dedos. Jurei ter vistos seus olhos mudarem de cor, mas pode ter sido só o reflexo. Retirei lentamente minha mão da sua e sorri desconcertada.

— Isso é o mínimo que eu posso fazer para meus queridos consumidores e conterrâneos! – Ele sorriu e pude notar um tom de deboche em sua declaração. Anotado. – E enquanto essa entrevista ocorre, que tal jantarmos? Meu mordomo já deve ter posto a mesa.

Grigori Vladimir era verdadeiramente um homem estranho. Era alto e estava elegantemente vestido com um terno preto. Não pouco mais velho do que eu, seu tom de voz sugeria que tivera uma infância muito severa, com aulas de etiqueta e tudo mais. Tinha um sorriso misterioso e um olhar penetrante, quase hipnotizante e juro, se encontrasse aquele homem em alguma boate, com certeza era com ele que voltaria para casa no final da noite. Aparentemente as coisas mais modernas naquela mansão era uma TV LED e alguns pôsteres de alguns filmes de terror/horror americanos. Hitchcock parecia ser seu favorito.

— Vejo que o senhor é um amante do horror hollywoodiano.

— Nada comparado ao verdadeiro horror, minha querida.

Aquele comentário me fez sentir um arrepio por todo corpo. O que que estivesse prestes a acontecer, meu cérebro gritava para terminar aquela maldita entrevista e sair logo dali. A sala de jantar tinha em seu centro uma enorme mesa, talvez da mesma época da casa. O Sr. Vladimir puxou a cadeira para que eu me sentasse e sentou-se do outro lado da mesa, a quase seis, sete metros de mim. Não sei como ele pretendia responder a entrevista dada sua distância, mas talvez a acústica da sala ajudasse. Seu olhar analítico estava me deixando sem jeito, mesmo ele estando do outro lado da sala, então, dei graças por ele ter mantido essa separação entre nós.

O jantar foi servido. Era sopa com fatias de pão. Nada de sofisticado ou impressionante. Nosso típico jantar romeno. Isso mostrava o quanto ele era apegado às nossas tradições. E por mais deliciosa que ela estivesse, não o vi em momento algum levar sequer uma colherada à boca. Somente sua taça de vinho quase vazia. Seu sorriso era malicioso enquanto me encarava.

— Então, vamos começar a entrevista querida?

— Cla- claro, sr. Vladimir. – Limpei meus lábios com o guardanapo e em seguida peguei meu bloco de anotações.

— Até onde eu sei, o Senhor está no céu. Pode me chamar de Grigori. – Ele levou a taça de vinho a boca e passou lentamente a língua entre os lábios, como se bebesse alguma coisa divina. Seus lábios eram cheios e róseos e eu poderia apostar que ele beijava bem. Mordi meu lábio inferior e balancei a cabeça. Precisava me concentrar na entrevista.

— Bom, Grigori, com essa sua juventude notável, como você se sente por ser responsável pela maior e melhor produção de vinho do país?

— Ah, querida. Você com certeza conhece a história de minhas gerações anteriores. De simples camponeses plantadores de uva à grande indústria de vinhos que é hoje. Eu me sinto cumprindo meu dever perante meus antepassados e pretendo levar o nome dos Vladimir até a última aldeia na face da terra, pela eternidade. As coisas do sangue devem permanecer no sangue – Ele falou essa última frase em um tom mais sombrio. Encarei-o séria. Ele continuou, com um drama quase idólatra – E pelo que eu sinto... O sangue é algo tão quente, tão enlouquecedor! Se as pessoas soubessem de seu poder, viveriam embriagadas e insaciadas.

Deixei meu lápis cair. Pisquei duas vezes. O ar estava me faltando.

— Aqui, querida – Grigori estendia o lápis à minha frente. Mas como...? Ele estava tão... – A senhorita está bem?

— Er... Sim. Vamos continuar? – Falei, recuperando aos poucos a respirar normal. Talvez o vinho já estivesse me afetando. Nunca fui forte para bebidas. – Qual o segredo para manter o negócio da família por tanto tempo?

Ele havia se sentado novamente no seu lugar do outro lado da mesa. Mas mesmo assim, inclinou-se para frente como se estivesse perto o suficiente para sussurrar algo, e me encarou. Senti novamente um arrepio pelo meu corpo.

— Posso te contar um segredo? – Assenti. E em um piscar de olhos, ele estava do meu lado, apreciando minha taça de vinho. Então sorriu diabolicamente – Pelo visto você está percebendo que eu não sou como os outros empresários.

— S-sim. – Gaguejei. O que diabos estava acontecendo ali? Como ele veio parar tão depressa ao meu lado? – Q- quem é você?

— Estar mais para o quê. – Ele me rondava, passando as mãos em meu pescoço enquanto inalava meu perfume. – O conselho que eu daria, que dou a qualquer pessoa é: fique longe. Seja de mim ou de minha mansão. Aqui dentro, o prato principal é aquele que atravessa por conta própria, aquela porta.

Então ele começou lentamente a massagear minhas costas. Ao mesmo tempo, uma onda de medo e desejo tomaram conta de mim. Com certeza eu teria dificuldade de me levantar. Suas mãos eram firmes e seu hálito, frio como a brisa da madrugada em pleno inverno.

— E como a senhorita insistiu vir aqui, depois te dois meses de recusa, terei que fazer alguma coisa a respeito. – Ele me virou de modo que eu ficasse cara a cara com ele, e sorriu. Não conseguiria correr nem se eu quisesse, seu olhar me atraía para mais perto e eu estava petrificada. De medo. De desejo. Ele era magnificamente assustador. Grigori me agarrou pela cintura e me pôs na mesa, posicionando-se entre minhas pernas. Soltou meu cabelo e inalou o cheiro que veio dele. – Outra curiosidade sobre mim, Stela: eu tenho o poder de enfeitiçar as pessoas. E você é tão quente, tão viva... que eu tenho pena do que terei que fazer com você.

Aquelas palavras soaram tão provocantes que bloqueei completamente a ameaça que as mesmas possuíam. Grigori puxou meu cabelo e mordeu de leve meu pescoço. Gritei de dor e ao mesmo tempo me deleitando com seu toque, enquanto gentilmente, ele acariciava meu quadril.

— Esse vestido... O vermelho cai tão bem em você, senhorita! É uma das minhas cores favoritas, se quer saber. E seu gosto, meu bem, é estonteante. Você mesma iria adorar saber o quanto é delicioso o que corre em suas veias.

Então ele me beijou. No começo de leve, quase apaixonado, e quando dei por mim, ele puxou meu lábio inferior, fazendo-o sangrar.

—Sentiu esse gosto? É tudo o que eu quero de você.

Ele me jogou abruptamente em cima da mesa e me chutou, me fazendo parar perto da porta. Um machado que estava decorando a sala, caiu entre minhas pernas. Tossi engasgada com meu próprio sangue. O que diabos estava acontecendo ali?

Grigori aproximou-se de mim e me levantou pelo pescoço, encostando e pressionando-me contra a parede. Olhei em seus olhos e eles mudaram de cor novamente. E através deles, vi o reflexo de mim mesma ensanguentada. Estremeci.

— O- o que você quer? – Tentei falar, mas a falta de ar não ajudou muito. Ele riu como se o que eu estivesse contando uma piada. Por fim, ficou sério outra vez.

— Só quero brincar antes do jantar, querida.

Minhas pernas tremiam e meu coração estava prestes a sair do peito. Era um demônio que estava diante de mim, e não um humano como ele deixava transparecer.

— Aparentemente você está descobrindo o que eu realmente sou, não é? – Ele riu novamente – Apesar dessas novas versões de vampiro se apaixonando pela mocinha... Bom, não sou adepto a tal ideia. Seu sangue é maravilhoso demais para não ser provado. Sugado. Mas você está me saindo uma mocinha bastante forte, eu poderia repensar a esse respeito.

Tentei empurrá-lo sem sucesso. Grigori me segurou mais forte contra a parede e puxou meu cabelo de modo que meu pescoço ficasse exposto.

— Sabe, eu preferiria que você estivesse correndo apavorada para a brincadeira ficar mais interessante. Mas acho que não me darei esse luxo essa noite.

De repente seus dentes estavam em meu pescoço. Senti meu corpo enfraquecer. Senti seu sorriso contra minha pele e depois o gosto do meu próprio sangue invadindo minha boca. Mas o que eu estava fazendo, deixando-me morrer daquela maneira? Mordi seu lábio e chutei-o entre as pernas, correndo em direção à saída.

— Interessante. – Ele já estava em minha frente antes mesmo de eu conferir se ele estava atrás de mim. Ele me pegou pelo braço e me jogou como uma boneca, em cima da mesa de jantar. Um garfo entrou em minha coxa e eu desesperadamente tentava sem sucesso, arrancá-lo.

— Sabe querida, eu estava pensando. Talvez tenha chegado a hora de arrumar uma noiva. O que acha? Você me parece bastante... satisfatória.

— Vai para o inferno!

— Que coisa feia! Não fale assim com seu noivo, Stela! O que a sociedade vai pensar? – Então ele dar sua risada demoníaca mais uma vez. – Quem é que liga, não é mesmo? Você não vai viver muito, pelo visto.

Ele me jogou no chão e eu pude sentir e ouvir minhas costelas quebrando. Grigori pulou, ficando por cima de mim e cravou, mais uma vez, seus dentes no meu pescoço.

Acordei gritando. Tateei em baixo de mim. Ainda estava na minha cama. Olhei o relógio que ficava na cômoda ao lado: três e meia da manhã. Suspirei aliviada. Foi só um sonho ruim. Ri de nervosa e acendi a luz. Levantei-me e fui em direção ao espelho. Não estava acreditando no que via. Meu corpo estava todo grudento de sangue e suor. Meu olho estava roxo. Meu Deus, aquilo não poderia está acontecendo! Vi o pânico tomar conta em meus olhos. Grigori surgiu atrás de mim e me olhou através do espelho.

— Bem-vinda de novo, querida.

Então cravou os dentes novamente em mim. Desta vez eu não tinha forças o suficiente para resistir. Entreguei-me a morte. Era a única coisa na qual eu podia me agarrar para ter minha liberdade.

Notas finais
E ai, o que acharam?
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!