A Encantadora
2 1 - November
Notas iniciais
A pequena December, de olhos escuros e cabelos lisos, com seus míseros seis anos, assistia a um filme engraçado. Era estrelado por sua mãe e seu pai, que estavam atuando muito bem, embora a trama fosse muito confusa para sua mentalidade infantil. Sua mãe estava a seis passos de um desfiladeiro incrível, que tinha uma vista de tirar o fôlego, com o sol se pondo ao fundo, enquanto seu pai, um pouco mais afastado, contracenava com ela.
November, a querida e sempre alegre mãe de December, desta vez apresentava uma água engraçada nos olhos, que brilhavam mais do que as estrelas, enquanto fazia uma cara contorcida e conversava com o marido, que era o pai de November. Ela tinha cabelos negros, e olhos mais escuros ainda. Os olhos da mãe não tinham um pingo de castanho, eram inteiramente negros, e eram mais bonitos do que qualquer olho claro já criado ou nascido. Ela constantemente balançava o rosto para os lados, negando algo, e olhava para o abismo atrás de si na mesma intensidade. E, mesmo nessa situação estranha para November, sua mãe continuava sendo a mulher mais bonita do país, sendo a única mulher com pele de verdade depois dela mesma.
É claro que December também achava o pai bonito. Ele não tinha a pele macia e corada dela e da mãe, tinha a característica pele quase impenetrável de estátua como todo o resto da população, mas tinha traços característicos e uma personalidade mais ainda.
Porém, tinha algo errado com o seu rosto. Um líquido corrosivo, que derretia sua pele por onde passava, com nascente nos olhos sem pupila do pai, marcavam profundamente o rosto antes impecável do patriarca. Ele estava quase gritando, saindo do controle, e sua face parecia que ia se transformar em milhares de grãos de areia, de tão rachada e quebrada que estava sua pele, afetada pelas lágrimas ácidas que corriam.
É claro, a jovem e inocente December achava que tudo aquilo era simplesmente parte de um ensaio para alguma peça de teatro, apresentação ou qualquer coisa artística do tipo, pois se tivesse se dado conta de que aquilo não era uma encenação, talvez, somente talvez, ela teria entendido desde o começo qual era a sua missão, e talvez as coisas tivessem sido menos odiosas quanto precisavam ser.
Bom, o grande problema era que November estava tentando se matar, enquanto seu marido tentava impedi-la a todo custo, se ajoelhando, gritando, berrando e até chorando, coisa que December desconhecia, já que a prática era um tabu no império todo onde vivia. Os detalhes da situação, como o por quê e o como, ela só descobriria e se lembraria futuramente. Contudo, para o resto de sua vida, ela se lembraria de uma cena em particular, que a intrigou bastante por alguns anos, e depois de explicada, a perseguiu pelo resto de sua existência.
E, no auge dos suplícios do pai de December, e da recusa de November em manter a própria vida, o diálogo que a pequena garota guardou na cabeça foi o seguinte:
-Se, por tudo que eu já lhe pedi para considerar você ainda quer pular, November, então pense em December, nossa filha. – chorou o pai, desesperado, mas ainda esperançoso de convencer a amada.
A mãe mudou de atitude, ergueu a postura um pouco e arregalou os olhos, com uma expressão mais assustada do que surpresa. Não havia se esquecido da filha, mas também não havia lembrado de levá-la em conta quando decidiu tirar a própria vida. O pai, vendo que havia conseguido penetrar a teimosia da esposa, decidiu atacar o recém-descoberto ponto fraco.
-Você não é a última, November. Ainda há esperança. E, talvez, tenha sido por isso que você acredita que falhou. Porque essa não é a sua missão. A sua missão era dar à luz a quem nos salvaria. Acredite na sua filha! – pediu o pai, um pouco mais confiante em seus argumentos, visto que November havia deixado de olhar para o abismo, e até havia dado um passo, por mais pequeno que fosse, para longe do abismo.
Então, November foi andando, passo a passo, em direção à segurança dos braços do marido. Ao ser abraçada, finalmente longe do perigo, ela notou os sulcos no rosto de pedra do imperador.
-Amor...! Seu rosto... É tudo minha culpa, perdoe-me... – pediu November, em voz baixa, nos braços do marido.
-O que importa é que você está salva. Vamos, nossa filha deve estar procurando por nós. – disse o Rei de todo o Império de EternalStone, entrelaçando seus dedos nos da Rainha, November.
A pequenina December, princesa de EternalStone, correu o mais rápido que pode de volta para o castelo, com medo de que, por ter saído de lá, levasse uma bronca, sem sequer pensar no sentido daquelas importantes palavras ditas naquele dia.
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