A Dádiva da Musa
1 Capítulo Único:A dádiva da musa
Notas iniciais
A dádiva da musa
Já era o terceiro dia seguido em que ela não escrevia nada, mesmo que eu estivesse ali, tão perto. Tudo por causa daquela garota, uma qualquer que ela tinha conhecido pela internet. Aliás, para nós, toda essa tecnologia é um prejuízo só, vocês não têm idéia de como isso atrasa o nosso trabalho. Inspirar é uma arte, e como toda a arte, deveria ser feita à moda antiga. Afinal de contas, pergaminhos não pegam vírus e escrever à mão não dá tendinite!
Como se isso não bastasse, todas as musas foram obrigadas a fazer update, vê se pode?! Eles disseram que nossos métodos estavam ultrapassados, que nós devíamos nos adaptar e usar a internet a nosso favor. Em caso de dúvida, as musas poderiam se sentir à vontade para enviar e-mails e SMS para a gerência. É, claro. Mas essa não é a história de como a revolução tecnológica dominou o Monte Olimpo. É a história da minha garota, e também, a nossa história, por isso, voltaremos a ela.
Uma semana depois, ela conheceu a tal garota, achou que estava apaixonada e me deixou de lado. Vocês não têm como saber, mas a única coisa que se equipara ao poder de uma musa é o poder do amor. Eu gosto muito do meu trabalho, mas umas férias não programadas não fazem mal a ninguém, não é mesmo? Tinha muito tempo livre, então eu comecei a usá-lo para prestar mais atenção na minha cliente. Pode parecer estranho, mas essa é a denominação correta, são apenas negócios.
Ou pelo menos, é o que diz o protocolo. Musas não possuem sexo, mas possuem sentimentos, não é incomum que elas se apaixonem pelos seus clientes. Comigo não foi diferente. Elas começaram a namorar e minha garota já não precisava mais de mim para escrever as suas maravilhosas... fanfics. É isso aí, não riam, nenhum cliente é pequeno demais para nós. O que seria do mundo sem inspiração? Esse é o nosso lema, somos obrigadas a dizer isso em voz alta todos os dias antes de bater o ponto eletrônico, um absurdo.
Voltando ao assunto: eu sentia muito ciúme e não entendia como alguém inteligente, doce e estonteante como ela podia se apaixonar por uma garota tão virtual quanto eu — ninguém pode nos ver, a menos que essa seja nossa vontade. Pior do que isso, aquela garota não lhe dava nenhum valor e era incapaz de correspondê-la como eu seria. Torcia contra esse relacionamento e torcia mais ainda para que não fosse amor de verdade. Assim, ela precisaria novamente de mim e mais cedo do que imaginava.
E foi exatamente isso que aconteceu, mas eu não estou feliz. Vê-la chorar pelos cantos, se esconder dos amigos e nem sequer ligar o computador para escrever é muito doloroso. Não sei como lidar com isso, achei que ela seria capaz de superar qualquer coisa através da escrita, mas parece que me enganei. Digo isso porque estou com ela há muito tempo e escrever sempre foi o seu refúgio. Eu queria ver o sorriso dela outra vez, mas usar meus poderes era contra as regras.
Só existem três proibições que são imperdoáveis no manual das musas. A primeira delas é revelar sua existência e a segunda é tentar ir contra os desígnios de Afrodite. A deusa do amor é muito orgulhosa, sabiam?! A terceira é imperdoável apenas entre as musas, mas você pode abdicar de seus poderes se quiser, o que qualquer uma de nós consideraria uma estupidez de proporções épicas. Qualquer uma que não estivesse apaixonada, óbvio.
Adivinhem o que eu fiz?! Se você acha que eu desisti de ser uma musa, meus parabéns! Acabou de me provar que a raça humana é incapaz de ser criativa sem um pouquinho de inspiração. Estupidez de proporções épicas, lembram?! Não, eu não desisti de ser uma musa. Mas achei que usar meus poderes de uma forma sutil não faria nenhum mal. Eu esperei ela dormir e a encontrei através dos seus sonhos, um truque extremamente manjado no nosso métier.
Foi o que eu fiz. E querem saber, foi divino! Muito diferente do habitual, onde ela só podia me ouvir e responder com a voz do coração. Eu sei, é brega. Mas a experiência de ouvi-la me responder foi emocionante. Nós conversamos durante toda aquela noite e no dia seguinte, ela voltou a escrever. Eu tenho certeza de que ela conseguiu me sentir, porque sorriu quando eu a toquei acidentalmente, como se soubesse que não estava só. Aquele sorriso.
Nós conversamos desse jeito por muitas noites seguidas e aquela foi a melhor fase dela como escritora, comprovada por uma notável ascensão do número de seus leitores e fãs. Cada momento que passávamos juntas era ainda melhor que o anterior e numa noite em particular, ela me pediu um beijo. E aquele pedido simples abalou meu mundo. Eu nunca tinha pensado na possibilidade de tocá-la antes, já estava mais do que habituada à minha condição de criatura invisível.
Mas eu a queria, e como! Queria sentir o calor daquela pele morena, captar a real profundidade daqueles olhos castanhos, acariciar seus cabelos encaracolados, sentir o cheiro da colônia que ela usava antes de dormir, tocar aquele corpo delicado e provar o sabor daqueles lábios que ela me ofertava, de tão bom grado. Ver aquele sorriso lindo – ela usou aparelho por cinco anos, já comentei isso? – e saber que ele me pertencia foi tentador demais para que eu pudesse suportar.
Adivinhem o que eu fiz?! Vou até dar uma pista dessa vez: começa com estupidez e termina com de proporções épicas. Desisti de ser uma musa quando ela disse que me amava. E eu sabia que era verdade, pois andava negligenciando meu trabalho há um bom tempo. Não me arrependo nem por um segundo de ter tomado essa decisão e as outras me fizeram até uma festa de despedida, vocês precisavam ver! Nem acreditei quando a Afrodite – a própria, com aqueles olhos coloridos e tudo mais! – disse que concordava com a minha demissão e até me desejou boa sorte. São novos tempos, de fato.
Mas eu ia precisar de mais do que sorte. Não podia aparecer para minha garota e dizer que eu era aquela dos sonhos, pois estaria revelando mais do que é permitido. As regras são claras, e há um preço a se pagar por isso: seu cliente perde permanentemente a capacidade de receber o dom da inspiração. Eu conhecia melhor do que ninguém a importância que as fanfics tinham em sua vida, e justamente por isso, não poderia negar a ela a capacidade de escrever. Tinha que encontrar uma outra forma de me aproximar!
Além do mais, mesmo que eu não fosse mais sua musa, ela ainda poderia contar com os serviços de uma nova musa, da mesma forma que eu! Irônico, não? Vou contar um último segredo antes de me despedir, e prestem atenção, porque essa é a melhor parte! A verdade é que somos nós que precisamos de vocês e não o contrário. Para uma musa, não existe nada mais importante que o seu trabalho; se você tivesse uma lista de coisas necessárias para viver, tenho certeza de que não haveria uma musa inspiradora nela!
Mas eu não tinha consciência disso até ser uma de vocês. Ter ou não ter inspiração é apenas uma parcela mínima dos desafios que se enfrenta somente por existir. Ser humano é ter a coragem necessária para abraçar todas as possibilidades, sejam elas boas ou más! E eu abracei as minhas. Resolvi seguir o conselho dos meus ex-superiores e usar a internet a meu favor. Por isso, escrevo fanfics como essa todos os dias, no mesmo site que ela. Quem sabe assim, aquilo que nos uniu antes possa vir a nos aproximar mais uma vez...
FIM
* As musas são entidades mitólogicas a que são atribuídas capacidade de inspirar a criação artística ou científica; na Grécia, eram as nove filhas de Mnemosine e Zeus. Musa, no singular, é a figura feminina real ou imaginária que inspira a criação.
Fonte: Wikipédia.
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