Londres, Inglaterra. 17 de Dezembro de 1911.
Consultório Médico do Dr. Watson.
(alguns dias depois...)
-Seus exames estão ótimos, Mr. Wright.
De uso de seus óculos, equipamento cada vez mais indispensável com o peso dos anos, Watson analisava os exames de seu paciente. Ele tinha problemas crônicos nos rins, muito em parte graças a seu passado de descuido, quando pertencia ao Exército. Uma cirurgia chegou a ser cogitada, mas felizmente a medicação passada por Watson atenuou um pouco seu problema. Apesar de sua especialidade ser a Cirurgia, Watson evitava sempre que possível levar seus pacientes para a mesa cirúrgica. E felizmente, esse parecia ser o caso de Mr. Wright.
-Fico tão aliviado em ouvir isso, doutor... Estremeço só de pensar em como seria a cirurgia para quebrar essas pedras em meu rim...
Watson deu um sorriso amarelo. Não poderia culpa-lo. Talvez, esta fosse a cirurgia mais desagradável a se fazer em um paciente do sexo masculino. Porém, mesmo a dor insuportável era melhor que a morte.
-Felizmente, a hipótese dessa cirurgia está cada dia mais afastada, Mr. Wright. Agora, preciso que além dos medicamentos, o senhor continue a se cuidar. Beber água com bastante frequência, inclusive. Sei que a rotina em um quartel pode ser exaustiva, mas não podemos nos descuidar. Até mais ver.
Watson se despediu de Mr. Wright, ficando mais uma vez sozinho em sua sala. Suspirou um tanto. Havia tido um dia daqueles. Sua agenda estava lotada de pacientes desde o primeiro horário, tudo isso graças aos inúmeros cancelamentos que andou a fazer nos últimos tempos, em virtude de Arsène Lupin. Estava prestes a chamar o próximo quando se apercebeu da hora. Mais um pouco e seria seis da tarde, horário de encerrar os trabalhos. Dificilmente conseguiria atender mais um cliente. Sinal de que era hora de ir para sua casa, onde um bom jantar estaria a espera-lo desse dia exaustivo.
-Dr. Watson, com licença. Há um homem na sala de espera que diz que precisa com muita urgência falar com o senhor. Ele não está agendado.
Era sua secretária, Lindsey. Uma senhora bastante esforçada e atenciosa com seus clientes. De tão bondosa com eles, fazia sempre o possível para encaixar a todos em seu atendimento, de modo que ficava prestes a ter um ataque de nervos sempre que Watson embarcava em casos com Holmes, pois isso quase sempre significava agendas inteiras sendo canceladas. Certamente sofreria se fosse secretária de Watson no auge de Sherlock Holmes como detetive. Não foram poucas as vezes que Watson simplesmente desaparecia de seu consultório por dias a fio, indo atrás de Holmes em seus casos, alguns até bem longe de Londres. Seus clientes só o perdoavam porque eram também seus leitores.
-Bom, se for breve, posso atende-lo. Qual é o nome dele?
-Ele se chama... Edmond Ganimard. – leu a moça o pequeno cartão em sua mão. Watson arregalou seus olhos verdes, abismado. Edmond Ganimard não era o inspetor francês, que apareceu na casa de Holmes à procura de Arsène Lupin? Não havia se passado muito tempo desde a sua visita em Baker Street, mas a sucessão de acontecimentos mais fez esse curto tempo se assemelhar a uma enorme eternidade.
-Autorizado, Miss Lindsey. – assentiu o doutor, perguntando-se o que afinal queria o inspetor para vir de longe em sua busca. Do que soube, ele havia retornado para a França por uma questão de impaciência. Achou que Arsène Lupin fez apenas algumas travessuras em Londres e retornaria, quando na verdade o ladrão havia praticamente se instalado na cidade. Decerto se apercebeu de seu erro e deu o braço a torcer.
O Inspetor Ganimard adentrou. Carregava consigo uma maleta, semelhante àquela que carregava quando esteve em Baker Street. Sinal de que acabara de chegar na cidade.
-Dr. Watson! Folgo em vê-lo! – cumprimentou em seu forte sotaque francês o policial, trocando um aperto de mãos com o médico.
-Eu é que estou surpreso em ver o senhor aqui mais uma vez, inspetor. Que bons ventos o trazem a Londres, afinal? – perguntou Watson, enquanto oferecia uma das cadeiras destinadas a seus pacientes para que Ganimard se assentasse.
-Infelizmente, ventos desagradáveis. Como deve imaginar, trata-se de Arsène Lupin.
Watson assentiu. – Imaginei que fosse o caso. Mas como posso ajudá-lo?
-Bom, para começo de conversa, quem me convidou para vir aqui foi a Scotland Yard. Parece que Arsène Lupin deixou uma mensagem para eles, ainda não sei bem dos detalhes. Está fazendo mais uma daquelas ameaças infantis dele, mas que infelizmente se concretizam se não agirmos com a devida seriedade...
-E que ameaça seria esta, afinal?
-Não dá para compreender ao certo, mas é fato que ele está planejando alguma coisa, doutor. E alguma coisa bem grandiosa. Para alguém que já roubou as joias de Maria Antonieta, tem em uma cidade repleta de riquezas como Londres um verdadeiro parque de diversões, infelizmente. Como deve imaginar, a primeira coisa que fiz foi procurar o Mounsier Holmes, mas...
Ao ver o sorriso amarelo no inspetor, Watson tomou-se de curiosidade.
-O que houve com ele? Não o encontrou em Baker Street?
-Na verdade, ele está lá, mas não quis me atender. Disse que não mais investigará Arsène Lupin. Conversei pelo telefone com um jovem, o... Como era mesmo o nome daquele inspetor da Scotland Yard...?
-Inspetor Lestrade Jr., eu presumo? – acrescentou Watson.
-Este mesmo. Ele me contou que Mounsier Holmes está passando por, er... Certas dificuldades de cunho particular.
Watson suspirou. Sabia bem que “certas dificuldades de cunho particular” eram estas. Desde que os jornais noticiaram seu “deslize” no passado, Holmes andava taciturno, recolhido. Não era de se estranhar, afinal sempre foi um homem discreto. Ainda assim, estranhava a Watson o comportamento de seu amigo, a começar pela mulher que passara a morar em sua casa, a quem sabia ser a tal Ettie, empregada de Charles Augustus Milverton, e que agora todos sabiam também ser mãe de um filho bastardo – este sim, que ninguém nunca soube ao certo o paradeiro. Holmes nada falava sobre isso, e talvez a única pessoa que soubesse, para completar, havia simplesmente desaparecido, evaporado no ar. Ao menos foi o que sua senhoria, Yolanda Hudson, contou. Que depois de uma noite de investigações pelas ruas, Holmes retornou para Baker Street e a mulher não mais estava à vista, tendo levado inclusive todos os seus pertences. Desde então, Holmes havia se recolhido em seu quarto, recusando toda e qualquer visita, inclusive a sua. Não queria falar e receber ninguém, e inclusive mandou que Yolanda deixasse um recado que não mais lhe interessava quaisquer negócios envolvendo Arsène Lupin. Toda essa história e seu desenrolar soava estranho a Watson, mas sabia que arrancar de Holmes uma boa explicação seria impossível. Fechado aos sentimentos mais humanos, jamais admitiria que, talvez, em seu mais íntimo, nutrisse sentimentos por Ettie e que sua partida o havia abalado profundamente, mais até do que gostaria de admitir.
-Não sei como posso ajudar, inspetor. Holmes também está evitando falar comigo.
-Ele precisa nos ajudar, doutor. Por favor... Precisamos prender de uma vez esse patife. Sempre tive a impressão de que a ruína de Arsène Lupin seria o “dar um passo maior que a perna”. E penso que ele fará isso agora, em Londres. Não partirá da cidade sem cometer um roubo sem precedentes, e nós precisamos explorar esse risco. Ele não está em sua zona de conforto. Está em uma cidade que mal conhece, sem aliados e também sem acesso às suas propriedades, seu dinheiro. Quando retornar para Paris, será difícil captura-lo. Londres é a nossa maior chance e precisaremos de toda a ajuda necessária.
Watson olhou mais uma vez para Ganimard, pensativo.
-Está bem, inspetor. Vou fazer uma visita a Baker Street e tentar dissuadi-lo, muito embora eu precise admitir que quando ele toma esse tipo de investigação, não há Cristo que o demova disso. Não se esqueça, ele é um detetive consultor privado, portanto pega os casos que bem entender...
Ganimard claramente odiava esse tipo de profissional, mas no fim, precisava se render aos talentos de Holmes, que poderiam ser determinantes para prender Lupin. Por isso aceitava trabalhar lado a lado com ele.
-C'est bon. Espero contar com sua ajuda, doutor. Bom, eu vou para a Scotland Yard, ver no que mais posso ajudar. Se eu acompanhar o mounsier até Baker Street, talvez só atrapalhe mais as coisas.
-Realmente, inspetor. Penso que o melhor seja ir sozinho para lá. De todo modo, agradeço a confiança depositada. Agora, se me dá licença, vou aproveitar meu horário de almoço para trocar uma palavrinha com Holmes. Vamos ver se ele mudará de ideia...
0000000000000000000000
O cheiro apetitoso de pernil a exalar da porta de Mrs. Hudson fez o estômago de Watson estremecer. O tempo o deixou mais regrado, e isso incluía seu horário de jantar. Seu estômago mais funcionava como um relógio, a anunciar o momento das refeições. Pena que seria essa uma breve visita, sem qualquer chance para jantar a deliciosa comida de Mrs. Hudson.
Mesmo tendo morado tantos anos em Baker Street, fazia parte da boa educação bater à porta e pedir licença para adentrar, mas Watson optou por recorrer à sua chave e adentrar ao apartamento de Holmes sem se anunciar. Sempre fazia isso quando ficava muito tempo sem vê-lo, e achou que, dado seus modos introvertidos dos últimos dias, era melhor proceder assim.
Tão logo pôs seus pés no apartamento, espantou-se com o estado do lugar. Estava tudo revirado, uma bagunça medonha. Mas o que mais lhe chamou a atenção foi uma caixa enorme, escrito “LIXO” em letras enormes e apressadas, quase que raivosas. Dentro delas, uma série de utensílios domésticos, ainda em bom estado. Vasos de flores, lençóis, cortinas e toalhas de mesa novas em folha. Coisas com um toque feminino demais para aquele lugar.
-Holmes? – chamou Watson, sem receber qualquer resposta. Claramente, o detetive não estava nada bem. Sinal de que a partida dessa mulher de nome Ettie afetou com seus nervos, suas emoções. Estaria ele recorrendo àqueles seus velhos hábitos de recreação para distrair a cabeça? Apesar de saber que Holmes estava longe dessas práticas há um bom tempo, sempre havia a hipótese de uma recaída, e eventos traumáticos como a partida dessa mulher poderiam desencadear uma onda tão grande de tristeza a ponto de fazê-lo recorrer à letargia da morfina para esquecer sua dor.
Caminhando com cuidado em meio à bagunça generalizada naquele apartamento, Watson se aproximou de seu quarto. Aliviou-se, ao ver que Holmes estava bem. Quero dizer, bem na medida do possível. Apesar de passar de meio-dia, vestia-se ainda em pijamas, com o cabelo desgrenhado, a barba por fazer em claro sinal de desleixo, e os olhos escuros, rodeados por profundas olheiras de quem não dormia bem há um tempo. Estava entretido com seu violino, a trocar uma de suas cordas. De tão exímio músico, Holmes só as arrebentava quando tocava com intensidade exacerbada, nos momentos em que o pobre violino acabava por descontado em si a irritação de seu dono.
-Que bom que você está bem, Holmes. Estava preocupado com sua falta de notícias.
-Eu não fui a lugar algum, Watson. – disse Holmes, sem desviar por um instante sequer a sua atenção do violino. Apesar de notar a total falta de humor de Holmes, Watson sentiu-se no dever de insistir no assunto Arsène Lupin.
-Sabe quem esteve no consultório? O inspetor Ganimard.
-Veio de tão longe para consultar os serviços de um mero clínico-geral? – zombou Holmes, no que Watson sequer se irritou. Já ouvira outras vezes do amigo a respeito de sua mediocridade como médico. Só não se abalava com os comentários de seu amigo porque amava escrever, quase que tanto quanto a escrita, e apesar de Holmes chama-la por diversas vezes de “aflorada demais”, não negava que ele era bem mais talentoso que escrever que em ser médico.
-Ele quer sua ajuda para derrotar Arsène Lupin...
-Pois não me fale desse rapaz! – interrompeu-o Holmes. – Já deixei bem claro que Arsène Lupin não é mais de meu interesse.
-Não entendo, Holmes. Não faz muitos dias e você estava empolgado em tentar derrota-lo, e agora não quer nem mais ouvir falar no nome dele... O retorno dessa tal de Ettie deve ter mexido realmente com os seus sentimentos...
-Mas o que diabos Ettie teria a ver com Lupin?
-Isso é o que me pergunto, meu caro. Pois eu tenho a impressão de que não está me contando tudo... Ou quer que eu realmente acredite que o aparecimento dessa “amante” com seu suposto “filho” não está de algum modo relacionado a Arsène Lupin?
Holmes suspirou, como se estivesse exausto.
-Os jornais diziam que você teve um filho com essa Ettie. Onde está esse seu filho?
-Não vou falar sobre isso, Watson. – decretou Holmes, agora começando a afinar seu violino.
-Bem curioso, não é? Pelos relatos de Ganimard, esse Arsène Lupin tem vinte anos, e pelos meus cálculos, se realmente se deitou com essa Ettie e ela engravidou de você na época de Milverton, o filho de vocês também teria uns vinte anos, não?
-Eu não sou pai de Arsène Lupin, se é isso que quer saber. – mentiu o detetive.
-Então, por que essa sua falta de interesse em derrotar Lupin agora, meu caro?
Holmes terminou de afinar a última corda, e voltou-se a Watson.
-Porque ele já conseguiu tudo que queria de mim. Sua última cartada foi justamente meu passado sujo com Ettie e o filho que tivemos. Não serei mais seu alvo, compreende agora?
Era essa uma mentira, em parte. Não foi Arsène quem fez isso, mas o próprio Holmes. Uma antecipação de jogada, para interromper com seus joguetes infelizes, que acabou por dar certo. Mas ao contrário do que imaginava, Arsène não retornaria para a França sem uma última cartada.
-Então... Você foi derrotado por ele, é isso?
Holmes deu de ombros, como se pouco se importasse. Mas conhecendo-o bem, Watson sabia que seu ego estava ferido. E talvez fosse por esse caminho que ele precisasse explorar.
-Holmes... Uma das coisas que aprendi com o meu filho Peter é que, no football, enquanto a bola está em campo, o jogo não está encerrado. Da mesma forma, enquanto Arsène Lupin ainda está em Londres, você ainda pode ajustar suas contas com ele. Porque não aproveita para confrontá-lo uma última vez? Se o colocar atrás das grades, essa pode ser a sua chance de ouro de finalmente conseguir derrota-lo. Peter costuma chamar isso de “revanche”, sabe? Quando um time derrotado tinha a oportunidade de confrontar o vencedor uma última vez.
Com o violino em mãos, Holmes tocou algumas notas, sem quaisquer conexões. Estava apenas a testar a afinação, pelo visto. Mas pelo seu desgosto a cada nota extraída dele, não estava nem um pouco satisfeito.
-Desde que Arsène Lupin levou meu violino, ele nunca mais foi o mesmo, mas... Não sei dizer. Ele parece particularmente estranho há uns dias... Não sei se essa estadia de meu Strativarius com ele danificou sua estrutura, ou se é algo mais...
-Se danificou, seria este um bom motivo para uma revanche, não?
Holmes olhou para Watson, mais uma vez. Viu nos olhos de seu velho amigo aquela velha chama, da animação de ter um caso excitante em mãos. Sentiu transportado àqueles velhos tempos, onde eram apenas os dois, companheiros de apartamento e também daquelas aventuras que agora ilustravam os livros.
-Tem razão, meu caro Watson. Bailarei uma última valsa com Lupin. Vejamos quem levará a melhor dessa vez... Agora, se me dá licença. Vou me lavar.
Watson assentiu, afastando-se do quarto de Holmes. Sozinho outra vez, o detetive voltou suas atenções ao violino. Dedilhou algumas notas dele, ainda com o semblante confuso. Dedilhou novamente, dessa vez com o ouvido perto de sua madeira. Pareceu surpreso, entretanto. Dedilhou de novo, e de novo, só que mais forte. Por fim, parou.
-Não acredito... – suspirou, agora a sacudir o instrumento. De tão antigo, a madeira parecia resmungar. Mas era nítido que havia algo dentro dele. Algo pequeno, leve, mas sim. Era alguma coisa, aparentemente identificável, dentro de seu violino. Por fim, após longas sacudidelas em direção ao chão, algo caiu por cima das cordas. Era um pedaço de papel. Estava dobrado, mas havia uma mensagem. Uma mensagem bastante clara.
-Dessa vez, você não me escapa... – congratulou-se Holmes por sua descoberta, amassando o pequeno pedaço de papel por entre seus dedos.
0000000000000000000000000000
Londres, Inglaterra. 17 de Dezembro de 1911.
Scotland Yard.
Ganimard já tomava sua quarta xícara de chá e terminara com os biscoitos Garibaldi, os preferidos do Inspetor Lestrade Jr., feitos com muito carinho por sua mãe. Estava ainda no começo de seu plantão e pelo visto, nada de decente teria para comer mais tarde. Ainda assim, sabia que seria deselegante negar comida a alguém.
-Acho pouco provável que Mr. Holmes nos ajude, inspetor. Como disse, ele está às voltas com uma denúncia no jornal. Parece que ele andou com uma empregada, teve um filho com ela...
-Eu vi essa tal empregadinha dos jornais. – intrometeu-se um guarda na conversa. – Estava fazendo uma ronda em Baker Street quando acabei topando com ela. Estava comprando sapatos. Não sei exatamente o que Mr. Holmes viu numa pobre diaba daquelas, francamente... Não era bonita, nem feia. Um corpo desengonçado, sem modos...
Alguns policiais riram, inclusive o próprio Inspetor Lestrade Jr.
-Para completar, ela morou com ele por uns dias em seu apartamento em Baker Street. Um verdadeiro escândalo! Disseram que eles estavam aprontando um casamento, talvez para Mr. Holmes corrigir seu mal passo perante a sociedade, mas ela o deixou. – explicou Lestrade Jr. a Ganimard, interessado naquele assunto.
Mais risos ocuparam a sala.
-Mas ela aguentou bastante tempo, até. Aturar os humores de Mr. Holmes não deve ter sido nada fácil, que dirá casar-se com ele... Melhor ficar mal falada pelo resto da vida!
Mais risadas, ainda mais fortes e intensas, mas que silenciaram-se no instante em que a porta daquela sala se abriu, revelando duas pessoas a adentrar o recinto.
-Mr. Holmes! E vejo que está acompanhado do Dr. Watson também! Mas que surpresa agradável revê-los juntos depois de tanto tempo! – disfarçou Lestrade Jr.
Holmes, que escutara parte das risadas um pouco antes de abrir a porta, notou o constrangimento estampado no rosto dos oficiais presentes na sala, e logo imaginou que muito provavelmente era ele o alvo daquelas risadas. Decerto todos ali estavam a fazer troça de sua situação. Manteve a calma, entretanto. Focou-se no que deveria fazer.
-O que o traz a meu humilde gabinete, Mr. Holmes? – perguntou o jovem inspetor.
-Mudei de ideia a respeito de Arsène Lupin. Quero me juntar ao caso.
Tanto Ganimard quanto Lestrade Jr. pareciam aliviados com seu pedido. A primeira providência de Lestrade Jr. foi procurar em sua gaveta o papel que havia recebido. Entregou pessoalmente a Holmes.
-“Preparados para o grand finale?”. Pelo visto, é tudo que diz.
-Pois aí está o problema, Mr. Holmes. Uma mensagem vaga demais.
-Mas que não pode ser ignorada de jeito algum! – insistiu Ganimard. – Estou acostumado com os métodos de Arsène Lupin, senhores. Posso te afirmar com toda a certeza de que ele já deixou a pista em algum lugar. Quando você recebeu essa mensagem?
-Ontem de manhã.
-Terrible! – exclamou com horror o francês. – Sinal de que atuará no dia seguinte, ou seja, hoje ainda. Esse é seu méthode, senhores. Avisar quando está muito perto de aprontar das suas.
-Já percebemos isso, inspetor Ganimard. – confirmou Holmes.
-Mas e agora? Não temos as pistas, e o que não falta são alvos em uma cidade tão rica quanto Londres... – comentou Lestrade Jr., desanimado.
-Talvez... – começou Holmes a tecer seu raciocínio. – Lupin realmente já tenha deixado todas as pistas, mas em seus últimos roubos. O que ele roubou na residência de Conde Wellington?
-O quadro “Joan of D’Arc”, de Harold Hume Piffard. – respondeu prontamente Watson, após consutlar seu inseparável bloco de anotações.
-E o segundo caso? O que ele roubou? Nem precisa procurar em suas anotações, Watson, pois este me é inesquecível. Foi o quadro “O Manto de José”, de meu ancestral Horace Vernet. E o terceiro caso, Lupin surrupiou o meu amado violino Strativarius. Quanto ao quarto caso?
-Minha filha. – respondeu Watson, a contragosto.
-Exatamente. Ele “roubou” Miss Watson. Este não conta para nosso raciocínio, pois foi um sequestro, e não um roubo. Não à toa quase foi pego, afinal não está acostumado a agir dessa forma. Mas retomemos aos roubos. Perceberam que há um padrão em todos eles?
A fumar um cigarro, Lestrade Jr. pôs-se a pensar.
-“Joana D’Arc”, a primeira tela roubada... – comentou.
-Uma heroína francesa, cuja pintura estava em posse de um britânico. E depois, uma obra de Horace Vernet, um pintor francês com muitas obras expostas em solo britânico, inclusive no museu onde ele cometeu o roubo. E temos o meu violino Strativarius, que muitos de vocês não devem fazer ideia, mas que eu comprei por uma pechincha de um judeu... Francês.
-Mon Dieu... Mais parece que tudo está relacionado, de alguma forma, à França!
-Elementar. Em minha mais honesta opinião, Arsène Lupin irá retomar a esse padrão. Ele nunca roubou nada aleatoriamente, senhores. Havia um método, e para mim está claro: Lupin está tornando seus roubos uma espécie de “apropriação cultural”. Coisas francesas que estão na mão de ingleses. Um estranho rompante de patriotismo, sem dúvida, mas que faz parte de sua jogada.
-Creio que esteja certo, Mr. Holmes! Então, seu próximo roubo certamente será algo francês! – exclamou Ganimard, animado. – Mas com todo respeito a vocês, ingleses... O que mais tem aqui na Inglaterra é itens que vocês apropriaram da França... Será difícil apontar um só...
-Não é o que penso, inspetor. – pôs-se a explicar Holmes. – Creio que ele não vai roubar algo propriamente francês, mas algo que personifica essa “apropriação cultural” que tem feito em seus roubos. E não me vem nenhum outro item à cabeça senão a Pedra de Roseta.
Todos arregalaram seus olhos.
-A Pedra de Roseta?! – exclamaram, perplexos.
-Creio que os senhores devem saber como ela foi parar no Museu Britânico, não? Se não sabem, vou elucida-los. Ela foi encontrada por uma expedição francesa, nos tempos de Napoleão Bonaparte. Não vou transformar nossa conversa em uma longa lição de História, mas a Pedra de Roseta acabou nas mãos da Inglaterra depois da rendição de Alexandria. Desde então, há muita discussão quanto a quem deveria pertencer a Pedra de Roseta: o país que a encontrou ou o país que a tomou. E, como em todas elas, ninguém nem mesmo pensa na possibilidade de deixa-la em seu país de origem... Mas voltando ao tópico. O que mais poderia personificar as ações de Arsène Lupin em Londres senão a Pedra de Roseta? O que poderia soar mais romântico a um ladrão de sua estirpe do que roubar de volta a seu país um objeto de tamanha importância histórica, que acabou por se tornar um troféu de guerra?
-Só pode ser isso! – exclamou Ganimard, a ponto de aplaudir Holmes. – Pierre de Rosette, mon Dieu! Agora faz todo sentido!
-Pois eu vou convocar todos os meus homens para cercar o Museu Britânico! Também vou telefonar ao Diretor e avisa-lo quanto a um possível ataque de Arsène Lupin! Hoje aquele patife não nos escapará! – bradou Lestrade Jr., animado diante da possibilidade de pôr as mãos em Lupin. – Ainda não engoli o sequestro de Miss Watson. Não vou prende-lo sem antes dar um bom soco nele!
-Pois não fará isso antes de mim, inspetor! – animou-se Watson com a ideia.
-Meus senhores, tenhamos calma. Não somos bárbaros. Arsène Lupin será preso, conforme manda a lei. Nada de agressões, revanchismos ou coisas do tipo, compreenderam?
-Mounsier Holmes tem razão. – confirmou Ganimard. – Por mais que me anime a ideia de dar uns bons tapas naquele rapaz, precisamos agir com civilidade. Pois então, vamos?
Já prestes a sair da sala, Watson lamentou-se.
-Agora que me apercebi que estou sem meu revólver...
-Eu também estou desarmado, Watson. Penso que seria bom estarmos armados para essa ocasião, ou ao menos um de nós dois.
-Não sei se será necessário. Arsène Lupin não costuma ser tão reativo assim, a ponto de recorrer à violência para deter o trabalho da polícia. – comentou Ganimard.
-Creio que seja melhor não arriscarmos, Watson. – insistiu Holmes.
-Se quiserem, eu posso ceder uma arma a cada um de vocês. O que não falta aqui na Scotland Yard é armamento, e para todo tipo de gosto. – ofereceu Lestrade Jr., no que Watson recusou prontamente.
-Prefiro meu velho revólver. Tenho mais confiança nele.
-Como queira, doutor. – deu de ombros o inspetor. – Bom, nos encontramos no Museu Britânico. Creio que em meia hora eu e meus homens estaremos à caminho.
Despediram-se Holmes e Watson dos policiais. Com sorte, conseguiram um cabriolé quase que na porta da Scotland Yard, que parou diante de seu chamado.
-Para a Torre de Londres. – ordenou Holmes ao motorista, no que surpreendeu Watson. Teria o detetive cometido tamanho equívoco? Afinal, o próprio acabara de apontar o Museu Britânico aos policiais da Scotland Yard, não a Torre de Londres.
-Creio que tenha se enganado, Holmes...
-Não me enganei coisa alguma, Watson. – respondeu Holmes, sem qualquer dúvida.
-Mas nós precisamos buscar o meu revólver, como você mesmo disse e...
O próprio Watson interrompeu-se, ao ver o detetive tirar do bolso de seu casaco seu próprio revólver. Muito embora o detetive fizesse pouco uso de armas, tinha um confiável Webley à sua disposição sempre que precisasse. Com perplexidade, viu-o manuseá-lo, abrir o tambor e conferir bala a bala que o próprio carregava. Sem dúvida, a arma estava carregada.
-Não compreendo coisa alguma, Holmes. Você disse na Scotland Yard que estava desarmado, e agora prova o contrário...
-O Museu Britânico não é o alvo de Arsène Lupin, Watson. É a Torre de Londres.
Watson arregalou os olhos, abismado. – Mas por que mandou a Scotland Yard e o Inspetor Ganimard para o local errado?!
-Foi necessário, meu caro Watson. Preciso que a polícia seja mantida fora disso. E não se preocupe, o Inspetor Ganimard não estava de todo errado. Ser violento não é o méthier de Arsène Lupin. Nós dois sozinhos poderemos dar conta dele perfeitamente.
-Então, você mobilizou toda a polícia para o local errado de propósito. Mesmo assim... Você falou com tanta certeza da Pedra de Roseta, e devo dizer, senti uma grande confiança naquela sua linha de raciocínio. Na verdade, achei até os motivos que tornavam a Pedra de Roseta um possível alvo de Arsène Lupin perfeitamente plausíveis.
-Tenho quase certeza de que a Pedra de Roseta seria alvo de Lupin em algum momento pelos mesmos motivos que contei na Scotland Yard, mas posso assegurar que ela não será o alvo dele nessa noite. – respondeu-lhe Holmes, convicto em suas palavras.
-Mas afinal, como pode ter tanta certeza disso?
O médico recebeu das mãos de seu amigo um pedaço de papel levemente amassado. Estava escrito, em letra bastante garranchada, as palavras “TORRI DE LOMDRES”. Um grotesco erro de gramática o surpreendeu.
-Mas quem escreveu isso?!
-Não preciso dizer que há claros sinais de que essa mensagem foi escrita por alguém escassamente alfabetizado, preciso?
-Realmente não, mas...
-Ettie foi quem escreveu esse bilhete. Tenho certeza de que o escreveu antes de partir. Ela o escondeu dentro de meu violino, torcendo para que eu o encontrasse, decerto porque Arsène Lupin estava por perto. Felizmente, consegui nota-lo há tempo de detê-lo.
-Mas então, a pista que possui não foi deixada por ele...
-Não, meu caro Watson. Esse roubo não se trata de um daqueles joguetes de Arsène Lupin. Ao contrário do que presumiu o inspetor Ganimard, nosso Ladrão de Casacas não está desafiando ninguém dessa vez. Tudo que ele quer é simplesmente roubar nada menos que as Jóias da Coroa Britânica, e sem ser perturbado.
-Não pode ser! – espantou-se Watson. Dentre as inúmeras joias da Coroa, estavam a própria Coroa da Rainha, literalmente. Fora outras preciosidades bem trancafiadas por lá, que o público sequer fazia ideia. A Torre de Londres era, a princípio, tão ou mais segura que o Banco da Inglaterra.
-Mas não compreendo a relação dessa Ettie com Arséne Lupin, a ponto de saber seu próximo roubo e ainda conseguir deixar uma pista para você...
Holmes fechou os olhos por um longo instante. Suspirou pausadamente.
-Watson... Creio que terei de contar com sua compreensão e amizade mais do que em qualquer momento precisei, pois temo estar prestes a fazer aquela que sem dúvida alguma é a revelação mais difícil que tenho a te confessar...
Watson nada disse. Afinal, já havia professado suas suspeitas.
-Arsène Lupin é meu filho, Watson.
Ouviu do médico uma exclamação abismada. Mesmo que no terreno das suspeitas, nada se comparava a ouvir a verdade dos próprios lábios de Holmes.
-Por isso ele te persegue tanto?
-Sim. Tenho fortes indícios de que Arsène Lupin é a mais mortífera arma de vingança desenvolvida por ninguém menos que o falecido Professor Moriarty.
-Como assim, Holmes?! – assustou-se Watson. – Moriarty está morto há anos...
-Arsène Lupin foi criado por pessoas leais a Moriarty mesmo após a sua morte, preparado desde a mais tenra idade para ser um criminoso implacável que, quando adulto, seria capaz de me derrotar. Esse era o desejo de Moriarty: me vingar mesmo depois de morto.
-Isso é deveras mórbido, meu caro. Quase que inconcebível de se acreditar..
-Eu sei, Watson. Eu sei.
E em meio ao trajeto do cabriolé até a Torre de Londres, Holmes contou tudo que sabia a Watson, inclusive as piores partes envolvendo Ettie. A maneira como ordenou que sumisse de sua vida e não mais o procurasse, a forma torta de compensá-la pelas falsas promessas que fizera, o cheque... E também, tudo que aquela pobre mulher passara depois de receber o dinheiro.
-Pois esse dinheiro mais pareceu uma maldição do que uma benção!
-Tenho plena ciência de que errei, Watson. Achei que, por ela ser pobre, bastava uma boa quantia para que eu corrigisse meus erros. No fim, tudo que fiz foi atrapalhar ainda mais a vida dela. Deveria ter imaginado. Uma mulher tão pobre, recebendo o que lhe deveria ser uma pequena fortuna, um dinheiro que ela jamais seria capaz de reunir em toda a sua vida a trabalhar como uma criada... Claro que não o gastaria com a devida sabedoria. Mas voltando ao assunto...
Prosseguiu contando como Arsène Lupin foi parar nas mãos de Moriarty. Através de uma suposta enfermeira de nome Josephine, que auxiliou no parto de Ettie, a quem Holmes soubera anos mais tarde se tratar de uma irmã de Moriarty, fora de seu radar investigativo por, a princípio, não ter nada que a desabonasse ou lhe colocasse como cúmplice de seu irmão criminoso.
-Ela disse a Arsène que a mãe dele morreu em seu parto, e contou a Ettie que seu filho Scott não havia resistido. E então, entregou o bebê a um tal de Théodore Lupin, a quem pouco sei a respeito, que estava sob as asas de Moriarty.
-Como sabe desses detalhes?
-Ettie me ajudou bastante a obtê-los. Mandei-a de volta para França, para investigar melhor o que aconteceu com nosso filho. E ela conseguiu com bastante proeza. Devo admitir que não esperava muito dela, mas acabei por me surpreender...
-Mas onde será que ela está?
-Como disse, ela está com Arsène Lupin. Antes de partir, escreveu uma carta com um conteúdo não muito agradável de se ler, mas que deixou claro que havia finalmente encontrado com Arsène. Ele pediu para que ela o acompanhasse de volta à França, e ela aceitou. Mas agora vejo claramente que ela aceitou essa proposta com outro propósito. Para acompanha-lo de perto. Para deixar esse bilhete bem escondido em meu violino, é sinal de que ele estava em meu apartamento, a esperar por ela enquanto fazia as malas... Mas apesar disso, ela conseguiu ser bem discreta e enganar aquela raposa francesa.
-É impressão minha, ou estaria você a nutrir um pouco de admiração por ela?
Holmes deu de ombros.
-Estou surpreso, devo reconhecer. Acho que a subestimei a vida toda, tudo por causa de sua baixa instrução e classe social. Veja, chegamos. Cá está ela. A Torre de Londres.
Quando prestes a desembarcar do cabriolé, Holmes sentiu-se impedido de sair. Era Watson. Seu leal amigo o segurou pelo braço, detendo-o de seu desembarque. Parecia ter algo a dizer.
-Holmes, essa arma carregada que traz consigo... Não irá usá-la para matar o seu próprio filho, correto?
-Watson... Desde que retirei esse revólver de minha gaveta, estou rezando a Deus para que não precise usá-lo esta noite. Mas a verdade é que não estou indo encontrar um filho há muito perdido, e sim, um inimigo treinado para me derrotar. Um deles morrerá dessa Torre, Watson. Torçamos para que seja Arsène Lupin, e não o meu filho Scott.
Fale com o autor