A Encantadora

8 7 - Festival


Notas iniciais
Esse final me deu trabalho. Semanas de planejamento, pensando no que era certo e errado, e no que, afinal, eu queria mostrar pra vocês. Este é o capítulo final. Em seguida, é apenas um epílogo de consolação. Espero que gostem!

Dois dias após o acontecido, a adormecida December acordou com o torso cuidadosamente enfaixado, numa cama grande e confortável dentro de um quarto amplo e luxuoso, que com mais alguns momentos de contemplação, reconheceu como o quarto do rei. Contudo, sua memória dizia que alguns móveis estavam fora do lugar, empurrados para perto da cama: uma escrivaninha, uma cadeira atrás dela e uma poltrona onde Johanne costumava ver a moça dançar durante os shows particulares.

Levantando um pouco a cabeça, olhando para a mesa cheia de papéis, a moça notou que Johanne estava lá, dormindo de bruços no móvel. A cigana, um pouco dolorida, decidiu deixar o monarca descansar em paz. Se levantou, silenciosa, passou na frente da escrivaninha e se permitiu admirar o rosto do rei rapidamente. Contudo, ao abrir a porta, a mesma rangeu e logo ela pôde sentir um corpo frio atrás do seu, assim como mãos conhecidas ao redor da sua barriga ferida e enfaixada.

-Onde você está indo? – perguntou Johanne, colado ao corpo da amada. Sem a camada de pele de pedra falsa, ela podia sentir o coração do loiro batendo forte e rápida, passando uma vaga sensação de agonia.

A pele de pedra. Ela olhou para os braços, as mãos, tocou o próprio rosto. Estava sem ela. A garota entrou em desespero, a mente a mil tentando arranjar qualquer história que pudesse explicar tudo aquilo.

-Eu pretendia deixar você dormir em paz, mas parece que acabei de acordando. Desculpe. – respondeu December, tentando arranjar tempo. – Sobre minha pele, é...

-Não precisa explicar, princesa. – a palavra ressoou fundo no ouvido da garota. – Eu já sei o que é, e quais foram seus motivos. – Então, Johanne tirou uma de suas mãos da barriga da morena e entrelaçou seus dedos nos dedos dela. – Você é ainda mais quente sem aquela pele...

Ambos ficaram ali, parados. Johanne aproveitava o contato de sua pele amaldiçoada contra a da garota, tentando memorizar a sensação de conforto que ela passava. December, por sua vez, tentava digerir as novas informações: como ele sabia? Como ela havia chegado ali? Como ele havia descoberto que ela era a verdadeira herdeira de EternalStone? E mais importante: o que mais ele sabia? E quem havia contado?

-Como você descobriu? – perguntou a garota, ansiosa.

-Depois que eu... – Johanne hesitou, e apertou a moça contra si, possessivo. – atirei em você, todas as salvadoras, inclusive sua mãe, apareceram diante de nós. Elas nos contaram sua história e te curaram parcialmente, logo, você ainda precisava de descanso. Então eu te trouxe até aqui. – resumiu Johanne, desconfortável, com o rosto baixo e os olhos escondidos pelo cabelo.

A garota não sabia por onde começar. Era muita coisa em muito pouco tempo, sua identidade descoberta, a saudade da mãe, dos pais. Ela tentou começar a falar, mas foi interrompida.

-Não agradeça, nem peça desculpas. – pediu o monarca, grudado na garota, o medo crescendo.

-Então, o que há de errado? – perguntou December, não entendendo a insegurança de Johanne. – Não precisa me segurar, não vou fugir. – e para demonstrar isso, ela se virou no abraço apertado dele, ficando de frente e abraçando-o também.

Sentiu o peito do rei subir e descer rapidamente, num soluço. Incrédula, olhou para cima e viu o monarca chorando, suas lágrimas queimando a face imaculada. Desesperada, ela tentou secá-las antes que causassem mais estragos, mas elas eram demais. Eram grandes, rápidas e em grande número.

Lembrou-se de sua mãe, da sua lembrança mais antiga, de seu pai chorando. E finalmente entendeu o significado daquilo.

-Tenho medo do que vai escolher. – respondeu o monarca, a voz tremida, tentando inutilmente segurar a insegurança em forma de lágrimas.

-Escolher? Do que está falando? – perguntou a garota, temerosa.

Nunca, em toda sua vida, tinha visto Johanne assim, vulnerável. Ele sempre fora forte, corajoso, seguro, e na maioria das vezes, arrogante. Vê-lo assim, o oposto de seu normal, enchia-a de tristeza. E de certo modo, fazia com que ela se sentisse culpada.

-Escolher com quem vai ficar. Comigo – e nisso, ele a apertou inconscientemente. – ou com Evanar.

-Escolher? Como, escolher? Não estão todos em paz agora? Não é necessário mais ficar presa a um território, não? – perguntou a garota, ficando desesperada também.

-Não estou falando disso. – e nisso, mais sério, ele se ajoelhou e pegou a mão da princesa. – Eu te amo. E você já sabe disso.

Ela cobriu a boca com a mão livre, incrédula.

-E estou te convidando para viver comigo. – e levou a mão dela aos lábios. – Afinal, você é a princesa regente. É a dona, por direito, desse lugar, desse trono. E desde a primeira vez que te vi, do meu coração.

December olhou piedosamente para o loiro ajoelhado à sua frente. Segurou sua mão e puxou-a para cima, fazendo Johanne se levantar. Olhando no fundo dos olhos do outro, procurou ser o mais sincera possível.

-Não podemos... Nos ver como antes? Nos encontrar como antes? – perguntou ela.

-Não sei se agüentaria. – respondeu ele, já prevendo a resposta dela, embora ainda esperançoso. – Se você escolhê-lo, ao invés de mim, e continuar próxima a mim... – então, ele se aproximou e sussurrou em seu ouvido, tentando provocá-la. – Não sei quanto tempo agüentaria ficar longe de ti, dos teus lábios.

A garota entrou em conflito. Viver tanto tempo sob duas identidades havia deixado-a com o costume de pensar de modos diferentes, como se December e Ravena fossem duas pessoas dentro de uma só mente. Sua mente continuava dividida, contudo, a cigana não existia mais, e ela não sabia dizer qual das metades, ou até ambas unidas, era sua verdadeira opinião.

O fato era que a Ravena dentro de si era apaixonada por Evanar. Pelo jeito dele, sua fidelidade, seu companheirismo. Pelo jeito que ele se manteve ao seu lado, sempre paciente e compreensivo.

Por outro lado, December também era apaixonada por Evanar. Há muito mais tempo que Ravena, inclusive. Contudo, Johanne era um príncipe. Um nobre. Daqueles contos de fadas, sonho de toda menina, e que agora estava ali na sua frente, pedindo sua atenção, seu amor.

E ela era uma princesa. Eternamente, aquela princesa que um dia foi estudiosa, se rebelou e que publicamente morreu. A “atração real”, como ela chamava em seus julgamentos que a metade de December sentia era grande, fantástica e esmagadora.

Mas não era só atração que importava. Pelo menos, não para December.

Vendo a dúvida nos olhos da garota, Johanne, com a confiança restaurada e já bem próximo dela, chegou ainda mais perto. Acariciou o rosto dela, segurando-o com uma das mãos.

Com a outra, entrelaçou os seus dedos com os dela. Mais confiante, olhou-a de cima a baixo, superior, arrogante, um sorriso que julgava sedutor, torto, nos lábios.

“Não é certo trocar alguém que me apoiou desde o começo por outro que nem sequer dava valor ao povo antes de se apaixonar. E que nem se importou em poupar vidas por um bem particular. Por mais que esse bem particular fosse a minha vida”.

E foi com esse pensamento que, lutando contra toda a atração que sentia por ele e a vontade que tinha de ter seus lábios explorados por ele mais uma vez, December empurrou Johanne para trás numa clara rejeição.

-Desculpe. Não posso ficar com você. – disse, enquanto podia ver, quase sentir, o coração do outro se despedaçando como se uma de suas palavras fossem pedras cruelmente atiradas contra o frágil coração do monarca. – Não significa que não gosto de você. Significa apenas que... Você veio tarde demais. Passou pouco tempo comigo. E se apaixonou talvez pela pessoa certa, mas com certeza na reencarnação errada. Sei que não posso prometer isso, mas numa próxima vida, onde não tivermos destinos já definidos antes mesmo de nascer, juro que ficaremos juntos. Mesmo que por pouco tempo. – e se erguendo na ponta dos pés, beijou-lhe a bochecha.

O rei, decepcionado, mas conformado, fechou os olhos ao toque da amada. E, em meio à dor, respirou fundo e para mostrar que ficaria bem, sorriu.

Metade de seu rosto caiu no chão na hora, enquanto a pele recém-descoberta brilhava. E quanto mais sorria, mais pedras caiam no chão, à frente de uma December estupefata e feliz. Um a um, pedaços foram caindo e se dissipando no ar, deixando em seu lugar um novo Johanne, desta vez, com pele macia e normal. Quando parou de brilhar, ele se aproximou novamente da garota, e beijou-lhe a testa.

-Obrigada por tudo que me mostrou e ensinou. Obrigada por ter me suportado, me ouvido, e se tornado minha musa. E, desculpe por ter te ferido. Conte comigo para o que precisar. – disse, com os olhos radiantes. – Agora vá, e cumpra seu destino! – e se afastou, deixando o caminho livre.

Ela olhou para a porta, mas antes, hesitou e não pode deixar de perguntar.

-Até outra vida? – sugeriu, com um sorriso.

-Até outra vida. – concordou o rei, enquanto via a princesa em roupas de cigana correndo pelos corredores do palácio.

*~*~*~*~*

Uma semana após o fim da rebelião de Trikhonus, que resultou na liberdade daquela província, corria pelas ruas o boato de que a cigana havia voltado e que faria um grande show no festival daquela noite, preparado para distrair as famílias que perderam seus entes queridos na revolta.

Todos os habitantes restantes, em sua esmagadora maioria, eram basicamente compostos de mulheres com as caras marcadas e ânimos abatidos acompanhadas de filhos tristes e cansados.

A noite, perto de barracas improvisadas e iluminado por várias tochas, havia um tablado enorme, no mínimo do triplo do tamanho daquele que Ravena costumava utilizar em suas apresentações nas ruas. O festival estava lotado, e a ansiedade por ver a cigana, que ainda que invejada trazia lembranças de tempos mais felizes, era grande e geral.

A catedral ali perto tocou o sino, avisando que já passavam das oito horas, a hora marcada para a apresentação. Mais quatro horas e o ano se acabaria, assim como a missão de December, que já totalizava 31 anos na presente data.

No meio da multidão, surgiu uma garota, num longo vestido alvo, cheio de moedas de ouro presas à barra da saia. Ele brilhava, o vestido mais bonito que ela já tinha vestido, e as pessoas recuavam, dando espaço para que a garota passasse. Em seu rosto, havia uma máscara acinzentada, e todo o resto de sua pele estava coberto ou por luvas ou pelo vestido.

Ao seu lado, havia um homem, que a levava pelo braço, até o tablado. Ele trajava roupas de gala e tinha a pele normal, mas ninguém prestou muita atenção nisso, visto que a garota roubava toda a atenção. Ajudou-a subir, subindo em seguida, e com um gesto, pediu a atenção da multidão.

-Senhoras e senhores, garotos e garotas. Tenho a grande honra de apresentar a vocês a atração principal desta noite, quem vocês estavam ansiosamente esperando. – anunciou o homem, de cabelos castanhos e olhos negros, tão negros quanto uma armadura. E para terminar, sussurrou o nome da cigana. – Ravena.

Música começou a tocar, vinda de alguns artistas contratados para a ocasião. A garota começou a se movimentar, deslizando pelo tablado, começando por uma coreografia agitada, alegre, feliz, que logo ganhou as palmas do público como acompanhamento. Passou para uma outra mais complicada, que prendiam o olhar dos adultos e a respiração dos menores. Continuou com uma bem bobinha, e chegando aos extremos do tablado, puxou algumas crianças, que a imitavam de um modo meigo e desajeitado.

Depois, vieram músicas mais sérias, mais trabalhadas, com coreografias igualmente sofisticadas. Começaram a aparecer músicas que normalmente eram tocadas junto de fábulas, e a dançarina começou a apresentar coreografias que contavam essas histórias. As crianças ficaram muito entretidas, e os adultos, com lembranças de quando lhes foram contadas tais histórias pela primeira vez.

Por fim, perto da meia-noite, surgiu uma música agitada, mas que não era alegre. Era triste, quase violenta, com os tambores rufando como numa guerra. E a música também contava uma história, que todos os presentes, aliás, conheciam muito bem.

Ela dançava, representando uma grande batalha, espadas para um lado, mortes para o outro. De repente, silêncio. Ela parou, também, encolhida ao chão. Um violino soou, como um bom presságio, e a garota se levantou, acompanhando a esperança transmitida pelo instrumento. Ele começou baixinho, mas ia aumentando de volume, enquanto os outros instrumentos, um a um, voltavam a acompanhá-lo.

Um berro na multidão. Uma mulher agarrava um homem barbudo como se não houvesse amanhã, enquanto as crianças ao seu redor abraçavam o pai que havia retornado da guerra.

Cada um dos espectadores, olhando ao redor, avistou um soldado, seu soldado, pai, filho e marido. Gritos de alívio eram ouvidos, crianças em coro, mais alegres do que nunca, gargalhadas voltavam a ser ouvidas na cidade, sem serem reprimidas ou até que alguém se preocupasse com as rugas que elas poderiam causar.

Rostos começaram a cair no chão, espatifando e se transformando em pó, enquanto homens e mulheres tinham seus corpos livres da maldição. Um brilho, uma aura dourada, começou a emanar daquela multidão, enquanto a garota dançava em círculos, como se pudesse espalhar toda aquela esperança.

Ela tirou sua máscara, jogando-a para cima, finalmente revelando seu rosto verdadeiro, sorridente, sincero. Alguns na multidão lembraram vagamente da princesa morta, mas não puderam comprovar se eram a mesma pessoa.

A catedral bateu a meia-noite, ao mesmo tempo que a música e a coreografia acabavam. No meio da confusão de reencontros e rostos caindo, ao final da última badalada, a garota sumiu, junto com o homem de roupa de gala, sem que ninguém pudesse dizer aonde ela foi.

Mas ninguém podia negar, nem mesmo as mulheres mais invejosas, que ela estava definitivamente encantadora.

Seu destino havia acabado, e a missão de todos os salvadores, concluída.

Fim.

Notas finais
Desculpe, Johanne. Era pra você apenas aparentar ser um rei tirano, mau e conquistador. Acabou virando galante e sedutor, embora com os mesmos defeitos. Foi difícil fazer você perder. É isso. Fim. De uma história que, mesmo que não faça tanto sucesso quanto uma boa fanfic de romance, com certeza, me deixou muito feliz em escrever. Não sei dizer qual a moral dessa fábula, se é que podemos chamá-la assim. Apenas... Vejo muita gente ao meu redor usando máscaras demais, pessoas que sei como são sem elas, e que acham que, usando tais máscaras, estão sendo forte e vencendo um grande desafio. Não acredito que fingir que está sorrindo quando se está chorando por dentro é ganhar um desafio. Não podemos dar a cara a tapa, é claro. Mas fingir ser o que não somos, esconder a tristeza pois é algo de fracos... Acredito que apenas quem admite a tristeza é que é forte. Pois sofre e suporta a dor abertamente. E depois de superá-la, cresce e se fortalece. Enfim. É isso. Chega de lição de moral. E desculpe, #teamJohanne. -q