Londres, Inglaterra. 24 de Novembro de 1911.

Residência do Dr. Watson.


-Mas o senhor está muito elegante, papai!

Watson sorriu. Sua filha, Agnes Watson, terminava de ajeitar a gravata borboleta de seu fraque, que estava no fundo do armário há uns bons anos. Não era dado a eventos sociais desde seu terceiro casamento e o nascimento de seus filhos, por isso o traje de gala acabava esquecido, mas por sorte ainda cabia. Sinal de que não havia engordado tanto assim nos últimos tempos.

-Holmes deixou bem claro durante nosso encontro essa tarde que eu deveria estar trajando roupa de gala. Parece que faz parte da investigação.

-É sobre o tal ladrão dos jornais?

-Sim, ele mesmo. – confirmou Watson. Desde a descoberta da imprensa quanto à conexão do roubo à residência do Conde Wellington com o infame ladrão francês, o nome de Arsène Lupin simplesmente estava em todas as páginas. E os leitores amavam – ou melhor, se assustavam! – com a ideia do ladrão mais famoso da França atacando em solo britânico, e pior, embarcado em um jogo de gato e rato com ninguém menos que Sherlock Holmes. Mas com a quietude dos últimos dias, tudo que se via nos jornais eram teorias de conspiração, sem qualquer novidade, entretanto o suficiente para vender jornal. Ao encontrar o detetive essa manhã, notou-o agitado, ansioso para mais um embate com Lupin. Se levasse à sério o que os jornais diziam a seu respeito, certamente estaria perto de enlouquecer.

-Papai, tem um cabriolé parado na porta! – avisou um de seus filhos, Charles.

Watson estranhou, bem como Agnes. Olharam para o relógio juntos. Cerca de cinco minutos antes do que havia avisado Holmes.

-Parece que o Grande Detetive está com pressa. Melhor não contrariá-lo.

-Que bom que já estou pronto. Boa noite, minha filha. – despediu-se Watson, saindo de casa já com cartola sobre a cabeça. Há muito tempo não se sentia tão elegante. Era bom sair um pouco de sua rotina.

Para surpresa de Watson, que estava elegantemente vestido, Holmes estava o oposto disso. Apesar da escuridão dentro do transporte, o pouco de luminosidade que alcançava os olhos de Watson fez o médico perceber que ele usava roupas de operário, bem como peruca e uma maquiagem pesada que o deixava visivelmente sujo e maltratado por uma vida dura. Só conseguiu reconhece-lo por causa dos olhos cinzentos, visíveis na luz escassa.

-Boa noite, Holmes. – cumprimentou Watson, com sua velha cordialidade.

O detetive nada disse, permanecendo a olhar pela janela do cabriolé. Watson suspirou. Conhecia-o há tantos anos que já havia se acostumado a essa forma de agir. Sinal de que estava concentrado em algo que deveria ser feito no teatro. Por isso o silêncio.

-Pelo jeito, você vai atrás de Lupin disfarçado. Bom, vamos repassar o plano.

Watson abriu seu caderno de anotações.

-Bom, já sabemos que Arsène Lupin estará naquele teatro como o pianista Luis Perenna, e que tocará na apresentação junto à Companhia de Teatro por aproximadamente três horas. Você prefere abordá-lo antes ou depois da apresentação?

Silêncio outra vez. Watson suspirou.

-Estou perguntando pois já sabemos que durante o espetáculo será impossível. O Diretor da Companhia deixou claro que não podemos estragar o espetáculo, pois haverá uma princesa dentre os presentes. Aliás, foi uma boa iniciativa sua mudar o assento da princesa Catherine e coloca-la na cabine do outro lado do teatro. Esses membros da realeza nunca deixam de usar joias valiosas e não deixariam de fazê-lo nem mesmo com um ladrão da estirpe de Lupin à espreita. Mas ainda assim, preciso saber de você como vamos... Holmes!

O detetive inesperadamente saltou do cabriolé, caindo ao chão rolando. Watson ficou tão atônito que chegou a pensar ser um acidente, e ordenou ao motorista do cabriolé que parasse. Mas o homem não o obedeceu.

-Por Júpiter, estou ordenando que pare esse maldito cabriolé! Meu amigo acaba de cair! – desesperou-se Watson, mas tudo que seu pedido fez foi fazer o cabriolé avançar ainda mais rua afora, cada vez mais rápido.

-Pare esse maldito carro! – ordenou, furioso.

-Desculpe, senhor. Mas o homem que estava dentro desse cabriolé me pagou um soberano, e disse que assim que ele saísse do cabriolé, eu deveria leva-lo imediatamente ao Saint James Hall, e à galope, e que mesmo que o senhor ordenasse, eu não deveria parar! Não posso parar o cabriolé, ordens são ordens!

Watson bufou, completamente confuso.

-Então... Ele avisou a você que cairia do cabriolé? – questionou-o Watson, confuso.

-Não exatamente, mas disse que eu deveria galopar, não importando a forma como ele saísse de meu cabriolé. Só estou seguindo ordens.

Watson sentiu o coração disparar, a testa molhada de suor. Tentou enxuga-la, em vão. Ainda estava perplexo diante de tudo que acabara de acontecer, em especial com o que acabara de concluir.

O homem disfarçado que estava dentro daquele cabriolé não era Sherlock Holmes.

Era Arsène Lupin.

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O cabriolé mal havia estacionado sobre a calçada do Saint James Hall quando Watson saltou dele, desesperado. O motorista, como era de esperar, pôs-se embora dali, decerto para não ouvir uns bons desaforos do doutor enfurecido. Faltava pouco para o espetáculo começar e já havia alguns convidados à porta, todos elegantes. A Companhia de Teatro Belga fazia pouquíssimas apresentações em Londres e todas elas eram bastante disputadas pela alta sociedade. Não à toa era agora alvo de Lupin.

Enquanto caminhava para os fundos do teatro, local combinado previamente por Sherlock Holmes, Watson não deixava de sentir furioso consigo mesmo pelo erro que acabara de cometer. Lupin saltou do cabriolé no exato instante em que ele denunciou a posição onde se sentaria a princesa Catherine, sinal de que Holmes estava certo e a nobre seria alvo do ladrão. Mas por diabos, que maldito disfarce foi aquele?! Watson estava acostumado aos inusitadas disfarces de Sherlock Holmes, e por muito tempo se deixou enganar por ele, mas aprendeu a sempre reconhece-lo pelos olhos cinzentos, de modo que poderia jurar que estava diante dos mesmíssimos olhos cinzentos de seu amigo! Pode ser que a penumbra da noite, dentro daquele cabriolé, tenha favorecido seu desengano, mas a estatura, os olhos cinzentos... Eram iguais a de Holmes! Seria esse ladrão tão parecido assim com o detetive?!

Uma coisa era certa: quando Holmes soubesse o erro que ele havia cometido, entregando informação ao inimigo, certamente o mataria.

-Dr. Watson! – cumprimentou-o o inspetor Lestrade Jr., também tão elegante quanto ele. Ao seu lado, um grupo de cinco rapazes, claramente policiais à paisana metidos em roupas de gala, ainda que de menor qualidade. – Vejo que chegou sozinho! Onde está Mr. Holmes?

-Inspetor! Folgo em revê-lo! – aliviou-se Watson. – É sobre a princesa. Tenho fortes indícios de que Arsène Lupin está ciente quanto ao assento que ela tomará durante o espetáculo!

O inspetor horrorizou-se.

-Impossível, Dr. Watson! Além de você, apenas eu e Mr. Holmes sabíamos disso! Como Lupin poderia saber?

O doutor pigarreou. Não queria contar a verdade nem para Holmes, muito menos para um inspetor da Scotland Yard, que certamente não tinha nada que o impedisse de se tomar de ódio de toda essa situação.

-Inspetor... Não podemos perder tempo! Precisamos retirá-la desse teatro imediatamente, do contrário Arsène Lupin conseguirá o que deseja!

-Ela é da realeza! Não aceita ser contrariada! Teremos de protege-la a qualquer custo! Ah, parece que chegou o Mr. Holmes!

Watson virou-se de costas. De fato era ele, mas não estava disfarçado e sim, tão elegante quanto ele, em um fraque e casaca. Usava também uma cartola e bengala, que Watson sabia esconder uma espada. Parecia esbaforido.

-Watson! – exclamou o detetive, tão logo colocou-se diante de seu amigo. – Fui busca-lo em sua casa e sua filha me disse que você já tinha partido comigo! O que diabos está acontecendo?! Por que não me esperou?!

O médico sentiu-se subitamente travado, com olhos questionadores a cerca-lo. Havia um cometido um erro que simplesmente poderia colocar todo o plano meticulosamente planejado de Holmes em risco, e achava muito perigoso deixar todos aqueles homens furiosos.

-Mais tarde eu explico, Holmes. Estava aqui a dizer ao inspetor que Lupin sabe aonde a princesa Catherine ficará assentada essa noite e que...

-Mas como diabos ele sabe?! – estranhou Holmes. Watson, entretanto, não quis explicar, mesmo com Lestrade Jr. também curioso a esse respeito. Não era hora de enfurece-los. Agora, precisava se concentrar em amenizar aquela situação.

-Escutem... O plano está comprometido, é isso. É uma longa história, isso é tudo que tenho a dizer. O fato é que não podemos deixar que a princesa fique naquele lugar.

-Então, o jeito é prendê-lo imediatamente. – concluiu Lestrade Jr.

Com o assentimento de Holmes, o inspetor começou a orientar seus subordinados policiais, todos com revólveres escondidos em seus fraques. Enquanto o jovem inspetor planejava uma forma de agir sem chamar atenção do público, Holmes virou-se para Watson, com o semblante endurecido de raiva.

-Mais tarde terei uma conversa bastante séria com você.

Já imaginando que Holmes já sabia de tudo, Watson estremeceu. – Eu só queria dizer que...

-Mais tarde, já disse. Não agora. A última coisa que desejo é entregar um culpado qualquer de bandeja a um inspetor da Scotland Yard. Preciso agora me concentrar em uma forma de contornar o erro que cometeu... – retrucou o detetive, pensativo.

Com seus homens já a postos, o inspetor Lestrade Jr. prosseguiu pelas entradas laterais do teatro, e o mesmo fez Sherlock Holmes e Dr. Watson. Dentro do teatro, cada dupla foi para um lado, em busca do dito pianista. Com a roupa de gala, conseguiam se passar facilmente por espectadores do espetáculo, aparentemente perdidos. Passaram por perto de alguns membros da Companhia, mas nenhum deles parecia com o descrito no retrato-falado entregue pelo inspetor Lestrade Jr.

-Watson, esqueça o retrato-falado. – pediu Holmes, parado perto da coxia com o médico. – Os homens de Lestrade Jr. estão à procura dele tendo por referência o falso pianista Luis Perenna, e infelizmente não poderemos contar com a ajuda deles para não complicar sua situação. Sem dúvida, Lupin está usando o mesmo disfarce que você viu quando o encontrou agora há pouco, portanto só tenho agora como referência o que os seus olhos viram essa noite.

-Espere, Holmes... Como você sabe que...? Ah, melhor deixar para lá. Bom, estava escuro no cabriolé e deu para ver pouca coisa. Mas ele usava roupa de operário. Um macacão cinza, meio velho. O cabelo dele estava loiro e uma barba grande e loira. Tinha o aspecto sujo também.

-Bravo, Watson! Pelo menos para alguma coisa serviu esse seu deslize. – respondeu Holmes, não conseguindo amenizar seu tom de voz enraivecido. O médico suspirou.

-Não me culpe, Holmes. Aquele desgraçado conseguiu me enganar direitinho! Eu nem sabia que dava para disfarçar os olhos!

-Olhos?! – surpreendeu-se o detetive. – Como assim, olhos?!

-Ele tinha os mesmos olhos que você, Holmes. Exatamente os mesmos. O porte, a altura também... Estava escuro, mas deu para perceber que era a mesma que você. Mas o mais espantoso foram os olhos cinzentos dele. É possível alguém conseguir imitar o olhar, a cor dos olhos, dessa forma?

Holmes suspirou, impaciente. Agora Watson estava indo longe demais em sua desculpa.

-Claro que não, Watson! Não há como mudar a cor dos olhos. Deve ter sido só impressão sua. Como você mesmo disse, o cabriolé estava escuro.

O médico balançou a cabeça, inconformado.

-Pois eu juro para você, Holmes! Foram os teus olhos que vi naquele cabriolé!

-Está bem, Watson. Está bem. – assentiu Holmes, impaciente. Insistir nesse assunto era perda de tempo, sabia o detetive. Agora, precisavam procurar por Arsène Lupin, não mais como um pianista, e sim operário de obra.

-Como pode ter tanta certeza de que ele mudou de disfarce, Holmes?

-Pela forma como o descreveu, estava usando um disfarce carregado de maquiagem. Não há tempo hábil de mudar para outro disfarce igualmente convincente, por isso creio que ele esteja usando o mesmo disfarce.

-Que atrevido! – resmungou Watson, sentindo-se ainda mais tolo. – Será que ele se considera bom o bastante até para não ser reconhecido por mim?!

-Quieto, Watson! Estamos na área de serviço do teatro e cada vez mais perto do camarote onde a princesa Catherine ficará. Como está disfarçado de operário, Lupin terá de passar obrigatoriamente aqui. Agora poderemos surpreende-lo a qualquer momento. Ali, vá para aquele armário de vassouras. Fique de tocaia.

Watson obedeceu a Holmes, ficando dentro do armário de vassouras e deixando apenas uma pequena fresta aberta, mas que era o suficiente para ver o que estava acontecendo do lado de fora. Por um instante, sentiu-se de volta às terras quentes do Afeganistão, aos tempos da guerra de sua juventude, onde precisava esperar pelo inimigo disfarçado por entre pedras, sentindo a vida por um fio. De onde estava, não era possível enxergar Holmes, mas sabia que o detetive estava igualmente bem-escondido e pronto para agir, assim como ele.

E assim esperou.

E esperou.

Ouviu os primeiros passos da coxia. Eram os atores e músicos se preparando. Já conseguia ouvir os instrumentos musicais sendo testados, antes do espetáculo, e o burburinho da plateia a se sentar era cada vez mais nítido. A qualquer momento o espetáculo poderia começar e nada de Lupin aparecer. Talvez estivesse planejando cometer o roubo durante o espetáculo, ou na saída. Por mais que soubesse que a segurança do camarote real era altamente reforçada, algo dizia a Watson que isso não suficiente para conter o ímpeto de Lupin. Tomara aos Céus que sim, pensou.

O espetáculo começou. Era “Rei Lear”, uma peça que Watson gostava tanto que já a assistira várias vezes, algumas até mesmo em companhia de seu amigo Holmes. Entretanto, estava tão concentrado em capturar Lupin que sequer era capaz de prestar atenção às falas dos atores.

Até que um homem passou. Carregava uma maleta de ferramentas. Usava um macacão cinzento, que Watson reconhecera de imediato. Era também loiro, com a barba grande e loira, tal como vira no cabriolé. O doutor sentia o coração disparado, e ao mesmo tempo incerto. A descrição era exatamente a mesma que vira no que julgava ser Lupin, mas só se olhasse nos olhos do sujeito ele teria certeza. Mas como fazer isso, estando escondido dessa forma?

Ao ver o homem cada vez mais perto da área de camarotes, o doutor decidiu ignorar sua incerteza e agir. Saiu de seu esconderijo, com a arma em punho, e assim também fez Holmes. O sujeito estava de costas, mexendo na caixa de ferramentas sobre o chão. Temendo que estivesse armado e pudesse reagir, Watson apontou-lhe o revólver em direção à cabeça.

-Mãos na cabeça! Agora! – ordenou o médico. Mesmo de costas, era possível ver que o homem ficara assustado, mas fizera conforme Watson ordenara.

-Vire-se! Agora! E sem gracinhas, senão atiro! – ameaçou Watson, com a voz irritada. Pouco a pouco, o sujeitinho de roupas de operário fez conforme ordenou Watson, virando-se lentamente. Seu rosto estava assustado, mas não foi seu semblante que mais chamou a atenção de Watson, e sim, seus olhos.

Não eram olhos cinzentos, mas sim, azuis.

-Watson, é ele? – perguntou Holmes, enquanto o médico ainda apontava sua arma para a cabeça do sujeito.

-Eu... Eu não tenho certeza. – admitiu, com a mão trêmula de tanta insegurança.

-Pelo amor de Deus, Watson! A descrição desse sujeito é a mesma!

-Mas os olhos dele são diferentes, Holmes! Não são iguais aos seu!

O detetive bufou. – Watson, você pode ter se confundido. Como você mesmo disse, estava escuro!

Ainda com a mão trêmula, Watson resolveu dar o braço a torcer.

-Está bem, é ele! – disse, por fim. Holmes aproximou-se do sujeito, trêmulo.

-O-O-O-O que está fazendo comigo, senhor? – questionava o homem, gaguejando, enquanto tinha as mãos amarradas por Holmes. Ao terminar de amarrá-lo, Holmes acabou surpreendido pela chegada do Inspetor Lestrade Jr.

-O que está acontecendo aqui?! – questionou o inspetor, sem compreender porque aquele homem com roupas de operário estava sendo preso ao invés do pianista.

-Conseguimos encontrar Arsène Lupin, inspetor. Ele tentou enganar Watson, mas não por muito tempo. Agora vamos leva-lo à delegacia para que pague por todos os seus crimes. – explicou Holmes, sob protestos do homem amarrado.

-Mas o meu nome não é Arsène Lupin! Eu me chamo John Donovan! Sou marceneiro desse teatro! Senhores, me soltem! – resmungou o homem, desesperado.

-Não entendo, Mr. Holmes. Seria esse homem algum comparsa de Lupin? Pois até que me consta, o maldito ladrão está a essa altura dentro de uma carruagem de prisioneiros da Scotland Yard, em direção a Dartmoor!

Tanto Holmes quanto Watson se surpreenderam.

-Como assim, inspetor?! – começou Watson. – Está dizendo que o senhor prendeu Lupin?! Mas como?!

-Ora, eu prendi o pianista português Luis Perenna! O patife até tentou fugir, mas conseguimos captura-lo! Fiz questão de manda-lo a Dartmoor, para que não tente fugir, e com escolta reforçada! Estava aqui a procurar justamente os senhores para contar de meu feito.

Holmes olhou para o operário, que dizia se chamar John Donovan, e em um ato até um tanto raivoso, tentou arrancar seu bigode com rispidez. Sem sucesso, nada arrancando senão um grito de dor de seu pobre prisioneiro. Sem dúvidas, a vasta barba loira daquele operário não era falsa, e muito menos deveria ser seus cabelos loiros.

-Fomos enganados, Watson. – disse Holmes, olhando para cima. Ainda que um tanto distante, era possível ver a princesa Catherine a usar seu belíssimo colar “Coração da Normandia”, a prestar atenção na peça com toda tranquilidade do mundo.

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O dia já havia amanhecido, e junto consigo, os jornais traziam as notícias fresquinhas. Ostentavam o grande engano que cometera a polícia, e em especial o famoso detetive Sherlock Holmes, na prisão de um inocente pianista português chamado Luis Perenna, que foi parar na mais perigosa prisão da Inglaterra por ter sido confundido erroneamente com o infame ladrão Arsène Lupin. E tudo isso apenas por ter nascido com um nome que coincidia com um anagrama do ladrão. “Sherlock Holmes Chega Tarde Demais”, dizia uma manchete. Uma, dentre as várias estampadas nas primeiras páginas dos jornais londrinos, agora espalhados sobre a cama.

Na melodia daquele quarto luxuoso de hotel, com vista para a Ponte de Londres, uma doce melodia preenchia o ambiente. Era Beethoven. Jovial, alegre, tal como o humor do violinista que dedilhava notas naquele magnifico violino. Era a primeira vez que tocava um Strativarius na vida, e ainda que o violino não fosse sua expertise, não conseguia deixar de se impressionar pelos tons alcançados pelo instrumento. Sem dúvida, era de qualidade excepcional e justificava o seu valor.

Com o rosto próximo do instrumento para executá-lo, Arsène Lupin ainda sentia um forte cheiro de tabaco, que de tão impregnado àquele instrumento, parecia ter se afixado em sua madeira de tempos medievais. Não sabia se era essa mistura de tabaco com madeira antiga, que remontava aos tempos medievais, que tornava seu cheiro tão marcante, mas era estranho tocar e imaginar que aquele era o cheiro de nenhum outro senão Sherlock Holmes. Aquele a quem sabia ser seu pai, mas a quem a vida havia tornado seu maior inimigo.

E de pensar que enquanto Sherlock Holmes acreditava piamente que o afamado colar “Coração da Normandia” seria afanado por ele em meio àquele teatro lotado, o grande alvo de seu roubo era nada menos que seu precioso violino Strativarius! Roubado bem debaixo de seu nariz e sem qualquer dificuldade. Parece que Josephine, no fim, estava certa. Ele era mais parecido com seu pai do que poderia supor, e pela primeira vez o jovem ladrão usou essa vantagem a seu favor, e por duas vezes, sem ao menos precisar dizer qualquer palavra! Primeiro, enganou seu companheiro, o Dr. Watson, que nem por um segundo desconfiou estar diante de outra pessoa. Depois, a empregada de pele morena – e bonita, por sinal! – que lhe abriu a porta em Baker Street e o deixou passar sem maiores perguntas, decerto porque pensou se tratar de uma versão disfarçada de Sherlock Holmes. Arrombar a porta foi fácil, e encontrar o violino, objeto de seu desejo, mais ainda. Chegou até mesmo a rir, ao ver que o detetive montara uma espécie de placar em um quadro-negro. Apagou o algarismo romano I que estava abaixo de seu nome, com seus dedos e escreveu o número “2”, bem grande e visível para que o detetive compreendesse quem era o vencedor daquela rodada, e melhor ainda, quem era o mais novo dono de seu legítimo Strativarius!

Depois de guardar o violino em uma mala, Arsène Lupin voltou-se para a janela, contemplando o horizonte de Londres mais uma vez, reflexivo. Fora bastante ousado na noite anterior, mas ainda não era o suficiente para o ladrão. Não queria apenas destruir sua reputação, mas também humilhá-lo. O violino foi um caminho bastante ousado e arriscado, mas se queria colocar o célebre Sherlock Holmes de joelhos, precisava recorrer a algo mais pesado. E uma boa ideia já começava a lhe envolver...