Londres, Inglaterra. 13 de Dezembro de 1911.

Pall Mall.

(algumas horas antes...)



Carregar um tapete pela movimentada Pall Mall foi um desafio e tanto. Arsène Lupin chegou a perder a conta de quantas pessoas acabou por esbarrar no meio da calçada. Era um tapete persa imenso, enorme, que havia custado uma verdadeira fortuna. Do dinheiro obtido com os assaltos à residência que havia executado recentemente, pouco havia restado depois da compra do tapete persa. Ele só esperava que tudo transcorresse bem.

O prédio onde vivia Mycroft Holmes não era difícil de encontrar. Era o mais policiado daquela rua. Havia nos arredores pelo menos uns quatro ou cinco policiais da Scotland Yard. Cuidado mais que necessário, dada a importância de Mycroft para o governo britânico, mas que não seria capaz de detê-lo. Havia sido bem meticuloso em seu disfarce dessa vez, planejando por dias uma forma de se aproximar de Mycroft. Depois de furtar pela terceira vez o carteiro que fazia entregas em Pall Mall, finalmente Arsène conseguiu algo que prestasse para se aproximar de Mycroft: a Embaixada da Pérsia estava oferecendo a Mycroft um presente há meses, sem obter respostas. O silêncio dele, decerto, tinha motivações políticas. Longe de ser versado em política internacional, Arsène enxergou na insistência daquela embaixada um bom subterfúgio, que agora repousava pesadamente sobre seu ombro.

Estava bem disfarçado dessa vez. Usava peruca de cabelos loiros e óculos. Vestia também um uniforme roubado, de uma empresa de entregas. Aproveitara-se da carta roubada da Embaixada Persa para falsifica-la. Assimilou a caligrafia da carta e escreveu um texto bem diferente, anunciando a entrega do tapete como sinal de “cortesia”. Mesmo o selo da Embaixada que lacrava a carta Lupin conseguiu preservar. Sabia que entregar um envelope com selo violado colocaria todo seu plano a perder, por isso agiu com extremo cuidado. Abrindo a carta com o calor das chamas de uma vela e impedindo que o selo tivesse seu lacre rompido, Lupin conseguiu tornar aquela carta falsa acima de qualquer suspeita.

-Mr. Brathwood? – questionou-lhe o guarda, depois de receber seu documento falso. – Pois bem, o senhor precisa deixar esse tapete aqui ao lado que nós iremos inspecioná-lo antes que alguém o entregue a Mr. Holmes.

A perspectiva de ter seu tapete inspecionado não agradou em nada a Lupin.

-Infelizmente não posso fazer isso, senhor policial. Recebi ordens expressas da companhia para entregar este tapete em perfeitas condições a Mr. Holmes.

-Ordens da segurança.

-E estas são ordenas da empresa para qual trabalho, senhor. Assim como o senhor, eu também tenho um emprego a zelar. Se souberem que alguém mexeu em um fiapo sequer desse tapete, serei despedido... Tenho uma família para sustentar, senhor policial. Por favor, compreenda minha situação...

O guarda rolou os olhos. Claramente, não tinha paciência para ouvir aquele tipo de súplica.

-Só vou autorizar a entrega deste tapete a Mr. Holmes sem inspeção de nosso pessoal se o próprio autorizar.

Arsène Lupin estremeceu com o aviso do guarda. Perderia o elemento surpresa, que seria fundamental para convencê-lo a ficar com o tapete persa. Não precisava entrar ou trocar uma palavra sequer, apenas entregar o tapete, e tudo estaria resolvido. Agora seria mais complicado. Mesmo assim, aguardou na recepção do apartamento. Era uma recepção luxuosa, rodeada de estátuas de mármore representando deuses gregos e algumas plantas exóticas. Sentiu-se observado inclusive por uma delas. Tratava-se de Zeus, que na mitologia grega matou seu pai, Cronos, para conseguir a imortalidade. Não poderia ser julgado por nenhum outro senão ele.

-Sim, Mr. Holmes... Sim, um tapete persa... Ele disse que é da Embaixada da Pérsia... Sim, sim... Ele está aqui, esperando... Disse que não podemos inspecioná-lo, que tem ordens para entregar diretamente ao senhor... Sim... Sim... Olha... Sim, parece um tapete, sim...

Depois de uns bons minutos no telefone, o guarda desligou. Parecia cansado.

-Mr. Brathwood, o senhor está autorizado a subir com esse seu tapete. Mr. Holmes estará aguardando. Agora, peço que deixe seu documento aqui.

Arsène Lupin aceitou, ainda que contrariado. Era uma medida de segurança da qual dificilmente conseguira escapar. Mesmo assim, nada tinha a temer. Seu documento era falso. Depois de deixar seu documento falso na recepção, foi orientado a ir até o elevador, que dava acesso ao terceiro andar, onde ficava o apartamento de Mycroft Holmes. Ainda bem, aliviou-se Lupin. O tapete era pesado e seus braços já estavam cansados por ter de carrega-lo para cima e para baixo. Nunca antes quis se livrar tanto de uma coisa.

Bateu a porta algumas vezes. Nenhuma resposta. Bateu à porta novamente. Nada. Bateu de novo, dessa vez mais vigoroso. Finalmente, a porta se abriu.

-Ah, o senhor deve ser o entregador do tapete... – disse de imediato um homem em seus cinquenta anos. Usava roupas elegantes, mas claramente era um empregado. Deveria ser algum tipo de mordomo, pensou Lupin. Ainda assim, tomou-se de alívio por conseguir entrar no apartamento de Mycroft Holmes depois de tantos riscos.

-Deixe naquele canto, meu jovem. – pediu o mordomo, sendo atendido prontamente por Lupin. Estava prestes a se retirar quando a presença de um idoso lhe chamou a atenção. Tinha os cabelos completamente brancos, o rosto bem barbeado e redondo de gordura. Era um homem alto, mas bastante corpulento. Vestia um robe verde lustroso sobre o que parecia ser um pijama azul. Apesar de ser perto de meio-dia, ainda estava em pijamas, levemente descabelado.

-Sherlock! – exclamou, quando colocou seus olhos em Lupin. – Não esperava vê-lo aqui depois de tanto tempo...

Lupin tomou-se de pânico, de modo que não conseguiu disfarçar seu desconforto. Seu jeito estremecido, entretanto, não aturdiu o mordomo nem um pouco.

-Não se preocupe, meu jovem. Ele está se confundindo com o irmão dele. Mr. Holmes já não enxerga muito bem, mas sua audição é bastante apurada.

-Compreendo. – respondeu Lupin, já um tanto ansioso, desejoso de deixar aquele lugar. Ao mesmo tempo, sentia-se com os pés fincados ali. Jamais havia visto Mycroft Holmes, e para ele, um homem que havia vivido boa parte de sua família com nada mais além do que um pai, estranhava-lhe a perspectiva de saber que tinha um tio. Ainda que idoso, um tanto senil, mas ainda assim o seu tio.

-Howard, por que não serve uma xícara de chá a meu irmão? Se ele está aqui, decerto tem bons motivos para isso... Aposto que quer meus conselhos para alguns de seus casos.

O mordomo pigarreou.

-Mr. Holmes, creio que esteja fazendo alguma confusão. Esse jovem está aqui apenas para entregar o tapete persa que a Embaixada lhe presenteou. Ele não é seu irmão.

-Ora, mas é claro que é! Não enxergo tão bem quanto antes, mas ainda sou capaz de reconhecer a silhueta de Sherlock de longe! Mas está bem... Sente-se.

Um tanto incerto, Lupin fez conforme lhe foi ordenado. Olhou mais uma vez para o mordomo, que deu de ombros. Parecia saber exatamente o que Mycroft estava prestes a fazer.

-Mr. Holmes, se me permite, eu vou preparar um chá para sua, er... Visita.

Mycroft dispensou o mordomo. De tão limitada estava sua visão, caminhou a passos escassos até o sofá onde Lupin estava sentado. Sentou-se ele também no mesmo sofá. Repouso sua mão gorda sobre o ombro de Lupin. Olhou-o bem fundo nos olhos, mas nada disse. E antes que Lupin pudesse dizer qualquer coisa, sentiu as mãos do idoso sobre seu rosto. Não havia usado tanta maquiagem assim para aquele disfarce, e isso o deixou temeroso de que pudesse ser descoberto.

-Não disse? É você mesmo, Sherlock. Sabia que era você. – concluiu o idoso, depois que seus dedos percorreram a bochecha, queixo e nariz de Lupin. – Parece mais jovem...

Lupin nada preferiu dizer.

-Do que precisa, meu irmão? Aposto que veio até mim para falar sobre aquele ladrão dos jornais... Arsène Lupin, não é mesmo? Não consigo mais enxergar um palmo diante de meu nariz, mas Howard lê o jornal para mim todos os dias. Tenho acompanhado de longe, apenas. No que eu puder ajudar para colocar esse ladrão atrás das grades...

Arsène pigarreou. Conversou brevemente com Holmes, no dia em que se confrontaram em Whitechapel, de modo que sabia como era sua voz e seu jeito de falar. Seria impossível imitar com precisão sua tonalidade. Ele tinha uma voz bem mais grave que a sua. Arriscou, então, imitar apenas o sotaque londrino.

-Não é sobre esse ladrão que vim tratar.

Para desespero de Arsène, sua voz não passou despercebida por Mycroft.

-O que houve com sua voz, Sherlock? Está... Estranha.

-É o frio. – limitou-se a dizer Lupin, torcendo para que seu argumento fraco soasse convincente o bastante para o pobre idoso. E para sua sorte, sim.

-Cada vez mais faz frio nessa época do ano, não é mesmo? Meus ossos doem toda a noite! Pelo visto, não sou o único a sofrer com ele! Mas diga-me, meu irmão, o que se passa?

-Eu tenho uma dúvida. É sobre... Ettie, aquela empregada.

Mycroft estranhou aquele nome. Que pena, pensou Arsène Lupin. Pelo visto, Holmes não conversou coisa alguma com seu irmão sobre isso. Nada de relevante poderia obter dele. Quando prestes a deixar para lá tal conversa e se retirar daquele sofá, Mycroft o deteve.

-Ah, me lembro sim. Como poderia esquecer, não é mesmo? A empregada de Milverton... – disse, deixando escapar um sorriso. – Admito que, de todos os assuntos da Face da Terra, jamais esperei que me procurasse aqui para tratar de algo tão antigo, meu irmão. Mas o que deseja falar sobre ela depois de tanto tempo?

-Sabe o que foi feito dela?

A pergunta soou claramente estranha a Mycroft.

-Não faço a mínima ideia, e como haveria de saber? Quem demandou que ela se afastasse foi você, Sherlock. Tsc, tsc, tsc... O que você fez com aquela pobre moça foi tão repugnante, meu irmão...

-Não foi tão repugnante assim. – retrucou Arsène, usando-se de tática. Já que Mycroft estava agora a confundi-lo justamente com seu pai, o ladrão viu naquela situação a oportunidade perfeita de arrancar tudo mais que soubesse sobre suas origens. Sobre o porquê de ter sido abandonado. Ouvira de Josephine que fora rejeitado por Holmes por ser um filho bastardo, mas depois daquelas poucas palavras trocadas com Holmes em Whitechapel, algo lhe dizia que o próprio sequer sabia de sua existência.

-Mas é claro que foi, Sherlock! Você mesmo reconheceu isso! Tanto que entregou àquela mulher uma boa quantia em dinheiro para reparar seu erro, não?

“Para me abortar, você quer dizer”, pensou Lupin, tentando se conter para não discutir com seu tio. Depois de se deitar com uma pobre empregada, a saída para “reparar seu erro” era um aborto... Não poderia, afinal, permitir que seu sangue misturasse com o de qualquer pessoa, em especial uma empregadinha qualquer. Era assim que homens como ele pensavam. Que abominável.

-E o que aconteceu depois?

-Eu não sei. Você nunca mais me procurou para falar sobre isso. Bom, ao menos até agora, o que muito me estranha.

-Pois eu te digo o que houve. – levantou-se Lupin, tomado de raiva. Levantou-se do sofá, encarando seu tio de pé, e sem qualquer preocupação em disfarçar qualquer coisa. – Aquela pobre mulher aceitou o dinheiro, mas não seguiu com o seu plano nefasto de me abortar. Ela pegou o dinheiro e foi embora para a França, mas infelizmente sofreu um golpe. Perdida em outro país, teve uma gravidez difícil, e infelizmente não pôde me criar porque não resistiu ao meu parto.

Mycroft escutou cada palavra proferida com grave ódio por Lupin, horrorizado.

-Abortar?! Não! Mas o que está dizendo?! Você... Você não é o meu irmão Sherlock... Quem é você, afinal?! – passou a questionar Mycroft, nervoso.

Abalado com tudo que ouvira de Lupin, Mycroft levou sua mão ao peito. Sua boca começou a estremecer, e antes que pudesse dizer qualquer coisa, soltou um grunhido de dor. Os olhos cinzentos de Lupin arregalaram-se. Não era sua intenção fazê-lo passar mal, mas deveria ter imaginado o que sua explosão poderia provocar em um homem tão idoso como era seu tio Mycroft.

-Meu remédio... – ouviu Mycroft pedir.

“Meu remédio”. Foram estas as últimas palavras de seu pai testemunhadas por Arsène. Foi inevitável não se recordar de seu pai, passando mal no vinhedo, pouco antes de morrer. A última vez que viu seu pai com vida. O deixou vivo, quase que agonizante, com Josephine, para correr atrás de um médico que pudesse socorre-lo. Não sabia se fez tudo que podia para salvá-lo e se atormentava por isso. Quando soube posteriormente pelo médico que tudo que Théodore Lupin precisava era de seu remédio, lamentou-se. Teria sido mais eficiente se tivesse procurado por ele, ao invés de galopar até a cidade em busca de ajuda médica. Mas Mycroft teria mais sorte que seu pai.

Arsène aproximou-se de Mycroft, levando suas mãos até o seu pescoço, e pôs-se a afrouxar sua gravata apressadamente, numa forma de lhe dar algum conforto.

-Où est ton médicament? – pôs-se a perguntar Lupin pelo seu remédio. De tão apreensivo, acabou por falar em seu idioma natal, o francês.

-Dans le premier tiroir... – apontou Mycroft, respondendo-lhe também em francês. Natural que soubesse, dado a importância de seu cargo no governo. Mas antes que Lupin corresse para pegar o remédio, o mordomo apareceu.

-O que houve, Mr. Holmes? Ouvi-o gritar... – questionou o mordomo, apreensivo.

Sentindo-se encurralado pelo jeito desconfiado do mordomo a lhe observar, Lupin decidiu correr dali. Sem qualquer cerimônia, retirou-se da sala apressadamente. Como o elevador não estava no andar, Lupin desceu as escadas, quase que em saltos. Temia que fosse descoberto. O prédio de Pall Mall era bem policiado, e dificilmente conseguiria escapar da prisão se fosse denunciado pelo mordomo. Muito embora achasse difícil que o mordomo fosse atrás dele. A essa hora, estaria ocupado, tentando socorrer seu patrão, ao invés de perseguir um afobado entregador de tapetes. Ainda assim, Arsène não conseguia deixar de se sentir culpado pelo que fez. E ainda que não houvesse qualquer remorso nas palavras de Mycroft quanto ao dinheiro entregue por seu irmão para que sua mãe abortasse, Lupin não queria sua morte. Bastava castigar seu querido irmão Sherlock. Já lhe soava merecido o bastante.

Mas ao menos conseguiu deixar o bendito tapete persa em Pall Mall. Agora, era dar andamento ao restante do plano. Mesmo assim... Sentia-se mal pelo que estava prestes a fazer. Muito mal, com a consciência pesada, como poucas vezes se sentira. Seria este o certo? Seu problema era com seu pai, não com seu tio. Outra vez, sentia-se indo longe demais em sua vingança. Poderia desmoralizar Holmes, sim, mas e depois disso? O que faria da vida? Talvez o melhor fosse retornar para a França...

Ou, quem sabe... Procurar aquela moça de cabelos loiros, Miss Watson. Ele a achava tão bonita, estonteante, e acima de tudo, esperta. Talvez por isso se sentisse tão capturado por ela, por sua esperteza que lhe era tão incomum às mocinhas de sua idade. Mas agora, era tarde. Havia posto tudo a perder a partir do momento em que a sequestrou, naquela sua ideia idiota de “roubar sua mais preciosa joia”, como se ela fosse algo minimamente perto de um objeto. Certamente ela o achava um monstro, e com razão. Jamais provocou tais sentimentos em mulheres, nem mesmo nos mais difíceis roubos e golpes que dera. Sua raiva pelo que Holmes fizera consigo e com sua mãe o deixara cego, incontrolável, e até mesmo irreconhecível. Em Londres, parecia ser outra pessoa. Uma pessoa que ele jamais quis ser.



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Aquele era um autêntico tapete persa. Mesmo que belíssimo aos olhos, sua qualidade estava nítida já no primeiro passar de olhos de Sherlock Holmes com sua lupa. Era aquele um tapete confeccionado em pura seda, cujo processo milenar era lentíssimo. Alguns levavam anos para serem concluídos, o que só o tornava o tapete ainda mais precioso. Um processo artesanal, transmitido por várias gerações de famílias persas. Sem dúvida, um presente digno de uma Embaixada.

-Não seria melhor confirmar com essa tal Embaixada se eles realmente presentearam o Mr. Mycroft Holmes com esse tapete?

-Melhor manter os persas longe disso, Howard. Se meu irmão estava realmente recusando um presente deles, decerto havia um bom motivo para isso. Tudo que não precisamos é de uma crise diplomática nesse momento, ainda mais uma provocada por meu irmão, mesmo que indiretamente. – explicou Holmes, ainda com os olhos fixos em sua lupa, a analisar o tapete. Por fim, um detalhe no tapete pareceu atrair sua atenção.

-Achou alguma coisa? – questionou o mordomo.

-Sim. Howard, poderia fazer a gentileza de me trazer uma faca?

-Uma faca, Mr. Holmes? – assombrou-se o mordomo. Parecia penalizado diante da perspectiva de ver aquele belíssimo tapete persa arruinado pelo detetive.

-Exatamente. E lamento informar, mas este magnífico tapete, infelizmente, já foi arruinado por seu proprietário anterior. Não farei um estrago maior do que o já feito.

Contrariado, o mordomo foi até a cozinha. Acatando as ordens de Holmes, entregou-lhe uma faca longa e afiada. De posse do utensílio, Holmes aproximou a lâmina de uma das extremidades do tapete, e sem qualquer dó, pôs-se a cortar o que parecia ser uma sucessão de pontos de costura em seu entorno. Passava a lâmina da faca por entre as linhas com notório cuidado, o que tornava seu trabalho lento.

Estava prestes a terminar quando sentiu Mycroft adentrar à sala, com seus passos lentos e descalços sobre o assoalho do apartamento. Seu irmão claramente estava péssimo. Havia tomado fortes medicamentos para controlar o forte aperto que sentiu no coração e o médico lhe recomendou um bom repouso, que pelo visto, não iria ser cumprido de todo modo.

-Que pecado, cortar um tapete tão bonito... – comentou Mycroft. Pelo visto, havia escutado parte da conversa, afinal não estava enxergando praticamente nada ali.

-Folgo vê-lo bem, Mycroft. E para que não mais me recrimine, não. Houve quem cometesse tamanho desatino antes de mim, portanto devo estar perdoado por essa atrocidade. Agora, vamos ver o que diabos havia escondido dentro desse tapete.

Holmes puxou o tapete com cuidado. Não conseguiu impedir que uma exclamação de surpresa escapasse de seus lábios. Howard, também tão espantado quanto ele, fez o mesmo.

-Mas o que vocês estão vendo para ficarem assim, mortificados?! – passou a questionar Mycroft, o único que nada conseguia enxergar com clareza naquele recinto.

-É uma obra de arte, Mr. Holmes. – respondeu o mordomo, maravilhado.

-Mas um tapete persa é realmente uma obra de arte. Não entendo a surpresa.

-Trata-se de um legítimo Horace Vernet, meu irmão Mycroft. “O Manto de José”, para ser mais preciso.

Nunca antes Mycroft Holmes lamentou tanto por estar cego. Sempre admirou a arte produzida por seus antepassados, ancestrais de sua mãe, e infelizmente estava diante de uma tela pintada por eles e incapaz de testemunhar sua beleza com a merecida justiça. Só o que enxergava eram borrões e vultos.

-Mas o que este quadro está fazendo aqui? Deveria estar em um museu, não?

-Penso que acabamos de antecipar a mais recente investida de Arsène Lupin contra mim, meu irmão. E pelo visto, fui leviano por achar que ele não se aproximaria de você para me atingir.

-Mas o que esse ladrão pretendia, deixando esse quadro escondido dentro desse tapete? – perguntou o mordomo, ainda abismado por aquela descoberta.

-Esse quadro, meu caro Howard, foi roubado recentemente por Arsène Lupin de um museu aqui em Londres. Penso que o tapete persa entregue a Mycroft foi uma forma de forjá-lo como um possível comprador de obras roubadas, o que seria um escândalo perfeito para alguém de sua posição, e especialmente a minha. Imaginem, polícia encontra escondida na casa do irmão de Sherlock Holmes um quadro roubado... Até que tudo fosse esclarecido, o escândalo já estaria disseminado por todos os jornais.

-Que patife! – deixou escapar o mordomo, mas imediatamente voltando à sua postura formal. – Quero dizer... Perdoe-me pela deselegância, senhor.

-Não precisa se desculpar, Howard. Infelizmente as atitudes desse ladrão têm sido uma sucessão de coisas lamentáveis.

-Acha que ele ainda pode denunciar Mr. Holmes pelo roubo dessa arte?

Holmes consultou as horas em seu relógio.

-Penso que não. Do contrário, já o teria feito há muito tempo. Como você mesmo disse, esse tapete foi entregue ainda de manhã, correto?

Holmes ouviu um pigarreio forte, ecoado por seu irmão Mycroft. Era claramente uma mensagem a Howard, que com um assentimento, recolheu-se daquela sala, deixando os dois irmãos sozinhos. Gesto típico de alguém que queria ter uma conversa privada, de teor particular o bastante para não ser escutada por empregados.

-Creio que seja melhor se sentar, Sherlock.

-Não sem antes ajuda-lo.

Holmes ajudou seu irmão a se sentar. Uma tarefa difícil. Mycroft era pesado, gordo, e sua dificuldade com a cegueira tornava tudo mais difícil. Para completar, estava um tanto grogue, devido aos medicamentos. Mas conseguiu fazê-lo se sentar ao sofá, que estremeceu com um estalo diante de seu impacto.

-Sabe, Sherlock... Muitas vezes eu me pergunto o porquê de ainda permanecer vivo apesar de tantos problemas de saúde, e penso que hoje eu finalmente obtive a resposta.

-Do que está falando, Mycroft?

-O rapaz que esteve aqui, Sherlock. Eu o confundi. Pensei que fosse você. Mas não foi porque ele me enganou com algum truque, longe disso... Ele tinha seus traços físicos. E pelas coisas que me disse, há uma boa explicação para isso...

Holmes suspirou pesadamente.

-Foi Arsène Lupin quem esteve pessoalmente aqui e entregou o tapete, então. – disse, num tom conclusivo.

-Seu filho, isso que quis dizer? Pois sim.

-O que ele te disse, Mycroft? Pois Howard me contou que vocês estavam conversando quando se retirou para preparar um chá, e que acredita que foi essa tal conversa que o deixou abalado a ponto de sentir-se mal... – pediu Holmes.

-Foram coisas horríveis, Holmes. Por isso passei mal. Mas não o culpo. O que quer que tenham contado a ele sobre... Bem, sobre suas origens.. Eu também teria muita raiva.

-A ponto de maltratar um idoso? – questionou Holmes, irritado.

-Ele estava me tratando bem, até o momento. Acho que foi algo que eu disse...

-E o que disse?

Mycroft suspirou.

-Ele começou me perguntando sobre a empregadinha de Milverton... Sabe, aquela moça que você... Bem... Agiu com desrespeito... Não preciso entrar em detalhes, não é?

Holmes suspirou. Sem dúvida alguma, Arsène Lupin sabia quem era a sua mãe verdadeira, e principalmente em que circunstâncias foi gerado. Aquela revelação fê-lo sentir-se tão envergonhado como se o que fizera no passado tivesse ocorrido ontem.

-Eu deveria ter suspeitado daquela conversinha estranha dele. Deveria ter suspeitado, para começo de conversa, pela voz. Ele tentou dar uma encorpada, mas claramente não era você. Mas acabei relevando e infelizmente fui enganado. Penso que disse algo que ele se desagradou de saber.

-O que contou a ele?

-Contei sobre o dinheiro que você deu àquela pobre moça, para que ela se arranjasse na vida. Mas ele não pareceu surpreso, nem um pouco. Claramente sabia, mas pelos motivos errados. Falou em... Aborto...

-Sabia! – exclamou Holmes. Agora estava tudo claro. Contaram a Arsène Lupin uma versão bem diferente do ocorrido. Que o dinheiro que ele entregou à Ettie como maneira de “reparação” por seu mal passo era na verdade para que ela abortasse. Como Arsène sabia que sua mãe era uma empregada, não era difícil entender que ele era considerado pelo pai rico como um filho indesejado, que sequer deveria ter nascido.

-Aquele dinheiro, que entregou para essa moça... Não foi para isso, foi?

-Está suspeitando de mim, Mycroft?! De que eu seria capaz de fugir de tamanha responsabilidade?! Francamente...

O mais velho dos Holmes deu de ombros, diante da indignação de seu irmão.

-Bom, você não seria nem o primeiro muito menos o último homem a recorrer a essa “saída”. Mas admito que se o fez, não seria algo de seu feitio.

-Absolutamente não, Mycroft! Quando me reencontrei com ela para entregar o dinheiro, nenhum de nós dois sabia que ela estava grávida.

-Por Júpiter, então é verdade... – arregalou Mycroft seus olhos cinzentos. Já estava nítido que havia sido confrontando com ninguém menos que seu sobrinho, mas não conseguia deixar de se chocar com a confirmação dessa história.

-Ettie foi embora para França com o dinheiro que a dei.

-Ele disse isso. E disse também que ela morreu no parto.

-Uma grande mentira que lhe contaram! Ettie está morando comigo em Baker Street.

-Como é?! – chocou-se Mycroft. – Você se casou com ela?!

-Não, mas...

-Pelos deuses, Sherlock... Dê a família Holmes alguma dignidade a seu bom sobrenome e despose de uma vez essa pobre mulher! Já não basta o fato dela ser a mãe de um filho bastardo seu, ainda a quer por concubina depois de tudo que fez?

-Ela não quer se casar comigo, esqueça. E está muito longe de ser minha concubina em Baker Street. Tem horror a mim. Só está morando lá porque quer que eu impeça nosso filho de ser preso ou coisa pior, do contrário já estaria bem longe de mim.

-Pois que fibra tem essa jovem! Fez bem!

Holmes riu. – Fala como se eu fosse algum tipo de crápula...

-Para ela, sim. Dado tudo que fez... Mas uma coisa me causa estranheza em toda essa história. Esse rapaz, Arsène... Ele me perguntou se eu tinha notícias dela. Fez essa pergunta antes de me contar que ela morreu em seu parto.

-Deveras? – surpreendeu-se Holmes. – Mas que estranha pergunta.

-Talvez esse jovem rapaz não tenha tanta certeza assim de que sua mãe está morta.

-Realmente, não. Sinal de que está desconfiado quanto à história que lhe contaram. Aproveitou-se de sua confusão para sondar mais. Mas é bom saber que ele está com dúvidas... Sinal de que meu plano tem tudo para dar certo...

-Que plano, Sherlock?

Apesar de enxergar muito pouco, Mycroft sentiu seu irmão um tanto encabulado.

-Melhor não te contar, Mycroft. Tenho certeza de que irá me recriminar por isso.

-Sinal de que não é um bom plano. Bom, espero que saiba o que está fazendo. Agora, o que fará com esse tapete, e principalmente com a pintura roubada que estava escondida por baixo dele?

Holmes suspirou.

-Vou telefonar para a Scotland Yard, para contar que Arsène Lupin deixou a pintura de Vernet aqui. Evidentemente, precisamos deixar de fora os detalhes de sua conversa com Arsène, meu irmão. A polícia não pode saber que ele é meu filho, senão estaremos ambos perdidos.

Mycroft assentiu. Ainda assim, não parecia satisfeito.

-Compreendo, Sherlock. Quanto ao subterfúgio que ele fez... Um homem de minha posição, receber um tapete desses como presente dos persas... Seria péssimo para Inglaterra, meu irmão. É tudo que sou autorizado a dizer. Negócios delicados envolvendo Diplomacia, deve imaginar...

-Pois eu prefiro me manter fora desses pormenores, Mycroft. Pode dizer que foi entregue no tapete, mas não mencione a Embaixada Persa. O quanto menos as toupeiras da Scotland Yard souberem desse assunto, melhor.

Holmes enrolou o tapete novamente, deixando a pintura oculta outra vez. Com o tapete enrolado, recostado a um canto da parede, telefonou a Scotland Yard. O Inspetor Lestrade Jr. estava de folga, infelizmente, mas outro inspetor cuidaria de sua denúncia.

A Scotland Yard demorou a chegar, mas já havia recolhido o tapete, bem como a pintura de Vernet, e a levado para a delegacia. Estava tarde, bastante tarde. Seria difícil retornar para casa em horário tão ruim.

-Não acha melhor dormir aqui, Sherlock? Dificilmente vai conseguir um cabriolé a uma hora dessas... – comentou Mycroft.

Parecia racional, pensou Holmes. Já passava das três da manhã. Umas poucas horas a dormir em um dos quartos de hóspede na casa de Mycroft não seria de todo ruim. Amanhã bem cedo voltaria para casa, para retornar para suas investigações. Pelo visto, vencera seu adversário nesse embate por W.O. Arsène Lupin chegou a dar início a seu plano, mas desistiu de conclui-lo. Talvez porque causara mal-estar em seu próprio tio a ponto de fazê-lo passar mal com suas revelações. Sinal de que ainda havia um pouco de consciência. Talvez nem tudo estivesse perdido. Algo lhe dizia que Arsène Lupin estava muito longe de ser um novo James Moriarty. Poderia ser dono de uma mente perspicaz, mas tinha seus próprios limites morais. Essa conclusão não deteve Holmes de sentir-se esperançoso. Esperança era um sentimento que mais atrapalhava do que ajudava em seu trabalho como detetive, mas naquela situação servia mais como um componente motivacional que qualquer outra coisa.