A Encantadora
4 3 - Morte
Notas iniciais
December, que já era estudiosa antes, tornou-se uma completa viciada em conhecimento. Antes de tentar salvar sua terra, ela acreditava que precisava acumular todo e qualquer conhecimento que pudesse, e o mais rápido possível. Tanto é que, aos 15 anos, ela já sabia o conteúdo todo do equivalente ao ensino médio e ao mestrado atuais.
Além dos ensinos básicos, ela também desenvolveu alguns hobbies. Aprendeu a cozinhar, costurar, boas maneiras, jardinagem – ela mantinha uma pequena área com flores e pomares com as próprias mãos –, uma segunda e o começo de uma terceira língua, dança, desenho e até pintura. O palácio era cheio de quadros e retratos dos pais feitos por ela mesma, e a mesa de jantar era sempre renovada, principalmente na primavera, por vasos com arranjos de flores.
Contudo, sua boa vontade foi decaindo. Talvez por causa dos hormônios, ou até da disciplina impecável mantida por tanto tempo, December foi se esquecendo de fazer as lições, tomando as disciplinas com má vontade, isso quando comparecia às aulas. Lentamente entrando em rebeldia, fugindo, desobedecendo às duras regras impostas pelos pais, transpondo limites, e se metendo em uma ou outra confusão na rua.
E o que mais preocupava seus pais, era não saber o porquê dessa rebeldia toda. Nada na vida ou na rotina da garota tinha mudado, e ela por conta própria começou a agir assim. Primeiro, desconfiaram de algum relacionamento, que poderia estar desconcentrando e mexendo com a garota. Depois, após terem enviado empregados para seguirem a garota sem que ela percebesse durante o período de uma semana, descartaram a opção. Pensaram até que ela podia estar doente, esquizofrênica e até bipolar. Ao final, concluíram que a liberdade que davam à garota era demais para ela, e a proibiram de sair do território do castelo.
Obviamente, a rebelde December não aceitou essa imposição. Primeiro, tentou negociar com os pais, prometendo ser mais disciplinada e não faltar mais às aulas, mas como, de acordo com os pais, por reagir a essa proibição, provavelmente esse era o problema, não fizeram acordo algum.
O que levou a um grande desentendimento, entre filha e pais, que fizeram até os blocos de pedra que compunham as paredes ficarem com medo e perplexos, tanto da briga, quanto da trovoada que acontecia no exterior. Por fim, December teve uma idéia.
-Se vocês não me deixam sair por bem, será por mal. – disse a filha, sombria, dando as costas para os pais no meio da discussão.
-December! Volte aqui, agora! – disse o pai, engrossando e elevando a voz, de um modo que nunca tinha feito com ninguém da família antes. O que não surtiu efeito, já que a filha continuou em direção ao quarto.
Então, o pai começou a seguir December, e November, temerosa com o marido, começou a seguir os dois. Os pais começaram a segui-la, mas December chegou ao quarto primeiro e o trancou. O pai começou a esmurrar a porta para tentar arrombá-la, mas a mãe rapidamente o acalmou. Seria mais racional que esperassem que ela saísse, visto que o quarto dela ficava no terceiro andar, e não haviam saídas alternativas.
Pelo menos, era o que eles pensavam.
Quinze minutos depois de começarem a esperar, November e o amado marido foram surpreendidos por um dos guardas do castelo, desesperado, que havia subido todos os lances de escada de uma vez só.
-Vossa Majestade! A garota... Sua filha... – começou o guarda, mas perdeu o fôlego, graças ao grande esforço feito de modo tão rápido.
-Acalme-se, guarda. Respire, e passe a mensagem com clareza, para que possamos entender. – respondeu o rei, de modo formal, mas quase tão ofegante quanto o soldado. Ele sentia uma pontada no coração, de antecipação, um pressentimento de que algo estava terrivelmente errado.
-Eu avistei a vossa filha pulando a janela do próprio quarto, para fugir para a floresta. Tentei correr atrás dela, mas ela já estava em vantagem, então decidi consultar a Vossa Majestade para saber qual a sua vontade. – disse o guarda, se ajoelhando perante o rei, com a cabeça abaixada e a voz tingida de culpa.
-Desgraça! Mande os soldados irem atrás dela, depressa! – ordenou o rei, zangado com a incompetência do guarda, mas desesperado demais para puni-lo. Seguindo o soldado, que corria novamente, desta vez para a entrada, o rei escancarou as portas do castelo, ordenando que seguissem para a direção onde avistaram a filha, para depois montar em seu cavalo e seguir os guardas que obedientemente já saiam em disparada.
Usando todos os seus guardas, recursos e até cães farejadores, o rei procurou pela filha por todo o castelo, já que ela não poderia ter ido longe somente andando. No meio da madrugada, porém, um dos guardas tocou a trombeta, avisando que havia achado December.
O rei chicoteou o cavalo, que começou a galopar, seguindo o barulho da trombeta.
E a cena que ele encontrou foi a mais difícil de encarar em toda a vida do monarca. Nem as inúmeras guerras que comandou ou os criminosos que teve de executar em praça pública com as próprias mãos eram tão chocantes e assustadoras.
O corpo de December estava lá, estirado no chão, com uma trouxa de pano feita às pressas com um lençol, e a pouca luz vinda da tocha do guarda mostrava que o vestido que a filha vestia, antes branco, agora estava manchado com o sangue, que tinha vindo da cabeça da garota. Ao lado da garota, estava uma árvore no chão, ainda quente, que havia sido atingida por um dos inúmeros raios do temporal.
O imperador, desesperado, pegou os ombros da filha, tentou sacudi-la, em vão, tentando trazê-la de volta à vida. Tentou ouvir seu coração, mas seu corpo pálido já estava gelado e sua alma, encaminhada. Não havia o que fazer.
Assim que, após trazerem o corpo da filha de volta para casa e a notícia correr o reino todo, decidiram homenageá-la com o mais belo velório já visto. Contudo, seguindo a tradição do povo de EternalStone, o caixão deveria ser fechado, para que a alma da pessoa morta não fosse incomodada pelo olhar dos vivos.
O rei e a rainha, durante o enterro da filha, faziam o máximo de esforço para não chorar. Mesmo com a rebeldia repentina da menina, a amavam mais que tudo. E November, mais do que nunca, sabia que tinha falhado, e que a culpa era toda dela.
Quando o caixão estava começando a ser coberto pela terra, um garoto, de uns 19, 20 anos, começou a empurrar a multidão, tentando chegar ao caixão de December. Por fim, quando ele alcançou o túmulo dela, correndo sem nem olhar para os pais da garota, reis do império, começou a berrar desesperado, tentando puxar o túmulo para cima e abrir o caixão.
O garoto foi agarrado pelos guardas reais, que começaram a evacuar o garoto, que berrava e lutava com todas as forças contra os braços dos soldados.
E o único nome que ele berrava, era o de December, de forma tão intensa que só poderia sair da garganta de um apaixonado.
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