Yolanda Hudson andava impaciente, de um lado a outro, na cozinha. Era difícil digerir a sequência de acontecimentos daquele dia. Donald Hudson estava fora, à procura de um emprego no cais, de modo que coube a ela cuidar dos meninos. Michael se dirigiu às aulas de piano. O menino estava cada vez mais empolgado e todos os dias perguntava a seus pais quando poderiam comprar um piano. Já Patrick havia se entusiasmado com a possibilidade de jogar football pela primeira vez. Comprara inclusive uniforme e até mesmo uma bola de football, apesar de sequer haver espaço para jogar aquela bola em casa.

E aquele que deveria ser um dia como outro qualquer, infelizmente, já havia começado péssimo. Muito antes do previsto, Patrick chegou em casa aos prantos, carregando um estranho junto consigo e também uma moça, que por coincidência era a filha mais velha do Dr. Watson. Quanto ao rapaz desmaiado carregado pelos dois, ninguém sabia dizer, muito embora Patrick afirmasse o tempo todo que era uma boa pessoa, pois foi a única voz a se levantar naquele gramado para protege-lo de uma agressão. Sim, meninos racistas não queriam dividir o campo com seu filho, só por causa da cor de sua pele. O que mais Yolanda temia infelizmente aconteceu. Mesmo tendo lido nos jornais sobre um jogador negro que chegou a disputar campeonatos em uma equipe inglesa, os ingleses não aceitavam negros em seu convívio, de forma alguma. Yolanda, que crescera ouvindo dos brancos que era inferior demais para ser qualquer coisa além de uma escrava, tentou a todo custo proteger seus filhos dessa realidade. No Brasil, as coisas não eram nem um pouco mais fáceis. A escravidão havia sido abolida não mais que vinte anos e a maioria dos negros estavam em completa miséria, com imigrantes a ocupar seus postos de trabalho. Apesar da crueldade da escravidão ter sido uma realidade não muito antiga, Yolanda jamais sentiu tamanha hostilidade como em Londres.

-Eu disse a você, não disse? – questionou Yolanda a seu esposo Don.

Cansado, Don Hudson havia acabado de chegar em casa e estranhou que Patrick já tivesse retornado tão cedo do treino de football. Afinal, mal havia passado das dez da manhã. Encontrou-o chorando, e para completar, havia um rapaz desmaiado em seu quarto, com um corte na cabeça. Tanta coisa havia acontecido naquela manhã tumultuada que já esperava ouvir de sua esposa um sermão daqueles, assim que tivessem um pouco de privacidade.

-Eu disse, Don. Disse a você que morar em Londres não seria nada fácil para... Para pessoas como eu, como seus filhos... Já era tão difícil sermos aceitos no Brasil... Só não ouvia ofensas dos brasileiros como eu por causa do seu sangue inglês. Tinha lá as minhas amizades, até. Aqui não tenho absolutamente nada ou ninguém. Moro em uma boa casa, em um lugar bem valorizado, mas todos entortam o rosto quando me veem. Não houve um só dia sequer que eu não me sentisse alvo de olhares questionadores, a me achar uma invasora, uma pessoa indesejada nessas terras... Alguém impuro.

-Yolanda, não podemos desistir agora. É importante para o futuro de nossos filhos permanecer aqui, em Londres. Ou o que pensa que eles se tornariam se continuássemos a morar lá? Como cuidaríamos desse imóvel em Baker Street, que está na minha família há gerações? E que tipo de oportunidade há para nossos filhos por lá? Quer condena-los para sempre a serem míseros pescadores, tal como eu?

-Eu não quero ver meus filhos sendo maltratados dessa forma, Don! Não quero! E se meus filhos estiverem condenados a viverem do mar, tal como o pai deles, que assim seja! Não deixei por um instante de amar você por causa do seu fedor de peixe, de suas mãos calejadas, de sua pele queimada pelo sol! O que não tolero é ver a dor estampada no rosto de Patrick outra vez por causa dessa cidade cheia de gente intolerante, que odeia tudo que lhes é diferente!

-Yolanda... Voltar para o Brasil significa fugir.

-Fugir é o que temos feito a vida toda, Don. Por que mudar isso agora?

-Porque talvez esse tenha sido justamente o nosso erro, Yolanda. Minha mãe não aceitou nosso casamento, e o que fiz? Fugi para longe, a ponto até de fazê-la se esquecer de minha existência. Minha mãe morreu racista, odiando pessoas como você, sem sequer ter sido confrontada sobre isso. Penso que não deveria ter ido a lugar algum, Yolanda. Deveria ter morado aqui em Londres, por menos perto que fosse, mas ter tido os nossos filhos aqui... E ter enfrentado seu preconceito.

Yolanda já não conseguia mais segurar as lágrimas.

-Eu não sei se sou forte o bastante para essa luta, Don. Não sei...

As mãos grossas pela lida no mar envolveram-se nas suas, também ásperas pela dureza da vida. Ainda que vindos de mundos tão diferentes, ambos carregavam suas próprias cicatrizes, mas não menos distintas.

-Precisamos ser, Yolanda. Precisamos ser, se queremos deixar um mundo melhor para nossos filhos e netos. Você já foi tão corajosa, amor... Foi corajosa a vida toda, do contrário jamais estaria aqui. Minha coragem não chega nem perto da sua. Agora, Patrick precisa mais do que nunca dela.

-Aquele rapaz o defendeu dessa vez e evitou o pior. Mas e depois, Don? É isso o que mais temo...

Agnes Watson sabia que era feio ouvir conversa atrás da porta, mas não pôde deixar de evitar que parte daquele diálogo tão íntimo daquele casal alcançasse seus ouvidos. Havia ido até o limiar da porta da cozinha, onde conversavam, e deteve-se. Não porque era de seu feitio saber mais da vida alheia, mas desde que trouxera Arsène Lupin para algo perto do que se poderia dizer “território inimigo” – ao menos, imaginava seu pai, o Dr. Watson, referir-se assim – ela se sentia acuada, a temer que ele fosse descoberto, ainda que não houvesse qualquer evidência de que tratava do infame “Ladrão de Casaca”. Aos olhos de qualquer um, aquele era um rapaz sem nome, que havia tomado a atitude corajosa de defender Patrick de ataques preconceituosos, e infelizmente inspirava cuidados. Ainda assim, Agnes temia o pior. Que a polícia aparecesse, que ele não melhorasse e resolvessem leva-lo a um hospital...

Pigarreou, ao limiar da porta. Precisava buscar água, e infelizmente teve que interromper a discussão do casal. Foi atendida por uma Yolanda ainda um tanto inebriada pelos últimos eventos, e decerto pensativa quanto ao apelo de seu esposo Don. Em seu interior, Agnes torcia para que ela não deixasse Londres. Aprendera com as feministas que o mundo precisava mudar, mas toda e qualquer mudança demandava, sobretudo, atitude. E voltar para o Brasil seria fugir da luta e se conformar com uma sociedade que a desrespeitaria aos seus para sempre.

-A senhora precisa de alguma coisa, Miss Watson? – perguntou Yolanda.

-Sim, eu gostaria de um pouco de água.

-Para a senhorita, presumo?

-Sim. Apesar de não ser médica, sei que não podemos oferecer água àqueles que sofreram pancadas na cabeça.

-A senhorita é muito sábia, Miss Watson. Bem vejo que possui o talento do pai a correr em suas veias. – elogiou Don, no que fez Agnes sorrir. Até poderia ter tamanho dom, mas seu pai jamais aceitaria vê-la ocupando uma cadeira no curso de Medicina.

-Mas o senhor também parece ser muito sábio quanto a ferimentos, Mr. Hudson. Chegou inclusive a fazer pontos na cabeça daquele pobre rapaz...

O marinheiro sorriu com o elogio. – Na minha vida de marinheiro, já vi todo tipo de ferimento, e como infelizmente um hospital ou médico está há léguas de distância da gente, precisamos nos virar quando alguém se fere a bordo. Mas creio que o melhor seria que ele fosse enviado a um hospital. Estamos em Londres, não no Oceano Atlântico, e não se deve brincar com lesões na cabeça...

Agnes assentiu, não conseguindo esconder seu nervosismo. Era o mais correto, mas seu temor de que fizessem perguntas demais no hospital colocasse a identidade de Arsène em risco. Com toda a certeza estava portando documentos falsos, que poderiam ser detectados em uma boa inspeção. Contudo, preocupava a lesão. Arsène ainda estava inconsciente, deitado sobre a cama de Patrick, e cada minuto a se passar com ele neste estado a enervava. Esperava estar tomando a decisão certa.

-Vamos aguardar mais um pouco. Se ele não acordar logo, levamos a um hospital. – foi o que preferiu dizer Agnes, se retirando da cozinha depois de receber um copo de água das mãos de Yolanda. Bebeu da água com calma, pensando nas possibilidades que tinha adiante.

Arsène Lupin estava deitado sobre a cama, exatamente do mesmo jeito que fora deixado por Patrick. Ou ao menos, quase isso. Estava descalço, com o colarinho da camisa aberto, e sem o bigode falso de seu disfarce, fato este que infelizmente não passou despercebido pelo tenaz Patrick. Sua cabeça estava enfaixada. Donald Hudson havia feito um bom curativo, sinal de que a vida do mar deveria ser bastante atribulada a ponto de torna-lo um homem experiente com cuidados médicos desse tipo. Havia um cobertor sobre si. Era, aos olhos de Agnes, um rapaz em seus vinte anos e nada mais. Sequer parecia o temido Ladrão de Casaca, repleto de inimigos na França e agora na Inglaterra, cujo nome ao ser proferido suscitava medo nos afortunados lordes de seus países.

Agnes perguntava-se o que poderia fazer. Levá-lo ao hospital estava fora de cogitação, realmente, mas não conseguia deixar de se incomodar com o andar de cima. Lá, onde vivia o célebre detetive Sherlock Holmes, e também pai de Arsène Lupin. E também, é claro, a mãe dele. A tal “Ettie”. Nunca ouvira falar dessa mulher, nem mesmo por seu pai. Talvez tudo pudesse ser resolvido se todos pudessem simplesmente conversar, resolver as diferenças do passado. Jamais seriam uma família perfeita, mas ao menos poderiam acabar com o clima insuportável de “gato e rato” que estava tomando a cidade. Os jornais noticiavam, eufóricos, cada passo da guerra entre Holmes e Lupin, e muitas propriedades adormeciam temerosas de se tornarem alvo de cobiça do ladrão. Havia aquela sensação de “quem será o próximo?” a habitar as mentes de praticamente qualquer um que tivesse algo digno o bastante de ser roubado. Essa guerra precisava acabar.

-Ele ainda não acordou, pelo visto. – comentou Agnes a Patrick, sentado em uma cadeira próximo de sua cama. O menino ainda estava abalado pelo que aconteceu, mas estava grato pela ajuda daquele estranho sem nome, ainda inconsciente sobre sua cama.

-Não, mas o papai disse que ele está muito próximo de acordar.

-Ótimo, assim espero. Patrick... Se ele acordar, pode dizer para ele me esperar?

-Sim, mas aonde a senhorita vai? – perguntou o rapaz, desconfiado.

-Ah, eu vou visitar o tio Sherlock. Tem um tempo que não o vejo.

O menino sorriu. – “Tio Sherlock”... Ele permite que o chamem assim?

-Ele parece não gostar muito, mas nunca nos recriminou. Se me dá licença...

Despedindo-se de Patrick, Agnes deixou o apartamento dos Hudson e subiu as escadas, indo acessar o famoso 221-B, a morada de Sherlock Holmes. Apesar de ter decidido quanto ao que fazer, não conseguia deixar de afastar o estranho medo de que Holmes simplesmente chamasse a polícia. Mesmo que soubesse que Arsène Lupin é seu filho? Sim, mesmo que soubesse. Holmes sempre pareceu ser um homem frio, alheio aos sentimentos humanos. Havia um risco palpável de que não sentisse por Lupin nada mais que rivalidade, mas Agnes torcia para que a paternidade gritasse mais alto. Nem sempre ele mandou todos os bandidos para a cadeia, dizia a si mesmo, a se recordar dos inúmeros casos em que ele acobertara criminosos guiados por seu “senso moral”. Esperava contar com esse mesmo “senso moral” agora.

Bateu à porta, mas para sua surpresa não foi atendida por Holmes, e sim por uma mulher, cujo rosto mal era possível de se enxergar por trás de uma pequena fresta aberta da porta. Só o que enxergava era seus olhos castanhos, quase negros e arregalados de susto.

-Boa noite! Em que posso servir a senhora? – perguntou a mulher, numa forma que mais remetia a uma empregada que qualquer outra coisa. Só poderia ser esta mulher a dita “Ettie” dos jornais.

-Er... Boa noite. Gostaria de falar com Sherlock Holmes.

-A senhora é cliente dele? – perguntou a mulher. Se antes soava como empregada, agora soava como secretária. Era até estranho pensar em tio Sherlock com uma empregada, que dirá esposa... Ou “companheira”, pois não havia aliança alguma em seu dedo, se era possível assim chama-la. Mais educado que “concubina” ou “amante”.

-Senhorita, na verdade. E meu nome é Agnes Watson, eu sou filha do...

-Do Dr. Watson, é claro! – exclamou a mulher, maravilhada. Imediatamente a porta se abriu, e a mulher fez um aceno para que Agnes adentrasse ao apartamento de Holmes. – Por Deus, desculpe a minha falta de modos. Eu realmente não sabia de que se tratava da senhorita...

-Não há qualquer problema, Miss....?

-Smith. Henrietta Smith. Mas pode me chamar de “Ettie”.

Agnes sentou-se, enquanto Ettie continuou de pé. Demorou longos segundos para que Ettie se sentasse, posicionada naquela sala como se estivesse prestes a receber a qualquer momento ordem para que servisse um chá ou coisa parecida. Era como seu pai dizia, “velhos hábitos custam a morrer”, e isso era nítido em cada atitude de Ettie, deslocada naquele apartamento e também em um papel que não fosse servir gente rica.

-Onde está o tio Sherlock?

-Ele saiu bem cedo. Acho que foi fazer uma daquelas investigações na rua. Saiu disfarçado, sabe-se lá de quê. Pediu para que eu não o esperasse para almoçar, sinal de que levará um bom tempo na rua...

-Pelo jeito, sim. Bom, receio que o que me traz aqui é urgente demais para esperar que ele retorne. Mas ao menos a senhorita está aqui, o que creio que seja bastante útil.

Ettie franziu o cenho.

-Não sei bem no que poderia ser útil à senhorita, afinal não tenho aquelas habilidades de Holmes que mais parecem ser coisas de feiticeiro...

Agnes riu. Nisso, não conseguia discordar de Ettie. Em muitos momentos Holmes parecia agir como um bruxo ou adivinho.

-É sobre Arsène Lupin. Ou melhor, o filho de vocês. Esqueci o nome...

-Scott Smith, esse é o nome de meu filho. Quanto a esse tal Arsène Lupin, não sei bem o que a senhorita quer dizer... – desconversou Ettie.

-Não precisa negar qualquer coisa, Ettie. Eu já vi Arsène pessoalmente, e posso afirmar que não é muito diferente do que deve ter sido o tio Sherlock quando vocês... Bem... Se conheceram há uns vinte anos... Você me entenderia se o visse. Não há como negar a semelhança entre eles, e antes que me diga que todo mundo tem alguém bastante semelhante a si em algum lugar do planeta, devo dizer que o próprio Arsène me contou que Ettie é o nome de sua mãe. Portanto, sim. Arséne Lupin é inegavelmente seu filho com o tio Sherlock. Estes são os fatos.

Ettie estremeceu. Parecia insegura quanto ao que fazer. Em sua cabeça, muita coisa deveria se passar. Inclusive sua raiva por Holmes não estar ali. Certamente ele teria algo na ponta da língua para dizer. Nunca antes lamentou tanto sua ausência.

Coube a Agnes continuar.

-Não estou aqui para julgar o que aconteceu no passado, Miss Smith. Mas há algo que preciso te contar... Neste momento, Arsène Lupin está mais perto do que vocês imaginam.

-Onde ele está? – levantou-se instantaneamente Ettie do sofá, a questionar Agnes com os olhos lacrimejados. Se em algum momento pensara em recusar aquela história, agora seria impossível. Era nítido o seu desespero diante da perspectiva de estar diante de Arsène Lupin. E só uma mãe ficaria dessa forma. Mesmo que jamais tivesse tido uma propriamente, era esse tipo de imagem materna que Agnes idealizava em sua mente. O amor incondicional de uma mãe por um filho, independente de quem ele fosse, do que fizesse e do que pensasse.

-Eu vou contar, mas preciso que mantenha a calma...

Calma era a última coisa que Ettie desejava sentir. Queria finalmente estar diante de Arsène, coisa esta que só Holmes conseguiu, e da pior maneira. Queria tocá-lo, abraça-lo, dizer a ele com todas as letras que era sua mãe, independente das atrocidades feitas com Josephine, e que o aceitaria de todas as maneiras, mesmo que não largasse a vida de ladrão – sim, ela o queria mesmo dessa forma, coisa esta que ela duvidava ser da vontade de Holmes. Dificilmente o detetive acolheria um bandido, mas que seja. Arsène poderia contar com sua mãe e seu amor, incondicionalmente.

-Ele está lá embaixo, no apartamento de sua senhoria, da família Hudson.

Agnes suplicou, ao ver Ettie caminhar em direção à porta. Sabendo que palavras não seriam suficientes para contê-la, pôs-se como barreira física diante da porta, impedindo-a de abrir.

-Por favor, Miss Smith... Não faça com que eu me arrependa de ter contado à senhorita o que soube...

-Mas ele é meu filho! Eu preciso vê-lo! Não pode me impedir de ver meu filho!

-Mas eu não quero impedi-la! – insistiu Agnes, um tanto exausta com a atitude desesperada de Ettie. – Só precisamos ser muito discretos. Ninguém pode saber que o rapaz que está repousando no quarto de Patrick é o infame Ladrão de Casaca, senão...

-Repousando, a uma hora dessas?! – desesperou-se Ettie, no que fez Agnes se lamentar por ter deixado escapar um pequeno detalhe. – Mas o que ele tem?!

-Eu contarei tudo à senhorita, mas não agora. Só peço que aguarde aqui, que vou arranjar uma forma de fazer com que visite Arsène sem levantar suspeitas na família Hudson. Não pode simplesmente adentrar à casa deles dizendo que o rapaz que está deitado é seu filho.

As palavras de Agnes trouxeram compreensão a Ettie, que finalmente cedeu.

-Está bem. Eu vou esperar. O que são alguns minutos para quem esperou vinte anos para ter seu filho nos braços, não é mesmo?

Agnes sorriu, em assentimento. Deixou Ettie sozinha no apartamento de Holmes e desceu as escadas às pressas. Não demorou até que estivesse outra vez no quarto de Patrick, mas para seu alívio, Arsène finalmente acordou. Estava sentado à cama, claramente confuso e tentando entender aonde estava. Olhava ao redor, confuso, mas tão logo seus olhos cinzentos encontraram os verdes de Agnes, ele pareceu mais tranquilo.

-Esse não parece ser bem o quarto que eu esperava de uma mademoiselle...

Agnes riu. Pelo visto, a pancada não atenuara nem um pouco seu senso de humor.

-Acaso esperava que eu te levasse para a minha casa, e pior, para o meu quarto?

-Não seria uma má ideia... Mas afinal, onde estou? Admito que lembro de pouca coisa... Fui conversar com aquele menino enfezado, dono da bola, e... Não lembro de mais nada.

-É natural. Afinal, esse menino enfezado simplesmente atirou contra a sua cabeça uma chuteira com travas de madeira. Pelo visto, não gostou muito do seu truque de mágica.

-Mais quelle audace! Agredir um homem pelas costas... Esses ingleses são todos uns covardes... Sem ofensas à mademoiselle.

-Lembra do menino negro, que estava a ajudar no gramado? Ele mesmo te socorreu com minha ajuda e te levou para a casa dele. Estávamos preocupados porque você demorou a acordar...

Foi a vez de Arsène rir.

-Estou há uns dias precisando de uma boa soneca. Deve ter sido por isso.

-Bom, pelo visto você está bem melhor. Mesmo assim, precisa ficar em observação. Fizemos um curativo em você, mas penso que seja melhor ir a um médico...

-Não, mademoiselle! Nada de hospitais! Sabe, hospitais fazem muitas perguntas... – pediu Arsène, no que Agnes já antecipava.

-Tudo bem, então. Mas preciso que permaneça aqui, em observação. Já acompanhei muito a prática médica de meu pai e já vi pacientes que sofreram lesões na cabeça voltarem a desmaiar logo em seguida. E pelo que conheço de você, não vai querer que isso ocorra quando estiver completamente sozinho na rua, porque se sim, certamente outros que te socorrerem te levarão a um hospital sem titubear.

Arsène parecia um tanto ressabiado.

-C'est bon. A mademoiselle venceu. Vou ficar descansando aqui, por algumas horas, mas serão só algumas horas, está bem? Não faço a mínima ideia de onde estou...

-Está em segurança, não se preocupe. – limitou-se a dizer Agnes. Sabia que se ele soubesse que estava em Baker Strret, bateria asas e voaria dali. Precisava agora facilitar a visita de Ettie. Para isso, era necessário falar com os Hudson.

Como já estava perto da hora do almoço, Yolanda começava a fazer os preparativos para aprontar as refeições de seus inquilinos. Pouco experiente na cozinha, Agnes não fazia ideia ao certo do que ela cozinhava, mas a julgar pelo cheiro, estava delicioso.

-Com licença, Mrs. Hudson. – interrompeu a pobre mulher de seus afazares.

-Do que precisa, Miss Watson? – questionou-a, sem desviar por um instante sequer de sua tarefa de cortar legumes.

-Por acaso a senhora conhece a Ettie?

-Ah sim. Ela está morando com Mr. Holmes tem uns dias. Não conversamos muito, mas a conheço, sim. Porquê pergunta?

-Eu realmente agradeço muito por tudo que seu esposo fez, mas acho que talvez fosse melhor que aquele curativo fosse feito por alguém mais especializado. E Ettie já trabalhou como enfermeira... – mentiu Agnes, no que surpreendeu Yolanda.

-Enfermeira?! Realmente, não fazia ideia... Bom, é sempre melhor ter a ajuda de um verdadeiro profissional. Donald é aquele tipo de homem altruísta, que gosta de ajudar a tudo e a todos, mesmo que não saiba muito o que fazer, e por mais que esteja acostumado com a vida de perigos em alto mar, nada substitui o trabalho de um profissional. Pois chame Ettie para olhar a ferida de seu amigo, se necessário refazer o curativo...

-Obrigada! – agradeceu Agnes, correndo as escadas para avisar Ettie. Precisava ser rápida. Temia que Arsène descobrisse de alguma forma onde verdadeiramente estava e simplesmente fugisse. E por sorte, Ettie já parecia lhe esperar em seu apartamento. Desceram ambas as mulheres as escadas, com bastante pressa.

-Eu disse que você era uma enfermeira! – explicou Agnes, no que fez Ettie rir.

-Jamais fiz um curativo decente na vida! Pobre Yolanda... Espero que nunca requisite meus serviços...

Pararam diante da porta do quarto de Patrick, onde Arsène estava deitado. Antes de girar a maçaneta, Agnes furtou um último olhar a Ettie, como se pudesse pedir calma a ela. Seu temor era que Ettie se descontrolasse e simplesmente se atirasse aos braços de Arsène, abraçando-o e chamando-o de filho. Teria que se aproximar dele com notável cautela.

Ettie não conseguiu esconder sua surpresa quando diante de Arsène pela primeira vez. Holmes não havia exagerado nem um pouco quando disse que o rapaz era muito semelhante a si, quando mais jovem. Apesar de ter conhecido Holmes em seus quarenta anos, sem dúvida o jovem mais parecia uma versão sua em seus vinte anos. Com os cabelos completamente negros, o corpo esguio e sem quaisquer marcas do tempo em seu rosto. Tinha o admirável e efêmero frescor da juventude.

Como era de se esperar, sua presença no quarto não passou desapercebida por ele. Desconfiado, pairavam sobre Ettie aqueles olhos interrogadores, a tentar entender quem poderia ser aquela mulher que tinha por volta de uns quarenta anos, ao lado de Agnes. Uma amiga? Não parecia.

Como começar? Ainda que Agnes se sentisse quase que uma invasora naquele momento familiar, percebeu que cabia a si a tarefa de apresentar mãe e filho. E de que maneira faze-lo? Optou pelo que parecia ser o caminho mais prático a seguir.

Pigarreou, esboçando um sorriso um tanto opaco.

-Está é a Ettie. E este, Ettie... É o Scott.

Um clima de grande tensão havia se formado no quarto. Não era necessário explicar quem era Ettie. O olhar apavorado de Arsène já deixava compreensível que ele sabia muito bem quem era aquela mulher, a qual lhe contaram que estava morta. Muito menos Ettie precisava saber que ele era Arsène. Ali, naquele momento, era nada mais que seu filho Scott, longe da alcunha de grande ladrão traçada pelos jornais e manchetes policiais. Não havia crime que pudesse ser mais forte que o espaço que Scott ocupava em seu coração.

Coube a Ettie se aproximar. Claramente, estava a se conter para simplesmente não abraçá-lo bem forte e chorar. Havia tido pouco tempo para pensar a respeito desse reencontro, mas presumira que era impossível que ele retribuísse seu abraço e a chamasse de “mamãe” no mesmo instante. Precisava dar um tempo a ele, para que digerisse o peso de sua história e compreendesse que não mais estava sozinho. Quando na França, Ettie soube que Arsène fora criado apenas pelo pai, longe de qualquer amor materno que certamente lhe soaria desconhecido. Ettie tinha esperanças de que fosse mais fácil para ele aceita-la como mãe, talvez até mais do que aceitar Holmes como seu pai. Quem havia cumprido esse papel em sua vida fora Théodore Lupin, e nada que fizesse ou dissesse poderia reduzir ou apagar isso.

Quando sentou-se à cama, sentiu o recolher-se, afastar-se. Um movimento que doeu a Ettie, mas que ela procurou relevar. Estava sendo perseguido pela polícia, em uma cidade estranha. Natural que não confiasse em ninguém, muito menos em uma mulher a aparecer dizendo ser sua mãe quando aprendera o contrário.

-Mal consigo acreditar que você está vivo, meu filho... – disse Ettie, calmamente.

O rapaz nada disse. Ora seus olhos voltavam-se aos castanhos de Ettie, ora aos de Agnes, que observava mãe e filho juntos, com certa expectativa. Sentiu-se a invadir aquele espaço, então percebeu que era hora de se afastar. Quando prestes a fechar a porta do quarto, Arsène finalmente disse alguma coisa.

-Você partiu minha confiança, Agnes. Pois agora está evidente que estou em nenhum outro lugar senão Baker Street. Talvez não na casa de meu inimigo, mas muito próximo dele. E você me trouxe até aqui, sem se importar com as consequências...

-Fiz isso porque quero pôr um fim de uma vez a esta guerra que declarou a seu próprio pai...

-Cabe a mim decidir quando isso irá acontecer, Agnes. Não a você.

Doeu a Agnes ouvir isso. Mesmo assim, ergueu a cabeça. Não conseguia deixar de acreditar que fizera o certo, mesmo que isso tenha magoado a Arsène. Com o tempo, ele compreenderá, pensou. Depois que conversar com Ettie, perceberá a grande bobagem que está fazendo por perseguir seu pai desta forma, por um erro de seu passado.

Fechou a porta, deixando mãe e filho sozinhos. Mas aguardou do lado de fora.

-Filho... Agnes está certa. Ela fez isso porque está preocupada com você. Não faz o menor sentido continuar nesse caminho de vingança contra seu pai...

-Não me chame de filho! – ordenou Arsène, no que assustou Ettie. – Minha mãe está morta, e tudo graças a ele! Àquele maldito detetive a abandonou à própria sorte...

-Então foi esta a história que Josephine contou a você?! Que eu morri?! Pois ela me contou exatamente o oposto, Scott! Ela me contou que você estava morto!

-Josephine... Você a conheceu?! – pareceu aturdido Arsène. Os jornais não mencionavam Josephine em nenhum momento.

-Mas é claro que sim! – afirmou Ettie, inconformada. – Eu era faxineira do hospital em que ela trabalhava. Aquela mulher estranha, com olhos esbugalhados de coruja velha...

A descrição de Josephine fez com que Arsène deixasse escapar risadas genuínas.

-Pelo visto, realmente a conheceu. Não a descreveria de forma melhor.

-Está vendo como estou falando a verdade? – tentou Ettie pegar nas mãos do rapaz, mas ele as recolheu. Desconfiança ainda predominava. Por isso, nada preferiu dizer. Precisava respeitar seu espaço. – Quando contei a minha história, ela ficou interessada em você. Queria você de todas as formas, tentou me convencer a entrega-lo para a adoção. Tudo por causa de seu pai...

-Eu só tive um pai, e ele se chamava Théodore Lupin.

-Está bem, Scott. Eu respeito isso, e inclusive fico feliz que tenha tido em sua vida um pai que o amasse de verdade, mas a verdade é que Josephine o quis no instante em que ouviu o nome Sherlock Holmes. Não sei dizer os planos vis que ela pretendia contigo, mas a julgar pelo ódio que sente por Holmes e pelo que está fazendo, ela conseguiu o que queria.

-C'est bon. Suponhamos que você seja realmente a minha mãe... Em algum momento você pensou em me abandonar?

-Não! – exclamou Ettie, com convicção. – Queria voltar para Londres, e com você em meus braços. Minha intenção, devo admitir, era armar um escândalo. Não achava justo que você passasse necessidades na vida com o pai que tinha. Um pai que, apesar dos pesares, tinha uma boa condição financeira para lhe dar uma vida muito melhor que a minha, uma vida que jamais seria capaz de lhe dar. Queria que tivesse oportunidades, que estudasse, que.... Mas mesmo que Holmes não quisesse reconhece-lo, eu cuidaria de você por mim mesma.

-Como assim, “mesmo que”? É óbvio que ele não me quis! Ele a abandonou grávida!

-Não foi o que aconteceu, meu filho. Ele não sabia... Filho, estou falando a verdade.

Arsène não parecia aceitar aquela alegação.

-Mas e o cheque?! Não daria dinheiro a você se não fosse por outra razão...

-Não vou defender o seu pai... Quero dizer, Sherlock Holmes. Ele realmente me deu dinheiro, sim. Mas não foi por causa de uma gravidez indesejada, ou por eu ser uma empregadinha sem berço com um bastardo em sua barriga, como supôs os jornais. A verdade é que... Ele me deu uma bagatela em dinheiro e pediu que eu sumisse, mas em nenhum momento sabia que eu estava grávida quando fez isso.

-Se não foi por uma gravidez indesejada, então pelo que mais ele fez isso?

Ettie suspirou. Não havia como fugir. Os jornais relataram bastante coisa, mas não os detalhes mais sórdidos.

-O seu pai me enganou.

-Disso eu sei, mas pelo jeito não sei tudo. O que mais falta saber?

-Ele me pediu em casamento, uns três dias antes de desaparecer. Que, no que achei ser uma grande coincidência da época, ocorreu justamente quando o meu patrão foi assassinado. Ficamos noivos por uns dias. Pode soar patético, mas foi muito importante para mim. Seu pai me encheu de expectativas. Tinha planos de montar uma empresa de construção civil, contratar pessoas para trabalhar com ele... Era um encanador, mas com vontade de crescer, ser alguém na vida. Acho que me apeguei a esta ideia. Nenhum dos rapazes com quem namorei tinha tamanha perspectiva de vida. Acho que ele se sentiu mal, com a consciência pesada depois de tudo que fez comigo, e achou que um pouco de dinheiro poderia compensar...

-Como sempre, ricos querendo resolver seus problemas com dinheiro. – comentou Arsène, sem esconder sua indignação.

-Não discordo de você, meu filho. Mas hoje ele reconhece que errou sucessivas vezes comigo. Por ter brincado com os meus sentimentos e depois por ter achado que dava para consertar tudo que fez com um cheque bem gordo.

-Sentimentos... Então, você gostava dele de verdade?

Ettie ficou ruborizada. Havia grande hesitação quanto a isso. A tamborilar os dedos, pensou se seria prudente dizer a verdade ou mentir. Optou pela verdade.

-Acho que gosto dele até hoje. Mas prefiro que ele não saiba disso.

Arsène negativou com a cabeça. – Depois de todo mal que ele te fez?

-Não dá para controlar nossos sentimentos, filho. Talvez um dia compreenda isso.

-Talvez... – limitou-se a assentir o rapaz. – E quanto a ele? Ao menos gostou de você alguma vez, ou tudo que fez foi usá-la esse tempo todo?

Foi a vez de Ettie rir com sinceridade.

-Não faço a menor ideia. E acho que não faz qualquer diferença também. Penso que o que nos une o momento é justamente você, Scott, e apenas você. Por isso eu te peço, meu filho: por favor, deixe o seu pai em paz. Ele errou muito, eu sei, mas já se provou arrependido pelo que fez. Se pudesse ao menos conversar com ele...

Ouviu de Arsène um suspiro forte.

-Não sei se tenho estômago para trocar uma palavra que seja com um homem desses. Meu pai de verdade, aquele que morreu na França, não era propriamente a pessoa mais honesta do mundo, mas jamais cometeria tamanha monstruosidade com uma mulher. De todo modo, já havia decidido não prosseguir mais com a minha vingança, até porque ele mesmo se destruiu sozinho. Penso que não há mais nada a ser feito.

Ettie pareceu aliviada. Apesar do plano suicida de Holmes, ele estava certo. Tirou das mãos de Arsène Lupin qualquer possibilidade de desmoralizá-lo ainda mais, e ainda pôde revelar por meio de terceiros o que verdadeiramente aconteceu, ainda que sem todos os detalhes.

-Mas eu o venci, que isso fique registrado. – sorriu Arsène, sem esconder o orgulho.

-Seu pai certamente não discorda disso. Ele perdeu uma guerra, mas ganhou um filho.

Arsène não pareceu gostar nem um pouco disso.

-Não o quero como meu pai. Prefiro que permaneça a ser meu oponente, e nada mais. Ainda assim... Não creio que minha estadia em Londres esteja de todo encerrada.

-Como assim?! – arregalou os olhos Ettie.

-Não posso deixar Londres sem um grand finale à altura de Arsène Lupin. Posso ter resolvido minhas pendências do passado, mas ainda sou um ladrão. O maior ladrão do mundo. E não vou deixar de ser o que sou só porque descobri de onde vim.

Arséne levantou-se da cama, começando a buscar por seus sapatos pelo quarto. Achou-os em um canto, e pôs-se a calçá-los. Claramente estava com planos de partir outra vez. Ainda que apreensiva por saber que seu filho, talvez o único filho que teria em vida, estava prestes a cometer mais um de seus grandiosos crimes, Ettie optou por não recrimina-lo ou dissuadi-lo disso. Temia que ele se afastasse de vez. Sentira naquela breve conversa que ele não mais a repelia em desconfiança, e que, pelo visto, havia acreditado em sua história.

-Como faço para vê-lo novamente? – perguntou Ettie, temendo nunca mais vê-lo.

-Acha que vou me afastar de minha mãe depois de saber que ela está viva? – comentou, com um leve riso. – Pois jamais faria isso. Nunca mais vou me afastar de você, mas a verdade é que preciso que faça uma escolha.

Ettie arregalou os olhos.

-Que escolha?! – questionou-lhe, apreensiva com o que estava prestes a ouvir. Sentiu, então, as mãos de seu filho pegarem pela primeira vez nas suas. Eram aqueles dedos longos, delicados, bem ao contrário dos calosos e ásperos dedos curtos de sua mão.

-Preciso que abandone Sherlock Holmes e venha comigo para a França.