A Dádiva da Vida
1 Capítulo Único
Notas iniciais
25 de março de 1999. O meu nascimento. Talvez se eu merecesse uma vida brilhante, teria uma! Perder meus pais foi a pior coisa imaginada na minha vida. Realmente agradecer por cada dia é algo bonito e válido, mas como eu posso fazer isso?
Eu não culpo os outros, culpo a mim. Não que fosse eu que estivesse dirigindo aquele caminhão, tampouco estava dirigindo o carro dos meus pais e ver se dava tempo para desviar.
Mas eu lembro, e lembro muito bem, daquele dia. Ficou marcado, até porque foi pouco tempo. 12 de maio de 2015. Quando voltávamos de uma agradável visita à casa de minha tia Hanna, que faz os melhores biscoitos do mundo inteiro.
Eu queria saber que aquele foi o último dia, porque assim daria mais atenção aos meus pais, ao invés de trocar mensagens de ódio com minha ex-namorada através do celular.
Saímos de lá quase onze da noite, a estrada estava escura e só chegaríamos em casa duas horas mais tarde. Foi quando um caminhão totalmente desgovernado veio em contramão ao nosso carro. Deus poderia ter me levado. Mas não fez isso. Nunca vou entender o porquê, quem sabe quisesse que eu tomasse uma atitude. Mas qual além de ligar para alguém, pedir socorro. Meus pais estavam MORTOS! As pessoas que me criaram viraram CADÁVERES! Qual seria a minha reação?
Eu saí do carro. A estrada era uma descida. Achei uma rocha enorme e subi nela, quando procurei por sinal e liguei para minha tia Hanna. Ela veio em cerca de uma hora e meia, ou mais, quem sabe menos.
Eu estava em estado de choque. Não sabia se eu xingava a todos, metia uma faca no peito ou simplesmente chorava. Nada vinha em mente a não ser matar aquele caminhoneiro desgraçado que transformou minha vida em total infelicidade.
Tia Hanna me levou para sua casa, onde fiquei doze dias, até que meu avô veio me buscar para voltar ao Brasil. Nossa! Voltar para o lugar que eu não morava há nove anos. Sem meus pais, numa terra para mim desconhecida, minha vida estava de cabeça para baixo.
Brasil: meu novo desafio. O país em que nasci, mas que não vivi nem metade da minha vida. Além de sozinho, me sentia um gringo. E não conseguia me abrir para os meus avós, não os via desde que fui para os Estados Unidos.
O nome do meu avô era Henrique. Apaixonado por música clássica, matemática e vinhos caros. Era o oposto de minha avó, Valentina, que a qualquer custo tentava se modernizar, nunca conseguindo. Gostava deles, mas não os considerava íntimos meus.
Comecei a estudar na escola nova. Quando conheci Alice. A chamam constantemente de insana, porque ela já fez coisas um tanto retardadas. Já ficou duas semanas sem tomar banho por causa de uma aposta, e já foi expulsa de cinco escolas. Todos morriam de medo dela, eu não.
Eu falava com Alice todos os dias, até que ficamos muito amigos. Éramos a melhor dupla na aula de laboratório. Ela era bonita, embora se vestisse de um jeito nada atraente, tipo uma hippie dos anos 60.
Um dia, Alice foi para minha casa. Meus avós tinha viajado por uns dois dias, e garanti que ficaria bem. Ela estava bem diferente. Sem aquele visual desleixado e feio. Estava arrumada, mais bonita do que nunca. Pela primeira vez olhei para a garota com outros olhos:
— Oi. – ela disse, tímida – Tudo bem?
— Sim, eu acho. E você?
— Bem.
Ficamos naquele lenga-lenga por alguns minutos, até que decidimos fazer o dever de álgebra juntos. Ela era muito boa em matemática, e ia além de meus raciocínios limitados. Depois que terminamos, ela olhou para mim e disse:
— Eu soube.
— Do que?
— Você sabe... Dos seus pais. Eles...
— Não. – cortei
Aquele ainda era um assunto delicado para mim, e não estava nem um pouco a fim de discuti-lo ali, com uma garota que eu conhecia a pouco mais de um mês. Entretanto, procurei não ser grosso.
— Está equivocada se acha que não superei isso.
— Não seja frio! Sei que isso não se supera, se conforma.
— Conformando ou superando, estou bem. Ou pelo menos queria estar.
Não aguentei. Chorei demais. Tudo o que eu não saiu dos meus olhos no dia em que perdi meus pais, saiu agora. Alice deitou minha cabeça no seu colo.
— Acredite. Eu te entendo perfeitamente.
— Perdeu seus pais também?
— Não. Eles moram na França. Sempre fui criado por meu irmão. Mas estou passando por um momento terrível, Marcos.
— Sério.
— Não é uma perda. Quer dizer, será, para minha família. – Alice enxugou as lágrimas – Estou morrendo.
— O que? – me assustei
— Estou com um câncer raríssimo. Os médicos acham que eu tenho entre dois e quatro meses de vida.
— E como vai para a escola? – disse – Seu irmão deixa?
— Aquele filho da mãe não liga. Se duvidar, ele quer que eu morra. Assim ele transforma a nossa casa num cantinho particular para levar umas vadias!
— Não fale isso. Ninguém quer que você morra, vamos aproveitar o tempo que for até esse dia chegar, e se chegar! Beleza?
— Beleza. – ela disse, agarrando minha mão
Decidimos ir no cinema. O filme era péssimo, mas as piadas ruins provocavam risadas em alguns momentos de tão estúpidas. O importante é que Alice estava se divertindo.
Quando o filme acabou, fomos lanchar, mas Alice sentiu fortes dores e achei melhor leva-la para casa. Peguei um taxi e saltei com ela em sua casa.
Ela morava em um casebre bem feio, numa rua precária e mal cuidada, onde a maioria dos bueiros estavam abertos. Bati na porta com força, desesperado. Alice parecia que ia vomitar.
O irmão dela abriu. Era barrigudo, sujo e antipático. Entendi perfeitamente porque Alice não gostava dele. Me despedi dela:
— Tchau, Alice, vai descansar.
Queria ter mais tempo com ela, mostrar tudo que a vida tem para proporcionar, mas eu era apenas um menino, não podia fazer nada além de tentar. Tive vontade de chorar. Eu estava apaixonado por Alice, e não sabia se daria tempo para dizer isso.
No dia seguinte, Alice não foi à escola. Me preparei para o pior, jurando que a escola anunciaria sua morte. Bom, felizmente isso não aconteceu. Mas ela era minha única amiga, e ficar sem ela era a pior coisa do mundo para mim.
Me esforcei para comer meu hambúrguer no intervalo, mas não conseguia. Não parava de pensar nela. Pensei: “Matar um dia de aula seria ruim se fosse para ficar com uma pessoa à beira da morte?”.
Saí do pátio principal e fui para os fundos da escola, secretamente, para não chamar a atenção dos inspetores. Me agarrei à grade do portão fechado. Olhei para cima. Tinha uma marquise acima do portão que me levaria à rua. Subi na marquise. No exato momento, levei um susto. Era o inspetor, agarrando minha perna.
— Saia daí agora, moleque!
— Moleque é a senhora sua mãe! – me irritei – Preciso fazer uma coisa importante!
— Eu também, leva-lo à diretoria.
A diretoria era um lugar que eu não frequentava desde os tempos de criança, e eu voltava a sentir aquele frio na barriga, sentado numa cadeira super-confortável dentro de uma sala gelada e um pouco escura. O diretor Franco me olhou com um jeito bem pacífico e disse:
— Por que você estava fugindo, Marcos?
— Era necessário.
Eu realmente não estava facilitando. O diretor Franco suspirou e repetiu:
— Por que você estava fugindo?
— Bom, na verdade, foi por amor. Amor a alguém que pode estar morta ou quem sabe não, embora os médicos tenham estimulado cerca de dois meses de vida.
— Por acaso estaria se referindo a Alice Santos?
— Sim.
— Mas o que pretendia ao fugir?
— Porque se aquela garota morrer, eu vou estar do lado dela, e ninguém pode me impedir. Meus pais morreram e infelizmente eu vou ter que lidar com outra perda. Mas dessa vez vai ser diferente. Eu vou poder me preparar e ter a oportunidade de aproveitar os últimos momentos dessa menina. Eu a amo. Amo como nunca amei ninguém antes. Agora se o senhor me der licença, eu vou atrás do grande amor da minha vida.
Fui andando e nem percebi se o diretor falou mais alguma coisa, mas eu realmente não dava a mínima. Saí correndo daquele lugar maldito. Nada importava mais, exceto Alice.
Saí correndo como um louco. Depois de cinco minutos, cheguei na casa de Alice. Bati a porta. Depois de um tempo, ela abriu. Primeiramente, senti um alívio, depois fiquei muito triste. A garota estava em uma cadeira de rodas:
— Preciso andar assim. Não mais tanta força nas pernas.
— Vamos passear?
— Para onde?
— Para onde o mundo nos levar. – sorri
Fomos para um parque. Estavam vendendo alguns biscoitos e sucos. Comprei e lanchei com ela. Alice sorria, mas estava mais pálida que nunca. Mas e daí? Era ela, a garota por quem me apaixonei repentinamente.
Depois de conversarmos por horas, decidi abrir meu coração:
— Eu podia ter falado antes, mas quando te conheci, você já estava doente, então eu estava mais preocupado com isso. Enfim, sinceramente, quero passar o resto dos seus dias ao seu lado.
— Mas você já está fazendo isso.
— Você não entendeu, querida. Eu estou apaixonado por você. Loucamente apaixonado, e é impossível esconder isso nessa altura do campeonato!
— Oh, Marcos...
Antes que eu pudesse fazer algo, ela me deu um beijo. Não lembro do último que dei, mas sabia que não era o primeiro. E mais, na prática pode ter sido um dos piores, mas por ser com o grande amor de minha vida, com certeza foi o melhor.
— Eu te amo. – ela disse – Mas não posso te dar muito tempo. Estou morrendo.
— Dane-se! Estou pouco me lixando para a merda do tempo, porque ficaremos juntos o possível, e quando você morrer, eu vou falar com você todos os dias, assim como faço com os meus pais. Você será a estrela mais brilhante do universo.
Depois de uma hora, saímos dali. Passei na floricultura e comprei rosas vermelhas para ela, e as beijei, para que naquela noite, através daquelas humildes flores, Alice dormisse comigo.
Quando chegamos no portão da casa dela, Alice me confessou uma coisa:
— Posso te contar uma coisa?
— Claro, meu amor.
— Ignore o que meus médicos disseram, eu vou morrer amanhã.
— Não fale baboseiras, Alice. Nunca mais fale isso!
— Não é baboseira. Mas isso é bom, Marcos. Se eu morrer amanhã, vou morrer feliz. Minha passagem será linda. Confia em mim.
Beijei Alice e fui embora. A frase que ela me disse ficou perseguindo minha cabeça, mas eu não ficaria surpreso se o que ela me disse realmente acontecesse. Meus avós chegariam amanhã, e eu teria mais uma noite sozinho para refletir. Minha história com Alice foi curta, porém linda e eu não me arrependo, mesmo que quando eu acordasse, o pior acontecesse.
No dia seguinte, acordei com o barulho do Fusca dos meus avós chegando à garagem. Me arrumei rápido, dei um “oi” para eles e saí para a escola. Mas, antes passei pela casa de Alice. Sim, aconteceu. Ela tinha morrido. Alguns parentes estavam reunidos lá, esperando levarem seu corpo.
Pensei em me apresentar para a sua família, mas aquele era um momento em que eu queria ficar sozinho, chorar sozinho, e falar os mais variados palavrões sozinho.
— ALICE!!! – gritei
Eu culpava o mundo. Era uma grande falta de sorte perder pessoas queridas tão repentinamente. Meus pais eu não tive culpa, já Alice sim. Eu escolhi me apaixonar por ela, então sabia que sofreria muito. Não fui burro, fui passional.
Eu poderia me matar, desistir de tudo, do amor, de mim mesmo, mas nem Alice nem meus pais iriam querer isso, tampouco que eu continuasse vivo mas como um perdedor. Tinha que superar, ou me conformar, como minha amada dizia.
Chorar é natural. Como não chorar? Aquele possivelmente era um dos piores momentos da minha vida. Desisti de ir para a escola. Voltei para casa. Meus avós dormiam como bebês. Sorri e fiz o mesmo. Queria dormir para sempre, subir para o céu e me tornar uma estrela, brilhante e feliz.
Mas a culpa não era de Deus. Nunca poderia ser. A culpa era do destino. E eu queria poder culpar alguém por isso. Porque eu estava mais deprimido que um suicida, que teve algum motivo para enfiar uma faca no peito, ou se envenenar, ou simplesmente fazer o que eu estava fazendo: esperando a morte.
Porém, como disse, não me arrependo de ter amado Alice. Porque foi um presente de Deus enviado para mim. E sim, ficar com ela foi uma dádiva, uma dádiva da vida.
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