A Enfermeira De Vermelho - EDITADA
1 Sem Amanhã
Notas iniciais
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Eu adotei esse diário para me ajudar em a externar algumas situações pelas quais eu tenho passado. Acredito que eu esteja precisando desabafar, mas infelizmente não tenho ninguém que possa me ouvir e me entender. Eu vou usar ele em meus momentos ociosos para que eu possa ter alguém com quem conversar, ou melhor, acabar conversando comigo mesma, refletir é a melhor colocação.
Eu vou aproveitar também para anotar cada passo da minha profissão, se é que posso chamar de profissão, como as rotinas do pronto atendimento, pacientes, nomes, horários, medicamentos.
Certo, vamos concordar que este diário está bem mais para um confessionário pessoal do que uma cartilha de como agir dentro de um hospital.
Mas enfim...
O grande dia havia chego, parecia ser uma mentira ou um sonho, mas era a minha hora de entrar no hospital Alchemilla. Não iria ser de imediato, iria levar mais algum tempo, porém o acordo já estava firmado. Eu estava feliz, pois ansiei por este dia nas últimas semanas como a terra seca anseia pela chuva. E por mais que eu quisesse ou tentasse externar essa felicidade, lá no fundo, eu não queria. Eu sempre sonhei em ser atriz, sempre quis ser livre, mergulhar na arte e atravessar o país numa caravana sem rumo, mas o sonho da minha família triunfou. Estou com um pouco de medo, tensa e aflita são as características que me definem neste momento. Espero que tudo dê certo no final de qualquer forma.
A profissão médica é uma tradição na minha família há anos. Eu não seria a ovelha-negra que iria contra isso. Não agora. Talvez não eu. Não tenho forças para isso. Não tenho forças para me rebelar contra eles. E isso é tudo por culpa de Kaufmann, que eu estou entrando lá assim tão cedo. Mal terminei o colegial e ainda nem cheguei à maioridade.
Jantares, festas, reuniões. Tudo parecia tão perfeito e divertido quando eu era mais nova. Mas foi só eu crescer para ver o que realmente essas coisas são e o que elas significam para as pessoas. Competições, rixas, duelos, jogos de prazer, poder e sedução. E todo esse meu sentimento de desilusão piorou quando ele me tocou intimamente pela primeira vez. Com o consentimento de minha mãe, para minha infelicidade e martírio.
Os dias se passaram e as primaveras trocavam de lugar com os outonos. Durante alguns anos a vida seguiu assim. Eu era vista apenas como uma escrava pela minha mãe e eu tinha que obedecer. Se não eu seria punida. Mas que ano estamos? Isso é tão retórico do século passado. Até quando as famílias de Silent Hill irão estar apegadas ao passado e suas tradições inescrupulosas de seus ancestrais?
Minha família me via apenas como uma moeda de troca. E apesar de estar em tempos um pouco mais modernos, ainda agimos como se estivéssemos no período colonial desta cidade. E sendo considerada uma oportunidade de enriquecimento para a minha família, eu tenho me encontrado com Kaufmann. Talvez mamãe ache que ele é uma boa influência para mim afinal. Por ser um homem mais velho, e rico. Aposto como sua esposa ficaria chateada se soubesse. Coitada, sempre tão vazia e apagada. Ainda mais do que eu tendo que usar essas roupas antigas e conviver num ambiente tão sombrio.
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Passei algumas semanas em treinamento no hospital BrookHaven ao Vale Sul antes de engrenar no Alchemilla. Tudo o que eu aprendi neste lugar servirá de apoio ao meu desenvolvimento como uma enfermeira. Porém, como lá se trata de uma região um pouco mais boêmia, eu tive contato com um pouco do mundo em qual eu sonhava conhecer. Mas sem me enganar muito, pois estamos falando de Silent Hill, lar das pessoas mais vis e sádicas que uma cidade possa ter. Lá eu pude ter noção do que é essa cidade por trás das vistas espetaculares do prefeito. É muito maior do que famílias se relacionando em troca de poder e competição de conquistas e sadismo. As pessoas deste lugar realmente são inúmeras loucas! Em todos os sentidos. Para mim, mesmo que não se trate de alguém com transtorno ou alguma patologia, essas pessoas inconsequentes deveriam ser confinadas no Sanatório. E ainda acredito que não seria suficiente para comportar tantas pessoas.
Silent Hill é uma cidade pequena e eu acho que temos muita gente insana junta num único lugar. Isso me dá arrepios. Acredito que isso traga muita influência negativa para nós.
Kaufmann me trata bem, apesar de dizer que eu sou uma presa fácil para pessoas mais espertas como ela. Não que ele queira me chamar de burra, mas de inocente talvez. É que eu sou frágil em vários aspectos. Ele é um homem bem maduro, seria um escândalo se soubessem do nosso envolvimento. Acabaria com sua carreira e com a minha também. A minha família me ofereceu a ele em troca de suborno, pois esse fato chocaria toda a cidade, ou uma pequena parte dela, como não tive outra oportunidade e meu pai queria mais dinheiro, as coisas foram acontecendo. Mas acredito que se todos soubessem que o maior médico da cidade estava envolvido em aliciamento de menores, não iria resultar em nada, pois como aqui praticamente todos são loucos, iriam se sentir familiarizados, estão todos envolvidos. Mas também acho que apesar de muitas pessoas que fazem merdas nas trevas, com certeza condenariam isso às claras. E agora eu já cresci.
Às vezes eu acho que ele me manipula, mas também finjo estar sendo manipulada. Entrei no jogo dele. Preciso saber a fundo o que ele tem feito. Preciso saber o motivo de tantas reuniões secretas com o pessoal da igreja. Ou ele pensa que eu sou só mais uma presa indefesa e ele o caçador? Posso até gostar desse jogo de submissão, mas sou perita em caça aos ratos.
Quando estou com ele, ele consegue me tirar essa imagem de mocinha que todos estão acostumados a ver. Pelo menos ele me faz sentir mulher, madura e segura. Eu não entendo esses meus sentimentos, chego a sentir asco do meu próprio ser. Claro, ele já sabe de muitas coisas da vida e me realiza todos os desejos que eu reprimo, em uma cama. Às vezes ele é rude, imprudente e nervoso. Ainda mais quando eu bato de frente e o enfrento. Ele é muito fechado e focado. Parece traçar seus planos e me usar como cobaia, sempre. Tenho ódio dele por essas coisas. Tenho ódio por tantas coisas. Tanta gente. Tem poucas coisas que me irritam facilmente e uma delas é a falta de confiança que as pessoas têm comigo. Me excluem. Em casa eu sempre sou deixada de fora dos assuntos importantes e com Kaufmann é a mesma coisa. Há momentos que ele me priva de muitos assuntos. Pelo fato de eu ser sua amante, ele diz que “Isso já é o suficiente para não se meter no resto”. Por isso que eu sou tão submissa. Pois deixo sempre as pessoas me magoarem. Fico brava com essas coisas. Tenho vontade de matá-lo, mas eu acho que o amo.
Amo? Acho que é apenas a convivência e a falta de amor próprio em mim mesma. Nunca tive coragem de me rebelar contra meus pais e seguir meu caminho sozinha. Talvez eu devesse matar todos eles.
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Hoje em quanto caminhava próximo à Sociedade Histórica, esbarrei com um rapaz alto de cabelos compridos e claros. Suas vestes estavam sujas e surradas. Seu olhar penetrante e sua voz grave e firme me fizeram estremecer. Ele não me passou medo, mas também não me passou confiança. Parecia ser uma pessoa muito pobre e muito triste.
“Doce fragrância”. Disse ao ajudar a me levantar.
“Obrigada”. Respondi gentilmente ao puxar minha mão de seus lábios. Meio cordial para um mendigo.
Apresentou-se como Walter Sullivan. Parece brincadeira, mas até seu nome é de baixa estirpe. Não me impressionou e nem me comoveu. Continuei a caminhar antes que esse louco pudesse me assaltar ou fazer coisa pior. Jurava ter lido seu nome no meio de tantos prontuários médicos.
“Com certeza mais um maluco” falei em quanto caminhava. No caminho percebi quão cruel eu fui ao julgar aquele rapaz. Estava me igualando às pessoas que eu abominava, e isso não era bom.
Passei pelo Boliche do Pete e segui pela Rua Caroll. Algumas famílias estavam na frente conversando. Com sorrisos e gargalhadas, crianças correndo umas atrás das outras. Era raro de se ver.
Logo ao lado do lugar, o Heaven’s Night mostrava sua indecência. O próprio inferno. Como era possível, duas realidades totalmente diferentes e tão próximas? Apesar de eu achar que aquelas famílias eram turistas ou simplesmente acompanhavam esses caminhoneiros que vêm de todo o canto do país para comprar madeira da reserva. Esse trechinho é bem sujo e sombrio. Prostitutas, usuários de entorpecentes, bêbados, esses motoristas nojentos. Credo.
Era fim de tarde e o crepúsculo noturno provocava a nossa névoa-santa-de-cada-dia-e-noite. Sutilmente como leves brumas. Sempre ocorre esse fenômeno por aqui, de manhã cedinho e ao anoitecer. Dá um certo retoque na estética, parece como as cidades dos livros. Florestas de Pinheiros em volta, céu estrelado e essa nevoazinha bem baixa na cidade. As colinas logo atrás. Eu acho linda essa paisagem.
Ao passar na frente do clube, ouvi alguns gritos e várias garotas, apenas de calcinha e cinta-liga saíram correndo pela rua. Algumas caíram pela escada, pois deveriam estar bêbadas e drogadas. As demais correram rua acima ou pularam a cerca para o terreno baldio à frente. Um casal se amassava logo a um canto. Estavam pegando fogo. Palavras de mais baixa escala eram proferidas por toda parte. Acelerei um pouco o passo quando ouvi uma das putas me chamar. Parecia ser aquela suja da Maria de novo.
Encarei-a intensamente em quanto continuava a caminhar.
“O que foi querida? Não esqueça que você também é como nós. Não adianta correr. Eu vi você com aquele médico e sei que ele é casado!” Terminou a moça com uma longa e alta gargalhada sínica e maligna. Costumávamos ser amigas quando estudamos juntas. Isso já passou.
Não me abati por essa simples provocação barata e continuei andando deixando a música que ia se abafando para trás. Nunca tive nada contra a vida de ninguém, talvez só me faltasse oportunidade de conhecer o Heaven’s Night melhor.
Nessa altura os postes de luz já haviam sido acesos.
Estava calma agora e respirava fundo para mais um plantão noturno. Ainda bem que faltava pouco para sair daqui. E rezei tanto para que o Alchemilla fosse mais flexível. Com tantos dias de rotina, eu me acostumei a tudo. Apeguei-me em certo ponto.
A paciente Beatriz Lindemann veio transferida ontem da prisão diretamente para o isolamento do BrookHaven. Após ter matado seu marido, Beatriz ficou louca e ameaçou cometer novos assassinatos, inclusive o de seu filho. O pequeno Alice. Nessa manhã, ela agrediu algumas enfermeiras e foi transferida para o Alchemilla. Espero não ter que trabalhar com essa louca. Odiaria ter que cuidar dela.
O Senhor Sunderland chorava desolado na recepção. Me informei sobre o assunto. Sua mulher estava em leito de morte. Aquela mulher que estava definhando em um dos quartos no terceiro andar. Nem me arrisco a vê-la, ouvi dizer que sua infelicidade a deixou agressiva e impertinente, odeio pacientes que em situação assim se rebela contra nós. Pobre rapaz, tão jovem e tão sofrido. Imagino o que deve estar passando. Mas creio, que ela irá melhorar como das duas outras vezes que estiveram aqui e logo irá descansar em casa, longe de Silent Hill.
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Finalmente eu já estava trabalhando no Alchemilla e graças a Deus estava tudo indo bem. É uma profissão que eu não me importo e não movo muitas forças para me dedicar. Mas aqui nesse hospital é diferente. Algo me estimula. Tenho medo disso, não quero ser enfermeira para o resto da vida.
Kaufmann ficou animado na semana em que eu comecei com ele. Passou mais tempo sorrindo e se divertindo comigo.
Pude ver aquele hospital com outros olhos, sentir melhor o que se passa lá dentro. Memorizar cada ala, cada andar. Sinto-me até privilegiada, pois sou a única que usa o uniforme vermelho. Até me chamam de “A Enfermeira de Vermelho”. Na verdade é apenas um suéter vermelho por cima de um jaleco branco. Essa cor fica bem em mim, gosto de me destacar no meio das pessoas, pareço importante. Bem, havia me tornado uma Enfermeira Licenciada Praticante.
Melhor do que as vestes do BrookHaven. As daqui são bonitas e coerentes, quanto as de lá são vulgares demais. E o pior de tudo são aquelas enfermeiras solteiras e jovens que costumam se oferecer aos pacientes. Prefiro a companhia das enfermeiras daqui, que são mais maduras e mais receptivas.
Estive acompanhando a Senhora Lindemann ultimamente e ela não parece estar bem. Soube que sua tia veio de uma cidadezinha no interior da França para levar seu filho embora. Imagine o que se passa com aquela criança. Ele esteve todo esse período na Wish House que fica no meio da floresta entre Silent Hill e Ashfield. Sei que lá não é um dos melhores lugares para se ir nessa cidade. Mesmo que essa casa de acolho à crianças e jovens fique nas dependências de Ashfield, não é um bom lugar para uma criança tão boa estar. Tenho dó.
Ouvi a velha resmungar algo como “Pobre Beatriz, sonhou tanto em vir para a América como sua mãe. E acabara como tal, louca e morta”. Então resolvi procurar sobre a mãe dela e até onde investiguei, a mãe de Beatriz Lindemann teve sua filha já com uma idade avançada, e quando veio para Silent Hill, abandonou Beatriz ainda bebê. E não ficou louca, talvez, mas morreu no naufrágio de umas das embarcações lá pelo Anos 50. E o mais estranho é que em 1918 uma embarcação chamada A Pequena Baronesa afundou no Lago Toluca matando todos os tripulantes. Consequentemente, ao passar dos anos, outras embarcações também afundaram dando uma má reputação para passeios na cidade. O que sempre me deixou intrigada. Sempre tive interesse nos contos das embarcações afundadas que sucederam a Pequena Baronesa. E a mãe de Beatriz estava em uma dessas embarcações.
A Lindemann mãe veio para Silent Hill, engravidou, deu à luz, abandonou sua filha e depois morreu afogada. O que será que houve com Beatriz após estes fatos? Enfim.... Nada que comprovasse que sua mãe estivera louca.
Estou acompanhando uma garota chamada Alessa Gillespie. Eu já havia a conhecido no BrookHaven em sessões psiquiátricas, ela vem ao Alchemilla para tomar suas injeções e medicamentos prescritos por Kaufmann. O único problema é sua mãe. Odeio Dahlia desde que eu era criança. Sei muitas coisas sobre ela. Pobre criança deve viver horrores com essa mulher. De santa ela não tem nada. Preocupo-me com seu envolvimento com Kaufmann e essa idolatria ao culto da igreja.
Não sei muito sobre o problema da garotinha, umas das minhas restrições impostas doutor, mas às vezes, a pequena apresenta mudanças drásticas de humor, raiva e tristeza incontroláveis. Uma forte bipolaridade. Acho que é isso que eles não querem que eu e nem ninguém descubra.
Kaufmann me encarregou de cuidá-la, apenas.
Estranho dizerem isso dessa pobre menina, acho que é só para mim que Alessa mostra um lado bem serena.
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Infelizmente eu precisei parar de relatar os acontecimentos. Briguei feio com Kaufmann e estive fora dos meus pensamentos por alguns dias e nem trabalhar eu fui. Ele me obrigou a usar uma versão mais forte da White Claudia. Eu tive que aceitar.
Desde então não sou mais a mesma...
Há momentos que eu sinto um grande ódio e uma tristeza profunda. Minha produtividade caiu muito. Talvez seja isso que ele tanto dava para Alessa. Uma versão da droga injetável, pelo menos ela não tem que passar pelo constrangimento de ter que aspirar um pó branco. E as minhas reações estão sendo similares as quais a garota apresenta. Ele já vinha desenvolvendo esta droga e usava a garota como cobaia.
Desde que estamos juntos ele vem me dado essa substância só que de uma forma mais leve. Nunca mencionei nada, pois não me tinha importância. Hoje, isso está acabando com a minha vida. E no fundo eu gosto muito.
Eu me sinto sozinha e vazia. Não consigo mais sorrir. Estou desesperada. Estou ficando louca. Preciso de mais daquele medicamento. Preciso usar mais Claudia...
Acho estranho o nome dessa droga, ou medicamento alternativo como diz Kaufmann, Leonard Wolf é parceiro de Kaufmann e Dahlia em alguma coisa, pois são muito amigos. E a filha de Leonard, chama-se Claudia, inclusive ela é loira. Teria isso algo haver? Acho que é apenas um delírio, apesar de que podem estar usando Alessa e Claudia para os esperimentos. Alessa eu tenho certeza. Mas o que a pobre da Claudia teria para ter que tomar essa droga?
Kauffmann sempre me deu uma versão mais leve, e essas garotas estão usando essa versão mais refinada, mais forte. Eu preciso dessa versão.
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Hoje eu tive um grande susto. Alessa havia sido queimada viva.
Seu corpo estava completamente deformado.
Pedi à Kaufmann para cuidar dela, pois já simpatizava com a garota. Ele concordou.
Descobri que Dahlia fora a responsável, mas que havia fugido da cidade.
Entrei em pânico ao ver aquela criança naquele estado lastimável. Horrível.
Ela não parava de jorrar sangue. Não conseguia dar conta. Suas cicatrizes nunca melhoravam.
Acabei brigando novamente com Kaufmann. Eu queria sair daquele lugar. Estou realmente louca e ainda dependente daquilo. Me sinto inválida. Mesmo agora sendo uma Enfermeira Médica Especialista. Eu não estava conseguindo resolver os problemas dos pacientes, do hospital e quem diria os meus. Aquela vontade de matar todos tinha voltado.
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Kaufmann e alguns médicos finalmente a isolaram no subsolo. Sinto por não poder descer até lá. Estou proibida. Mas finalmente? Era essa a solução? Eu ansiei por isso?
Que desespero...
Estou brava, mas muito triste.
Eu não entendo o porquê em deixar aquela garota viva, ou o que está a mantendo viva.
De tão louca que estou, vejo sangue e pus escorrer pela torneira. Um fluxo forte. Por mais que eu feche o registro, aquela coisa podre continua vindo. O cheiro é muito forte. Acho que é Alessa me chamando.
Estive no teatro e fiquei olhando para o palco por algum tempo... Lembrando do meu sonho de ser atriz. Infelizmente tudo estava acabado. Eu sei que não conseguiria me libertar. O rapaz que havia resgatado Alessa da casa em chamas, Travis Grady veio me interromper. Como sempre fazem quando quero ficar sozinha. Eu não dei bola para ele. Disse que uma mulher louca está à espera de seu filho no Sanatório. E nem sei de onde tirei isso. Minha cabeça está latejando muito. Da outra vez que me viu no motel com Kaufmann eu quase quis matá-lo, mas a influência da droga já estava acabando comigo.
Fui obrigada a dizer que Alessa já estava morta. Ele não parava de perguntar sobre ela. Mas adoraria beijá-lo pelo menos para calá-lo. Oh Deus! Preciso voltar ao normal. Estou péssima.
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Briguei ainda mais com Kaufmann por me proibir de ver Alessa. Sinto falta dela, sei que precisa de mim. Passei a maior parte do tempo chorando. Chorei por qualquer coisa, briguei com qualquer pessoa. Eu saí correndo pelo hospital e me tranquei na minha sala. Fiquei lá por um tempo até me acalmar. Eu só queria aquele pó para me tranquilizar.
Kaufmann enfim resolveu me deixar visitar Alessa, mas acompanhada. Sofri tanto ao vê-la em seu estado piorado. A garota apertou forte minha mão como gratidão. Eu senti, e aquilo confortou muito meu coração. “Alessa eu te amo. ” Disse a ela.
As coisas que eu fiz foram poucas por ela, antes e depois do incêndio, mas para ela já bastou. Eu só dei a ela o que a hipócrita de sua mãe não deu. Muito menos minha mãe a mim.
Alessa não tinha sido a única paciente com queimaduras. Houve uma onda de pessoas queimadas, Beatriz Lindemann veio a falecer num grande e grave incêndio ocorrido no Hotel Lake View. Sim, ela fora carbonizada. A maluca havia conseguido fugir do hospital. Encontrou seu fim. Ainda bem que o pequeno Alice retornou com sua tia para a França. Recomendei seções psiquiátricas para ele.
Tanta tragédia que eu nem sei como consigo escrever. Sem falar nos insetos que estão aparecendo aos montes. Não sei de onde eles vêm, pois, as portas e as janelas estão fechadas. Estou ficando nervosa com esses bichos. Estão por toda parte e suas picadas não estão cicatrizando, coçam muito e estou cheia de bolhas e feridas pelo corpo.
Agora eu sei que a minha vida chegou ao fim. Estou sem forças para continuar. Estou vomitando muito há algum tempo. Não sei o que me deu, mas não vejo vestígio de nada que tenha estragado em meu estômago. Estou vomitando apenas a biles. Mais um pouco minha alma sai junto. Estou muito fraca. Estou morrendo. Preciso muito daquela droga. Posso sentir o seu cheiro, o seu gosto. Mas não tenho forças para a consumir. Não tenho forças nem para estar em pé direito. Kaufmann me mantém prisioneira neste hospital para que eu trate todos os pacientes, mas eu não tenho condições. Ele me força. Me agrediu. Ele me disse que meus pais não querem que eu retorne mais para visitá-los. Eu estou assustada.
Esse hospital está me matando, as pessoas gritam, escuto uivos durante a noite. Não consigo dormir. Eu preciso fugir.
Eu estou ficando maluca, estou vendo coisas. Eu juro que vi Alessa na minha sala hoje, mas ela ainda está lá em baixo. Eu vi pessoas em chamas pelos corredores do hospital. As luzes se apagaram e havia um odor de carne queimada com podridão. Tem ataduras ensanguentadas espalhadas por toda minha sala. Escorre um lodo grosso do teto onde os insetos se acumulam.
Eu vi Alessa novamente. Eu sei que ela veio me buscar. Ninguém se importa comigo aqui. Não quero mais usar aquela droga. Não verei o nascer do sol, pois para mim, não haverá mais o amanhã.
***
Houve um pequeno período de silêncio e tudo o que estava acontecendo havia sumido. Ouviu-se o girar da maçaneta.
Finalmente! Alguém que está bem, que não esteja louco ou carbonizado. Finalmente alguém se importou.
"Quem é você?"
"Meu nome é Lisa Garland, e o seu?"
"Meu nome é Harry Mason."
“Harry, me diga o que está havendo aqui. Onde está todo mundo? Eu devo ter desmaiado, quando acordei todos tinham ido embora. É horrível.”
FIM
Última Edição: 11/05/2017 — A L C Alves
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